Seja bem-vindo e seja bem-vinda! Neste nosso Narrativas Compartilhadas, hoje temos o prazer de conversar aqui com o Pedro Jorge Curbacier. O Pedro foi meu aluno na Escola Municipal Dr Túlio Vargas durante um período do ensino médio, tendo entrado lá na escola em 1985, mais ou menos, né, Pedro?
Quando ele prestou o cursinho, um vestibulinho que se chamava na época, porque não era nada fácil entrar no Getúlio Vargas. Se você não fizesse essa prova, não conseguiria entrar, né? Ele também participou do Festival de Teatro Getúlio Vargas, primeiramente como contrarregras na peça "Paz para o Mundo", do Mário Luiz Mascarenhas, e depois, em 1987, participou do sexto festival com a peça "Esperando Godot", de Beckett, como Lucky, dirigida pelo Zé Henrique de Paula.
O Zé Henrique de Paula já era um grande diretor na época, lá com seus 15, 16, 17 anos. Hoje ele brilha em São Paulo como diretor de teatro profissional. O Pedro, na verdade, fez primeiramente o ensino fundamental na escola Mateus Mailaski e depois que prestou o vestibulinho e entrou lá na escola, ele acaba falando que essa escola o fez viver como num filme norte-americano, pois proporcionava muitas atividades extracurriculares.
Assim, pratiquei muito esporte e me interessei pelo teatro, além de pequenas montagens que fazíamos para apresentar os estilos literários nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura do Seu Roberto. Participei também como contrarregras na montagem do Mário Luiz, na "Paz para o Mundo", e depois fui convidado a fazer parte do elenco do "Esperando Godot". Pois bem, então, após o término do ensino médio, o Pedro continuou desenvolvendo atividades auxiliars dentro do Teatro Amador Sorocabano, porque o Zé Henrique de Paula já estava, nesse momento, no Teatro Amador Sorocabano.
Então, Pedro participou da peça "Macbeth", foi contrarregras, e também fez o cartaz da peça teatral. E daí, eles acabaram vencendo o festival, apresentaram-se no Festival de Teatro da Universidade de Ponta Grossa, no Paraná, e depois venceram também com a peça "Opanaca", que venceu o Festival de Teatro Amador de Sorocaba. Na formação do Pedro, ele, em seguida, cursou Jornalismo na Unesp de Bauru e trabalhou em vários órgãos de comunicação, como no Diário de Sorocaba, onde foi fotógrafo freelancer; no Jornal Cruzeiro do Sul, como repórter e editor; no Jornal Estado de São Paulo, como repórter de esportes; na TV Aliança e na TV Tem, como editor de texto e editor de conteúdo.
Ele foi, na verdade, editor de conteúdo do primeiro jornal de internet, o Espalha, e foi editor executivo do Jornal Bom Dia, além de ser chefe de jornalismo da TV Record Paulista de Bauru. Além disso, o Pedro foi professor nas áreas de comunicação, artes e design no SEUNSP durante 9 anos, onde também foi coordenador do curso de jornalismo. Atualmente, o Pedro é assessor de imprensa da Câmara Municipal de Bauru.
Com vocês agora, é o Pedro quem vai falar. Inicialmente, ele vai falar onde nasceu. — Sorocaba mesmo?
— Pedro, Sorocaba mesmo, né? No hospital Samaritano. Até sair para a faculdade, sempre morei na cidade.
Sempre morei em Sorocaba, então, basicamente, né. E aí, quando você estava já nas séries iniciais de formação, o que você lembra de ter feito com atividades teatrais ou com poemas? Quando isso acontece na sua vida?
— A gente chamava de primário, né? A primeira etapa do ensino fundamental. Nas datas comemorativas, era uma didática, né?
No período dos anos 70, ou a gente fazia um desenho, ou fazia um cartaz, ou eventualmente cada classe fazia uma apresentação. Eu lembro uma vez que a gente, no 7 de setembro, fez um samba em homenagem à Pátria, né? A gente vivia a época do regime militar, então era sempre "Brasil, Brasil, Brasil".
E teve uma vez que a minha classe, acho que eu estava no quarto ano, então devia ter em torno dos 10 anos de idade. A professora chamou uns seis, sete, e a gente fez uma montagenzinha com poemas que falavam do circo, e eu fui escolhido para ser o palhaço. Então, me maquiavam, eu me vestia de palhaço, achava barato isso, né?
