[Música] [Música] Olá pessoal eu sou o professor Paulo Silvino Ribeiro sou Doutor em sociologia pela Unicamp e sou professor da sociologia e política escola de humanidades nós estamos aqui com a disciplina política e parcerias entre o público e privado no Brasil e a nossa aula agora é sobre os ismos da política nacional especificamente Nesta aula nós vamos estudar as relações simbióticas entre o público e o privado na construção da vida política e da vida social pois bem quando falamos sobre vida política e vida social talvez tem uma palavra chave que sempre vem à nossa mente
que é a democracia não é e E se nós queremos entender quer dizer o processo de construção ah do nosso país e do Estado Nacional portanto nós temos que entender quer dizer em que medida a democracia se fez presente se fez ausente se ela é um processo permanentemente em construção não é e evidentemente ao falar da Democracia nós somos remetidos a pensar sobre a esfera pública ou interesse público ou interesse coletivo aquele interesse que não é meu nem seu Mas é ao mesmo tempo meu e seu de todos quer dizer a coletividade a a a
ou seja eh o todo né e que não é um todo homogêneo é heterogêneo do ponto de vista racial de classe da sexualidade enfim das Gerações né então esse todo esse esse esse coletivo é o que nós vamos chamar aqui de ordem pública porque a ordem pública tem interesses diferentes de indivíduos que são diferentes portanto a ordem pública é a área né o campo dos interesses plurais né e tem o estado né via de regra o estado é instituição que que que deveria pelo menos em tese né garantir né Eh a convivência né desses interesses
plurais Tá certo né E claro também entender que há interesses que são específicos eh dessa sociedade heterogênea mas há interesses que são comuns a toda a sociedade não é então isso tudo tá na ordem pública o que seria a ordem privada ordem privada ela não é necessariamente inimiga da ordem pública porque Evidente se nós somos uma sociedade heterogênea significa que os indivíduos têm as suas própr seus próprios interesses particulares privados e eles são legítimos pergunto isso a vocês Claro São legítimos o problema é quando o interesse particular se sobrepõe e prejudica o interesse coletivo Esse
é o problema então quando falamos de democracia Temos de pensar na relação do público e privado e eu tenho que olhar paraa história do Brasil e tentar compreender como que esses construtores esses atores políticos que vão dando vida ao estado consideraram a boa relação entre o público e o privado e é evidente que pra gente consiga de fato garantir que os interesses heterogêneos sejam defendidos sejam garantidos nós temos de ter uma ambiência democrática e essa ambiência democrática não vai existir se houver portanto um descompasso né ou e uma desvantagem uma palavra mais acertada talvez entre
os interesses heterogêneos da sociedade não há uma vida que possa valer mais do que outra não é não há uma pessoa que precise mais de habitação do que outra Claro as que não tem sim mas todos têm o direito à habitação todos têm portanto né para quem já leu alguma coisa sobre cidadania ou vai estudar vai aprofundar aí que é um tema importante para nós evidentemente a cidadania composta por três direitos o direito civil o direito político direito social então a democracia tem que assegurar isso mas vamos olhar para nossa história e esse é o
convite que eu faço aqui na aula vamos olhar paraa nossa história a história da formação do Brasil do Estado Nacional e vamos tentar compreender Quais foram os percalços e eh portanto percalços que são consequência de uma relação palavra um pouco forte mas é verdadeira de uma relação promíscua entre a ordem pública e a ordem privada quando então os interesses privados de alguns grupos se sobrepuseram em relação ao interesse do coletivo essa é uma chave fundamental para que portanto possamos entender Até mes discão sobre em que medida a república foi orientada por uma democracia enquanto ilustração
ora a explicação está portanto na forma como historicamente do Brasil colônia até os dias atuais temos então permitido e uma relação complicada entre ordem pública e privada não é então é importante pensarmos que é a partir dessa chave interpretativa que podemos pensar a construção do Estado Nacional e eh dentro das ciências sociais brasileiras né quer dizer ciências que estão aí eh sociologia antropologia Ciência Política enfim ciências que estão aí portanto eh interessadas em compreender os processos sociais dentro dessas ciências alguns autores e que são considerados autores clássicos porque enfim eh e aí é importante dizer
