quando quiser N pode começar bem eu eu pertenço a linhagem dos alagoanos que emigram né embora eu tenha escrito romance ninho de cobras que é exatamente sobre aqueles alagoanos que não emigram que amam sua terra natal como as cobras amam os seus ninhos entre pedras de modo que eu cheguei aqui ao Rio de Janeiro aos 18 anos para fazer um curso de direito na faculdade nacional de direito da Universidade do Brasil né Eu me formei em Direito mas nunca advoguei embora seja filho de um dos advogados mais atuantes que já houve em Alagoas né Floriano
Ivo ainda hoje lembrado né inclusive porque era uma um Pernambucano né que escolheu Alagoas foi Teve uma grande família lá 11 filhos né casou-se com a lagoana descendente dos os cetés que comeram o Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha né de modo que eu tenho nas minhas vias um o sangue dos antropófagos alagoano né k sou sonhado pelo meu sonho sou contemplado pelo que contemplo o que escrevo me [Aplausos] escreve eh na na minha casa na casa em que eu nasci quer dizer não havia livros não havia livros de poesia não havia romance meu pai era
guarda-livros e depois advogado só havia livros jurídicos mas desde a infância que eu desejava ser um escritor ser um poeta não posso explicar esse desejo né mas talvez seja o o chamamento a vocação de modo que eu me lembro lembro que menino eu entrei até numa Irmandade religiosa Porque nessa Irmandade havia uma biblioteca de modo que eu lia tudo quando menino até bula de remédio era uma verdadeira obsessão pela palavra escrita né de modo que eu comecei a escrever muito cedo né E ao mesmo tempo eu tinha uma curiosidade intelectual muito grande eu lia as
histórias infantis depois eu li a coleção Terra mariar aquelas histórias de piratas de navios né de tesouros escondidos de pescadores no Oriente né de modo que aquilo me marcou muito né porque como eu nasci numa cidade portuária Litorânea nasci numa cidade Oceânica Maceó e ao mesmo tempo numa cidade lagunar né que tem uma península que tem duas Lagoas e a água e a terra misturadas assim sempre me marcaram e o porto era para mim quase um signo de evasão quer dizer me deu o sentimento de que a minha vida haveria de transcorrer longe da minha
terra natal embora né dada a minha condição de poeta eu estivesse vamos dizer aparelhado para levar a minha cidade natal comigo em forma de lembrança em forma de linguagem né [Música] [Aplausos] [Aplausos] há um conselho dado por Leon tosty que é o seguinte se queres ser Universal fala da tua Aldeia eu acho que não há nada de regionalismo em Ledo io embora ele fale o tempo todo da Aldeia dele mas ele não fala como um provinciano quer dizer Alagoas ficou como uma recordação dolorida mas não vejo muito regionalismo vejo vejo é assim acima de tudo
esse memorialismo por exemplo nesses outros grandes autores do Nordeste sobretudo Raquel de Queroz eh zelin do Rego Graciliano né você encontra muito muito regionalismo encontra um regionalismo sadio regionalismo que sempre transcende um pouco aquela coisa provincial mas o poeta ledu io talvez por causa eh dessa vinda prematura pro Rio de Janeiro eh quer dizer ele guardou a Lagoas dentro de si mas a poesia dele não se fecha sobre a lagoa sobretudo a primeira poesia que ele escreveu que é uma poesia de eh de abertura Universal Inclusive era justamente uma preocupação da geração de 45 quer
dizer por aí você consegue vincular né a a l do Ivo a essa geração porque uma das propostas dos Poetas daquela época era inverter o sinal Modernista porque o modernismo se preocupou muito com a nacionalidade havia toda uma proposição nacionalista e do modernismo de 22 vamos esquecer o mundo e vamos conhecer mais o Brasil a geração de 45 não ela se preocupou com uma realidade com um tratamento que seria muito mais o do o do Universal quer dizer fugir aquela limitação do nacionalismo por isso você vê Ledo Ivo escrevendo muito sobre o o mundo pelo
