O Medievo, também conhecido como Idade Média ou Feudalismo, é um período tradicionalmente compreendido entre os séculos V e XV. Ele foi o resultado da desagregação econômica, política e social do Império Romano do Ocidente. Onde antes existiu o grande Império de Roma, desenvolveu-se uma sociedade majoritariamente agrícola e de subsistência.
As cidades, outrora pujantes, alimentadas pelo intenso comércio, continuaram existindo, bem como as trocas comerciais, mas ambas perderam a relevância que tinham na época de Roma. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o Medievo não foi um período estático, sem sobressaltos, revoltas ou mudanças. Os dez séculos de existência do mundo feudal foram marcados por tensões, mudanças e dinamismo.
Uma prova disso foram as chamadas revoltas camponesas. Os camponeses estavam submetidos a um pesado regime de trabalho servil no feudalismo. Em geral, eles não eram os proprietários das terras que cultivavam.
As terras, na maior parte das vezes, pertenciam a um nobre, o senhor feudal. A maior parte da renda obtida pelos camponeses ao trabalhar a terra era retida pelo senhor feudal na forma de impostos chamados de obrigações. Com isso, os camponeses tendiam a viver em uma situação de constante pobreza.
Em épocas de guerras e pestes, a condição de sobrevivência dos camponeses se deteriorava sensivelmente. E foi exatamente isso o que aconteceu no século XIV. A partir de 1337, França e Inglaterra entraram em guerra pela disputa sobre o trono francês.
Esse conflito só terminaria em 1453, e ficou conhecido como a Guerra dos Cem Anos. Durante a guerra, a cobrança de impostos se intensificou. Os tributos cobrados dos camponeses financiavam os armamentos e as tropas que se mobilizavam para os conflitos.
Em 1348, a Europa foi assolada por uma epidemia de peste que agravou ainda mais as precárias condições de sobrevivência do campesinato. Devido à grande proporção dos conflitos da Guerra dos Cem Anos, a França começou a armar os camponeses para utilizá-los como soldados. Armados, eles poderiam se rebelar a qualquer momento.
A soma desses fatores resultou numa das maiores revoltas camponesas da história medieval. Ela ocorreu entre os meses de maio e junho de 1358, na região de Beauvais, na França, e ficou conhecida como jacquerie. A expressão jacquerie deriva da palavra francesa jacque, denominação de um casaco utilizado pelos camponeses e que era motivo de escárnio por parte da nobreza.
No feudalismo, a hierarquia social era muito importante e se expressava não apenas através de brasões, mas também nos códigos de vestimenta. Segundo o cronista medieval Jean Froissart (1337-1410), a jacquerie foi liderada por um homem chamado Guillaume Cale. Ao longo da revolta, os camponeses começaram a se referir a Guillaume como “Jacques Bonhomme”, uma referência ao casaco camponês e à expressão bonhomme, que significa companheiro em francês e era utilizada pejorativamente pela nobreza para se referir aos trabalhadores rurais.
Mas, quem participou da rebelião? Segundo o historiador Claude Gauvard “. .
. trabalhadores ou gente de profissão, (. .
. ) pressionados pela fiscalidade real, pilhados e sequestrados pelas guerras incessantes que opõem os franceses aos ingleses desde o início do conflito da Guerra dos Cem Anos (. .
. ). ” Na voz dos cronistas da época, os revoltosos foram descritos como violentos criminosos.
Contudo, os cronistas eram “penas pagas” da aristocracia. Dependentes da nobreza, moldavam a verdade para agradar aos nobres que os sustentavam. A revolta foi fortemente reprimida.
Em 09 de junho de 1358, segundo relatos da época, os cadáveres dos Jacques, jogados de uma ponte, teriam avermelhado as águas do rio Marne. No dia seguinte ao rio de sangue, os Jacques foram derrotados na batalha de Mello, cidade natal de Guillaume Cale. Ele foi convidado a negociar com a nobreza os termos de rendição.
Mas a aristocracia não pretendia chegar a um acordo. Desrespeitando a ética da guerra da época, que garantia a vida dos oponentes durante as negociações, Guillaume foi acorrentado e decapitado como um traidor. Era o final da jacquerie.
Ainda nas palavras de Claude Gauvard. , “O episódio revela uma clivagem mais profunda que uma simples derrota militar. Ele alimenta-se de um real desprezo que os nobres, os clérigos e mesmo os burgueses sentem em relação a Jacques Bonhomme, cuja feiura só seria igualada à sua brutalidade.
Ei-lo, mais que horroroso: como poderia ser então honorável? Como aceitar e reconhecer que os camponeses também têm um código de honra e que zelam por sua reputação? Durante muito tempo a imagem de Jacques Bonhomme foi aviltada, dado que ele ousou se insurgir.
Apesar disso, a honra é, para ele também, um valor vivo no âmago das relações sociais”.