Eu cometi o erro clássico, o pecado capital de qualquer paulistano que almeja o litoral no fim do ano. A procrastinação. Quando o motor do carro da minha namorada Carol decidiu fundir a junta do cabeçote dois dias antes da nossa viagem para a Ilha Bela, eu me vi preso em um pesadelo logístico.
O Airbnb já estava pago. uma fortuna não reembolsável que representava três meses das minhas economias e a perspectiva de dizer a ela que passaríamos a virada vendo a queima de fogos pela TV na sala abafada do nosso apartamento. Isso era impensável.
Passei a manhã inteira ao telefone. As grandes locadoras riram da minha cara. Carro para o ano novo, senhor.
As reservas fecharam em outubro, disse uma atendente da Localiza com aquele tom de quem explica física quântica para uma criança. Foi na terceira página do Google, aquele território sem lei da internet, onde habitam os golpes e os milagres que encontrei a trânsito livre locadora. O site parecia ter sido feito em 1998, piscando em cores primárias, e o endereço apontava para um galpão na zona leste, encravado entre um desmanche de peças e um cemitério de pneus.
Cheguei lá às 4 da tarde. O calor era sufocante. O sol batia nas telhas de zinco do galpão, transformando o escritório numa estufa.
O lugar cheirava a óleo diesel velho e cigarro barato. Atrás do balcão, um homem que parecia bem cansado me observava. Ele tinha manchas de vitiligo que subiam pelo pescoço como mapas de arquipélagos e um dos olhos era de vidro fixo em um ponto perpétuo acima do meu ombro esquerdo.
Ele não pediu meu cartão de crédito para o calção, não pediu comprovante de residência. Ele apenas sorriu, exibindo dentes amarelados pelo fumo, e colocou uma chave sobre o balcão de fórmica arranhada. "Tivemos uma devolução inesperada", ele disse.
A voz soava como lixa grossa em madeira, um sedã preto. O antigo cliente precisou encerrar o contrato antes da hora. Questões pessoais.
Eu não fiz perguntas. Você tinha um carro livre. Eu queria.
Naquele momento, eu assinaria até um pacto com o diabo, se ele me garantisse quatro rodas e um ar condicionado. Assinei a papelada rapidamente, meus olhos passando batido pelas cláusulas em letras minúsculas, focado apenas em sair daquele lugar opressivo. O carro estava estacionado nos fundos.
Na sombra era um modelo genérico, preto, com vidros escuros. A lataria estava impecável, fria ao toque, apesar do calor infernal do dia. Quando abri a porta, fui atingido por um cheiro químico forte, um aroma industrial de pinho, solimão sintético, claramente usado em excesso para mascarar algo subjacente.
Joguei as malas no porta-malas, busquei Carol em casa e pegamos a estrada. A euforia de ter conseguido o carro durou exatos 40 minutos. Foi o tempo que levamos para sair da cidade e encontrar o fim da fila na rodovia local.
O trânsito estava parado. Um mar de luzes vermelhas de freio se estendia até o horizonte, pulsando como uma veia inflamada na escuridão que começava a cair. Foi ali, parado no quilôm 300, com Carol dormindo profundamente no banco do passageiro, exausta pelo plantão médico da noite anterior, que decidi abrir o porta-luvas para procurar um cabo USB.
Meus dedos encontraram um envelope. Não era o contrato padrão de papel carbono, muito menos o documento do carro. Era um envelope vermelho, grosso, texturizado, quase como pele.
Estava lacrado com cera. O que achei de um anacronismo bizarro para uma locadora de fundo de quintal. Na frente, datilografado em tinta preta.
Lia-se. Protocolo de virada de ano, 31 de dezembro a 1eo de janeiro. Veículo placa Kry066.
E sozinho. Marketing de guerrilha. Pensei.
Vão me tentar vender um seguro extra ou fazer alguma piada sobre não beber e dirigir. Rompi o lacre. Dentro havia uma única folha de papel amarelado com instruções numeradas, na verdade regras.
A cada linha que eu lia, o sorriso morria um pouco mais nos meus lábios, substituído por uma sensação fria de desconforto que começou no estômago e subiu para a garganta. Estava escrito: "Adendo contratual obrigatório. Leia as regras.
Prezado condutor. Esse veículo é uma unidade de transporte de transição. Durante o período de ruptura temporal, ou seja, a virada de ano, as leis da física dentro desse habitáculo são, por necessidade operacional flexíveis para sua sobrevivência e integridade mental.
