No nível um de suporte, a gente vai falar de uma pessoa que é dotada capacidade de usar palavras para se comunicar. Então, vale relembrar que quando a gente fala de falhas na comunicação, a gente não está falando necessariamente de palavra falada. A gente tá falando de uma pessoa autista, significa que ela tem dificuldades em se comunicar com as pessoas.
E comunicação pode ser gestos, pode ser Libras, pode ser braile, pode ser mímica, pode ser tudo. Então, quando a gente fala que uma pessoa é autista, nós estamos falando basicamente que ela tem falhas de se comunicar de todas as formas com outras pessoas e às vezes ela vai adquirir uma uma habilidade única de se comunicar, por exemplo, com as pessoas que usam comunicação alternativa. Falando do nível um, a gente tá falando de uma pessoa que necessariamente sabe usar palavras, ela sabe falar, mas nem sempre esta fala ela é utilizada para fins de comunicação.
Ou ainda eh essa comunicação que ela que ela se utiliza das palavras, ela é bastante limitada. Na aula anterior eu comentei que eh muitas vezes o repertório dessa pessoa nível um de suporte é bastante limitado. Então, ao voltar da escola eu pergunto como foi a aula e ela diz: "Bom, ah, o que que a profe deu hoje?
Qual qual como qual foi o conteúdo da aula? Ah, igual. Mas e o que que ela trabalhou?
Não sei. E não é que não saiba, não é que não tenha o que falar. A questão ali é que não há um interesse em te contar.
Aquilo não é interessante pra pessoa, por isso que ela não vai te contar. Então, não é que ela não lembra, não é que ela não queira, ela não interessa. E aí a falha de comunicação fica bastante evidente, porque há conteúdo para ser contado, ela sabe usar palavras para se comunicar, mas essas falhas na comunicação impede que ela utilize se utilize das palavras para te contar o que aconteceu na aula, por exemplo.
OK? Então, nós falamos que são pessoas que têm habilidades de usar palavras, mas que palavra oralizada, mas que não consegue usar isso para se comunicar muitas vezes. E aí quando a gente vai olhar, por exemplo, paraas crianças, crianças ali, vamos pegar ali maiores, talvez de 7, 8 anos de idade, ah, esses sintomas eles começam a ficar mais evidentes.
7, 8 anos de idade, as crianças começam a adquirir habilidades um pouco mais complexas pensando em cognição. Elas, desde pequenas já interagem com pessoas da mesma idade, mas ali na fase da alfabetização, algumas coisas vão ficando muito perceptíveis. Os professores têm ali na fase da alfabetização, eles solicitam algumas coisas, fazem os trabalhinhos em grupo e aquela criança não consegue se encaixar naquele grupo.
Ali por volta dos 9, 10 anos, as crianças relatam que elas são excluídas, começam a sofrer bullying, às vezes até antes disso, mas nos 9 anos isso é muito frequente. Então veja que aquilo que era sutil e que não foi visto lá por volta de um ano e meio, dois, três, como as crianças com autismo regressivo, que tem um nível dois de suporte, seriam vistas, seriam percebidas pelo atraso de fala. No nível um de suporte, isso não acontece.
Não há quase que na maioria das vezes uma percepção da comunidade, quer de profissionais que atenderam essa criança ali na pediatria, nas consultas mensais, quer da própria família, porque ela falava, mas ela sempre teve alguma alguns sinais, alguns sintomas de autismo, só que isso foi passando, isso foi ficando despercebido porque ela sabia falar e com a família ou com alguma algumas pessoas da família, elas se comunicavam. E isso piora um pouco mais ainda quando esses pais não tem, por exemplo, eh, amigos que têm filhos da mesma idade, quando essa criança não vai para uma escolinha ou quando ela vai para uma escolinha, para uma creche, mas os professores nem sempre têm esse conhecimento sobre autismo. Eles associam autismo com ah não conseguir falar.
Quando na verdade a gente tá falando de comunicação e não propriamente dito da palavra falada, OK? Essa criança vai crescendo lá por volta de 7, 8 anos de idade, 9 anos, algumas coisas já ficam mais evidentes. Perto da adolescência, aos aos 11 anos de idade, ali na pré-adolescência, essas esses sintomas eles vão ganhando mais robustez.
Alguns ficam muito evidentes. A gente na fase da adolescência, aos 12 anos, a gente tá falando de fase grupal, necessariamente fase grupal. Os adolescentes, mesmo hoje na na era da tecnologia, mesmo que sejam restritos aos intervalos das aulas, ah, eles eles se reúnem em grupos no intervalo para interagir, para entrar na fila da cantina para comprar comida.
Eles compartilham comida, eles compartilham interesse, a série que ele tá vendo. Eh, se vai fazer trabalho em grupo, já chama os melhores amigos para ficar perto. Então, essas panelinhas vão acontecendo e isso é natural, faz parte da idade, faz parte da fase do desenvolvimento que nós culturalmente chamamos de adolescência.
