da promessa de ganhos fáceis, a compulsão, como as betes se tornaram um fenômeno que tá impactando milhões de vidas e a economia do Brasil. Olá, pessoal, tudo bem? Sejam todos bem-vindos a mais um episódio do Resenha. Eu sou a Sabrina, editora de Ciências Humanas e eu vou fazer a minha audiodescrição. Eu sou uma mulher negra da pele clara, cabelo cacheado na altura dos ombros. Hoje eu estou com uma blusa verde e o cabelo para trás preso numa tiara. Eu aposto que você já viu alguma propaganda na sua timeline, num podcast ou no seu programa favorito
sobre apostas online ou as chamadas bets. Fato é que elas estão em todos os lugares e esse é um mercado que movimenta bilhões de reais por ano. Isso mesmo, bilhões. E hoje para falar desse assunto que tá mexendo tanto com o comportamento das pessoas e com a economia do nosso país, a gente tá com o jornalista João Batista Júnior, que investigou a fundo esse tema para a reportagem O bonde do Tigrinho, que ele escreveu junto com Alessandra Medina para a revista Piauí. João, muito obrigada por estar aqui com a gente. Sabrina, eu que agradeço o
convite. É uma honra falar com tanta gente especial que são os estudantes. Meu nome é João Batista, eu sou repórter da revista Piauí e vou fazer uma audiood desescrição. Eu tenho a pele clara, sou um homem, uso óculos, neste momento tô usando uma camisa entre o vermelho e o salmão. A discussões e meus olhos são verdes. João, antes da gente falar um pouco mais sobre a sua pesquisa que levou a a esse tema das bets, você pode falar um pouquinho mais pra gente sobre a sua trajetória como jornalista? Sim, eu acho a minha profissão, eu
sou repórter da revista Piauí, eu acho minha profissão fascinante. Eu amo ser repórter. Se eu tivesse de fazer faculdade hoje de novo, mais uma vez eu faria o TI que na opção jornalismo. Eu nasci numa cidade chamada Extrema, que fica no sul de Minas Gerais. É uma cidade bastante pequena. Quando eu era criança, tinha uma única banca de jornal na cidade. Hoje não tem nenhuma. Caramba. E mas eu tinha um hábito de ler, de ler bastante na escola. Eh, a biblioteca da escola tinha todos os eu estudava em Bragança Paulista, que fica ao lado de
extrema. E na biblioteca da escola tinha Folha, tinha Estadão, tinha o Globo, Veja, Isto é, enfim, os jornais grandes e revistas grandes daquele momento. Cláudia. E eu quando chega na época do ensino médio em que a gente tem que decidir o que vai fazer da vida, eu não tinha precisão do que eu queria ser, mas eu sabia o que eu gostava de fazer e eu gostava de ler jornal, eu gostava de consumir notícia. Então foi um caminho natural. Eu me, eu prestei vestibular aqui em São Paulo e foi para onde eu me mudei aos 18
anos de idade para fazer faculdade e acho que acertei na decisão. Então jornalismo sempre foi uma sua opção. Você nunca tinha pensado em outra? Pensava em medicina e jornalismo, só que tem uma questão técnica que não me me impediria de fazer medicina e não posso ver sangue, sabina. Então eu tenho pequena dificuldade. Exatamente. Então, dado esse problema que eu de chip que eu vim, né, do meu corpo veio com essa questão, eu optei pelo jornalismo. Ai, maravilha. E João, como que você chegou nesse tema das apostas online? Eh, como você se interessou por esse assunto
ou o que te levou a investigar esse assunto? Você sabe que repórter tem de estar na rua. tem que gastar sala de sapato, caso contrário, não cai do céu pautas extraordinárias. Se cai, não foi o caso comigo até agora. Então, eu tava no aniversário de uma amiga aqui em São Paulo e uma um conhecido que trabalha com agenciamento artístico, ele falou que uma influenciadora tinha feito um contrato com uma empresa de aposta online bem grande pelo valor anual de 7,8 milhões. Eu achei aquele valor assustador e ela é uma influência com certo número de seguidores,
mas não tá no time A, nem B nem C dos grandes influenciadores do Brasil. Então, achei aquele número meio absurdo. No dia seguinte eu liguei para ele e falei: "Fulano, agora que não estamos num ambiente de festa, sem sem estar tomando um shopping, você lembra o que você me falou ontem dele, lembra, confirma". É isso mesmo. Daí eu conversei com o meu editor porque pra pauta você tem ideia de pauta e a partir disso você debate isso numa reunião de pauta, conversa com o seu editor para ter o aval e tocar o barco e iniciar
uma investigação, uma apuração. Conversei com o meu editor, falei desse número que eu achei extraordinário. Eh, e ele falou: "João, investe nisso". A reportagem Um trigrinho que eu fiz para Piauí ao lado da Alessandra Medina, ela teve uma um ângulo, uma embocadura muito específica, que era o seguinte: entender o tamanho do buraco em que nós enquanto sociedade estamos em razão das bets, ou seja, questões de saúde pública, questões de endividamento da população em detrimento, em compasso que muitos artistas barrainfluencers estão faturando muita, muita grana com esse problema. É ilegal, não é ilegal? Mas enquanto figura
pública, você tem de ter uma responsabilidade social em relação à aquilo que você divulga? Eu acredito que sim. Então, a matéria quis ter essa embocadura, esse foco, entender qual que era o valor dos cachês, quais eram as estratégias de de marketing que são muito muito acessivas para saber em que buraco social essa questão das beds onlines colocou a a sociedade como um todo. Nossa, muito legal, João. E acho que antes da gente entrar nesses detalhes maiores sobre os impactos, né, pode ser que as pessoas que estejam nos assistindo não saibam tão profundamente o que são