qual ele viajou e mesmo no comportamento do poeta não há esse provincialismo de quem veio de Maceió ele soube dosar essas coisas muito bem que me deixem passar eis o que peço diante da porta e diante do caminho e que ninguém me siga na passagem não tenho companheiros de viagem nem quero que ninguém fique ao meu lado para passar exijo estar sozinho somente de mim mesmo acompanhado mas caso me proíbam de passar por ser eu diferente Ou indesejado mesmo assim eu passarei inventare a porta e o caminho e passarei sozinho embora a infância e acidade
de Ledo io tenha decorrido em Alagoas eu creio que nós podemos defini-lo como uma lagoana rezada porque os anos poucos mas significativos em que ele morou no Recife 1940 e 1941 foram anos de muita efervescência literária que ocorreram numa idade em que a pessoa está mais aberta às influências basta lembrar que no Recife dos anos 40 residiam escritores intelectuais de duas gerações a geração de 30 Isto é Gilberto Freire Olívio Montenegro Silvio rabeiro anb Fernandes e a geração chamada de 45 e começou a despontar no início da Década 40 constituída por V levim Vicente do
Rego Monteiro e por uma constelação de jovens para os quais o ensaísta v Levin e o pintor e inventor como definiu João Cabral Vicente do reg Monteiro eram os gurus L há escritores que gostam de esconder as influências que receberam o que é uma tolice Porque como sou o grande teórico da literatura Russo bkin eh ninguém começa eh do nada ninguém tira criação literária e artística do nada o escritor é sempre um elo que está e a serviço dos que o precederam e que vai se projetar nos que o continuam né ledu livo Teve sempre
essa inteligência e essa honestidade de reconhecer as influências que recebeu desse grupo do Recife desse ambiente da cidade que vivia Como disse numa efervescência literária em comum e também dos escritores que ele começou a ler na biblioteca de Vil levim né de malah de rambau de verlene de Valeri dos Ingleses Virgínia wulf tsot dos Americanos como el pound o fundador um dos adores do imagismo ele reconhece toda essa influência que recebeu numa idade adolescência em que ele estava descobrindo estava encantado com a Literatura e ele ligou-se sempre para sempre ao Recife Embora tenha vivido lá
cerca de um ano só um ano e meio ele ligou-se o Recife deverá sempre a ler do io um dos mais belos poemas suscitados inspirados pela cidade um poema que eu posso comparar aos grandes e belos poemas do chamado ciclo das cidades brasileiras né eu escrevi esse poema quando eu tinha 16 anos lá no bar noci numa brincadeira esse poema andou sumido Mas tinha várias Cópias em 1947 o Mauro uma ning né e e e então trouxe para mim publicou no jornal do Recife etc entende de modo que então e e tinha um restaurante lá
no Recife restaurante leite que no cardápio tinha esse poema numa das páginas entende de modo que esse poema então começou a ficar famoso etc né e os inimigos do João Cabral de Melon Neto usavam esse poema para dizer que eu cantei Recife melhor do que o João Cabral ainda ainda hou esse essa intriga entende que eu era o poeta do Recife L do Ivo poeta do Recife Mas por que o Senhor nunca publicou esse Poa não eu não publiquei exatamente por causa disso né porque como a minha obra é muito Alagoana e o poema tem
essa conotação assim eu eu não publiquei nem vou publicar nunca né mesmo nas minhas poesias completas agora eu não publico poema amar mulheres várias aar cidad só uma Recife e assim mesmo com as suas pontes e os seus rios que cantam e seus Jardins leves como sonâmbulos e suas esquinas que desdobram os sonhos de naal amar senhoras muitas cidade só uma e assim mesmo com o vento amplo do Atlântico e o sol do Nordeste entre as mãos Felizes os jovens recebem seus corações antes do amor e depois da infância a palavra a cidade Recife Felizes
os poetas que podem lembrar eternamente das pontes que separavam ia à noite no Capibaribe e as águas do bibiri se davam ó Madalena o meu primeiro verso Corola diante do mar bares da arte poética Bondes navios aviões cidade meus pés transportam as tuas pontes para margens versáteis igrejas nos postais Namorados nos portais Recife de meu pai Recife que me deu a poesia sem que eu pedisse n cidade onde se descobre ramb aesia de antigamente em meus olhos abertos mulheres inúmeras cidade só uma e a si mesmo diante do [Música] mar Vamos guardar esse caminho PR
