Olá, meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs. É uma grande alegria estarmos juntos mais uma vez no nosso programa “Testemunho de Fé’! Aqui quem fala é o Padre Paulo Ricardo.
Quero convidar você a nos próximos minutos refletirmos a respeito do Evangelho e do mistério que nós iremos celebrar neste domingo. Nós estamos celebrando neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor. O que é isso?
Foi um acontecimento histórico e, ao mesmo tempo, um grande mistério sobrenatural. Jesus, depois de ressuscitado, apareceu durante 40 dias aos seus discípulos. Concluído este tempo de 40 dias, numa quinta-feira, Jesus subiu aos céus.
Por isso a festa da Ascensão do Senhor teria sido celebrada originariamente na quinta-feira passada; mas como, infelizmente, aqui no Brasil nós não temos um feriado para fazer dia santo de guarda, então a Igreja, para que todos os fiéis possam participar da solenidade da Ascensão, transfere essa festa para o domingo. O que significa essa festa? Bom, vamos dividir essa nossa reflexão em duas partes.
Primeiro, vamos entender o que realmente aconteceu; depois, vamos ver o que isso significa na nossa vida. Primeiro vamos ver o que aconteceu porque, se a gente não tiver ideias claras, dificilmente a gente vai ter alguma conclusão e aplicação para a nossa vida. Vejam só, em primeiríssimo lugar, nós temos de recordar que Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, ou seja, Deus eterno.
Ele é filho de Deus, Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Então, quando a gente fala de Jesus, quem não tem fé se lembra de um homem; mas quem tem fé se lembra de Deus, ou seja, Ele é Deus que se fez homem. Nós, cristãos, cremos que Deus eterno é Trindade de amor Ele é Pai, Filho e Espírito Santo.
São três pessoas, mas um só Deus. Acontece que a Pessoa de Deus Filho criou para si — para a Pessoa divina do Filho eterno de Deus — uma natureza humana, corpo e alma. Então, dois mil anos atrás (para pegar a data tradicional: 2022 anos atrás), Jesus nasceu da Virgem Maria, o que quer dizer que, a partir dessa data, o Deus eterno tem uma natureza humana, que é dele e muito unida a Ele.
De tal forma que aquele homem nascido em Belém é o próprio Deus que veio nos amar com um Coração humano, com uma alma humana. Jesus passou, então, os seus dias aqui na terra, cresceu em Nazaré, pregou o Evangelho durante três anos e, finalmente, para mostrar o quanto Deus nos ama e para nos salvar, Jesus morreu na cruz. O que foi que aconteceu na cruz?
Bom, poderíamos aqui fazer uma longa reflexão; mas, para aquilo que nos interessa, o que acontece foi o seguinte. Na cruz, morreu o homem Jesus. Ou seja, o que acontece na morte?
O corpo se separa da alma, mas aquele corpo e aquela alma eram o corpo e a alma de uma Pessoa divina. Então, Deus veio viver a nossa morte. É claro que Deus não morre!
Deus nunca morreu nem nunca morrerá, mas Deus fez para si uma natureza humana, para viver a nossa morte e, com essa morte, nos dar a vida. Na cruz, nós fomos salvos. Jesus, então, para manifestar essa vitória que Ele alcançou na Sexta-feira Santa, ressuscitou ao terceiro dia e, dali para a frente, Jesus começa a aparecer aos seus Apóstolos, aos seus discípulos, para renovar a fé deles.
Durante 40 dias, Jesus foi aparecendo para que eles entendessem agora, finalmente — se eles ainda tinham alguma dúvida —, quem é Jesus. Então, nós podemos dizer que, a partir da ressurreição, Jesus começou a se apresentar como Ele de fato é. Ou seja, quando uma natureza humana se une com uma Pessoa divina, sabe o que acontece com essa natureza humana?
Ela é gloriosa. Não tem como não ser, gente! Veja, Jesus, durante 33 anos, “escondeu” essa verdade.
Durante 33 anos, Jesus viveu, digamos assim, como que impedindo que a glória da sua divindade passasse para a sua natureza humana. Só para recordar um acontecimento. Quando Jesus, um tempo depois que São Pedro disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16) — uma semana depois da profissão de fé de São Pedro —, Jesus subiu no Monte Tabor e ali apareceu glorioso para os seus Apóstolos, os seus amigos Pedro, Tiago e João.