Aí vamos fazer aqui um um adendo nessa fala. A adolescência, ela não é uma fase do desenvolvimento de fato, ela é cultural. Ah, quando a gente fala de puberdade, nós estamos falando de desenvolvimento.
Quando nós falamos de adolescência, nós estamos falando de uma etapa culturalmente conhecida como adolescência. Esse período em que não se é criança, não se é adulto, você é algo no meio disso. E esse algo no meio disso, em transição, culturalmente chamamos de adolescência.
Mas é verdade dizer que nem todas as culturas existem adolescentes. Existem comunidades indígenas, por exemplo, que a criança deixou de ser criança na hora que ela menstruou, ela já passa a ser vista então como uma mulher, como uma adulta e que pode ali casar e assumir suas responsabilidades. a nossa cultura, eu estou falando da cultura brasileira, a fase, o período da adolescência, as pessoas, a média da população dos adolescentes tem alguns comportamentos que são comuns, que é, por exemplo, interagir em grupo, ter alguma desregulação emocional ali que é comum.
Alguns pais, a maioria, na verdade, relatam períodos de rebeldia, de dar respostas um pouco mais ácidas. Então, veja que isso é o esperado na adolescência. Quando essa criança passa pro período da adolescência, nós observamos que não há não há essas características comuns às crianças típicas que passaram pro período da adolescência.
Então, ela não tem essa fase grupal. H, se ela desenvolve um amigo, é um amigo que comum tem características muito semelhantes a da pessoa autista. Então, ela se interessa por pessoas que se interessam por coisas restritas, assim como ela, que fala sobre os mesmos assuntos.
Nós vemos que eles criam pequenas comunidades, às vezes de uma pessoa, de duas pessoas, que também tem comportamentos que são parecidos, que são diferentes. Então, por exemplo, se ele tem associado a esse autismo uma alta habilidade e gosta de coisas extremamente complexas, de cálculos de matemática, a gente vai observar que outros que com quem ele interage, que são pouquíssimos, um ou dois, também vão ter características semelhantes, vão se interessar por assuntos semelhantes. Só um pouquinho bad aqui porque tem um bicho aqui na minha caneca.
que tá pousando aqui no negócio. Eu dei uma parada ali com oito e nós estamos com 10. Eu também tô dando uma parada só para depois nós não ficar viajando aí, talvez em achar o tempo, né?
Quando esse adolescente autista cresce, eh, algumas coisas então vão ficando ainda mais complexas, porque existem comorbidades, eh, que são eh comuns aparecer nesse período da adolescência, período da puberdade é um período em que alguns autistas, nível um de suporte morte, desenvolvem depressão, desenvolvem ansiedade patológica, desenvolvem ideação suicida, desenvolvem eh sintomas que podem levar a uma esquizofrenia, podem vir uma uma esquizofrenia associada, eu mesmo já atendi algumas vezes, podem desenvolver epilepsia e especialmente se for um adolescente autista que entra em contato com o uso de substâncias e ele tem uma predisposição genética a esquizofrenia, tem histórico familiar de esquizofrenia, ele pode vir a desenvolver também esse transtorno associado. Então veja que em cada fase do desenvolvimento é é o nível um de suporte que a gente entende ser o desejado dos pais com autismo, no sentido de que vai ter uma fala, né, oralizada, mais estabelecida, ele consegue dizer o que ele está sentindo, o que ele quer comer, fazer os seus pedidos, sustentar diálogos, mesmo que sejam curtos. Então, todo pai de autista, ele quer que o filho eh se desenvolva e diminua o nível de suporte.
Então, uma pessoa com autismo nível um, mesmo sendo dotada do uso da palavra falada e ela tendo condições de se comunicar sobre coisas eh básicas do dia a dia, como por exemplo, dizer o que quer comer, onde quer ir, ou também habilidades mais complexas, pensar o que ela quer fazer quando crescer. Eh, mesmo ela sendo o nível um de suporte, ela vai apresentando dificuldades que vão se modificando à medida em que ela cresce. o desenvolvimento vai acontecendo e algumas coisas do desenvolvimento, alguma, alguns comportamentos do desenvolvimento que seriam esperados paraa faixa etária não vão acompanhando o crescimento da criança.
Então, a criança cresce, mas o desenvolvimento das habilidades que seriam esperadas para cada faixa etária não vai acompanhando esse crescimento. Então, aquilo que era esperado paraa adolescência não vem. aquela fase grupal de interagir, de conversar sobre coisas que são importantes pro outro.
E aí nós temos agora um adolescente de 15, 16 anos, 17 anos, que vai tendo interesse em namoro, por exemplo. Mas como que ele vai namorar? Ela vai namorar se ele não tem habilidades para namorar.