amanhã n Eu presumo que desde o início da minha vida literária e poética eu tive o sentimento de que eu era um transgressor de que eu era vamos dizer um aluno relapso diferente dos dos alunos estudiosos é uma coisa muito curiosa quando eu era menino era primeiro dar aula no colégio religioso né e invejava o último da aula porque último da aula né fumava né vangloriava de ter certas experiências sexuais às vezes até heterodoxas né de modo que el para mim ele era um símbolo da transgressão o símbolo da ruptura né enquanto eu era um
menino estudioso que sabia latim que estudava Frances etc de modo que isso me acompanhou a vida inteira mas Eu presumo que eu hoje estou ao lado da transgressão eu pertenço a uma geração a geração de 45 né embora né porque é uma fatalidade no escritor que o escritor não não nasce sozinho ele nasce sempre ligado a um determinado cenário literário ligado a uma geração ligado ao movimento poético né mas nessa geração eu fui eu era expulso várias vezes né achavam que eu era nela uma espécie de Estranho no Ninho e esse sentido de diferença e
de solidão né e de e de transgressão né me acompanha até hoje né Eu acho que começamos geração terminamos solidão no meu caso Pessoal talvez eu tenha começado solidão e terminado solidão na beira de tudo acima da zona onde a linguagem isenta da visão dos objetos só se lembra a si mesma escondo puxando as cortinas dos símbolos para fitar um mundo sem intérpretes eu conheci João 1940 quando eu cheguei ao Recife para terminar o meu o meu curso ginasial né agora João Cabral era muito diferente de mim era quase o oposto num certo sentido e
Eu presumo que foi exatamente o fato de haver essa essa oposição essa diferença né que nós pudemos podemos ser amigos né até a vida inteira até os seus dias finais nós passamos a vida inteira discutindo sobre problema da poesia sobre problemas políticos religiosos etc né e de modo que os nossos pontos de vistas jamais coincidiam a visão que eu tinha da poesia era inteiramente diferente da visão que ele tinha da poesia né de modo que é exatamente porque eramos diferentes que podemos né conviver durante mais de meio século Houve um momento na literatura brasileira em
que os dois correram paralelamente fazendo uma poesia totalmente distinta uma da outra e no entanto são dois poetas que começam na mesma época né Eh sofrendo a influência daquele ambiente literário característico daquela época e que seguem caminhos totalmente diferentes o João Cabral é aquela contração verbal e exasperante né enquanto que o Ledo Ivo é muito mais um poeta do excesso Inclusive eu costumo dizer que se você não tentar compreender o Ledo Ivo um pouco do ponto de vista do excesso da prestidigitação retórica da magia encantatório do do do verbo você vai deixar de entender um
segmentos consideráveis da obra dele Cabral fez uma poesia antilírica eh João Cabral eh confessadamente detestava a música e a sua poesia é às vezes muito bonita mas ela é prejudicada por esse pessimismo dele e gile do i é um poeta saudável um poeta que sempre procurou cantar a a beleza da vida a diria João Cabral um apolínio para falar em termos nanos João Cabral foi um apolínio e l do livro é um [Música] dioniso mas o o que eu acho o seguinte é que você não sabe explicar como é que se gera no seu inconsciente
um determinado poema como vem as imagens não é como essa essa operação em que a experiência pessoal né do inconsciente né através da linguagem né se transforma num poema se transforma numa criação literária cada presumo que cada um escritor tem o seu método de criação ou tem a sua maneira de escrever e outra coisa curiosa é que embora alguns críticos louvem talvez exageradamente o meu a atenção que eu dou a a clareza né E até a elegância do texto todo toda a minha prosa e toda a minha poesia já vem pronta entende quando eu escrevo