um autor é clássico não só porque faz muito tempo que ele escreveu mas um autor é clássico porque aquilo que ele que ele disse ainda vale né de modo contemporâneo para provocar uma reflexão então por isso que esses autores e aqui faço referência a pelo menos três né que eu acho que são importantes para esse nosso estudo né Eh são autores nas Ciências Sociais brasileiras que estão tentando trazer para nós algumas respostas sobre essa relação entre o público e privado e sobre portanto em que medida em que medida essa relação embot determinou né e influenciou
a construção do estado brasileiro eu começo portanto aqui falando sobre um autor como Nestor Duarte né Eh que aponta para nós que essa essa relação imbricada essa sobreposição já vem desde o período do Colonial e que eh Essa sobreposição era tamanha a tal ponto que toda a Organização das próprias instituições né a a a ou da própria montagem da sociedade brasileira era feita de modo distanciado da coroa né A coroa portuguesa como instituição eh principal portanto Como o próprio estado né na medida em que que os latifundiários né portanto aqueles que eh eh tinham o
poder da terra entendiam eh que poderiam eh prescindir né de qualquer prestação de contas ou de obediência em relação à coroa e que poderiam resolver tudo eh no âmbito privado né que poderiam portanto resolver tudo eh nesse âmbito particular já que a relação deles com aquilo que ainda de modo eh não com muita forma definida mas que nós poderíamos chamar de o início eh da sociedade brasileira então a relação desses latifundiários com essa sociedade brasileira não era marcada eh ou não era controlada pelo primado da Lei por uma constituição né quer dizer pautada aí em
premissas para uma ordem pública não era a partir de relações pessoais aliás importante dizer né que o Nestor Duarte assim como um segundo autor que já quero citar Sérgio barco de Holanda eh vai dizer que o estado no Brasil começa a se constituir como uma grande reunião de famílias com a grande reunião de portanto eh representantes de uma oligarquia ou de uma aristocracia então vejam vocês que a ideia de povo ela não aparece né e em tese né ou Teoricamente o estado não é como vai dizer o Sérgio Buarque né em um famoso livro Raízes
do Brasil um livro importante enfim quem tiver quem tiver tempo vale a pena a leitura eh vai dizer que o estado não é a evolução da família a família é um clã em que a sociabilidade em que a legitimidade do Poder do pai da mãe se dá de fórum íntimo são relações eh subjetivas que pautam a ordem privada portanto elas não poderiam orientar a ordem pública porque o estado representa a ordem pública o estado representa essa sociedade heterogênea como a gente já tratou neste momento aqui então Eh esse nosso gosto este nosso eu diria eh
esse nosso bemquerer pela ordem privada se segundo Nestor Duarte segundo Sérgio boar outro nome importante do pensamento social Brasileiro né Gilberto Freire que escreve Casagrande sem zala eh vai dizer o seguinte olha temos este gosto pela coisa privada porque isso seria resultado da herança ibérica o iberismo né O que que isso significa quer dizer É de fato a referência cultural a referência eh portanto ideológica e cultural eh de Portugal né de Portugal da Península Ibérica né o iberismo via de regra para estes autores né teria como traço o apego à família o apego à religião
às relações familiares né Eh Enfim uma série de elementos que do ponto de vista moral orientariam o comp ento das pessoas para favorecerem os interesses privados em detrimento dos interesses públicos E aí eu quero chamar atenção Para um certo conceito eh apresentado aliás pelo Sérgio boar de Holanda que é a ideia do homem cordial mas este homem cordial assim o é não porque seria necessariamente educado afável amável não o contrário o homem cordial Ele é um homem que que só pensa no seu interesse e portanto essa cordialidade tem a ver com ouvir o coração portanto
orientar-se apenas pela subjetividade pela informalidade né Eh e não necessariamente por todo rito Social pela formalidade que deveria portanto pautar a nossa relação social democrática né eh eh eh e que portanto não é obviamente a lógica da ordem privada mas é evidente que eh essas chaves interpretativas elas são sugestões de análise né Elas não são tidas Como de fato eh um dogma Uma grande verdade até porque né e tanto eh a antropologia como a sociologia a história né Eh nessas últimas décadas analisando o Brasil percebe denota e traz pra gente vários outros os elementos que
indicam como que o iberismo né esse portanto esse conjunto de valores ibéricos eh influenciam a cultura brasileira mas não são tão determinantes mas como chave interpretativa vale a pena pensar né então embora sejam leituras importantes elas não são necessariamente dogmas elas não são necessariamente eh eh como uma lei da física né quer dizer há Outros tantos elementos a ao longo da da da nossa formação social Eh que que vão sendo também importantes para que a gente pense a nossa cultura política Nossa prática política a forma como a gente eh se relaciona não apenas entre nós
