Nunca tivemos tanto acesso à informação e tanta gente com acesso à educação formal. Ainda assim, aqui estamos, vendo cada vez mais pessoas desprezando a ciência e defenderem ideias não só incorretas, como prejudiciais. O que se passa na mente dessas pessoas?
Eu sou o André, tenho um doutorado em psicologia e ando preocupado com o crescente desprezo pelas evidências científicas, já que isso é algo perigoso para todos nós. Hoje quero explicar algumas das razões psicológicas que podem motivar alguém a negar a ciência. Uma pessoa pode rejeitar a ciência tanto desqualificando diretamente algum conhecimento científico quanto defendendo ideias que são contraditórias com esses conhecimentos, tais como as ideias de que vacinas são perigosas ou de que a terra é plana, por exemplo.
Muitos assumem que, por detrás de um antivacina ou terraplanista, o que existe é a ignorância, a falta de inteligência, de educação ou de informação. O que tem se mostrado cada vez mais claro através de pesquisas na psicologia é que essas hipóteses não descrevem bem a realidade. Pessoas inteligentes, com níveis elevados de renda, educação formal ou acesso a informações não estão imunes a acreditar em ideias enganosas, então apresentar informações baseadas em evidências a um terraplanista para corrigí-lo dificilmente mudará as suas crenças.
Para entender a mente dessas pessoas, precisamos compreender melhor o que as motivam a rejeitar certas ideias científicas. Hoje falaremos sobre 6 bases psicológicas da rejeição da ciência e vale ressaltar que elas não são as únicas, mas sim algumas das mais importantes. A primeira delas são as ideologias.
Elas são sistemas de crenças ligados a um ou mais tópicos dentro da política ou economia que são usadas para interpretar a realidade. As pessoas tendem a desacreditar de conclusões científicas que sejam incoerentes com as suas ideologias, sejam elas quais forem. Um exemplo bem documentado disso está ligado à mudança climática antropogênica.
Essa é a ideia de que atividades humanas são uma das grandes responsáveis pelo aquecimento global que tem sido observado. Vale ressaltar que essa ideia é considerada hoje em dia um consenso científico a nível internacional. De acordo com uma meta-análise, pessoas que adotam ideologias conservadoras tem uma chance maior de não acreditarem na mudança climática antropogênica em comparação com progressistas.
É claro que nem todo conservador rejeita essa ideia, mas existe uma tendência maior nesse grupo. É mais fácil prever se a pessoa acredita ou não nessa ideia com base na sua ideologia política do que na idade, na renda ou no nível educacional dela. Isso sugere que negacionistas da mudança climática talvez não estejam só desinformados sobre o assunto: eles podem estar é motivados a rejeitar essa ideia.
Sabemos que existe uma interação entre ideologias políticas e educação formal quando se trata de acreditar na mudança climática antropogênica, sendo que quanto mais educação um progressista recebeu, maior é a tendência dele acreditar nela. Já no caso dos mais conservadores, essa relação se inverte: quanto mais educação um conservador recebeu, maior é a tendência dele não acreditar nela. Essa diferença provavelmente ocorre porque a mudança climática antropogênica tende a ser uma ideia mais incoerente com algumas ideologias conservadoras.
Através da educação, as pessoas podem aguçar as suas habilidades cognitivas e adquirir novos conhecimentos. Posteriormente, elas poderão usar essas coisas em favor das suas ideologias, valorizando informações que sejam coerentes com elas e criticando ou rejeitando as que não forem. Então se a mudança climática antropogênica for vista como incompatível com a ideologia do livre mercado, por exemplo, um conservador mais habilidoso na sua capacidade de argumentar pode usar essa capacidade para fazer críticas mais elaboradas.
Outra base psicológica da rejeição da ciência são os conflitos de interesses. Eles estão presentes quando pessoas ou organizações percebem algum risco de prejuízo material caso aceitem uma certa conclusão científica, já que essa conclusão poderia gerar repercussões inconvenientes. Acreditar na mudança climática antropogênica talvez não seja muito conveniente para o dono de um posto de gasolina, por exemplo, já que uma repercussão dessa ideia é que deveríamos usar menos derivados de petróleo como combustível e isso não seria bacana para os negócios, não é mesmo?
Também não é tão divertida para empresas de cigarro a conclusão científica de que o seu produto prejudica a saúde, já que, no caso do Brasil, isso levou no ano de 2000 à proibição de publicidade de cigarro, com exceção daquelas feitas de forma restrita nos locais de venda. Tanto é que algumas dessas empresas fizeram diversos esforços para relativizar publicamente essa conclusão e passar a impressão de que não havia consenso científico em torno dos malefícios do tabaco, mesmo que isso já fosse claro pelo menos desde os anos 1950. A terceira base psicológica é a mentalidade conspiratória, conceito esse que já explicamos no nosso vídeo sobre teorias conspiratórias.
Ela se refere à facilidade com a qual alguém acredita que eventos de grande relevância resultaram das ações de grupos com intenções malevolentes e que agiram de forma secreta. Pessoas com uma maior mentalidade conspiratória tendem a acreditar em várias teorias conspiratórias, mas uma que se destaca é a de que a indústria farmacêutica mente sobre os benefícios e os riscos das vacinas para lucrar, o que motiva alguns a adotarem uma postura antivacina. Um estudou identificou que apoiadores de Donald Trump tendiam a desconfiar mais de vacinas do que as outras pessoas e que isso ocorria especialmente quando esses apoiadores tinham uma maior mentalidade conspiratória.