as bets. Então, você poderia contar pra gente como elas surgiram e como que elas se tornaram eh essa coisa tão grande? Claro, as betes no Brasil começaram no governo do Michel Temer, no final da da do da gestão dele, ele criou um ele ele ele sancionou uma lei chamada aposta da cota fixa. Que que era isso? A partir do momento que a pessoa sabe o valor que ela teria ganhar, exemplo, apostei R$ 2 para ganhar outros dois, apostei R$ 100 para ganhar outros 100. a partir do momento que você sabe o valor que seria o
teu prêmio, isso não seria mais eh um problema. No entanto, ele deu 2 anos mais com mais prorrogação de outros dois para que isso fosse regularizado. No entanto, no governo seguinte do presidente Jair Bolsonaro, começou a ter uma série de disputas internas. política faz parte de disputas mesmo. Então, tinha uma bancada da economia que queria eh não só as apostas online, como também a abertura de cassinos, que no passado existiu no Brasil, mas depois foi proibido, para que isso fosse uma fonte de arrecadação de impostos. Eh, e uma outra cota do governo muito ligada aos
setores conservadores, viam nos jogos de azar ou nos jogos de uma forma geral algo problemático até pelo prisma da religião, achando que aquilo poderia fazer mal pras pessoas. Nesse embate arrecada e não arrecada, acabou que o governo Bolsonaro não regularizou. assume o presidente Lula com essa questão em jogo, com essa questão em campo. A parte econômica do governo Lula, assim como do governo Bolsonaro, também queria as betes sendo sendo sendo possíveis de serem jogadas, porque isso arrecada dinheiro. Mas nesse período de não regulamentação, o que que aconteceu? Muitas empresas foram debetes foram criadas sobretudo fora
do Brasil em lugares que são conhecidos como paraísos fiscais como Malta, que é uma ilha da Europa, como ilhas virgens britânicas no Caribe. Então, essas empresas sediadas em paraísos fiscais, portanto, não rastreável para o sistema tributário do Brasil, são onde estão sediados várias dessas empresas. Então, se você tá na tua casa em extrema, São Paulo, Paraíba, fazendo um joguinho ali com o teu celular, você tá pagando para uma transação que vai cair em Malta, na Europa, ou no Caribe ou em algum outro lugar. Eh, isso é muito difícil para para isso impede com que a
fiscalização chegue em algum lugar, você não sabia quem que tava pagando, para onde tava indo o teu dinheiro. O fato é, as betes viraram uma realidade, né? Então, nos últimos anos, elas, uma vez que elas estavam não regulamentadas, mas autorizadas para funcionar, mas não pagando tanto imposto que deveria de pagar em razão de não estarem regulamentadas, elas criaram estratégias de marketing muito grande para poder se fazer conhecida. Então, você imagina um produto que é lançado do zero, não existe esse serviço, esses aplicativos. Então, você tem que ter um marketing bastante agressivo de forma que as
pessoas conheçam o que você tem. Tem uma coisa que eu acho legal a gente comentar, Sabrina, que é o seguinte: as betes elas são eh feitas de uma forma que você ache que aquilo é entretenimento. Ela parece, para usar um termo jovem, ela é uma é um game, parece, elas são gamificadas. Então, se você pega o mais conhecido delas, o joguinho do tigrinho, certo? Ele é coloridinho, tem um monte de barulhinho, ele é engraçadinho, tem o balão, tem aposta que é um carro como se fosse uma disputa de carro, tem inúmeras, inúmeros joguinhos. Então ele
é feito de um jeito que seja um estímulo visual e pensando na vida de rede social, ele também é uma disputa, né? Porque você tem que acertar para que de alguma forma você supostamente possa ganhar. Então ele mexe com vários mecanismos da nossa cabeça que nos impulsionam a querer entender aquilo. Mas a Bet não é game. A Bet também não é loteria esportiva. Quando você fala o que que é loteria esportiva? Quando tem esses joguinhos que são regulamentados pela Caixa eh da das lotéricas Kina, Mega, tudo mais, isso tudo é auditável. Então, por exemplo, tem
a Mega da Virada, que é o maior prêmio do Brasil. Todo dia 31 de dezembro tem um prêmio que nesse ano, acho que nesse ano que passou foi mais de meio bilhão, uma coisa astronômica. São seis números que são sorteados. Esses números são auditáveis. Eles saem de um cofre da caixa, ele vai até o local do sorteio. Isso tudo é gravado e auditado. Não há dúvidas de que esse prêmio seja correto. Saíram aqueles seis números e as pessoas que ganharem de fato, elas apostaram naqueles seis números. No caso dos jogos, você não tem como aferir
se aquilo de fato foi real ou não. Que que eu quero dizer? Em palavras bem simples, você tá jogando tigrinho, você tem algum momento que você tem que apertar o o dedo na tela para ele parar e se parou supostamente no lugar certo, isso vai te dar um dinheiro. Quem garante que era aquele lugar certo? Se por acaso você ficou com alguma dúvida, como que você pode solicitar um direito de resposta? Como que você pode solicitar acesso ao software, ao programa deles, para dizer que aquilo tava funcionando ou não? Então, as apostas online, elas não
têm nenhum mecanismo que você possa fiscalizar e controlar a idoneidade delas. Ou seja, é muito fácil manipular o resultado que tá ali. Exatamente. E assim, na investigação que a gente fez paraa reportagem, muitas dos processos que as pessoas movem contra as casas já próas. E por que que elas movem processo? Porque muitas perdem muito dinheiro. Então elas falam que aquilo num primeiro momento em que elas abrem uma conta numa bet, elas começam até a ganhar, sabe? E aí elas se empolgam, opa, ganhei 100, 200, 300. E depois ela começa a perder e a se endividar.