Ali, Jesus apareceu com as vestes brancas e o rosto resplandecente como o Sol. Sabe o que era aquilo? Aquilo era Jesus mostrando o seu estado “natural”.
Ou seja, o que seria normal quando um ser humano, quando um homem, uma natureza humana (corpo e alma), está unido a uma Pessoa divina? É normal que essa natureza humana seja gloriosa. É coisa óbvia!
Então, o que Jesus mostrou na transfiguração é aquilo que é Jesus no seu estado normal, natureza humana e natureza divina unidas. Quando você une o ferro com o fogo, com fogo ardente, numa fornalha superaquecida, o que acontece com o ferro? O ferro se dissolve e começa a se comportar como se fosse fogo.
É isso o que acontece quando a natureza humana se une à divina, na união mais perfeita que existe, que é a união hipostática. Então, o que aconteceu? O grande milagre é: como é possível que Jesus — do seu nascimento, da sua encarnação no ventre da Virgem Maria, até a sua morte na cruz —, como é possível que Jesus tenha escondido a sua glória?
“Ah! Ele escondeu a sua glória, sabe por quê? Porque, por um ato da sua vontade, Ele queria viver a nossa vida”.
Sim, Jesus viveu verdadeiramente a nossa vida; para usar a linguagem da Carta aos Filipenses (cf. 2,7-11), em forma de escravo, em forma de servo, nessa forma servil do ser humano sofredor, do ser humano que cansa, que precisa comer, dormir… Então, veja. Durante 33 anos, Deus fez o milagre de viver a nossa vida.
Jesus como que retraiu, impediu que a glória de Deus redundasse na sua vida humana e Ele viveu uma vida humana igual à nossa em tudo, exceto no pecado, como diz a Carta aos Hebreus (cf. 4,15). Quando Jesus ressuscitou, o que aconteceu é que não havia mais essa restrição, não havia mais essa “contração”, digamos assim, da divindade, que impedia que os efeitos dela redundassem sobre a humanidade.
Na ressurreição, Jesus apareceu aos seus discípulos como de fato Ele é, com o corpo glorioso, ou seja, a sua natureza humana foi glorificada plenamente. Foi isso o que aconteceu na ressurreição. Uma vez que você entendeu que foi isso o que aconteceu na ressurreição, agora vem a coisa importante.
Nós temos, agora, uma natureza humana, um corpo e uma alma que estão vivendo a vida divina de forma incorruptível. Então, veja só, Jesus já não morre mais, Jesus não sofre, Jesus não tem fome, Jesus não tem sede, Jesus não tem sono. Não sofre.
É glorioso. É evidente que esse homem não tem mais lugar nesse mundo, no sentido de que agora Ele é um corpo glorioso. Como Ele, que é incorruptível, vai viver nesse mundo, que é lugar de corruptibilidade?
Está “fora de lugar”, você entendeu? Você entendeu que, a partir da ressurreição de Jesus, que agora tem uma humanidade que participa da vida divina plena e gloriosamente, é evidente que agora o corpo dele está “fora de lugar”. Não tem mais “lugar” neste mundo.
O que é a celebração da Ascensão? Nós celebramos aquele momento em que, passados os 40 dias da ressurreição de Jesus, em que Ele apareceu para os seus Apóstolos com o corpo glorioso, agora a humanidade de Cristo, em corpo e alma, vai para o seu “lugar”, ou seja, abandona esse mundo corruptível e vai para um lugar incorruptível, eterno, perfeito, junto de Deus. Aí você vai perguntar: “Mas onde é esse lugar, padre?
” Você entende que aqui não é uma questão espaço-temporal, ou espaciotemporal. Jesus, para mostrar que estava agora transcendendo este mundo, subiu diante dos seus Apóstolos. Conforme a tradição, a Ascensão aconteceu no Monte das Oliveiras.