a máquina ela já tá vem pronta eu faço um Retoque mínimo e às vezes não faço nenhum retoque o poema se elabora no inconsciente um soneto com todas as suas as imas com todas né a a a sua seus versos etc praticamente né já me dão já já vem de graça para mim desabo em ti como um bando de pássaros e tudo é amor é Maia é cabala teu corpo é belo como a luz da terra na divisão perfeita do equinócio soma do céu gasto entre dois hangares és a altura de tudo e serpias no
fabuloso o chão espalo muda-se a noite em dia porque existes feminina e Total entre os meus braços Como Dois Mundos gêmeos num só [Música] Astro Eu costumo dizer que para um bom escritor para um bom poeta ter mais de um leitor n é um exagero de modo que a situação do poeta mudou muito nos últimos anos né o poeta hoje não é mais um dos protagonistas essenciais da sociedade o seu lugar passou a ser quase clandestino na sociedade mas eu acho que a poesia está cumprindo seu papel inclusive porque ela reflete esse mundo novo esse
mundo em transformação né que é o mundo da globalização planetária cabe ao poeta até num certo sentido né exprimir em sua poesia essa mudança essa crise essa ruptura né um poeta não é apenas a a a a sua poesia mas também é acumulação de uma grande experiência poética e no meu caso da da grande tradição poética ocidental né eu me sinto muito ligado uma tradição literária né uma tradição que me ensinou não tanto o caminho da da manutenção de certos valores certos padres como também o caminho da da ruptura Porque sem a ruptura sem a
experimentação né sem a renovação técnica poisia ficaria estagnada né embora O importante não é não seja a técnica em si mas a possibilidade que tem o poeta de utilizar-se da técnica e da experimentação para fazer uma poesia que seja diferente da poesia dos seus antecessores e esse é o grande problema do poeta da permanência do poeta para que você seja um poeta razoável né é preciso você tenha uma adicção diferente que você diga as mesmas coisas que T sido ditas pelos poetas desde o começo do mundo mas de uma maneira diferente entende e é nisso
que consiste vamos dizer o A originalidade do poeta oo do poeta né distinguir-se né da multidão dos Poetas ser ele mesmo né ser uma voz discernível na escuridão [Música] [Aplausos] [Música] ah que minha vida não é apenas uma história de de livros né também uma uma história de incontáveis amizades né incontáveis convivências num tempo em que o Brasil realmente né tinham grandes escritores reconhecido como grandes escritores né a nova a segunda geração do modernismo né de modo que é com muita saudade né que eu evoco esse tempo né de modo que e também foi o
tempo de alguns companheiros de geração meu como casa do João Cabral de Melon Neto né de modo que hoje aos 80 anos eu me sinto muito solitário muito sozinho né né de modo que quase todos né os meus amigos etc se foram né eu fiz novas amizades inclusive na academia n mas as grandes amizades que perduram são aquelas que você faz no início da sua vida [Música] literária as minhas esquivanças vão no vento alto do céu para um lugar Sombrio onde me punge o descontentamento que no mar não deságua nem no rio as mudanças me
fio sempre atento ao que muda e perece e ardente frio e novamente ardente é no momento em que Luz o desejo podra em [Música] meu corpo nada quer mas minha alma em fogos de amplidão deseja tudo o que ultrapassa o humano [Música] entendimento embora nada atinja não se acalma e sendo alma transpõe meu corpo mundo e aos céus pede o inefável e não invent Ledo io não é apenas poeta ledu é um grande ficcionista que escreveu e uma obra que eu considero uma verdadeira obra prima que é ninho de cobras é romance ninho de cobras
escreveu muito conto e ledu é um ensaísta notável e Ledo é É também um extraordinário memorialista é um homem que não esquece nada então quando você vai fazer a leitura da poesia dele e todos esses outros Ledo ivos estão presentes você sente o ensaísta você sente o romancista e você sente o [Música] memorialista como quase tudo né em minha vida o romance ninho de cobra me remete a minha infância né quando eu era menino morava no sítio né no perto do cavalo morto que hoje não existe né e uma vez uma raposa parece invadiu o