Então quando ela faz, ela aprova o histórico de bancário dela, dessas pedras todas, elas pedem pra Bet a prova de que de fato elas perderam. Porque a percepção dos advogados que entendem disso é que o algoritmo das bets é treinado de forma a você ganhar um pouquinho no começo para perder muito depois. Caramba. E a gente observa que elas estão, as betes, né, tem uma presença muito forte no futebol, mas pelo que você investigou, não é só aí que elas têm espaço, né? Não, elas estão em todos os lugares. Então, vamos lá. É um produto
criado do zero que ele tinha de se fazer conhecido. Então, elas foram, elas, eu digo, as empresas BETs, em lugares em que em setores da economia de entretenimento, sobretudo de altíssimo consumo e que são paixões nacional. exemplos: futebol. Então, no Brasil hoje tem campeonato de futebol com o nome de Bet. Quase todos os times das séries A e B tem um uma bet ali. Tem bets que a que que investem em mais de cinco times por temporada, em estados diferentes. A Bet hoje é uma presença além de placar da, sabe aqueles letreiros de futebol? Redor
do campo, né? Carnaval esse ano no Rio de Janeiro, carnaval esse ano em Recife, carnaval esse ano em Salvador. Tinham muitas betes patrocinando, não patrocinando apenas em Sambódromo, mas patrocinando com viseira antissol em bloquinhos de Olinda. Então assim, elas estão nos lugares onde as pessoas estão consumindo e vivendo as suas vidas, entendeu? Não seria diferente com redes sociais, que é esse o X da nossa conversa aqui. Muitos. E tem uma coisa que eu acho legal falar que é o seguinte: dentro do mercado de bets e do mercado de marketing como um todo, existem algumas funções
do marketing, né? Uma é você criar o conceito de se fazer conhecido. Você não vai consumir exatamente quando você vê o outdoor, mas você faz a pessoa lembrar que aquele produto existe e ele pode ser inserido na sua vida de alguma forma. No caso da rede social, isso vale muito paraos jovens que estão vendo, a o consumo em massa de rede, né? Então você tá ali em vários aplicativos, lendo, estudando ou trocando mensagens ou falando com a tua namorada ou falando com a tua família no grupo de WhatsApp, você está conectado ao celular. Essa é
uma realidade. Quando você vê um influencer que você acompanha, que você tem certo carinho, ele coloca o link. Então, Sabrina, paraas betes investir em marketing nos influencers é muito efetivo, porque elas conseguem registrar, aferir, descobrir quantos links alguém vão, quantas pessoas vão clicar em algum link para fazer o cadastro e começar a jogar, porque tem a métrica do próprio da própria rede social, né? Exatamente. E aí tem uma coisa que foi bastante condenável e discutível no começo das das bets, relação das betes com os influencers, que é o seguinte: muitos influencers usaram uma estratégia de
comunicação baseada nos termos seguintes: aumento de renda, renda extra. Então a gente vive num país muito desigual, né? O nosso salário mínimo é muito pequeno. Então você imagina um casal, homem, mulher, que tem dois filhos, cada um tira R$ 2.000, R$ 3.000 por mês, uma renda familiar de R$ 5, R$ 6.000. Se você promete para essa pessoa que um joguinho coloridinho, engraçadinho, vai render R$ 500, R$ 600, você pode mudar a vida da pessoa. Então é muito tentador, porque você mexe com uma questão que é genuína. Você quer dar uma vida melhor para si próprio
e para teus parentes, pra sua família. Isso é perverso, do meu ponto de vista. Por quê? Porque alguns dos influencers, além de falar em renda extra, eles tinha uma outra estratégia de marketing que é a seguinte. Eles falavam assim: "Você vai aspas, muitas aspas nisso, ganhar 1000 ou R$.00 de crédito e só depois de perder esse valor, que é um valor expressivo num país tão desigual quanto o Brasil, você começa a debitar da tua conta. Ou seja, você começa com R$. mais de crédito para você jogar aviãozinho, tigrinhos e afins. Daí quando você pede esses
1500, começa a debitar da tua conta. E quando você vê, você sabe que conversando com o especialista, ele falou uma coisa só a título de comparação, que eu acho interessante pr as pessoas entenderem. Jogo vicia, assim como álcool, assim como cigarro. Eh, é todo mundo que vicia, depende. Assim como álcool como cigarro. Nem todo mundo que consome a mesma quantia no outro dia vai ter essa necessidade, mas é imprevisível como aquilo vai atuar no teu corpo. Portanto, né, evitem. Mas o fato é, a indústria do tabaco não te dá 10 massos de cigarro e no
11º máximo ela começa a cobrar. Você enquanto bet dando R$ 15,00, R$ 1.000 é como se você estimulasse um vício e depois você fala: "Ó, a conta chegou, agora custa". Você tá entendendo? Agora, o que é curioso, dentro da investigação que nós fizemos paraa matéria bonde do Tigrinho, a gente viu que alguns contratos de influenciadores era tão quase tão altos quanto os de time de jogadores de futebol. Tem um time de Minas Gerais, Série A, Timão, ele tem um contrato de R$ 75 milhões deais ano. Daí você pensa, tem 11 jogadores em campo, outros 11
na reserva, mais o técnico, mais o cara que cuida da grama, mais o cara que cuida do estádio. É uma estrutura gigante, um time de futebol de série A, correto? E tem um influencer, ele única pessoa, um CPF, que ele cobra 40 milhões ano dessa mesma empresa. Isso mostra a efetividade dos influencers, o como eles conseguem atrair público para esse para esse para essas empresas. E assim, uma coisa que chamou muita atenção na matéria, que causou discussões em YouTube, TikTok, muitos influenciadores de notícia fizeram reacts a respeito desse ponto específico da matéria, é que existe
o cachê da desgraça alheia. O que que é isso? Tem influenciador que faturava 30% em cima do que a pessoa perdia. Isso significa, Sabrina, que se você apostava R$ 100, apostasse R$ 100 e perdesse, não, não ganhasse, R$ 30 ia pro bolso desse influenciador. Ou seja, quanto mais o seguidor perder, mais lucrativo é para ele. Exatamente. E o que a gente observa muitas vezes, né, João, eh, olhando essas essas propagandas, é que não é uma sinalização de que é uma propaganda, né? Muitas vezes parece que é uma dica de amigo, né? Isso é muito complicado.