Ele não consegue, ela não consegue sustentar diálogos, assuntos sobre aquilo que é importante pro outro. ele consegue ou ela consegue conversar sobre coisas que são muito específicas do seu interesse. Exemplo IA, exemplo matemática, ciência, eh os assuntos tendem a ser bastante restritos.
E veja que numa comunidade adolescente neurotípica, isso não é interessante. Eh, via de regra, os assuntos da comunidade neurotípica, eles podem ser assuntos bastante interessante, mas adolescente é adolescente. Ele conversa sobre coisas da rotina, do dia, da série que ele assistiu, do filme que ele viu, daquilo que vai sair no cinema, do cantor que vai estar na cidade.
E o adolescente autista, ele tende a não ter interesse em assuntos que ele considera e avalia como banal. Ele tem interesse quase que na maioria das vezes em conversar com adultos, com pessoas mais velhas, com adolescentes mais velhos que ele, porque o assunto faz mais sentido. Como que vai namorar?
Então, eh, veja que as dificuldades elas vão se modificando, ele vai crescendo um pouquinho e a gente vai tendo agora as dificuldades para entrar no mercado de trabalho ou até mesmo para ir pra faculdade. Para ir para uma faculdade, você precisa ter habilidades, você precisa saber fazer trabalhos em grupo, você precisa tolerar muitas vezes ficar sozinho distante dos pais que te mandam para estudar num grande centro e alugam apartamento para você autista. E você tem que ter essa habilidade de administrar tua rotina, fazer teu café, esquentar tua janta, tolerar essa solidão agora, esse essa ausência de suporte.
E aí quando a gente fala de autismo, a gente tá falando de suporte. Percebe o quão complexo pode ser? Então agora esse autista cresce, ele passa pelo período da faculdade ali com muitas dificuldades.
Ah, imagino que se tem laudo, fizeram todas as adaptações necessárias para ele dentro do contexto da universidade. Se essas adaptações não foram feitas, vai sofrer bastante. via de regra sofre bastante, tende a sofrer bastante porque ah há um excesso de ruídos, um excesso de trânsito na sala de aula, um excesso de estímulos.
Ah, as cobranças são feitas para que cumpra prazos, as provas tendem a ser às vezes descritivas e as perguntas são muito longas. Se esse autista tem um TDH associado, há uma dificuldade de compreazo, há uma dificuldade de entender uma questão que é muito grande, estilo Enem. Então veja que muitas adaptações precisam ser feitas às vezes nem tanto pelo autismo, mas pela comorbidade que sempre vem associada, como um TDH, por exemplo, mais impulsivo ou desatento, mas pelo próprio autismo, a necessidade de fazer trabalhos em grupo.
OK, conseguimos passar por esse período de 17 a 21, 22 anos, quando as coisas acontecem dentro do tempo, certo? Ah, e vamos agora pra fase adulta. A gente vai tá falando de um adulto que talvez não conseguiu eh estabelecer uma relação de namoro, que não conseguiu estabelecer eh uma relação de amizade, ele terminou a faculdade e agora efetivamente ele precisa entrar no mercado de trabalho, ele precisa eh se virar sozinho, pagar suas contas, administrar sua vida.
E isso tende a ser bastante ansiógeno, isso tende a causar bastante sofrimento. Então, eh, eu tô explicando, eh, o detalhamento de tudo aquilo que não vem no DSM descrito, mas que vem nos relatos das pessoas com autismo, nível um de suporte. Quando nós atendemos essas pessoas na clínica e eu que trabalho com eh intervenção comportamental para pessoas que são oralizadas, eu vejo que eh os as dificuldades se modificam no longo processo de desenvolvimento dele e de crescimento dessa pessoa.
Então, eu tenho pessoas que estão comigo há 8, 9 anos e que eu tive a oportunidade de ver criança, vi adolescente, agora entrando na fase adulta, tenho adolescentes que estão adultos. Então, eh, isso dá uma uma bagagem pra gente ver, eh, esse desenvolvimento neuroatípico acontecendo. E eu faço, é, faço questão de mencionar dificuldades porque eu não gostaria que nessa aula, nesse curso ou neste módulo, eh, o pai e mãe, especialmente pais de pessoas com autismo, tem uma falsa impressão de que o nível um é menos autismo e não é.
Então é menos nível de suporte, mas veja que mesmo nível de suporte reduzido, a gente ainda tá falando de uma quantidade de suporte importante, mas que quando comparado ao nível dois e três, realmente necessita de menos suporte, mas não significa que não vá ter sofrimento por todas essas falhas de comunicação, de interação e de comportamentos restritos, interesses restritos, assuntos restritos. Então, nós falamos aqui sobre os desafios do nível um de suporte e eu vou falar agora para vocês do nível dois de suporte. M.