Toda quaresma é tempo de nós revisitarmos os relatos da paixão. É verdade que a quaresma tem assim duas fases, né? A primeira fase é mais voltada para a penitência, deixar o pecado, etc.
e tal; essa é a ênfase da pregação da Igreja. Mas tudo isso vai nos preparando, nessa luta espiritual para deixar o pecado, vai nos preparando para aquele tempo mais intenso, no final da quaresma, que a gente chama de tempo da paixão. A partir do quinto domingo da quaresma, a quaresma como que muda de tonalidade.
Ela se volta para a cruz de Cristo e para a paixão. É um tempo de nós meditarmos mais assiduamente, mais intensamente, a paixão de Cristo. E o que é que significa para nós meditar a paixão de Cristo?
Não é a primeira coisa! É ali que está o grande ato de fé que nos salva. Por quê?
Porque o amor que salva é o amor que Ele tem por nós, e que a gente recebe. A fé é a forma de você receber esse amor. Agora, quanta gente olha para a paixão de Cristo sem fé e não entende o que aquilo é, né?
Eu me lembro quando foi lançado aquele filme do Mel Gibson. Na época, eu fiquei muito empolgado com o filme, como ainda sou, né? Mas com o passar do tempo, a gente já vai se acostumando com a ideia.
Eu fiquei muito empolgado e assisti o filme do Mel Gibson no cinema oito vezes para notar os detalhes, porque aquilo é um material muito rico. Eu me lembro que a segunda vez que assisti foi num shopping aqui em Cuiabá. Eu saí da projeção do filme e sempre saí assim, meio meditativo, meio silencioso, querendo.
. . né?
Mas tinha uma menina, uma adolescentezinha, que me reconheceu e disse: "Ai, padre Paulo! O senhor aqui, etc. , etc.
! Que coisa! " E ela puxando assunto, e eu quieto.
E ela puxando o assunto, e eu quieto. Ela, pelas tantas, disse: "Pois é, o que o senhor achou do filme? Nossa, pesado, né?
Faz tempo que não assisto um filme de horror pesado assim. " Esse é o referente dela; é um filme de horror. Mas, se você pensar bem, é isso mesmo.
Ou seja, a paixão de Cristo é um filme de horror para quem não tem fé. Você precisa de uns óculos especiais para conseguir enxergar o invisível. Porque, de fato, se você só fotografa o que aconteceu com Cristo, aquilo foi um filme de horror.
Aquilo foi uma coisa assim, medonha, um crime, uma crueldade. Mas o Mel Gibson, com uma grande inteligência espiritual, foi intercalando as cenas da paixão com cenas da última ceia, em que Jesus ia fazendo o comentário espiritual da paixão, ia dando o sentido, o significado. Porque foi na última ceia, foi na eucaristia, que Jesus mostrou, digamos assim, o amor que Ele iria nos dar na cruz.
É como se a paixão fosse uma espécie de filme mudo, e a última ceia é o subtítulo, a legenda embaixo; ali vai te dando o significado: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós. " Este dar, quando você filma a crucifixão, você não vê isso. Você vê Jesus arrastado como um animal sendo levado pela coleira.
Você vê Jesus pregado na cruz, você vê Jesus sem liberdade, mas na eucaristia, o momento da liberdade, o momento em que Ele está dando o significado, está dando para nós o roteiro, o script de tudo que Ele vai fazer, está dando os óculos da fé para nós entendermos. Infelizmente, os apóstolos não entenderam muito. Mas nós, que vivemos depois de Pentecostes e temos o Espírito Santo Paráclito que nos ajuda, conseguimos entender.
Ainda tenho muitas outras coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender. Virá o Paráclito. Então, nesse tempo de quaresma, não é somente o tempo em que a gente luta com Satanás; é o tempo em que a gente pede o Espírito Santo.
Pedir o Espírito Santo, esses óculos novos, esses óculos da fé, para olhar para a paixão de Cristo, para o amor com que nós somos amados e, então, enxergarmos: "Meu Deus, como me amaste! Meu Deus, vós vos entregastes por mim! Foi por mim!
Foi por mim que Ele viveu tudo isso! Que alegria passar pelas tempestades deste mundo, sabendo que nós somos amados assim! " Ah!