Apesar de ser tímido, por incrível que pareça, eu era tímido quando era criança, mas a maquiagem me ajudava a não ser eu, né? Eu era um palhaço e a gente se apresentou em duas ou três classes, porque aí tinha um intercâmbio. A classe tal vinha fazer a apresentação da nossa classe.
Então, me lembro que teve uma vez que tinha que decorar um poema, inclusive, acho que se não me engano, era "E agora, José? ", do Drmond. Era alguma coisa assim.
Já convivia e já sentia que gostava muito de arte, né? Não me sentia talentoso, mas esse barato bacana faz a gente pensar, sei que entendi. E aí, quando você entrou no Getúlio, como foi essa transformação?
— O Maelask era uma boa escola, mas era uma escola ali do Alen Linha, né? Ligada à Fepasa da época, que era dos filhos e netos de ferroviários. Então, assim, era tudo mais acanhado.
Quando você vai no Getúlio, na época, só tinham duas escolas municipais com ensino secundário: o Getúlio e o Aquiles, e eu fui pro Getúlio, que era a mais perto da minha casa. E aí você entra. .
. Lá, eu, nesse contexto, eu acho que é importante. Foi muito bacana porque não eram ali os vizinhos, né?
O pessoal, a galera ali que eu estava acostumado a ver na rua, tinha filho de deputado, tinha filho de empresário, tinha gente que morava longe, que tinha que pegar dois ônibus. Já começava um universo maior. E quando eu disse que a escola lá assim parecia que eu estava num filme, é pelo lado bom; que a gente assiste a essas comédias de adolescente, que o pessoal vai lá para a Tick Esport, toma banho no vestiário, vai fazer aula de canto, tem aula de música, né?
A escola nos países mais desenvolvidos é em tempo integral e, além das disciplinas curriculares mais comuns, mais obrigatórias: matemática, o idioma, ciências, ela oferece, a gente vê pelo menos nos filmes, que ela oferece atividades extracurriculares. E o Getúlio, naqueles anos 80, era assim uma escola em que o poder público municipal, junto com a Aquilides, era meio que a menina dos olhos, né? Então, o Getúlio participava de competições, tipo jogos escolares.
O Getúlio tinha um festival de teatro que, lá, quando eu entrei no Getúlio, que eu comecei a ouvir falar, tinha um anfiteatro, né? Um teatro que ouvi dizer que a Glória Menezes e o Tercio Meira se apresentavam. Então, comecei a ficar assim: "Nossa, né?
Aqui é muito mais suntuoso. " No teatro, tinha piano e era legal que eu tinha algumas colegas de classe que tocavam, então, alguma atividade que a gente ia fazer lá, eu falei: "Putz, precisa aprender a tocar piano. " Nunca aprendi, mas assim, incentivava, que tinha muita Steiner, isso, Steiner, né?
Pena que depois ele ficou empoeirado lá com o acidente do teto. É, mas depois ele foi para o teatro municipal. Então, assim, eu digo isso, assim, foi uma escola que eu falei.
E a gente está mais velho, né? A gente está numa idade com mais energia, com mais músculos, com mais hormônios e a gente quer fazer muita coisa. E no Getúlio tinha onde canalizar isso, né?
Então, começou com as aulas de literatura que o senhor dava, que o senhor propunha. Entrava um trabalho de montar um período literário e eu lembro, hein? No primeiro ano foi romantismo, acho que no segundo barroco.
Eu pedi, eu que fui o diretor, nem tinha capacidade, mas eu pedia para todo mundo ficar torcendo no romantismo, que os poetas tuberculosos, né? A boemia. No barroco, lembro que eu botei uma escada e eu fiquei com um martelo, uma taiadeira, porque era o barroco, aleijadinho, a gente estava fazendo anjinhos nas igrejas.
E teve, depois, no terceiro ano, já modernismo. Eu peguei, adorava, era apaixonado por Luís Fernando Veríssimo, né? Era um baita escritor famoso na época e a gente montou skets com crônicas, com textozinhos dele, né?
E eu me ofereci, nessas vezes, no segundo e terceiro ano, eu já tinha experiência de participar dos festivais de teatro lá da escola. Mas era meio na cara e na coragem, eu não tinha uma formação, feito algum curso, ter trabalhado em algum grupo; foi assim, na marra. E porque era muito bacana participar, porque você conhecia mais pessoas, você ia na escola à tarde, à noite.