Pois é, o marketing de influência, ele tem esse poder de fazer parecer que é parte da vida da pessoa. Isso vale pra Bet, mas isso vale para produto de limpeza, roupa, perfume, maquiar, tudo. A pessoa insere aquilo no dia a dia dela como se fosse algo natural. Então tem muitas influenciadoras que e influenciadores que anunciam bet que eles estão assim: "Nossa, eu tô aqui no carro entre um compromisso e hoje tô jogando meu joguinho favorito". Ela faturou muito dinheiro, gente, para est ali. Nada é orgânico com que é um termo do marketing, nada é natural.
aquilo é pago. Esses vídeos, ah, tem outra coisa nas investigações que a gente descobriu, esses vídeos dos influencers jogandos e ganhando, porque evidentemente a vai mostrar ele ganhando, são pré-gravados. Então ele não tá jogando no ao vivo ali. Só para vocês jovens entenderem, todas as propagandas, stories, feed, elas são aprovadas por equipes de marketing. Aquilo não é a pessoa meu dia a dia natural e pá, não é. Então ela finge que tá jogando a partir de um vídeo pré-gravado, se faz fazer natural, aquilo vai pra equipe de marketing, o marketing dá OK e depois a
pessoa aposta. Óbvio, não é informado que aquilo se trata de propaganda. É muito complexo, né? É bem complexo. E você começou a falar um pouco dos números, né? E eu acho que realmente eles são muito impressionantes, impacta. Uhum. Existe dados, por exemplo, eh, que vão estar no articulação dessa dessa edição, que falam que as Bets movimentam cerca de 240 bilhões de reais por ano. Isso é muito dinheiro. E o que você descobriu, você pode aprofundar, né, nesse assunto sobre que quais são esses impactos econômicos das beds, né? Tem uma coisa que é a seguinte, isso
é o rastreável, tá? Tem muito dinheiro que não é rastreável porque são sites que ficam lá fora e, portanto, eles nem apareceram no radar do governo federal. Vocês estão entendendo? Então tem muito dinheiro de bet que ele ele não consegue ser mensurável. Mas o que que é mensurável? E isso é muito bem mensurável, como que ela impactou, tem impactado a economia do Brasil. Então os dados, Sabrina, eles são muito, vamos lá, de um jeito muito simples para explicar para quem vai prestar vestibular depois. O bolso é um só, certo? Então, se você ganha R$ 5.000
por mês, você jogando bet ou não jogando bet, você vai ganhar R$ 5.000 por mês, certo? Como você vai gastar? Se é com livro, se é na balada, se é indo à igreja, você vai ter que fazer um malabarismo para R$ 5.000 da conta do teu recado, do teu orçamento familiar. Quando entra o novo componente de despesa, que é a Bet, ela pode, se você gastou 500, vai faltar 500 para outra coisa. Se ela gastou 300, vai faltar 300 para outra coisa. O bolso é um só. Então, o que que acontece? As pessoas começaram a
se endividar. Então, tem o presidente de uma grande operadora de celular do Brasil que ele falou que não é operadora concorrente, que é o maior concorrente dele, e sim as bets porque as pessoas estão deixando de colocar crédito no celular por causa da bet. Tem um atacarejo no Brasil com 294 unidades que o presidente deu entrevista falando que no ano passado, 2024, portanto, o lucro foi o menor da história. E ele não tava falando porque o outro mercado tá vendendo melhor que ele, porque as pessoas estão com menos poder de compra. Tem uma associação chamada
Abrazel, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, que anunciou em outubro passado que eles queriam entrar, tem um termo meio meio técnico de direito chamado como amicusc numa ação judicial contra a lei das betes. Eles não querem que seja aprovada de forma alguma essas a lei das bretes, porque segundo eles ali no dia a dia de base, de restaurante as pessoas estão consumindo menos. Tem uma coisa que que eu acho legal a gente falar que é o seguinte: o vício ele atinge todos, rico, pobre, remediado, mas a gente sabe que a ponta aperta mais para quem
tem menos grana. Porque se você tem dinheiro em excesso, talvez faça menos falta. Se você tem dinheiro escasso, aquilo vai fazer falta. Então, quando esse presidente da Brasel fala, ele tá falando sobretudo de restaurantes e bares voltados a público CID. Ou seja, pessoas com menos renda. Exatamente. A classe E tem os estudos que falam que não estão na bet porque elas são menos bancarizadas. Seria mais difícil de criar um uma conta, ter uma conta digital para poder daquilo retirar, tá entendendo? Ainda que as bets aceitem pics depois que você cri conta. Mas enfim, é possível
fazer joguinho de R$ 1, Gente, você pode apostar muito mais. Eu fiz uma entrevista para essa matéria. Ah, eu fiz uma entrevista com uma personagem que ela mora na cidade, que ela mora no Rio Grande do Sul. Uhum. Não era pobre, trabalhava como corretora de móveis e ela perdeu R$ 1.800.000. Eu li o processo, Sabrina, tem 900 páginas. Ali está a prova de centavo por centavo que foi apostado até dessa somatória. Tinha valores que ela apostava de 20.000, de 15.000, de 10.000. E daí conforme foi escass foi pegando dinheiro de Agiota, ela foi abrindo contas
em novo, ela foi se complicando financeiramente até que ela começa a fazer apostas de 10 contos, R$ 10, R$ 20. Você vê ali na prática o empobrecimento dessa mulher. Ah, mas que absurdo. Como que pode gastar tudo isso? A gente tem que pensar numa coisa que é o seguinte, não é racional. A gente tá falando de uma adição. Quando se trata de adição, a pessoa não está atuando no polo racional do cérebro dela. Seja um vício, né? A gente tá falando de vício. Então, tecnicamente, você sabe que a pessoa que é alcólatra e acorda no
outro dia já debilitado, com corpo e eh cansado, com problemas no trabalho, com problemas com a esposa, a pessoa não deveria beber. A gente sabe disso, mas a pessoa vai e bebe, é porque não é racional. tá falando de uma pessoa que está doente. Vale o mesmo para as betes. Aliás, essa mulher e outros médicos psiquiatras, eles falam justamente isso. Existe uma pouca empatia por parte da sociedade para com esse essa questão, porque é como se as pessoas dissessem: "Ah, mas a como é sua, né? Como assim você ficou jogando ali? Como postou porque quis,
né? Postou porque quis. É bem complexo, mas é isso. A Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo também divulgou que por causa das das apostas 1,3 milhão de pessoas entrarem na implência no primeiro semestre de 2024. Então, as bets, o vício em betes vicia e empobrece e tem dados atrás de dados mostrando isso. No caso do Bolsa Família, existem estudos, eu não tenho isso número de cabeça, mas estudos do governo federal que muitas pessoas estavam usando dinheiro que é útil para você passar o mês, conseguir dar conta do recado ali da tua família