sítio e foi sacrificada n eu havia pousa morta né e f fiquei muito impressionado né alguns anos depois não sei se foi minha mãe que contou eu mesmo soube ou foi algum sonho que uma raposa tinha chegado até o centro de Maceió e que tinha sido sacrificada por policiais etc de modo que esse tema essa visão da raposa na manhã riante sendo sacrificada né ficou em mim e eu e isto foi o núcleo né a base vamos a a a linha obsessiva do romance ninho de cobr que é um romance que foi escrito numa época
durante a ditadura militar numa época de perseguição de de injustiça o romance é realmente uma história de Alagoas a história né da cidade natal teve reações diversas porque uns achavam que eu tava insultando a minha terra natal né outros achavam que eu tinha sido muito injusto quer dizer as opiniões se se dividiram né mas o romance eu vejo o romance como em primeiro lugar como uma história né em segundo lugar como uma obra da linguagem né em segundo lugar também como uma obra muito ligada à minha poesia porque é é uma é uma obra poética
né um romance poemático num certo sentido um e eu admito que seja um romance diferente dos outros mas eu acho que também que é um romance muito que tem uma história né Tem aliás várias subh istórias e a um romance muito habitado por coisas por por personagem por pessoas vivas né e o o o coni aliás diz que é um romance diferente porque é o único romance Nordestino que que ele conhece que tem uma dimensão de beleza né que geralmente o romance nordestino não tem agora para mim é muito difícil falar deste [Música] romance que
a partir do da publicação do livro ninho de cobras na década de 70 não se fala mais em LED doí o silêncio foi a arma utilizada por parte da intelectualidade Alagoana e de uma elite que se sentiu incomodada quando imaginou que ledu io ao fazer a metáfora da raposa ele estava falando do etos da sociedade Alagoana um etos violento né um etos onde impera o poder o domínio e essa essa alusão essa imagem um tanto depreciativa que ledu io depois posteriormente Ele nega ele diz que não não está se referindo a Alagoas o próprio título
do livro ninho de cobras já que o romance se passa em Maceó Então os alagoanos interpretaram ao pé da letra e disseram que ninho de cobras eh seria uma referência negativa a a Maceó a sociedade Alagoana seria a sociedade Alagoana então uninho de cobras ficaram então todos ofendidos né todos [Música] magoados depois deinho de cobras é que os alagoanos então começaram a a a a ter a dar atenção a mim né uns aplaudindo e outros censurando porque eu ti tinha escrito aquele român ninho de cobras que pessoas que não leram que não leram né se
basearam só no título como se eu tivesse dito que a que Maceó era um ninho de cobras né quando realmente a história o romance é até uma história de amor num certo sentido o meu amor por Alagoas pela paisagem Nativa pelas figuras da minha infância né E até o Guabiraba que vocês não sabem Quem foi figura no meu romance várias figuras da vida real né de modo que como eu sempre digo eu digo ninho de cobras é história dos alagoanos que não emigraram aqueles alagoanos que amam Alagoas é como se Alagoas fosse um ninho de
cobras aqueles alagoanos que para para os quais Alagoas é uma Perpétua festa de modo inclusive que nos últimos 10 ou 15 anos nos últimos é 20 anos desde que eu entrei para a academia né eu tenho ido muito Alagoas quase quase anualmente né e noto esse ar festivo que tem Alagoas quer dizer Alagoas é um é um estado como sou estado brasileiro dos dos excluídos e dos incluídos né de modo que as pessoas ricas as pessoas né Eh bem bem dotadas financeiramente a Lagoas né tem uma vida principesca quase né de modo que dá da
minha condição de Acadêmico de escritor etc né quando eu chego né Eu frequento muito Essa sociedade de badalação de Alagoas E essas e para Essa sociedade Alagoas continua sendo uma grande festa né uma festa paga pelos Miseráveis pelos excluídos né pelos desdentados né que ainda usam trem da Greto éra etc né porque a Lagoas é muito típica como um um retrato do Brasil né o retrato do Brasil de um lado a a exus a doença a falta de hospitais falta de educação de outro lado uma espécie de fatia bem-aventurada Eu costumo às vezes dizer que