Eu preenchi a minha vida com essa movimentação, com essas atividades. Sei, e quem que você lembra? Quem mais estava nessas atividades, por exemplo?
Bom, na primeira montagem, eu estava na classe da Maria Carolina, do Mário Luiz. Ai, não lembro agora exatamente todo mundo e na verdade, o Mário Luiz já tinha montado uma peça, até acho que ganhou no ano anterior, com "Morte e Vida Severina", peça bonita, tal. E aí eu me aproximei dessa turma, eles falaram: "Ó, a gente está precisando de gente para fazer.
" Falei: "Vamos embora, né? " Estava começando, era a primeira vez. Ah, a gente está precisando de contrarregras.
Vamos lá, então. Eu lembro que no dia lá, era uma peça que era meio que metida ao musical, então eu arrumei da orquestra que ensaiava no Getúlio. Eu não sei o nome agora, o porta-partituras.
Eu achei lá no canto do teatro, os porta-partituras para o pessoal. Tanto que eu fui elogiando, falei: "Nossa, que contrarregras, Bron! " Mas eu pude ver uma peça pelo lado das coxinas, dos bastidores, né?
Sim, iluminação. Aí teve uma vez que teve uma homenagem, acho que no dia da Pátria, cantamos o hino lá com a bandeira. Eu me ofereci para a dona Sônia: "Posso subir lá para ligar umas luzes?
" Que agora eu sei, né? E aí eu iluminei as bandeiras com umas luzes diferentes. Tudo bem, isso foi, acho que primeiro ou segundo ano de Getúlio, ainda me ambientando, conhecendo a galera.
Quando eu fui para o segundo ano do ensino médio, o pessoal, Zé Luiz, estava querendo montar, com o pessoal da classe dele. A gente não era da mesma classe, ele era de uma, eu era da outra, só que ele estava em busca de pessoas e ele queria pessoas que gostassem de teatro e tal. Eles tinham visto que eu tinha trabalhado lá e me convidaram para ser o look do Godô.
Ah, vamos, né? Então, foi a primeira vez que eu pisei num palco, mesmo que eu ensaiei. Olha como eu ensaiei, não era tanto texto assim, apesar de ser um texto do teatro do absurdo, né, que não tem muita lógica.
A sintaxe é disparada, mas aí eu participei; foi uma peça que ganhou o festival, mas não é questão de ganhar. A gente apresentou junto com outras peças boas. Depois a gente ouvia os jurados que eram convidados pela escola, as críticas, né?
O lado bom, o lado ruim, o que tem que melhorar. Aí a. .
. Gente, saía, depois batia papo, né? A gente ia para a lanchonete tomar um refrigerante e não, e discutir: qual que é a próxima?
E assim foi, né? E aí eu entrei nessa turma do Zezinho, que era uma galerinha que a gente corria atrás de fazer coisas para teatro. Sei, e o senhor disse no meu currículo assim: "Não que eu participei de Macbeth ou do Panaca", porque aí o Zezinho já tinha ido estudar arquitetura em São Paulo e jornalismo em Bauru, mas a gente continuava; ele continuava fazendo teatro amador aqui e, nos finais de semana, eu sempre estava nos ensaios e pedia: "O que que eu posso fazer?
" Então, ele já tinha uma ideia do que seria o cartaz do Maedra; uma máscara, né? Que acho que a gente pode dar spoiler, né? O Macbeth morre no final e aí tinha uma máscara, né?
Que era a cabeça do morto. E eu falei, com o Zezinho discutindo: "Vamos tirar xeroxes nessa casa, que ficou uma cara legal a máscara. " E ele falou: "Então esse vai ser o cartaz.
" Ele que escolheu o cartaz, mas aí ele falou: "Faz o folder, né? Que com a ficha técnica, as informações. " Falei: "Vamos fazer um lado essa máscara, a gente dobra em três e põe as informações, perfeito?
" Tal, aí eu escrevi o texto, né? Já fazia jornalismo, corria. Eu sempre, a minha função era correr atrás das lojas de xerox, de cópias, fotocópia.
"Ô, você não quer botar aqui seu nome e me dá 300 cópias, 400 cópias? " Que era para distribuir lá pro público que é no teatro. E isso também eu fiz do Panaca; o Panaca já estava participando um pouco menos, quase nada, mas eu me ofereci: "O que que eu posso ajudar?