em Beds. É muito interessante você falar isso, João, porque de fato isso é uma coisa que chama muito minha atenção de que há dados, né, que tão inclusive no articulação de que os beneficiários do Bolsa Família enviaram cerca de R bilhões deais em Bats em único mês. Isso é muito dinheiro. E a gente tá falando da parcela mais vulnerável socioeconomicamente da sociedade, né? Então, eh, esses números eles são alarmantes, né? Então, a partir da sua investigação, como é que você vê esse fenômeno afetando essas famílias, né? Tem uma coisa curiosa que a gente até volta
por parte da conversa que a gente falou, que é o seguinte: a corda estoura sempre pior para o mais pobre. E o Bolsa Família, o que que ele é? Ele é um cartão que o governo te dá e é um cartão de crédito. Então ele coloca os R$ 600, pode variar, mas a média é R$ 600 na tua conta. Você pode comprar leite, você pode comprar caderno escolar, você pode comprar umô, enfim, você vai usar de acordo com o que você necessita. No entanto, é uma conta que é digital também, ela está ali. Então, uma
vez que você faz o cadastro em uma casa de apostas, ele vai debitar direto dali. Então, caiu o 600 ou que seja outro valor, você passa a ter um recurso para poder gastar. Ou se você já entrou no cheque especial, ele tira daquilo quando entrou. Os mais pobres sofrem mais. Isso vale para todos os problemas, né, para todos os vícios. E em Bet não seria diferente. É muito doido, né, João? Porque eh esses dados que você traz pra gente mostram que muitas vezes as pessoas deixam de comprar um item de necessidade básica, que a gente
tá falando de alimento, que é algo que a gente precisa para sobreviver, para de fato destinar esse dinheiro para uma aposta, né? A personagem da reportagem, ela fala que é uma coisa bem triste, ela ela o fundo do para um clichê aqui, né? No fundo do poço dela, quando ela se ligou, eu preciso de ajuda médica e familiar para sair de onde eu tô, foi quando ela não tinha dinheiro para comprar remédio pra asma do filho dela. Que triste, né? Ela falou isso chorando. Ela falou: "Não tenho orgulho de nada". Mas ali eu vi, eu
não ela vivia uma vida confortável. Nunca precisei contar moeda para poder comprar remédio de asma. E eu não tinha dinheiro para comprar remédio de asma. Isso já tava endividado em banco, endividado com a Giota. Enfim, tem uma coisa que eu acho legal de falar que é o seguinte. Eh, o Brasil é um país muito desigual, financeiramente falando, os jovens sabem disso tão bem quanto nós, mas nós temos muito acesso à internet. A despeito da nossa discrepância de renda, o Brasil tem Wi-Fi para tudo quanto é lugar, né? E isso é bom. As pessoas podem estudar,
podem se comunicar, podem assistir streaming, enfim, ótimo. Mas isso permite que as pessoas tenham acesso às bets também. né? E como que você consome, Bet? Você não consome com o teu pai e com tua mãe do lado, você consome com a tela, você sozinho. Então, você pode estar no banheiro, você pode estar no teu quarto, você pode estar no metrô voltando para casa, você pode estar numa sala de espera de um consultório dentário enquanto você tá matando aquela hora ali. Ela se aplica em todos os lugares porque é individual. Ele é um problema que os
médicos psiquiatras eles falam solitário. Quando que ele deixa de ser solitário? Quando quando sai de controle e aí você precisa pedir ajuda para alguém. Mas em tese, Sabrina, podia ser seu companheiro, seu melhor amigo, teu colega do trabalho. Você tá almoçando, a pessoa terminou de almoçar e faz a tá ali. A pessoa pode estar no WhatsApp, pode estar checando os e-mails do trabalho, pode estar falando no grupo da família vendo uma fotinha de um gatinho que alguém postou, mas às vezes ela tá jogando e o jogo ele dura fração de segundos, é muito rápido. Enfim,
dado todos esses problemas que a Bet virou uma questão de saúde econômica no Brasil, ela também passou a ser tratada ali no Hospital das Clínicas, que é o Centro Universitário de Medicina da USP aqui em São Paulo. O HC, gente, é para quem quer fazer medicina, eu acho que ele é o Santo Graal, é o lugar mais difícil de se de se chegar e ali eles atendem pessoas com problemas reais, assim, sabe? Se você cai e e e arranha a perna, não é para lá que você vai ser direcionado. Ali são problemas crônicos e muito
muito muito grandes, de forma que vire material científico e de estudo paraos estudantes de medicina da USP. Ali eles têm um departamento na aula de psiquiatria para vícios. Então tem vício em drogas, vício em álcool, vícios em sexo e tem o vício em apostas online, porque isso tá crescendo. E daí o médico, o psiquiatra Rodrigo Machado, eh, que é do Instituto de Psiquiatria da USP, ele diz que em alguns casos ele atendia pessoas que faziam entre 20 e 30 apostas por hora. É muito fácil de perder muito dinheiro. E se você pensar no na liberação
de dopamina, na expectativa que aquilo cria, você imagina 30 vezes numa hora o teu cérebro fica, você parece um hamster girando em círculos, você fica dependente daquilo. Então, pensando numa dimensão psicológica, é um um mecanismo que opera muito similar a outras dependências, como você citou do álcool, por exemplo. é a mesma coisa. Ele libera dopamina no seu cérebro e você pode se viciar com isso. É a mesma coisa. Só que é um estímulo muito rápido entre o ganhar e o perder. É muito rápido. E isso pode fazer com que a adição, que o vício se
chegue mais rápido do que imaginaria, entendeu? Sim. É o mesmo mecanismo de vício, é o mesmo. E Sabrina, depois que a gente fez a matéria, algumas pessoas entraram em contato para falar de como que a vida delas estava sendo impactada. Sabe o que parece? que sabe quando você abre um quem é do interior vai saber quando você dá uma machadada no cupim e sai. É isso. Eu entrei em contato, muita gente entrou em contato comigo para falar da experiência delas com o vício. Então assim, tem uma mulher de Minas Gerais que ela falou que o
marido dela que é psiquiatra, veja como a gente é como não é racional, eh ficou internado por 8 anos por causa de Vim Bet. Caramba. E ele passou a faltar no trabalho em determinado momento. Ele tava condicionado a ficar no celular o tempo todo. Num primeiro momento, ela achou que ele tava com amante, porque ele tava no celular o tempo todo. E os rostos, uma outra pessoa falou para mim que existe uma linguagem facial ali da Bet da tensão, do suspiro. Tem uma coisa tensa, sabe? que se você tivesse consumindo um WhatsApp, um filme ou