aami dos mendigos eu gosto dessa causticidade que a meu ver não está presente apenas em linha de cobra está presente na poesia dele sobretudo quando ele quando ele descreve em seus poemas daqueles aspectos mais abjetos mais decadentes né da existência humana então o ledu io ali é de uma impiedade absoluta quando o poema que se chama os pobres da estação rodoviária é de uma é de um sarcasmo de um de um escarnio que eu nunca vi em poeta brasileiro nenhum é o está em ninho de cobras mas está também em toda a poesia dele e
está nele Ledo é assim entendeu eu conheço Melhor agora e e sei que é assim [Música] po [Música] [Aplausos] [Música] legal na tarde de domingo volta ao cemitério velho de maó onde dos meus mortos jamais terminam de morrer de suas mortes tuberculosas e cancerosas que atravessam a maresia e as constelações com as suas tosses e gemidos e imprecações e escarros escuros e em silêncio os intimos a voltar a esta vida em que desde a infância eles viviam lentamente com amargura dos dias longos colado as suas existências monótonas e o medo de morrer dos que assistem
ao cair da tarde quando após a chuva as tanajuras se espalham no chão Maternal de Alagoas e não podem mais voar digo aos meus mortos levantai-vos voltai a este dia inacabado que precisa de vós de vossa tosse persistente e de vossos gestos enfadados e de vossos Passos nas ruas tortas de Maceió retornai aos sonhos insípidos e as janelas abertas sobre os moros na tarde de domingo entre os maus que parem suspensos pelo vento no ar azul o silcio dos Mortos me diz que eles não voltarão não adianta chamá-los no lugar em que estão não há
retorno apenas nomes em lápides apenas nomes e o barulho do mar [Música] acho que há um Eterno Retorno do poeta ele nunca regressou Ele Nunca Voltou a Maceó usando a sua imagem Porque ele nunca foi embora de fato eh o o o selo da sua origem é muito presente em ledu io e isso você observa em versos em prosa em poemas e até em títulos de de livros seus Como é o exemplo de Curral de peixe nos faróis e no no sinal semafórico tudo é uma alusão à Alagoas que está presente no Poeta né isso
até me lembra um verso me ocorreu agora um verso do Ferreira gur que ele diz assim a cidade está para o homem assim como o pássaro está para a árvore que a Deixa essa a impressão que eu tenho desse retorno de de ledu maó né uma coisa assim muito constante ele não volto porque não foi embora ele tá aqui sempre ainda que ele seja cidadão do mundo ainda que ele mor em Paris mor em Rio de Janeiro Mor no Recife vai junto com ele a sua terra [Música] natal [Música] [Música] [Música] [Música] p [Música] [Música]
[Música] k [Música] [Música] minha Pátria Minha Pátria não é a língua portuguesa nenhuma língua é a pátria minha Pátria é a terra mole e pega onde nasci e o vento que sopra é marcó são os caranguejos que correm na lama dos manges e oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho minha Pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar e o céu encurvado pelas constelações minha Pátria são os apitos dos navios e o farol no Alto da Colina minha Pátria é
a mão do mendigo na manhã radiosa são os estaleiros apodrecidos e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e empalados não param de tcir e tremer nas noites Frias e o cheiro de açúcar nos armazéns Portuários e as Tainhas que se debatem nas redes dos pescadores e as réstias de cebola en rodilhas na treva e a chuva que cai sobre os corris de peixe a língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha Pátria nenhuma língua enganosa é a pátria ela serve apenas para eu celebre a minha grande pobre Pátria muda
minha Pátria desint Érica e desdentada sem gramática e sem dicionário minha Pátria sem língua e sem palavras certeza não né então é se eu tivesse ficado em Alagoas não estaria sendo filmado agora né É É a conclusão a que eu chego né né É mas cada destino é um destino né quer dizer eu só poderia viver só poderia me realizar longe de Alagoas inclusive por causa de uma coisa chamada distanciamento né Eu precisava do distanciamento exatamente para ver a minha terra natal para celebrar a minha terra natal né de uma maneira da maneira como eu