" Ele falou: "Preciso fazer um folderzinho já está pronto, mas assim, a gente não decidiu a cor e precisa imprimir. " Eu falei: "Dá aqui! " Aí eu corri um dia lá no centro da cidade, uma fotocopiadora, a mulher falou que gostava de teatro: "Na primeira loja, não, eu faço 300 cópias para você.
" Tal, e a gente, essa montagem foi exclusiva pro festival de teatro amador de Sorocaba, na época que eu não vou me lembrar o ano, mas já devia ser começo dos anos 90. E eu distribuindo, lá ajudando: "O que que precisa? Água, eu vou buscar.
" Porque eu gostava muito desse ambiente, dessas pessoas, né? E, assim, já dando uma adiantada aqui, eu comecei a conhecer mais de literatura, de estilos literários, também pela parte do teatro. É algo que eu admiro muito; você pode olhar os atores e atrizes, veja que a Fernanda Torres fez nas entrevistas: "Você precisa estudar muito para você encarnar um personagem, para encarnar um projeto tem que entender qual que é o contexto, quem está patrocinando, para que público é.
" E isso eu percebia e achava muito legal estar nesse mundo, né? Então, uma vez, a gente tentou montar uma segunda remontagem de "O Vestido de Noiva" porque, ainda sem eu estar nessa turma, no ano anterior, o Zezinho e a turma dele fizeram "O Vestido de Noiva", né? Sim!
E ganhou lá, acho que em 85, isso, sei lá, nessa fase que a gente estava fazendo faculdade. Ele falou: "Vamos remontar! " Inclusive juntou a turma do Zezinho com a turma do Marra e a gente começou a trabalhar junto.
E os ensaios eram fim de semana, lá no pátio do Getúlio, porque o teatro tinha tido um acidente lá com o teto e estava interditado. E a gente ia todo fim de semana, tal. Aí eu fui cotado para ser um dos personagens, tal, mas aí era difícil estar em todo o ensaio, estava estudando fora, mas era muito bacana!
E aí, assim, eu aprendi o que é Nelson Rodrigues, o que diz sua literatura. A partir desse, assim, eu já sabia quem era, mas estar lá na passagem de texto, né? Cada um vai fazer seu personagem agora, imposta a voz, faz assim.
Isso tudo me incendiou, que eu li obras depois do Nelson Rodrigues; eu amo ele hoje, entendeu? E aí, fazendo um gancho pro futuro, que eu fui ser jornalista esportivo, né? Algo que eu me especializei.
Eu sempre falava para os meus alunos, quando eu dava aula, falava: "Olha, a melhor coletânea de crônicas do que escrever sobre esporte é 'Minha Pátria de Chuleiras', do Nelson Rodrigues. " Aí começou lá, né? Você começa a se interessar e vai em busca demais, e vai tendo essas informações.
Então, voltando, por que que eu me sentia num filme, né? Porque tudo começou ali. Eh, era muito, muito incentivo, muita mensagem e eu queria, como um bom adolescente, participar de tudo.
Sei, muito legal, né? Esse relato seu. Então, a literatura, o teatro, sabe, tudo junto, né?
Você aprendia uma coisa, outra. E importante: eu falei, eu era tímido e quando eu fiz teatro eu comecei a ficar um cara de pau, né? Por quê?
Sei lá, você esquece uma fala, você tem que dar um jeito, né? E aí, lógico, o fato de você conversar com mais pessoas, você ensaiar. Então, assim, me ajudou pessoalmente, né?
A pessoa, Pedro, até pela minha profissão, acabou sendo um pouco mais extrovertida. Eh, saber conversar, chegar, abordar outro ser humano, né? Que convive comigo no meu planeta, que eu morria de medo de fazer isso até os 12, 13 anos.
E dos 14 aos 15, eu só comecei a falar com outras pessoas porque eu queria paquerar, porque eu era tímido, e o teatro me soltou. Então, tem, tem, eu tenho que agradecer isso também. Entendi, então ajudou pra você na profissão?
Ah, ajudou! Ajudou bastante! Eu sempre brincava assim: eu queria que meus filhos fizessem esporte, de preferência atletismo e ginástica olímpica, né?
Porque são os. . .
