Na Europa do século 19, um homem corajoso terminou seus dias num manicômio após insistir na necessidade de os médicos lavarem as mãos, o que estava bem longe de ser prática na época. Eu sou Malu Cursino da BBC News Brasil aqui em Londres e neste vídeo conta a história trágica de Ignaz Semmelweis, médico e cientista húngaro que foi um dos primeiros a fazerem a ligação entre a falta de higiene e a mortalidade nos hospitais. Mas antes de falar nele, vou contar como era o cenário nos hospitais daquela época.
Um spoiler: a coisa não era nada boa. Em 1825, aqui em Londres, parentes de um paciente que estava se recuperando de uma fratura no hospital Saint George viram familiar deitado em lençóis molhados e sujos, cheios de fungos e vermes. Imagina isso!
Tudo cheirava a urina, vômito e outros fluidos corporais, e o mais chocante: os médicos também viviam sujos, raramente lavavam as mãos ou os instrumentos de trabalho. As salas de cirurgia também eram imundas, bem diferente do que vemos hoje. Segundo o relato dos parentes do paciente de Londres, no meio da sala havia uma mesa de madeira manchada com o traço dos corpos que tinham passado por lá, e o chão estava coberto de serragem para absorver o sangue que escorria.
Chegava ao ponto de existir o cargo de caçador de insetos, que era o responsável por livrar os colchões dos piores. Era mais seguro se tratado em casa do que um hospital, onde as taxas de mortalidade eram de três a cinco vezes maiores. Como resultado desse quadro horrível, hospitais eram conhecidos como "casas da morte", mas também é verdade que naquela época as pessoas não fazem idéia dos males dos germes e bactérias.
Barron H. Lerner, da faculdade de medicina Langone, da Universidade de Nova York, conta qual é o pensamento naqueles tempos. Em meados do século 19, diz ele, acreditava-se que as doenças se espalhavam por meio das nuvens de um vapor venenoso no qual partículas de matéria em decomposição, chamadas "miasmas", eram jogadas no ar.
E é nesse cenário que entra o inovador médico Ignaz Semmelweis. Ele tentou aplicar nos hospitais de Viena da década de 1840, métodos científicos para impedir que as infecções fossem espalhadas. Sua idéia foi implementar um sistema de lavagem das mãos para reduzir as mortes das mulheres nas maternidades.
Semmelweis acabou sendo demonizado por seus colegas, que não acreditavam nada disso. Ele acabou conhecido como o "salvador das mães", mas a verdade é que enfrentou um longo calvário por causa das suas idéias. O médico trabalhava no hospital geral de Viena e lá, como nos outros hospitais, as grávidas estavam entre as pessoas que sofriam mais risco, principalmente as que tiveram partos difíceis já que as feridas eram habitat ideal para as bactérias que médicos e cirurgiões carregavam de um lado para o outro.
Semmelweis notou uma discrepância grande na mortalidade de mulheres de duas salas obstétricas, que tinham instalações e recursos idênticos, a única diferença entre elas é que uma estava sob controle de parteiras e a outra ,com mortalidade três vezes maior, de estudantes de medicina. Até então, essa discrepância era atribuída a uma suposta atitude mais severa dos estudantes, que comprometeria a vitalidade das mães. Veja só.
Em 1847, uma pista apareceu: naquela época, muitos médicos morriam após se cortarem durante a autópsias. Ao analisar o exame de um colega que morreu pelo mesmo motivo, Semmelweis observou que os sintomas eram muito parecidos com os das mulheres com febre puerpera. Ele ligou uma coisa à outra, notou que muito jovens saíram diretamente de uma autópsia para cuidar de mulheres grávidas.
Como luvas outras formas de proteção não eram usadas, não era incomum ver estudante de medicina com, acredite, pedaço de carne, tripas ou cérebros humanos presos às roupas após as aulas. Foi assim que Semmelweis notou a grande diferença entre a sala dos médicos ea sala das parteiras — eles realizavam autópsia, elas não. Mas como solucionar esse problema?
A sujeira nos hospitais parecia algo impossível de superar. O famoso obstetra James Simpson argumentou à época que se a contaminação não pudesse ser controlada, os hospitais deveriam ser destruídos e reconstruídas periodicamente. O cirurgião John Eric Ericson escreveu "uma vez que o hospital se torna incuravelmente afetado pela piemia, que é uma infecção purulenta, é impossível desinfetá-lo por quaisquer meios higiênicos conhecidos, como também é impossível desinfetar um queijo velho dos vermes que foram gerados nele.
Ou seja, os dois achavam que a solução, drástica, era demolir o hospital mas Semmelweis acreditava em medidas mais simples. Depois de concluir que a febre puerperal do colega morto foi causada pelo material infeccioso de um cadáver, ele instalou uma bacia cheia de solução de cal e cloro no hospital e começou a salvar a vida das mulheres com três palavras simples: lavem as mãos. A partir daí, aqueles que iam da sala de autópsia para a de parto, tiveram que usar a solução antisséptica As taxas de mortalidade nas salas de medicina despencaram, mas se você acha que essa história termina aqui, com esses números felizes.
. . O experimento de Semmelweis teve resultados muito convincentes, e certamente salvou a vida de muitas mães, mas ele não conseguiu convencer todos os colegas.
Aqueles contrários aos métodos limpavam as mãos de maneira inadequada, atrapalhando o resultado. Barron H. Lerner, lembra, o médico de Nova York, então ele explica: você deve ter em mente que o que ele estava dizendo, embora não com essas palavras, era que estudantes de medicina estavam matando mulheres, e isso era muito difícil de aceitar.
Para piorar, Semmelweis recebeu várias resenhas negativas de um livro que publicou sobre o assunto. Como resposta, ele chegou a chamar médicos que não lavavam as mãos de assassinos. Seu futuro não foi dos melhores: o contrato de trabalho do hospital de Viena não foi renovado e ele acabou voltando à Hungria, sua terra natal, onde assumiu um cargo de médico honorário, cadeira de pouco prestígio e não remunerada na enfermaria obstétrica de um pequeno hospital de Budapeste.
Tanto lá como na maternidade da Universidade de Budapeste, onde mais tarde ele deu aulas, ele praticamente eliminou a febre puerperal com os seus métodos. A partir de 1861, Semmelweis começou a sofrer de uma depressão severa e a demonstrar um comportamento instável, e sempre voltava ao assunto da febre puerperal. Um dia, um colega o levou para um asilo de pessoas com doenças mentais em Viena, sob o pretexto de que eles iam visitar um novo instituto médico.
Quando Semmelweis percebeu o que estava acontecendo, ele tentou sair. Ele acabou espancado brutalmente por guardas que botaram ele uma camisa de força, e o colocaram em uma cela escura. Duas semanas depois, ele morreu por causa de um ferimento na sua mão direita, que gangrenou.
Ele só tinha 47 anos. Infelizmente, ele não teve papel nas descobertas sobre germes que seriam realizadas por pioneiros que transformaram a medicina. Uma das últimas coisas que Semmelweis escreveu é perturbadora: "Quando revejo passado, só posso dissipar a tristeza que me invade imaginando o futuro em que a infecção será banida.
A convicção de que este momento deve chegar inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, alegrará o momento da minha morte". Que a história, não? Se você quer ver mais vídeos como esse, deixa o seu like e o seu comentário aqui embaixo.
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