Siga as regras. Regra número um. Entre à 10 da noite e 1 da madrugada, o rádio do veículo deve permanecer ligado.
Se a música for interrompida por estática ou por uma voz, recitando coordenadas geográficas, não desligue, apenas cante. Cante alto. A voz não pode saber que você a ouviu.
Se ela perceber que conseguiu sua atenção, ela entrará. Regra número dois. O GPS embutido no carro tentará desviá-lo.
Ele indicará um caminho livre por uma estrada vicinal chamada atalho do peregrino. O tempo estimado, se escolher esse caminho, despenca pela metade. Mas, apesar da tentação de chegar mais rápido em seu destino, ignore essa rota.
A estrada existe, mas ela não leva à ilha bela. Ela leva um ano que nunca terminou. Permaneça no asfalto, mesmo que esteja parado.
Regra número três. Mantenha o banco traseiro livre. Não coloque malas, caixas ou animais de estimação.
O espaço precisa estar livre para a acomodação do passageiro da meia-noite. Ele precisa esticar as pernas. Regra número 4, às 11:55.
Tranque as portas. Haverá batidas no vidro. Serão pessoas pedindo socorro.
Serão rostos que você conhece. Serão vozes de parentes falecidos gritando que estão queimando. Não olhe para eles.
Fixe os olhos no para-brisa. Eles não podem entrar se não houver reconhecimento visual. Regra número cinco.
E última. Na virada exata à meia-noite, se você ainda estiver no veículo, quando o céu se iluminar, não olhe pelo retrovisor interno. O veículo ficará mais pesado, o cheiro mudará.
Você ouvirá a respiração dele na sua nuca. Ele estará lá para a travessia. Ele desce no primeiro quilômetro do ano novo.
Se você olhar, ele entenderá como um convite para ficar. Dobrei o papel e o joguei no painel. Era ridículo.
Uma brincadeira de mau gosto para assustar turistas. Olhei para Carol, ela roncava baixinho, a boca levemente entreaberta, alheia a lista de insanidades que eu acabara de ler. Mas o ambiente dentro do carro parecia ter mudado.
O ar condicionado, antes agradável, agora soprava um vento gélido que parecia penetrar nos ossos. O cheiro de limão sintético tornou-se enjoativo, quase sufocante. A noite caiu completamente.
O trânsito na serra era um exercício de paciência e tortura. Andávamos 2 m, parávamos 10 minutos. O mundo lá fora era apenas escuridão, mata fechada e as luzes traseiras dos carros à frente que pareciam olhos vermelhos.
me observando na deblina que começava a descer. Eram 11:15 quando a primeira regra se fez presente. O rádio estava sintonizado numa estação local que tocava sertanejo universitário.
De repente, a música cortou. Não houve chiado gradual, foi um corte seco, como se alguém tivesse puxado o cabo. Em seguida, veio o som.
Não era estática comum, era um som de mastigação, úmido, viscoso, e por baixo dele, uma voz sussurrada, rápida demais para ser humana. Latitude 23, longitude 45. A carne é fraca, o tempo é circular.
Meu coração falhou uma batida. Tentei mudar de estação, os botões não respondiam. Tentei desligar o aparelho.
O botão de volume girava em falso. A voz aumentou o tom, tornando-se mais grave, vibrando o plástico do painel. >> Ele vê você.
Ele vê a pele, ele quer a pele. >> Lembrei da regra, cantar. Comecei a murmurar a primeira coisa que veio à cabeça, o hino nacional.
Sei lá por. Cantei baixo no início, sentindo-me um idiota completo. A voz no rádio rio, uma risada digital picotada.
Aumentei o volume da minha própria voz. Ouviram do Ipiranga as margens plácidas? Minha voz tremeu.
Carol se mexeu no banco, incomodada com o barulho, mas não acordou. Continuei cantando, transformando o hino num mantra desesperado. Aos poucos, a voz no rádio foi sendo soterrada pela música que voltou repentinamente no volume máximo.
Abaixei o som, minhas mãos suando frio no volante. Não era brincadeira. 11:40.
O GPS acendeu sozinho, iluminando o interior do carro com uma luz azul fantasmagórica. Rota recalculada, disse a voz feminina sintética, mas com uma inflexão estranhamente impaciente. Trânsito pesado à frente.
Economize 2:15. Vire à direita em 200 m, estrada do peregrino. Olhei para a direita.
Não havia estrada, havia apenas o acostamento de terra e, além dele, o breu absoluto da mata atlântica. Nenhuma placa, nenhuma luz. Vire à direita.