Nobres que mexem com o músculo nunca fizeram, tá? Eu também nunca fiz, mas eu queria, pensando no ideal. Vão fazer teatro porque não pode ter vergonha, né?
A pessoa muito retraída não vive. Mas eles nunca fizeram isso. Era esse meu ideal, porque eu comecei a perceber essas coisas bacanas da extracurricularidade, né?
Da multiplicidade de atividades. Lógico, eu tinha que estudar português, as matérias exatas não eram as minhas preferidas, então tinha que me esforçar mais. Amava as áreas de humanas: história, geografia, literatura.
Mas, daí, você não ficava só nisso, né? Você tentava usar esse aprendizado teórico em atividades práticas, e eu usei muito no teatro e na arte e no esporte. Isso me ajudou depois, futuramente, porque eu não era um jornalista do zero; eu tinha alguma bagagenzinha para conversar com os meus entrevistados.
Entendi muito bem. Então, se você pensa naquele momento, naquela época, e hoje, como você diria assim: no que essas atividades ajudaram para mim profissionalmente na minha vida? Me ampliaram horizontes, me deram mais erudição, capacidade intelectual.
Você tinha que ler, você tinha que analisar, você tinha que debater. A questão da timidez virou um cara hoje, todo mundo considera extrovertido, e isso é fundamental para o jornalismo, né? Quantas vezes eu não saía com uma pauta para procurar alguém para produzir sua informação e não conhecia a pessoa?
E como que você vai abordar, né? Então, vinha com aquela técnica teatral: respira, vai lá, pergunta do tempo, faz um joguinho de cena e vamos ser amigos, e você me conta. Foi fundamental em relação a tudo isso.
Eu, como sou de uma profissão da área de humanas, o fato de eu ser um artista. . .
Tá, não sou artista, mas eu gosto da arte, convivo com a arte e ela me energiza a ponto de eu ter vontade de buscar informações, de ajudar ações no sentido de coisas bacanas para a sociedade que eu vivo. Eu acho que isso foi importante, sei muito bem. E você, como Luke, eu lembro que você chegava num determinado momento e despejava uma série de frases desconexas, né?
Você não para de falar, né? Bem alto, rapidamente, né? Você fica bastante tempo em cena, mas os momentos que você solta essa fala, daí a gente não esquece do espetáculo, né?
Que é nesse momento. Conta para mim um pouco, ou para nós, né, que estamos ouvindo você, essa experiência de você em "Esperando Godot": quais as sensações que você tinha, alguns momentos que foram marcantes para você dentro dessa encenação? O Luke seria seu quarto personagem, né?
De cinco ou seis, sendo dois ou três assim muito rápidos, mas os quatro mais constantes. O Luke é o que aparece menos, mas ele fica muito em silêncio. Ele é como se fosse um animal de estimação lá do terceiro personagem, que é alguém que chega para interagir com os dois protagonistas.
E a gente começou a entender o que era esse tal do teatro absurdo. Samuel Beckett, irlandês, que ganhou o prêmio Nobel, né? Então, a gente não conhecia ele.
Depois que eu li isso, eu falei: "Pô, alguma coisa, algum conteúdo bom tem aí, né? " E o Zézinho, o Zé Henrique de Paula, ele já era genial, né? Então a gente bateu um papo sobre o que era esse personagem.
Esse personagem era alguém oprimido, quieto no silêncio, mas de repente ele tinha um rompante, né? Uma catarse. E era esse momento que, detalhe, parênteses: minha mãe foi ver a peça no Teatro do SESI, porque como o Teatro do Getúlio tá interditado por causa do acidente, o festival daquele ano foi no SESI, gentilmente.
Então, assim, mais ainda, né? Um teatro maior. Disse que minha mãe foi numa determinada momento, acho que tinha um intervalo, não lembro agora, enfim, ela foi ao banheiro e encontrou duas moças, duas mulheres falando: "Nossa, a hora daquela cena do Pedro.
" Ela contou para mim isso, porque tinha isso na cena: era a catarse, o personagem se rebelava, ele falava um monte de absurdos, impropérios. Mas a iluminação em cima dele tinha fumos, e a música aumentava. Então era um grande momento que eu soltava um monte de coisa.
O Jezinho orientou: "O importante é que você mostre isso. " E uma vez eu estava ensaiando, saiu saliva, e ele falou: "Isso, solta tudo. " E aí eu ia.