Como Trump demonstrou publicamente a sua desconfiança das vacinas, ele pode ter atraído pessoas com uma mentalidade mais conspiratória, e os seus posicionamentos também podem ter intensificado uma postura antivacina até entre os seus apoiadores menos desconfiados da indústria farmacêutica. Ainda vamos falar de mais algumas bases psicológicas da rejeição da ciência, mas se está achando o vídeo interessante até agora, nos dê uma força clicando no joinha, inscrevendo-se no canal, clicando no sininho e seguindo a gente no Instagram e no Twitter! A quarta base psicológica é a espiritualidade, sendo que quanto mais uma pessoa for espiritualizada, maior é a chance dela negar algumas conclusões científicas incoerentes com as suas crenças.
Uma das principais razões para isso está ligada à um conflito entre abordagens epistemológicas. Embora a espiritualidade possa significar coisas diferentes para pessoas diferentes, algo comumente nutrido por pessoas mais espiritualizadas é a ideia de que a verdade não é acessada por meio da razão ou da fé, mas sim através de experiências subjetivas e da intuição. Essa abordagem epistemológica intuitiva ou baseada na experiência pessoal difere muito daquela que costuma ser mais usada na ciência, a qual se baseia, por exemplo, no uso da razão e das evidências empíricas para embasar conclusões.
Apesar disso, se a espiritualidade motivará ou não a negação de alguma conclusão científica depende muito de qual conclusão estamos falando. Em diferentes pesquisas, a espiritualidade tem sido um dos preditores mais fortes do ceticismo quanto à vacinas, mas não do ceticismo quanto à evolução ou ao aquecimento global. Como alguns autores argumentam, não existe necessariamente uma oposição entre ter uma espiritualidade bem desenvolvida e acreditar nas conclusões da ciência, então a relação entre essas duas coisas pode ser bem mais complexa.
Se você quiser que a gente fale mais disso em um vídeo futuro, clica no joinha e fala pra gente nos comentários. As 2 últimas bases psicológicas da rejeição da ciência que falaremos hoje são a identidade pessoal e social. Negar uma ideia científica pode permitir que você reafirme para si mesmo ou para os outros algum aspecto da sua identidade pessoal, ou seja, das características que você vê como sendo a sua essência.
Se você se vê como alguém criativo e intuitivo, expressar o quanto você acha a ciência reducionista e insuficiente pode te ajudar a demonstrar essas características e assim reafirmar a sua identidade. Enquanto a identidade pessoal reflete as características que te diferenciam dos outros, a identidade social expressa as suas características que são compartilhadas com algum grupo do qual faz parte. Se fazer parte de um grupo está fortemente ligado a crenças incoerentes com a ciência, tal como a ideia de que vacinas são perigosas e deveriam ser evitadas, pode ser bem difícil para algum membro desse grupo mudar de ideia a respeito disso.
A internet e as redes sociais trouxeram um novo patamar de complexidade para essa fonte de rejeição da ciência, já que pessoas que antes seriam ridicularizadas e rejeitadas por acreditarem que a Terra é plana, por exemplo, agora são capazes de encontrar apoio em grupos online. A tendência é que um grupo focado em uma ideia como essa fortaleça mais ainda a crença nela, tanto porque essa crença passará a ser vista como uma parte valiosa da identidade dos membros quanto através da exposição seletiva a informações coerentes com essa crença. Com o passar do tempo, os membros vão se importando cada vez mais com manter a solidariedade e a coesão no grupo do que ter uma visão realista das coisas, algo conhecido na psicologia como pensamento grupal.
Quando um grupo de terraplanistas se torna muito coeso e chega a esse ponto, questionar ou abandonar a ideia de que a Terra é plana vai se tornando o equivalente a abandonar uma parte valiosa de si mesmo e talvez muitos dos seus melhores amigos. Por mais que a terra não seja plana, o aquecimento global antropogênico seja uma ameaça real e vacinas devidamente testadas sejam seguras, simplesmente informar esses fatos para quem os rejeitam dificilmente mudará a cabeça deles. É importante disponibilizar informações bem embasadas para o público como sempre tentamos fazer por aqui, mas para enfrentar a crescente rejeição da ciência, precisamos de mais esforços educativos que levem em conta os conhecimentos da psicologia sobre o que motiva as pessoas a fazerem isso.
Hoje descrevemos 6 bases psicológicas que nos ajudam a entender o porquê algumas pessoas vêm rejeitando a ciência, sendo elas as ideologias, os conflitos de interesses, a mentalidade conspiratória, a espiritualidade, a identidade pessoal e social. O que você achou do vídeo de hoje? Se tiver gostado, não deixe de mostrar isso pra gente clicando no joinha, inscrevendo-se no canal, clicando no sininho e seguindo a gente nas nossas redes sociais.
O próximo vídeo que você pode assistir aqui do canal é o que a gente fez sobre as teorias conspíratórias.