no Instagram, seria um pouco, seria diferente. Então, é bem complicado. Uhum. É bem complicado. A gente falou um pouquinho sobre isso, mas eu acho que é interessante da gente comentar um pouco mais, porque eu como consumidora de rede social, eh, a gente tá o tempo todo, né, nessas redes e outros produtos também, a gente vê que hoje a Bet, ela chega no time de futebol, como a gente comentou, ela chega no na influenciadora que tá divulgando o tigrinho, ela chega num ator de uma grande eh ou seja, todo mundo todo mundo tá aí divulgando as
bets, né? Só que parece que é algo muito normalizado, né? Parece que é um produto ou qualquer coisa e a gente tá vendo que não é qualquer coisa, é algo que vicia. Então, como que você percebeu que essas pessoas, esses influencers, celebridades, que eles contribuem para essa normalização das bets, né, como se fosse algo qualquer, mas eles contribuem demais, porque a gente tá falando de grande ídolos do futebol, grande ídolos de telenovela, de seguidores que tem mais de 50 milhões de de influenciadores, desculpa, que tem mais de 50 milhões de seguidores. Então, são pessoas que
você acompanha a vida como se fosse um live streaming, como se fosse um reality show. Você sabe com quem é casado, o nome do filho, que a sogra tá doente, que viajou paraa Disney. Você tá consumindo aquela pessoa, se ela insere o joguinho dentro das atividades corriqueiras da vida dela, ela normaliza aquilo e você, por consequência, acha que aquilo é normal. E veja mais, os as bets, elas não patrocinam pessoas que são ã que não tem sucesso financeiro, que é um modo de vida que você também tá vendendo, né? Você tá vendendo aspiração, você tá
vendendo uma projeção de onde você quer chegar. Não tem influenciador pobrinho ali, tem aquele com a casa enorme, que tem jatinho, que tem mais de um jatinho, que frequenta festas legais. Na época da economia da atenção, na época das redes sociais, seguir alguém é empoderar alguém. Então, os influencers que fazem esse tipo de propaganda, cabe a gente, eles estão fazendo alguma coisa legal, eles não estão fazendo nada legal. Eles não estão fazendo nada legal. Agora existe uma outra coisa que não é ser legal ou não ser legal, é responsabilidade social. O cara que você endossa
ao seguir, o cara que você admira, a mulher que você vibra pelo sucesso dela, vale a pena você ser seguidor de alguém que no fim das contas tá lucrando em cima da desgraça alheia? Vale essa reflexão pra gente, porque eh os jovens sabem disso, eh, o número de seguidores hoje ele é uma régua de sucesso, né? dentro do que eles chamam de economia da atenção. Então, quando você segue alguém, você endossa alguém. Quando você endossa alguém, você deixa essa pessoa maior do que ela é. Te dá poder para essa pessoa. Você dá poder para essa
pessoa. Então, cabe uma reflexão, porque, ah, tá dentro do meu universo, tô aqui em casa vendo esse vídeo, que que eu posso fazer? Eu já não jogo, eu já não quero jogar. Se você por acaso segue, porque algum dia você gostou de um reality, porque algum dia você gostou de uma dancinha, sei lá o quê, reavalie. reavalie, porque tem muita gente interessante de se seguir, de aprender e de acompanhar. E talvez esses que lucram em cima de algo que causa vício, ainda que não seja legal, é questionável, vale nossa reflexão, né? Sim. E na sua
oporação, João, a gente tem falado muito assim dos danos, né? A gente consegue ver caminhos de recuperação desse vício. Total. É possível. Total. Primeiro, a gente não tem que ter preconceito em relação às pessoas que tm esse problema. Ai, kakak. Nossa, que vergonha. Você que foi cair no jogo do tigrinho. Sim, caiu. E aí você vai estender a mão? Ninguém escolhe ficar do Vai virar as costas. Ninguém escolhe ficar doença. E vício é doença. Ponto final. Não é querer, não é frescura. Vício é doença. Existem casos muito mais graves do que outros, né? Mas vou
te dar o exemplo que da pessoa que eu entrevistei. Ela precisou eh recorrer a psiquiatra, ou seja, ela está tomando remédios, remédios para pr para ansiedade e depressão. Ela falou uma coisa que eu acho legal a gente ter isso em mente. O cérebro dela tava tão condicionado, tão condicionado aos joguinhos, que quando ela fechava o olho para dormir, ela via os flashes do joguinho o tempo todo, que já tava dentro dela, o pé dela, porque ela tinha mania. Ela contou uma coisa que é assim, como você tá jogando e isso cria uma expectativa de que
vai ganhar ou não vai ganhar, é raro você tá ali plácido, calmo, tranquilo. Então você fica meio frito, meio friccionado. Então o pé dela também na hora de dormir tremia, como se ela tivesse batendo de ansiedade quando você tá sentado, uma pessoa que tá sentada com ansiedade. Então tem impactos físicos no corpo de alguém, mas ela tá livre e limpa desse caso, com ajuda de psiquiatra, portanto, usando remédios, com acompanhamento médico, evidentemente, e também terapêutico, porque tem um lance de você se sentir culpado, como toda doença, eh, o alcólatra, o o dependente químico, de forma
geral, ele se sente culpado no sentido por que que eu experimentei a primeira vez, por que que eu abri a porta para para essa vulnerabilidade que eu nem sabia que existia para ela entrar. Então, a pessoa se sente culpado e a culpa ela é péssima porque ela faz você girar em girar em círculo. Você volta pro vício depois se você se sente culpado. Tá entendendo? Mas tem uma coisa que é extraordinária, assim, tem um, assim como existe o a, que é o alcólatos anônimos, que tem várias cidades do Brasil, pequenas, grandes, médias, o na Narcóticos
Anônimos. E esses encontros podem ser tanto presencial quanto online. Existe, eh, Sabrina, uma uma entidade chamada Jogadores Anônimos. Se vocês entrarem depois na internet, eu recomendo muito. É um site simples. Eles têm ali as regras deles para você eh indicativos, né, de quando você percebe que você está dependente ou que, porventura você tem alguém no teu entorno, família, marido, filho, que também possa estar. E aí é uma coisa nacional que tem grupos de WhatsApp, tem encontros online duas vezes por semana. Em algumas cidades, várias cidades, tem encontros presenciais. Funciona como um aa do jogo online.