A Luciana tinha um chicote; a Luciana, que era a atriz que fazia o personagem que me domava, que era minha dona, andava com chicote e ela batia. Normalmente, ela batia fraco, mas no dia do festival e em certas apresentações, a gente estava tão envolvido naquilo que ela, depois que lá, vai repetir: "Desculpa, imagina, bate mesmo. Quero sentir dor.
Preciso vir com. . .
" Ah! Então, eu lembro disso; era um momento realmente assim, o bom, confesso, é que não precisava decorar exatamente literas, né? O texto, porque dada a circunstância, se eu falasse qualquer coisa, falasse o hino do 15 de Piracicaba, ali estava na cena, entendeu?
Então, eu decorei ali os dois primeiros parágrafos. O texto original, acho que eram uns dez; o Zezinho falou: "Não corta, senão vai ficar muito longo. " Cinco.
Os dois primeiros eram igualzinhos, mas depois. . .
Entendeu? Foi esse momento. Entendi.
É muito forte esse momento, mesmo, né? Muito forte. Ah, outro detalhe, desculpa, gosto de falar.
Não, mas para você ir lembrando e falando tudo que quiser, para você ver como é a associação, né? Como uma coisa desencadeia a outra do tal de: gentileza gera gentileza; teatro gera boas conversas. Futuramente, o senhor leu no meu.
. . Currículo: 9 anos dando aula lá no curso de jornalismo, né?
Era uma faculdade que tinha curso de teatro e aí tinha dois professores atores, né? Os dois eram de Campinas e lá eles eram bem famosos, inclusive já tinham feito produções em São Paulo e tal. E aí eles começaram a falar de back de teatro absurdo.
Eu falei: "Deixa eu falar uma coisa, eu já fui Luk. " Ah, é, e aí a gente começou a conversar. Fomos mais amigos, mais próximos, e trocávamos muita figurinha.
Olha, isso foi 25 anos depois. Eu tinha assunto para conversar com dois caras que manjavam muito de teatro. Então, acho que esse efeito cascata é bem bacana: é muito bom, muito bom.
E a… E a… E a… Você lembra da metodologia do Zé Henrique nesse começo? Assim, nas primeiras reuniões, ele sempre vinha com a concepção dele, que tinha muita coisa brilhante. Já ele gostava de, no primeiro dia, passar incenso no teatro para as pessoas entrarem num clima, tal.
Mas enfim, para montar a peça, ele falava: "Olha, penso assim, assim, assado, nossa, vai ficar legal. " Só que, é óbvio, né? Tinha partes que não eram viáveis de fazer, tinha outras partes que a gente discutia e bolava em grupo.
Mas ele era um líder, ele conhecia a gente. Confiávamos nele porque a gente sabia que ele tinha lido o texto, ele tinha visto. Ele procurava assistir montagens, né?
Naquela época a gente não tinha internet, então era muito mais difícil. A gente chegou algumas vezes em São Paulo a assistir peça, mas ele ia mais. Depois ele começou a estudar lá em São Paulo, morar em São Paulo, e ele vinha e falava: "Nossa, o Geraldo Thomas sabe como que ele faz.
Era um blackout a peça, né? Era tudo escuro. " Eu fui entender como que ele se posicionava, as marcações.
Ele subiu no palco depois da peça e olhava as estrelinhas, aquelas que brilham no escuro, que eram para o ator se posicionar na marcação. Então, assim, ele tinha um baita de um talento, ele era um líder, mas era democrático e a gente trocava figurinhas sobre o que pôr, o que não pôr, o que fica melhor. Ele falou: "Vamos experimentar fazer então de tal jeito.
" E aí comparava. Ele também era uma pessoa que gostava de agregar, então, vira e mexe, a gente ia para um barzinho bater papo à noite, formava uma turminha, a gente ficava amigos e ficava todo mundo com o mesmo interesse. Sei que agora eu não sei detalhes sobre os estilos teatrais, mas ele lia sobre o teatro russo, ele lia lá Pirandello, ele procurava saber e ele dava um briefing pra gente.
Olha, vamos fazer uma peça nesse estilo que é do fulano de tal, que é mais ou menos assim. Ele já era uma pessoa com baita talento, sim, estudava bastante, lia muito, né? É muito, muito bom isso.