Então os seus Apóstolos estavam lá no Monte das Oliveiras e viram Jesus subir e ser encoberto por uma nuvem. Aquilo era simplesmente uma manifestação de Deus para mostrar que Jesus não estaria mais acessível, disponível para nós neste mundo daquela forma em que Ele o estava antes, quando andava com os seus discípulos. Isso significa que Jesus, agora, embora o seu corpo esteja junto de Deus em algum “lugar” que a gente pode chamar Céu —o qual gente não sabe “onde” é, mas que a gente sabe que “é”, porque corpo precisa de lugar —, Jesus agora está mais presente porque, no seu estado glorioso, junto de Deus, Ele está mais presente a nós.
Os místicos podem enxergar essa realidade. Por exemplo, nos Atos dos Apóstolos, quando se descreve e se narra o martírio de Santo Estevão, Santo Estevão tem um êxtase. Os judeus estão lá xingando Estevão etc.
, e ele tem um êxtase e diz: “Eu estou vendo agora o Céu aberto e o Filho de homem, Jesus, de pé à direita de Deus” (7,56). Jesus está à direita de Deus, “ad dexteram Patris”. A gente diz que Ele está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, no sentido de que Ele tem um lugar estável.
Pois bem, Santo Estevão viu isso! E esse corpo glorioso de Jesus pode vir a esse mundo, se Ele quiser, como aconteceu, por exemplo, no narrado por São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 15. São Paulo narra a ressurreição de Jesus.
É o primeiro relato que a gente tem, historicamente, da ressurreição de Cristo. São Paulo diz que Jesus apareceu aos Apóstolos, apareceu a Pedro e depois, “como a um abortivo, apareceu também a mim”. Você vai dizer: “Ah!
não. A visão que São Paulo teve no caminho de Damasco foi só uma visão. Jesus não veio fisicamente”.
Resposta: É claro que Ele veio fisicamente! Por quê? Porque, senão, São Paulo não estaria falando dessa aparição numa lista de provas da ressurreição de Cristo, ressurreição corporal.
Jesus está lá. Em Primeira a Coríntios, cap. 15, Paulo fala que, “como a um abortivo, Jesus veio em carne e osso aqui e falou comigo”.
Então, houve uma aparição de Cristo ressuscitado fora de tempo (Jesus já estava no Céu) para São Paulo. Então, o que acontece? Assim como, misticamente, Estevão viu Jesus lá no Céu junto de Deus, fisicamente Jesus desceu e apareceu a São Paulo.
Jesus pode fazer as duas coisas: Ele pode aparecer misticamente e a gente vai e vê Ele no Céu, ou Ele pode aparecer fisicamente e as pessoas veem, verdadeiramente, Jesus fisicamente neste mundo. Ele é Senhor, Ele faz o que quer. Ora, tudo isso aqui é para você entender qual é o mistério que estamos celebrando.
Nós estamos celebrando o mistério de que a nossa humanidade, que foi assumida por Jesus e foi vivida por Jesus de forma não gloriosa durante 33 anos, agora está gloriosa, ressuscitada e, claro, já que está gloriosa, incorruptível, ela tinha de deixar o lugar de corruptibilidade que é esse mundo. Mas isso não significa que nós não temos contato com Cristo ressuscitado. Muito pelo contrário.
Ele está no Céu, na glória, exatamente cuidando de cada um de nós individualmente, como se nós fôssemos a pupila dos olhos, os seus únicos, os seus queridos. Então, Jesus ressuscitado, aquele homem que é uma Pessoa divina, está com a sua humanidade olhando para mim agora, lá no Céu, e me amando com a sua alma humana. Claro, Deus me ama com a sua divindade; mas Deus se fez homem e Ele me ama também com essa humanidade.
Eu tenho Jesus, e é por isso que Jesus é a razão de ser da nossa vida. Ele cuida de nós, nos ama e pensa em nós o tempo todo, e nós precisamos amá-lo, nós precisamos retribuir, precisamos verdadeiramente olhar para essa realidade. Agora, uma vez que a gente entendeu o mistério que nós estamos celebrando, como é que a gente aplica isso na nossa vida?
Para que serve isso aí? Bom, a primeira coisa para que serve é exorcizar as heresias do tempo moderno. Por quê?