É isso, gente. Vamos lá. Jogo, viste jogo começou hoje? Não existe desde que o mundo é mundo. Tem um monte de casa de bingo clandestina aí. Vocês jovens devem saber isso nas suas cidades. Acontece, todo mundo conhece alguém que conhece alguém cuja senhorinha, vovozinha perdeu o apartamento no bingo. Quase vira parte do folclore brasileiro. Do folclore nacional. Exatamente. Então não é uma coisa nova, mas é uma coisa muito abrangente e muito maior, porque tá na palma da mão. O bingo você precisa de um cash, senão você nem entra lá, você precisa deslocar até ele. Tem
lugares que não tem bingo. Na minha cidade não tem bingo, é uma cidade pequena. Agora a aposta online tá aqui. É fácil. Basta você ter conexão com a internet e alguma CPF, conta bancária, o a coisa vai. Então assim, esses jogadores anônimos, ele é muito legal porque ele atende pessoas em todos os lugares e muitas vezes se você tem vergonha você pode ali tirar os seus 30, eu acho que é uma hora a reunião semanal para falar e em alguns casos quando a coisa tá mais agudo aguda, é diário mesmo. faz diferença porque você escuta
o outro e você se sente menos sozinho, porque aquela coisa da culpa você tira um pouco das tuas costas porque ela é dividida. Pera lá, aquele médico também viveu isso, aquela professora também viveu isso. Podia ser eu, quer dizer, sou eu. Então, eu não sou o único que cair nisso e se tal e tal pessoa conseguiram sair, eu também vou conseguir. Então, essa rede de apoio, Sabrina, ela é muito importante. Ela é muito importante.Um, com certeza. Eu acho que de tudo que você falou a gente precisa ressaltar, né, que é uma doença que é importante
a gente procurar médico, é ajuda terapêutica, eh, psiquiátrica, para conseguir sair disso, né? E paraos nossos espectadores, João, que imagino que são a maioria jovens, quais são a mensagem que você deixaria sobre os riscos e das apostas online? Eu acho que eu acredito muito na no espírito curioso dos jovens. Eu acho que essa geração mais nova, ela é muito mais esperta do que a nossa. Eu tô com 40 anos. Então eles já tendem a olhar alguma coisa com desconfiança, sabe? Eh, não caiam e não comprem de cara porque alguém que você supostamente admira, porque o
jogador que você mais ama e gosta de ver os cortes de gols deles no TikTok, porque a influencer que é a mais bonita, que tem uma um corpo uau, tá apostando, desconfie. Se alguém ganha em cima de uma desgraça, de um problema alheio, isso não é legal. Essas pessoas não estão vendendo roupa, não estão vendendo bola de futebol, elas estão vendendo jogo online. Ah, mas eu gosto de jogar. Tem um monte de joguinho que não envolve dinheiro. Tem 300 aplicativos de para você quiser jogar corrida, futebol, enfim, gente, vocês sabem disso. Então, desconfia. Desconfiem. Tem
um espírito crítico, tem um senso de acreditar que aquilo vai beneficiar alguém. E esse alguém não é você. Esse alguém não é o teu primo. E quando numa equação só um lado ganha e ganha dinheiro e o outro pode perder, é válido. Não é válido. Uhum. E João, você falou desse espírito crítico aqui. Isso faz total sentido com a sua profissão de jornalista, né? E aí eu queria que você eh falasse, a gente falou bastante, né, sobre a investigação, a porção, isso tem tudo a ver com a sua carreira. E para quem se interessou e
quer conhecer um pouco mais sobre a profissão jornalista, sobre o jornalismo, eh, você tem alguma dica para quem quer seguir essa carreira, algum conselho? Eu tenho 40 anos, eu entrei na faculdade com 18, quando eu entrei, eh, não existiam redes sociais, tá? A primeira que existiu foi o Workut, no século retrasado, quase muitos que estão assistindo aqui nem sabem que é isso, mas o fato é, nós entrávamos na faculdade de jornalismo para trabalharmos ou em jornal, ou em revista, ou em TV, ou em rádio. Era isso, tá? Eu comecei minha carreira na editora Abril, que
a época tinha mais ou menos 55 títulos, 55 revistas, ou semanal ou quinzenal. Semanal no caso da Veja, Veja São Paulo, quinzenal no caso da Exame e mensal no caso de todas as outras. Super interessante, Bravo, Cláudia, Maniquim, Boa Forma, inúmeras, inúmeras, inúmeras. O jogo mudou. Hoje o jornalismo ele é muito mais digital. Eu fiz essa reportagem que foi que saiu na edição de janeiro da revista Piauí, revista de jornalismo narrativo investigativo e ela acontece mesmo no online. Então assim, tem muito, nós temos o orgulho de termos muitos assinantes de gente que compra revista em
banca, mas a maioria é digital, é assim que a gente atinge. E o jornalismo, gente, ele é fundamental porque mudou a plataforma, então é menos jornal, menos revista, mas ele é muito essencial. A gente tá num universo de fake news, a gente tá num universo de desinformação. Então, se você não tem uma imprensa sólida para cumprir o papel dela, e qual que é o papel da imprensa? papel da imprensa é abrir a porta de algo que tá fechado, é fiscalizar o poder. Se não é uma imprensa séria, crítica, talvez a gente não soubesse dos valores
dos cachês, dos futebol, do dos jogadores de futebol, dos influenciadores que estão atrelados ao a jogo esportivo. E isso pode fazer que no Congresso em Brasília, isso tá em discussão, não é a proibição das apostas online, é a proibição de propaganda. Cigarro no Brasil é vendido, mas você não vê propaganda. E no passado tinha. As coisas podem mudar. A imprensa tem o dever, a obrigação de fiscalizar o poder. E nós, enquanto sociedade, ao apoiarmos, ao lermos a imprensa séria, crítica, estamos apoiando também a nossa democracia. Então, ler jornais, ler, quando eu falo jornal não é