a celebro né era preciso que Alagoas se transformasse em memória né para poder em linguagem né para poder se constituir né naquilo que as outras pessoas chamam de a minha [Música] obra O Vento do Mar ri as casas e os homens do Nascimento à morte os que moram aqui andam sempre cobertos por leve mortalha de mormaço e sal suja os dentes do mar mordem dia e noite os que não procuram esconder-se no ventre dos navios e se deixam Sugar por um sol de areia penetrada nas pedras a marizia cresta o pelo dos Ratos perdulários que
nos esgotos ouvem o vômito escuro do do Oceano esvaído em bolsões de Mangue e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros foi aqui que nasci onde a luz do farol cega a noite dos homens e desbota as corujas a ventania lambia as dragas podres entra pelas persianas das casas sufocadas e escalava as Dunas mortuárias onde os beiços dos Mortos bebem o mar mesmo os que se amam nesta terra de ódios São sempre separados pela brisa que semeia a insônia nas lacraias e adultera a fretagem dos navios Este é o meu lugar entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre e por mais que me afaste estarei sempre aqui e serei este vento e a luz do farol e minha morte vive na cioba encurralada Cinha passear cachor passear V passear babinha passear vamos passear para após uma grande caminhada Como é o meu caso né a gente tem a sensação de que não existe ou não existiu de que nós somos uma invenção dos outros especialmente dos liter Porque como cada crítico literário tem uma visão da poesia e uma visão peculiar de cada um de nós nós os criadores literários
os poetas os critores de imaginação né nos sentimos divididos e nos sentimos repartidos entre as mais inumeráveis versões de modo que eu costumo dizer que eu sou uma invenção dos outros né Cada pessoa tem uma certa visão de mim uns acham uns me ligam à felicidade por exemplo a alegria de viver né outros me ligam a a a a morte a a a corrosão né a erosão né outros salientam que eu tenho uma obsessão pela eternidade outros dizem que o que marca a min poesia é o sentimento da fugacidade da brevidade da vida né de
modo que eu fico vamos dizer encurralado entre tantas versões numerosas mas uma obra literária válida para mim é precisamente aquela né que abriga as mais diversas versões quer dizer tem que ser uma obra plur significativa né uma obra que aponte em várias Eu presumo que esse seja o sentido né da minha criação poética que é uma criação é fundada na ambiguidade da linguagem na ambiguidade do mundo né Eu costumo dizer que eu como poeta não estou à procura da verdade eu estou à procura da mentira À Procura da mitologia né a procura da imaginação porque
eu acho que para um poeta única verdade válida a única verdade que permanece é a verdade de sua imaginação a sua maneira de ver o mundo a sua maneira intransferível de ver a vida de [Música] interpretá-la conheci Leda em 1944 quando eu era estudante de direito e tinha acabado de publicar o meu primeiro livro As imaginações conhecia no começo de noite na num bonde na Cinelândia né E desde o primeiro momento eu confesso que me apaixonei perdidamente por ela de modo que nós nos casamos do anos depois quando eu apresentei a Manel Bandeira Manuel Bandeira
perguntou já que era Ledo e Leda se era amor mesmo Ou se era apenas um trocadilho mas foi amor mesmo né casamo-nos tivemos três filhos né Patrícia Maria da Graça e Gonçalo né e estamos junto junt juntos né Há 58 anos né de modo que ela teve uma influência considerável na minha vida né como uma mulher forte da Bíblia de modo que Eu presumo que não teria sido nada não teria sido o pouco que eu sou se eu não tivesse ao meu lado dia e noite minha a história da minha vida não é apenas uma
história literária é também uma história de [Música] amor [Música] k [Música] [Música] p [Música] p