Eu conto sempre e até foi postado pela G Sofia, né, no meu canal no YouTube, algo decisivo. A mediocridade ela nos pega. E essas semanas agora postaram uma reflexão minha sobre a necessidade de lavar louça.
Muita gente foi assistindo o vídeo imaginando que era uma instrução, né, de como lavar louça melhor, etc. Embora eu seja alguém que lave louça, né, isso não significa que eu seja capaz de fazer, né, um poste com orientações como lavar louça, né? É claro que existem dicas a fazê-lo, mas quando eu lavo louça e acho que você também e eu o faço diariamente porque Cláudio e eu temos uma combinação.
Eu sempre de manhã, quando acordo, lavo a louça, né, que ficou do jantar e faço parte daquilo que é o café da manhã e fica para ela o que é a louça do almoço, que é sempre a mais complicada, porque depois que você almoça, você quer sentar um pouco, né, repousar, cochilar e aí fica um pouco mais, né, com um encargo maior. Mas uma das coisas que você já fez na vida, e eu faço também, é que quando você vai lavar louça, dá uma raiva, da nada de você ter que fazer aquilo. E aí você olha aquilo, olha para lá, tem dia que você fala assim: "Ah, vou deixar, pois eu lavo.
" Deixa hoje junto com a louça de ontem, de repente você tá com uma pilha imensa espalhada e os teus armários estão meio vazios dentro. Você sabe que isso vai te capturando pouco a pouco, porque a gente se habitua com o nojento. A gente se acostuma com o nojento.
Assim como ninguém estranha seus próprios aromas, a gente se habitua. Você e eu sabemos disso. Quer ver um exemplo concreto?
Quando me mudei para São Paulo, em dezembro de 1967, pouca gente aqui talvez tenha ideia disso. Essa cidade tem muitos rios sob ela. Aliás, nós estamos em cima de um, que é o rio que vem do Pacaembu e vai até o Tieté.
Há muitos rios, um debaixo da avenida 23 de maio, outro sobre a Avenida do Sumaré e os rios que são visíveis, como é o caso especialmente do Tietê, né, e do Pinheiros. Quando eu mei para São Paulo, esses dois rios eram navegáveis. Aliás, a gente pescava nesse rio e nadava.
Não por acaso na beira desses rios se formaram vários clubes de regatas. O Corinthians nasceu como um time de remo, razão pela qual o símbolo do time é um timão, timão de barco. Depois coincidiu com o apelido que o time se deu e a gente nadava clube de regata, etc.
Eu ia com o meu pai pescar e nadar no rio Tiatê. Pois bem, nós assassinamos esses dois rios. Eles estão mortos, eles fedem.
podres. Tanto que vez outra a gente vê a imagem de uma capivara correndo na beira do rio ou de uma garça, você diz: "Olha, lã, como se a garça fosse surreal, como se a capivara fosse surreal. E às vezes é a persistência de uma memória que a gente se habitua.
Interessante, porque nós assassinamos esses dois rios. Não é impossível que eles deixem de ser assim como em outros lugares do mundo. Hoje o Tamsa em Londres não só é navegável, como se pode nadar nele na UA.
Isso num país que fez a revolução industrial no ocidente e poluiu tudo. Claro. O pior é que a gente se habitua.
Pior do que se habituar com o podre do rio é que a gente acostuma. Pior ainda, tem saudade. Você tá viajando no interior de São Paulo, vindo lá do final da Castelo Branco de Santa Cruz do Rio Pardo, da onde é uma boa parte da minha família.
E é lá que termina a estrada rodovia Castelo Branco. Olha que interessante. Quando você vai entrando na Marginal Pinheiros, aquele fedour, a hora que você chega em São Paulo, diz: "Ai, graças a Deus, já tô em casa".
Você tá vendo pela Fernão Dias, pela Dutra, pela Irton Sena, você entra no Titê, aquela coisa podre, diz: "Ai, que bom, já tô chegando". A gente pousa no Rio de Janeiro, no aeroporto Antônio Carlos Jubinho, galeão, abre a porta da aeronave, quando ela não tá com finger, vem aquele fedor do mangue em volta. Ai, já cheguei.