papel. Pode ser o papel também, mas não é necessariamente o papel. Mas consumir conteúdo de imprensa profissional é fundamental para um país ir pra frente. Ponto final. O jornalista ele tem uma missão de contar aquilo que não querem que seja contado. Então eu acho que é uma profissão maravilhosa. Vocês que estão prestando vestibular agora tem mais opções de trabalho do que eu tinha, porque jornais e revistas estão cada vez mais escassos. Existem, mas estão mais escassos. No entanto, tem canais excelentes em plataformas como YouTube, que são seríssimos. Eh, tem novos sites, então, por exemplo, não
tinha, eu citei revistas que muitas delas já hip, né? já morreram, mas não tinham outros sites como sites de política, sites que cobrem meio ambiente. Tem um monte de coisa boa sendo feita, tem um monte de lugar legal para trabalhar. O emprego, eu acho que ele ficou mais escasso do que no passado pela forma como você conseguia, porque antes você aplicava, Sabrina. Então assim, Estadão, Folha, Rede Globo, SBT, Editor Abril, eles tinham um programa de traini deles. Então, gente todo, no caso do Abril, que eu falo com propriedade, gente do Porque eu comecei minha carreira
na editora abril, a pessoas do Brasil todo, estudantes aplicavam, 200 eram selecionados, vinham para São Paulo e aí tinham testes finais, palestras, não sei quê, e 50 ficavam. Então era sim a forma de conseguir estágio, a principal também tinha os outros ao longo do ano que ficava um banco de currículos ali, Folha, Estadão, Rede Globo, todas também. Então hoje eu vejo isso menos, tá entendendo? Porque não tem essas grandes empresas, elas ficaram ou elas ficaram muito menores. A Globo tem um tamanho menor hoje, a Abril tem um tamanho menor hoje, a Folha tem um tamanho
menor, mas tem outros tantos sites que foram que nasceram nos últimos anos que estão empregando muito jornalistas. Então assim, eu eu tenho colegas jornalistas que eles não escrevem, mas eles editam vídeo. Eu sequer aprendi na faculdade sobre editar vídeo. Então eu acho que quem fori entrar na faculdade de jornalismo no final desse ano, que vocês todos vão passar no vestibular, Sim. Eh, vão ter disciplinas, vão ter matérias que eu nunca vi. A base de teoria da comunicação é a mesma, evidentemente. No entanto, o fazer do jornalismo, das plataformas é outro. O rigor com informação tem
que ser o mesmo. No caso da revista Piauí, eh, todas as matérias que nós fazemos, todas, isso pro site, paraa revista, ela tem edição, depois edição, ela tem checagem. Como que funciona isso? No caso dessa matéria do do Tigrinho, vou dar um exemplo prático. Eu falo bastante ali de uma Bet específica cujo cujo sócio é um cara que era muito enrolado financeiramente, com muitos problemas na justiça e que depois do nada esse homem ficou rico. Então eu tive acesso a todos os processos dele e eu entrevistei pessoas, inclusive eu entrevistei ele. Então eu mando a
gravação do das conversas que eu tive entrevistando as pessoas para a pessoa responsável pela checagem. Eu mando os processos do PDF para a pessoa responsável pela checagem. A checagem bem feita, ela não é assim. Coloco lá ã, Sabrina, vírgula, 32 anos. Ah, não, João, ela tem 33. Ótimo que você pegou que eu errei o nome dela. Espero não errar nada, mas ótimo. Mas é para saber se o contexto é o mesmo quando eu te cito. Se é para saber se aquela parte de um processo é o mesmo que tá ali. Então, é muito importante ter
checagem. A checagem ela te dá, para nós que trabalhamos comunicação, ela te dá segurança. Não confie em Instagrams, em páginas que replicam tudo que vem sem questionar. Jornalismo dá trabalho, você tem que escutar os dois lados. Há ali uma matéria em tal lugar, por conta disso é verdade? Não. Se você vai replicar, você tem que ligar: "Ô, fulano de tal, tô lendo um tal veículo que aconteceu tal coisa com você". É verdade. Isso é o mínimo. Jornalista é curioso e preencher essa curiosidade toma tempo. E o tempo que a gente chama é apuração. Tem que
apurar. Nossa, João, que legal. E para quem quer acompanhar mais o seu trabalho, conhecer mais do seu dia a dia, como que te encontra nas redes sociais, na internet? Eu eu sou repórter, né, da revista Piauí. A Piauí tem um site, eu acho que é piauí.com.br ou revistaapiauí.com.br. Bem, meu editor que não fique bravo de eu não saber isso de de core, mas já tá ali no meu abre o laptop, já é o meu descanso de tela e que tem as suas redes também. Eh, e eu tô no Instagram e no X. Eu uso menos
o X, mas mas o X ainda é um veículo de apuração, sobretudo. Facebook também, eu acho que eu não posso há milhões de anos. Eh, mas é importante porque às vezes dentro de uma apuração você precisa achar personagem. Eu vejo uma pessoa num processo, o nome dela é tal, como que eu acho ela? Então, as redes elas são um mecanismo, uma ferramenta para você encontrar pessoas e e bater na porta real ou virtual dela para saber se ela tá para falar contigo. Legal. Eu vou te procurar nas redes, João. Muito obrigada por essa matéria tão
importante por compartilhar um pouco de tudo isso com a gente. Eu acho que é uma matéria que chamou tanto atenção de um assunto tão quente, pertinente assim, pauta do dia, que deve cair mesmo em vestibular, sabe, essa discussão em redações, por exemplo, eu vejo isso como assunto quente assim do momento, sabe? Claro, é um tema relevante, importante, como a gente viu, tá mexendo com a vida de muitos brasileiros. Então, muito obrigada a todos vocês que ficaram com a gente até aqui e a gente se vê no próximo programa. Ciao. [Música]