Porque os teólogos modernos gostam de pensar Jesus como um ser humano “e ponto”: só como homem. E o que acontece? Isso aí é uma visão absolutamente incompleta.
Nós temos de lembrar que Ele é Deus. Então, Santo Tomás de Aquino, quando fala do mistério da Ascensão, lembra que, para a nossa salvação, o mistério da Ascensão é importante porque ele fortalece a nossa fé, porque ele fortalece a nossa esperança, porque ele fortalece a nossa caridade, mas também — quarta coisa — porque ele aumenta a nossa reverência por Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou seja: quando você pensa em Jesus, você tem de pensar nele glorioso.
É claro que os Evangelhos nos levam a pensar em Jesus na sua vida humana aqui, vivendo a vida em forma de servo com que Ele passou nesse mundo nos amando. Mas nós temos de também recordar em que estado está Jesus agora glorioso no Céu porque, senão, a gente fica com uma visão amputada de Jesus. Um “Jesus pela metade”.
Se você só se lembra da vida humana, servil, não gloriosa, da “kenosis” de Jesus, do seu esvaziamento aqui nesse mundo; se você só se lembra disso, você não está vendo o todo. E o todo é Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Então, Jesus, na Ascensão, aumenta a nossa reverência por Ele.
E vamos ser bem sinceros: falta muita reverência por Jesus. As pessoas terminam tratando Jesus como um “cara legal”, meu “amigão”, meu “companheiro”. É verdade que Jesus é nosso amigo.
Ele mesmo nos chamou de amigos na Última Ceia. Mas os Apóstolos o chamavam de Senhor! Ele é amigo, mas é um amigo que é Nosso Senhor.
Eu pertenço a Ele, a esse Senhor glorioso que morreu e se entregou por mim mas que hoje está glorioso. Por isso, a Ascensão aumenta a nossa fé, diz Santo Tomás, porque a gente vê o mistério do Cristo Senhor: duas naturezas, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em uma única Pessoa divina, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. O mistério da Ascensão aumenta a nossa esperança, diz Santo Tomás de Aquino, porque, vendo a humanidade gloriosa de Cristo no Céu, nós nos recordamos que essa glória é para nós também!
Nós também seremos um dia gloriosos, nossos corpos serão gloriosos no Céu um dia, e isso não é uma realidade de “conversa” só, uma “metáfora”, um “mito”, uma “lenda”. Não! É verdade.
Isso dilata o nosso coração por sabermos que nós iremos um dia entrar na glória do Céu. Claro, numa glória menor do que a de Cristo, mas numa glória verdadeira. Esperança!
Também a Ascensão aumenta a nossa caridade, porque é próprio da caridade ser extática, qual coração que sai de si e quer se unir a Ele. Nossas vidas estão escondidas com Cristo no Céu. É como se Ele tivesse roubado o nosso coração!
Jesus roubou o nosso coração e o levou para o Céu, e nós, que vivemos agora “sem” coração, queremos ir para lá, queremos nos unir a Ele. E podemos nos unir de fato em cada comunhão, em cada oração bem feita. É a caridade!
Então, eis aí para que serve para nós, na prática, celebrar a festa da Ascensão. Serve para fortalecer a fé, a esperança e a caridade, e serve para aumentar a nossa reverência por Nosso Senhor Jesus Cristo. É importante isso, o exercício de fé, esperança e caridade e a reverência, porque é nele que somos salvos.
É isso o que nos salva. Depois você vai ver que, amando muito Jesus, você vai depois ter mais paciência com os irmãos, vai ser mais caridoso, mais generoso, vai viver a vida de Cristo, porque vai estar unido a Ele. Isso tem consequências práticas, e sociais até.
Vejam, quanto mais o Cristo é glorioso no Céu, mais a gente transforma esta terra. Por quê? Porque sabemos que estamos aqui neste mundo para amar e servir a Cristo.
Por isso, deixando tudo para trás, nós nos lançamos e nos entregamos por amor a Ele, e com um amor bem concreto ao próximo, ao irmão neste mundo. Porque é esse amor concreto que nos leva a amar a Cristo, que está no Céu, glorioso, sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso. Que Deus abençoe você.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.