[Música] O romance As Meninas de Líia Fagundes Steles acompanha três jovens universitárias que dividem um quarto em um pensionato de freiras em São Paulo durante o período da ditadura militar. As personagens centrais são Lorena Lia e Ana Clara, cujas vozes se alternam ao longo do texto. Cada uma tem sua história, seus conflitos internos e sua forma de encarar a vida.
Lorena é uma estudante de direito pertencente à elite paulistana, educada em colégios católicos e ligada emocionalmente à mãe, uma mulher tradicional. Ela vive um amor idealizado e impossível com MN, um médico casado, e se refugia na fantasia e nos rituais, como o preparo do chá e a organização do seu quarto. Apesar da aparência frívola e teatral, Lorena é sensível profunda e afetada pelo sofrimento alheio.
Lia é estudante de ciências sociais baiana, engajada politicamente e envolvida com grupos clandestinos de resistência à repressão. Seu namorado Miguel está preso. Lia vive sobensão constante, perseguida por policiais e obrigada a manter sigilo sobre suas ações.
Ela é prática lúcida e dedicada à militância, mas se vê abalada pelo sofrimento dos companheiros presos e torturados. Sua relação com Lorena é marcada por afeto e contrastes e sua amizade com Ana Clara é ambígua, misturando desprezo e compaixão. Lia caminha entre a dureza do real e a fragilidade das relações humanas.
Ana Clara é a mais instável das três. Filha de uma prostituta, passou por orfanatos e prostíbulos. Sofre com a dependência química e emocional.
Vive uma relação abusiva com Max e se prostitui para manter o vício em drogas. é vaidosa, frágil, com crises místicas, delírios e oscilações de humor. Relata com frequência episódios da infância, os abusos e a marginalidade.
Tem fé em santos e realiza pequenos rituais religiosos buscando alguma redenção. Apesar da aparência exuberante, Ana Clara está em ruínas físicas e emocionais. Suas companheiras observam sua decadência com impotência.
Ao longo do romance, o cotidiano das três meninas se mistura com as tensões políticas e sociais do país. O pensionato comandado por freiras representa um espaço de contenção e vigilância, onde as regras são rígidas e as aparências são preservadas. Lorena vive sob o controle da mãe e da madrinha, madre Alix, que simboliza a autoridade da tradição.
Lia precisa ocultar sua vida clandestina e se proteger de possíveis denúncias. Ana Clara tenta manter uma imagem de beleza e glamur, mas seu corpo e mente estão em colapso. As memórias as conversa, os delírios e os fragmentos de realidade se sobrepõem criando uma narrativa caleidoscópica.
As personagens conversam entre si com os ausentes, com os mortos e consigo mesmas. Lorena recorda os irmãos gêmeos, Rômulo e Remo, as brincadeiras de infância, os episódios familiares. Lia relembra Miguel o engajamento, os companheiros caídos.
Ana Clara mistura lembranças de um pai imaginário com relatos de violência, sempre em busca de alguma justificativa para a sua condição. No final do romance, Ana Clara morre por overdose de drogas. Seu corpo é carregado por Lia e Lorena até uma praça deserta para evitar envolver o pensionato ou serem responsabilizadas.
Lorena dirige o carro enquanto Lia segura o corpo da amiga. A cena é silenciosa, marcada pela dor e pela urgência de dar fim ao sofrimento de Ana Clara de forma discreta. As duas tentam justificar o que farão e planejam o que dizer caso sejam paradas.
Lorena observa a beleza do rosto de Ana Clara. e pensa na violência de uma possível autópsia. O gesto de levá-la até o banco da praça é o ápice da cumlicidade entre elas.
Após esse episódio, Le encontra Pedro, um jovem jornalista inseguro com quem ela mantém uma relação breve e desconcertante. Ele chora após um encontro íntimo e Lia, apesar do desconforto, o acolhe. Logo em seguida, Bugre, um companheiro da militância, vem buscá-la para uma nova ação.
Ela entrega seu relógio, sobe no carro e parte com ele debaixo da chuva, decidida a continuar sua luta. Lia, que usava codomes, escolhe Rosa como seu nome verdadeiro e decide começar a escrever um diário registrando seu trabalho político e pessoal. Lorena permanece no pensionato.
Com a saída de Lia e a morte de Ana Clara, a solidão se impõe, mas ela mantém a postura cerimoniosa e fantasiosa. Recebe a notícia da chegada de uma nova estudante de medicina vinda de Santarém, no Pará. Lorena arruma o quarto para a nova colega, oferece a cama vaga às prateleiras e compartilha o espelho.
A menina parece tímida e Lorena a acolhe com gentileza, prometendo protegê-la como se fosse uma concha. O livro termina com essa nova presença no quarto, enquanto Lorena permanece marcada pelos acontecimentos, mas mantendo sua essência. Leia o livro, curta o vídeo e se inscreva no canal.