Rio de Janeiro. A gente se habitua com o podre, hein? A gente se habitua com o podre na conduta, na política, na igreja, na escola, na nossa ação.
A mediocridade ela nos captura. Por isso eu faço um esforço de não deixar de lavar a louça. Você diz assim: "Mas um dia só, opa, eu vi agora alguns bombeiros civis andando aqui por dentro e me lembrei de um conselho do Corpo de Bombeiros que eu repito sempre e que aparece em alguns dos meus livros que diz que, atenção, nenhum incêndio começa grande.
Nenhum incêndio começa grande. Todo o incêndio começa com uma faísca, uma fagulha, um disparo. E por isso, é claro que é chato todos, eu sei que amanhã às 4:20 da manhã eu vou lavar a louça do jantar de hoje e ainda ficarei com a do café da manhã que Claudio e eu vamos tomar.
Minha vendeta, que ela fica com a do almoço, que tem panelas também. Olha que coisa boa. Por que que eu vou lá e lá vou?
Porque você não acostuma a deixar. Assim como eu posso acostumar a deixar parte das roupas que tô usando pendurado atrás da porta. Ou vai deixando jogado em cima de um mancebo ou vai largando.
Diz assim, mas isso é obsessão? Não, como eu digo sempre em vários lugares, a disciplina é a organização da liberdade. A disciplina é organização da liberdade.
Quanto mais disciplinada ou disciplinado você e eu fomos, mais livres nós vamos ser, porque nós vamos ter mais tempo para as coisas que de fato tem sentido nesta hora. Claro que eu vou lavar a louça e eu não quero. Mas eu faço porque, aliás, eu faço várias coisas que eu não quero.
Uma das coisas que eu sempre lembro, à vez outra me entrevistam na área empresarial dizendo assim: "Que que o senhor acha da juventude atual que diz que só gosta de fazer o que gosta? " Eu digo: "Bom, isso é um sinal de sanidade, porque só um imbecil gostaria de fazer o que não gosta. No entanto, para fazer o que gosta, muitas vezes você tem que fazer o que não gosta.
Eu adoro dar aulas, mas eu não gosto de corrigir prova. Se eu pudesse, eu terceirizaria a correção de prova. É que eu não posso fazer.
Sabe por quê? Porque uma das coisas que permite que eu saiba como eu estou ensinando é quando eu leio a maneira como as pessoas estão aprendendo. Eu só sei se eu estou ensinando corretamente se eu noto que as pessoas estão escrevendo coisas que eu ensinei de modo correto.
Mas é chato você corrigir prova significa num domingo à tarde a família inteira saindo, dizendo tchau e você lá com 200 provas sobre a mesa, 200 redações, 200 textos em que você vai ler sobre o mesmo assunto nas 200 com letras inacreditáveis. Parte delas não parece vir do Salvador dali, mas do Picasso. É mais que surreal.
É dadaísta ao extremo. É cubista como Picasso. Já imaginou?
Mas eu preciso fazê-la. Assim como eu também não gosto de lavar louça, assim como muitas vezes não se gosta de cuidar de uma criança, mas é preciso fazê-lo. Porque para você fluir os outros momentos, você precisa ser capaz também, claro, de fazer o que não é tão agradável.
Nesta hora volto. Uma pessoa que tem a recusa, a mediocridade entende essa percepção e vai além dessa condição. E eu lembro isso exatamente porque já pensou a ideia de eu ter de lavar a louça e eu lavo e vou reclamando nos primeiros 5 minutos sozinho naquele horário.
Mas na sequência eu começo a querer que aquele seja a melhor louça lavada do mundo. Não quero que eu seja o melhor lavador de louça do planeta, mas eu quero que aquela seja a minha melhor lavada de louça. Eu quero que eu cortela não seja medíocre naquilo.
E aí eu vou lavando, lavando e vou guardando, colocando em ordem dentro do escorredor. E aí ao final, acho que você já fez isso várias vezes. É uma coisa quase torturante não fazer.
Você quando termina tudo, pega um pano com água, passa em todo lugar, aí pega o paninho, enxuga e põe de lado. Ainda limpa a torneira um pouco e para para olhar a obra feita e sorri sozinha ou sozinho da obra bem feita. Yeah.