O GPS ordenou o volume subindo. O atalho está aberto. O tempo está acabando.
Vire. Havia uma urgência na voz da máquina que mexeu com meus nervos. A promessa de sair daquele engarrafamento, de fugir daquela claustrofobia era tentadora.
Quase girei o volante. Isso salvaria Carol e eu de passarmos a virada em um engarrafamento. Por um segundo vi, ou achei que vi, uma estrada de paralelepípedos antigos se materializando na neblina, onde antes só havia mato.
Parecia convidativa. Lembrei da regra. Ela leva a um ano que nunca terminou.
Apertei o volante e mantive o carro reto, colado no para-choque de um caminhão. Recalculando rota disse o GPS com um tom que soegavelmente como decepção. 11:55.
Faltava 5 minutos para meia-noite. O trânsito parou completamente numa curva fechada da serra. Estávamos cercados pela floresta.
O silêncio lá fora era absoluto. Nenhum grilo, nenhuma coruja, apenas o zumbi do mecânico dos carros parados. Travei as portas, conferi as janelas.
Foi então que a vi. Surgiu da escuridão entre o meu carro e a proteção de aço do acostamento. Uma figura humana, uma mulher.
Ela usava um vestido branco típico de reveillon, mas o tecido estava imundo, rasgado, coberto de barro vermelho e manchas escuras. Ela caminhava com dificuldade, arrastando uma perna. A mulher parou ao lado da minha janela.
Congelei. Não olhe para o rosto. Fixei meus olhos no adesivo do carro da frente, escrito Deus é fiel.
A batida no vidro foi leve, quase educada. Moço, a voz era abafada, doce, dolorosamente familiar. >> Moço, me ajuda.
Acabou a gasolina. Meu filho tá lá atrás. Ele tá com febre.
A voz parecia a da minha mãe. Minha mãe que morreu há 5 anos. A vontade de olhar era avaçaladora, o instinto humano de ajudar, misturado com a saudade impossível.
Natanael, a voz chamou. Natanael, é a mamãe. Abre a porta.
Carol começou a despertar ao meu lado. Amor, quem tá aí? Ela perguntou a voz pastosa de sono.
Ninguém, respondi ríspido. Volta a dormir, Carol. Mas tem alguém chamando.
Não olha, gritei e ela se encolheu assustada com minha agressividade. Cobre o rosto, Carol. Agora a batida no vidro mudou.
Deixou de ser leve, tornou-se violenta. O carro até balançava com a força dos golpes. Abre a porta, seu ingrato.
>> A voz não era mais da minha mãe. Era um rosnado metálico, desumano. >> Olhe para mim, eu quero entrar.
Fechei os olhos, rezando, suando, tremendo. O vidro parecia prestes a estilhaçar. Eu sentia a malevolência irradiando daquela figura lá fora uma onda de calor psíquico que penetrava ao metal da porta.
E então o relógio no painel mudou de 11:59 para meia-noite. No horizonte, sobre o vale, o primeiro fogo de artifício explodiu, um clarão verde silencioso. Instantaneamente, as batidas pararam.
A mulher sumiu, mas algo pior aconteceu. O carro deu uma abaixada. A suspensão traseira rangeu alto, metal contra metal, como se uma bigorna de meia tonelada tivesse sido depositada no banco de trás.
Os pneus de trás cantaram no asfalto, amassados pelo peso repentino. O ar dentro do carro congelou. Não era frio de ar condicionado, era o frio de vácuo de ausência de vida.
Minha respiração formou nuvens densas de vapor e o cheiro. O aroma de limão desapareceu, substituído por um fedor insuportável de terra molhada, flores murchas e formol. Cheiro de velório, cheiro de coisa enterrada que foi desenterrada.
Carol estava imóvel ao meu lado, os olhos arregalados olhando paraa frente. Ela sentia, ela sabia que não estávamos mais sozinhos. Atrás de mim, bem na altura da minha nuca, ouvi uma respiração.
Era um som úmido, como se os pulmões da coisa estivessem cheios de lodo. Senti o encosto do meu banco ser empurrado para trás. Algo grande, sólido e frio estava se acomodando.
Senti dedos roçando o banco a centímetros do meu pescoço. Lembrei da regra: "Não olhe pelo retrovisor. A regra pulsava na minha mente, mas a curiosidade humana é uma falha de design terrível.
Meus olhos queriam ir para o espelho. Eu precisava ver. A pressão psicológica era física, como uma mão invisível girando minha cabeça.