Exatamente. Então, tem mais alguma coisa? Bom, vou deixar agora o seguinte: você fala alguma coisa que você sinta vontade ainda de dizer que não falou, pare e pense em alguma coisa ainda, como mais algum depoimento, antes de a gente terminar o nosso bate-papo.
Eu vou falar sobre a tese, o assunto que o senhor fez no mestrado. Eu lembro, eu estava já na fase final de Getúlio, a gente acompanhava o senhor, alguns diálogos, né, falando que estava fazendo o mestrado na USP e tal. Era maravilhoso porque a gente já sentia naquela época que a escolha do teatro para ensinar a literatura… E aí eu vou falar disso, né?
A metodologia didática de usar uma manifestação artística para ensinar uma outra paralela. Então, o senhor reforçou, ensinou, apresentou a literatura, né? E aí a grade curricular: romantismo, barroco, modernismo… Mas mexendo com a pessoa, porque uma coisa era ler o livro, outra coisa era ler uma apostila e fazer uma prova.
E a gente não ficava só nisso. A gente era dividido em grupo, cada um pegava um estilo. Eu fiz romantismo, fiz barroco, eu fiz depois modernismo, com texto do Luiz Fernando Veríssimo, e a gente tinha que sentar e bater um papo sobre o que era aquilo.
E isso reforça muito mais o aprendizado, né? Então, assim, o senhor também não era muito de falar da vida pessoal, o que está correto, fui professor, eu entendo isso. Mas, como a gente virou amigo, né, nessas montagens teatrais, o senhor sempre ajudando.
Aqui fica o agradecimento! O senhor contou: "Estou terminando a tese, e ela é assim. " Eu falava: "É isso, isso aí realmente merece uma tese, porque era uma maneira, até então, nova, né?
Ou pelo menos, aí numa escola grande da cidade que estava sendo usada com sucesso. " Não atuou depois? A imprensa da cidade fez várias matérias, né?
Até antes de eu entrar, que eu ficava de olho, já saía coisa do teatro, do festival do Getúlio. Falei: "Pô, isso aqui é legal, mas continua saindo, tal. " Por quê?
Porque vinha lá das aulas de língua portuguesa com o senhor, tal. Outros momentos a escola também incentivava outras manifestações e isso criou uma geraçãozinha de pessoas que acho que se comunicam melhor, acho que entendem a vida de uma maneira mais ampla. Então, parabéns!
Enfim, obrigado. Pedro e Pedro, a sua família, a participação dela nesse contexto, como que era? A minha família… A minha mãe, ela gostava de ver meu envolvimento, ela ia assistir.
Meu pai era uma pessoa mais livre em relação a isso, mas ele tinha algo bom: ela não me pedia nada, meu pai não falava: "Você vai fazer isso, vai fazer aquilo, vem para cá, vai para lá. " Então, e aí minha mãe também. Eles deixavam eu escolher.
Eles sempre falaram: "Você tem que fazer alguma coisa. " "Coisa, procure fazer direitos e mais algo que você gosta. " Então, quando eu falava principalmente com a minha mãe, né, aquela relação que a gente mais está próximo da mãe.
. . Olha, vai ter um festival de teatro, eu vou participar.
É como é que é? Tem professor? É da escola?
É, então pode fazer, tal. Então, eles nunca me refrearam, né? O meu pai, por outro lado, ele era funcionário público municipal e ele era contador, tá, mas depois, por uma outra circunstância, ele migrou para a Secretaria de Cultura.
Ele cuidava das feiras de artesanato de Sorocaba. Como ele era da Secretaria de Cultura, vira e mexe, ele aparecia com convite de uma peça que estava estreando na cidade. Então, de alguma maneira, eu fui ver.
. . eu fui ver Bibi Ferreira em "Piaf", por exemplo, com ele e com a minha mãe, que nós ganhamos três ingressos.
Então, assim, ele não impedia e ainda arrumava o ingresso. Minha mãe era uma grande entusiasta: "Não faz, vai ser feliz. " Agradeço aos dois por isso.
Uhm, a peça que você assistiu com eles da Bibi Ferreira, qual que foi? "Piaf"? "Piaf"?
"Piaf"! Eu assisti uma daquelas do Antônio Fagundes, que ele tinha um grupo de teatro, aquelas primeiras de São Paulo. Eu não vou lembrar o nome.