na sociedade Mas a nossa relação com o estado com o estado brasileiro enfim né mas eu também queria chamar atenção e vale a pena né para uma outra leitura de um autor eh mais contemporâneo o antropólogo Roberto da Mata né eh que traz uma explicação muito eu diria Ah muito válida e bastante interessante sobre uma frase que eu tenho certeza que que todos nós aqui em algum momento na vida já ouviu né aquela velha frase do sabe com quem você está falando não é e essa explicação que o Roberto da Mata traz ela é muito
interessante até porque ela dialoga com Sérgio boar que dialoga com Gilberto Freire e dialoga com nistor duar né ela dialoga também em alguma medida com essa chave interpretativa do iberismo né mas o que que ela traz para nós o que que essa leitura do Roberto da Mata traz para nós eh explicando essa frase eh que tá aí no nosso cotidiano ele vai dizer que embora a sociedade brasileira né ela tenha instituído um estado ela tenha portanto se tornado republicana embora ela tenha assumido valores liberais embora eh o tempo todo a gente fale sobre a importância
que tem a democracia a importância que tem a liberdade a importância que tem a Equidade entre as pessoas né o fato é que na prática né quer dizer eh eh eh no nosso cotidiano nós ficamos o tempo todo reiterando a diferença entre indivíduo e pessoa né Essa é uma chave interpretativa bem legal né vejam vocês quem é o indivíduo o indivíduo é o é o CPF é aquele portanto que não tem nenhuma notoriedade é um cidadão comum né claro que do ponto de vista da Democracia o indivíduo ele deve ser o mais respeitado porque E
olha que coisa curiosa todos somos indivíduos mas ser indivíduo do ponto de vista da ordem privada não é um bom negócio melhor do que ser indivíduo é ser pessoa porque a pessoa ela tem distinção Ela tem notoriedade ela tem sobrenome ela tem um cargo né ela tem também uma distinção social do ponto de vista de classe não é então Ou seja quando utilizamos ou quando alguém utiliza a frase Você sabe com quem você está falando este é um exercício de dramatização da vida Tá certo de de de de encenação da Vida em que quem diz
a pergunta sabe com quem está falando está retomando e Relembrando o seu interlocutor de que alguma alguma afronta ou alguma quebra Tá certo de uma regra de uma lei que estabelece a desigualdade alguma fronta essa desigualdade sofreu ou seja embora a sociedade fale de igualdade naturalizamos a desigualdade e quando alguém na condição de superior porque se pensa como superior não é que seja mas alguém que se pensa como superior e que tem essa certeza né É afrontado nãoé então pensemos em um exemplo hipotético ou seja alguém eh que na condição de Juiz de enfim ou
de alguma autoridade pública é parada numa blitz ou é portanto abordada como um indivíduo e ela chama atenção daquele que o abordou e diz mas você sabe com quem está falando ou seja é como se portanto essa igualdade não pudesse existir mas essa lógica da desigualdade portanto que tá presente na frase sabe com quem está falando ela só faz sentido quando a gente entende que a nossa Cultura de novo isso é uma chave interpretativa mas importante para nós mas que a nossa cultura portanto naturalizou que a ordem privada e que o privilégio deve prevalecer como
modos operand como lógica da nossa sociabilidade né então Eh Essa é portanto aí né uma chave eh interpretativa interessante né porque ela já traz também alguns elementos para que a gente pense em que medida eh essa essa essa busca pelo privilégio de alguns grupos também prejudicou ou eh embot determinou a construção do Estado Nacional e fez com que o Estado Nacional Brasileiro trouxesse para dentro de si essas contradições da sociedade ou seja mesmo que o estado se projetasse como a instituição que defende a soberania Popular etc etc acabou trazendo para dentro né Eh E é
claro que quem trouxe isso para dentro do estado foi a própria Elite Construtora do estado não vamos perder de vista que o estado é um projeto da Elite né Eh pelo menos assim o foi desde o século XIX não é e isso portanto vai ser a matéria prima o elemento que vai portanto orientar a relação do estado com a sociedade e ao que nos parece né Não só do ponto de vista histórico Mas pela própria análise da nossa realidade atual ao que parece essa gramática política denota o quanto nós Ainda temos um longo caminho para
de fato alcançar e o que poderia ser considerado uma democracia plena essa gramática política portanto que é um conjunto de eh fenômenos políticos e que aqui estamos chamando de ismos né os ismos que compõem a política nacional eh São né Eh dentre tantos o patrimonialismo o coronelismo o clientelismo não é eh o fisiologismo enfim vários elementos né o corporativismo não é vários elementos presentes aí portanto nessa relação do estado com a sociedade civil e que portanto trarão aí eh eu diria eh elementos né fundamentais para que a gente pense em que medida avançamos ou não
na construção de um estado democrático l