Eu sentia o olhar dele nas minhas costas, um olhar pesado, julgando meu ano, meus pecados, meus medos. Feliz. A coisa sussurrou.
A voz não vibrou no ar, vibrou dentro do meu crânio. Feliz novo ciclo. O trânsito à frente começou a andar.
Eu precisava dirigir. Minhas pernas tremiam tanto que mal conseguia controlar a embreagem. O carro estava pesado, lento.
O motor rugia, esforçando-se para puxar a carga extra. Dirigi por 1 quilômetro eterno. Cada curva da serra era uma tortura.
A respiração nas minhas costas continuava ritmada, podre. Senti uma gota de algo gelado cair no meu ombro. Não ousei limpar.
Carol chorava silenciosamente, as lágrimas brilhando na luz do painel. Mas ela não emitia um som. Ela sabia instintivamente que qualquer ruído poderia quebrar o pacto frágil de não agressão que mantínhamos com o passageiro.
De repente, numa reta escura, o peso sumiu. Foi instantâneo. A suspensão subiu de volta com um estalo.
O frio dissipou. O cheiro de flores mortas evaporou, dando lugar novamente ao limão artificial. Respirei fundo, o ar entrando nos meus pulmões, como se eu tivesse ficado submerso por horas.
Carol soltou um soluço alto e desmaiou, atenção cobrando seu preço. Não parei. Dirigi até Ilhabela num estado de transe.
Chegamos à casa alugada às 4 da manhã. Carreguei Carol para a cama. Não conseguíamos comemorar.
Não houve brinde, apenas um sono pesado, sem sonhos, induzido pela exaustão do terror. Passamos os dias seguintes na praia, mas a alegria parecia cinza. Havia uma sombra sobre nós.
Eu evitava olhar para o banco de trás do carro. No dia 2 de janeiro, levei o carro de volta para a locadora em São Paulo. O mesmo homem estava lá, o mesmo olho de vidro, o mesmo calor.
Ele pegou a chave da minha mão trêmula. A viagem foi tranquila? Ele perguntou com um sorriso que não chegava aos olhos.
E seguimos as regras, respondi- voz rouca. Ele caminhou até o carro para a vistoria. Eu fiquei na porta do escritório observando.
Ele abriu a porta traseira, parou por um momento, passou a mão no estofado, depois sacou uma prancheta e voltou caminhando até mim. "Vou ter que lançar uma taxa extra, senhor", ele disse, "Num tom casual, como se falasse de um arranhão no para-choque. " "Mas o carro tá perfeito.
" Retruquei defensivo. "Eu não bati ele. " "Não é funilaria".
Ele virou a prancheta para mim. É outro tipo de higienização que precisamos fazer. Ele apontou para o carro.
Aproximei-me, relutante, olhei para o banco de trás, onde o, entre aspas, passageiro havia sentado. O estofado não estava sujo, estava transmutado. O tecido sintético havia envelhecido 100 anos em uma noite.
Estava poído, rasgado, coberto por uma substância negra e viscosa, que parecia piche, mas cheirava a água estagnada. E no meio da mancha negra, cravado na espuma do banco, havia algo branco. Era um dente, um molar humano enorme, com raízes longas e amareladas, encrustado ali como se tivesse sido plantado.
E ao lado do dente, uma unha grossa, curva, suja de terra. O ano velho é assim mesmo, pesado. O atendente disse batendo a caneta na prancheta.
Ele carrega tudo o que a gente não resolveu. Mágoas, dívidas, mortes. Alguém tem que dar carona para ele ir embora, senão ele fica e apodrece o ano novo.
Ele me entregou a máquina de cartão. O visor brilhava em verde. Pode inserir a senha.
Considere isso um serviço de utilidade pública. Você limpou o seu karma. Paguei.
Saí dali correndo. A fatura do cartão chegou hoje. O nome da empresa não era Trânsito Livre locadora.
No extrato bancário. A cobrança de R$ 666 veio em nome de transportadora de alma São Cristóvão. Carol ainda tem pesadelos.
Ela diz que às vezes quando olha no espelho do banheiro de madrugada, vê alguém sentado na banheira atrás dela. Eu nunca jamais estarei preso na merda do trânsito na virada de ano, porque eu sei agora o que anda na estrada junto com quem comemora o reveillon dentro de um carro. Aquela coisa que fica procurando um lugar vazio no banco de trás para descansar as pernas podres.
Até a próxima. Obrigado.