A Bibi Ferreira e "Piaf" é inesquecível. Hum, acho que foram essas que eu fui em família, né? Depois, eu comecei sozinho, né?
Eu falei: "Pai, você não arruma ingresso e tal? " E uma vez. .
. ah, lembrei! Seu Roberto, no primeiro ano lá no Getúlio, o senhor falou do Ubu.
. . "O Bu, é o Rei, é Rei.
" E o Kaké trouxe uma montagem para Sorocaba. Lembra disso? O senhor falou na classe.
Fui eu e um amigo, esse Sérgio Beton, e aí tinham outras pessoas, umas meninas da minha classe, gente, tudo meio assim, né? Ai, teatro, né? Vamos lá, tal.
E no. . .
Ah, havia uma participação da personagem que era. . .
ela fez a bruxa Morgana do Castelo Rá-Tim-Bum. Como que é o nome daquela atriz? Ah, enfim, dá um Google.
Aham! Ela era a mãe Ubu e o Kaká era o pai Ubu. Uma montagem muito bacana e muito subversiva.
E tinha palavrão, tal, que o senhor avisou antes na classe, tal. E eu pedi para minha mãe e ela falou: "Ah, beleza, mas seu professor teve que ser bom. " Realmente, é um texto muito marcante do teatro, tal.
E a atriz vinha e pegava duas pessoas da plateia e eu fui um pego. Eu morria de vergonha. O senhor olhou assim para mim e as meninas olharam para mim: "Que que eu faço?
" E aí, era tipo assim, tinha que fazer uma corrida até a mãe Ubu para dar um beijo nela. Eu já. .
. e eu fui, mas eu não fui porque eu não queria ser eu, né, porque eu sabia que. .
. Aí, realmente, foi outro cara. Ele dançou com a atriz lá e eu voltei rapidinho para a minha cadeira.
Lembrei dessa. . .
até o primeiro ano, foi. . .
Acho que foi a primeira manifestação de teatro. Sei muito bem, muito bem, muito bem. Pedro, Pedro, muito obrigado, viu?
Obrigado pela sua gentileza de fazer esses depoimentos para nós, tá? E eu que agradeço, que tem coisas aí. .
. Ah, e mais ainda, olha só, eu tenho aqui, ó. Conhece essa foto, né?
Ah, "Esperando Godot," tá vendo? É você, a Mônica e o Zé. Não, a Mônica e a Luciana.
A Luciana aqui dava chicotada em mim. Aqui o Zé Henrique, todos lá. Você é o mais alto da turma, tá vendo?
É o mais alto. Bons tempos! E aí, aqui tem toda a turma também, ó!
Ah, você também lá. É, participei, viu? Participou sim, ó!
Lá, e apanhava ainda, né? É, é um bom treino para a vida adulta! Ó lá, ó!
Aqui vocês quatro, isso! A foto não tá assim tão maravilhosa, mas. .
. Olha, ó, você de. .
. É! Era um ambiente escuro, esfumaçado.
A gente fez uma grande montagem, né? O Zé Henrique, bacana! Foi tanto que depois a gente ficou em cartaz no SES, que eles tinham um vazio lá na agenda e eles convidaram, né?
E a gente apresentou, acho, como dois finais de semana lá. A você de novo! Ai, ai!
Acho que a minha dor na lombar é por causa de ficar curvado nessa cena! Ai, ai! E esta lindo, é legal, né?
Muito legal! Mas esta é essa aqui! Tá bem a.
. . O estilo seu, quando principalmente quando você apanhava, né?
É, é! Eu ficava carregando duas malas de curdinha e vinha para cá e puxava para lá e dava chicotada até a hora da catarse, que a gente se referiu. Exatamente!
Nós colocamos, né, no ar a gravação, mas é muito antiga, então não tá muito boa, né? Mas dá como lembrança, vale a pena, né? Pedro, muito obrigado, viu, pela sua gentileza por essa sua participação na nossa vida, né?
No nosso caminho! E que possamos estar juntos pessoalmente em breve, se Deus quiser. Ah, sim, eu espero!
E eu que agradeço, porque lembrar desses momentos anima a alma, com certeza! Muito obrigado, Pedro! E para vocês que estão nos acompanhando, muito obrigado pela presença e que estejamos juntos nos próximos encontros, se Deus quiser.
Obrigado, obrigado, Pedro! Deus abençoe você! Tudo de bom!