Olá, meus amigos, tudo bem? Por que ler autores e estudar livros com ideias que são, em princípio, antagônicas às nossas ideias? Eu mesmo passei boa parte da minha vida me dedicando a estudar pensadores que tinham convicções muito diferentes das minhas e, muitas vezes, contrárias às minhas.
Mas por que eu fiz isso? E por que eu aconselho as pessoas a fazerem isso também? É sobre esse assunto que eu quero conversar com vocês.
[Risadas] [Música] [Risadas] Bom, o mundo é dividido claramente em várias facções. Parece que hoje, no mundo das redes sociais, as ideias que estão ali colocadas de maneira muito evidente, todo mundo dando opinião, deixaram isso mais claro. Nós vemos claramente que existem grupos e grupos, facções de ideias, pessoas separadas por convicções completamente diferentes.
Quase todo mundo hoje já se localiza na sociedade com ideias prontas, com ideias claras, com convicções sedimentadas. Então, você tem de tudo. Na verdade, não é só de direita, esquerda, conservadores e progressistas; tem uma miríade de ideias e de convicções diferentes.
E, com isso em mente, as pessoas, quando estão interessadas em assuntos do intelecto que demandam estudo, muitas vezes costumam achar uma perda de tempo ler pensadores com os quais elas não concordam. Só que aí a pergunta que eu faço é o seguinte: como não concordar com aquilo que você não leu? O exercício de pensamento que elas fazem é o seguinte: "Bom, esses autores fazem parte daquele grupo que é considerado uma facção inimiga ao meu grupo.
Eu nunca estudei, não sei bem quais são as ideias deles, não sei o que eles dizem, não sei descrever as ideias deles, mas eles fazem parte daquele grupo. " Já que, no mundo hoje, todos os grupos estão muito bem delineados, né? Então, como ele faz parte de um grupo inimigo meu, para que eu vou estudar?
Gente, eu estou falando isso aqui dos meios, inclusive, considerados mais intelectualizados. Eu mesmo já participei de seminários e cursos em que os meus pares falavam isso. Então, por exemplo, quando eu falava que estava lendo Sartre, o meu par do seminário me olhava de esguelha, me olhava de lado.
Muitas vezes ouvi que isso era uma perda de tempo, quando não a desconfiança de que eu estava me transferindo para o campo inimigo. Isso é muito comum, inclusive, nos meios mais intelectuais. Só que essa atitude vai resultar em um efeito muito óbvio: quando a pessoa decide rejeitar estudar determinados autores, determinados pensadores porque esses autores não fazem parte do seu grupo, ela já começa a abrir mão de boa parte do conhecimento existente no mundo.
Porque muitos desses autores que estão ali sedimentados e que se tornaram parte da cultura. . .
Vou dar um exemplo: a psicanálise. Por exemplo, você pode discordar da psicanálise; você pode achar a psicanálise uma grande besteira. Mas ninguém pode negar que a psicanálise trouxe para o mundo expressões, formas de pensar, perspectivas que só ela trouxe, e são ideias que fazem parte hoje da cultura do nosso mundo.
Então, se eu não estudo psicanálise, eu não entendo o que essas ideias querem dizer, ou seja, eu não entendo o que o próprio mundo está falando. E são ideias, independentemente até da questão da cultura, são ideias que estão aí, certas ou erradas, são ideias que estão aí, então são conhecimentos. Eu já começo ignorando, abrindo mão de conhecimentos que eu poderia ter.
Só que pensa comigo, quando você nega estudar certos autores, ou seja, quando você estuda apenas aqueles autores que você considera compatíveis com seus princípios, com suas convicções, apenas os seus amigos, isso já vai exigir de você uma seleção prévia. Porque você já vai ter que ter uma listinha ali de quem faz parte e de quem não faz parte. Você já vai ter que ter uma ideia.
E quando a gente faz isso, obviamente, nós já estamos entrando na linha do preconceito. O que é o preconceito? É você ter conceitos sobre certos autores sem ter um conhecimento um pouco mais profundo deles.
Veja, não estou nem falando do conhecimento super profundo, mas um pouco mais profundo. Não foram poucas as vezes que eu fui ler autores que eram para mim tidos como parte de uma outra esfera cultural que era contrária às minhas convicções e, quando eu os li, eu falei: "Poxa, não é bem isso, esse cara está falando algumas coisas certas. " Então, se eu já de pronto elimino alguns autores, eu já estou agindo de uma maneira preconceituosa, na pior descrição desse termo, no pior significado desse termo.
E até porque para fazer essa seleção prévia eu vou precisar confiar em quem? Nos outros, nas interpretações que chegaram para mim através dos outros e que, muitas vezes, já vêm também com as suas cargas ideológicas, suas cargas ideológicas e suas capacidades interpretativas. Então, veja, isso é muito problemático.
É muito problemático eu aceitar de pronto que aquele ali é inimigo, que aquele ali é amigo, que aquele ali não presta, que as suas ideias não servem para nada. É uma coisa muito enviesada. Eu preciso fazer alguma imersão nesses autores para ter alguma ideia se realmente aquilo ali pode ser considerado por mim algo que é desprezível.
Senão, estou agindo meramente por preconceito. Então, a verdade é que ler, quando eu me permito me abrir para estudar diversos autores, sem esse preconceito que estou falando aqui, o primeiro ganho que eu tenho é expandir o meu imaginário. Independentemente do que esse autor fala em termos de convicções, independente se ele é bom ou ruim, certo ou errado, vamos dizer que se eu estudei um autor muito fraco, bom, no mínimo, eu tive acesso a um autor fraco.
Isso já. . .
Expande meu imaginário para entendimento do que é um autor ruim. Mas quando a gente fala desses grandes autores, que as pessoas consideram parte das facções e dos grupos contrários às suas, esses grandes autores não são fracos no sentido de ignorantes. Não são pessoas geralmente muito inteligentes, mas que seguiram por caminhos de pensamento diferentes dos nossos, muitas vezes contrários aos nossos.
Então, é impossível eu ler um autor desse e não expandir o meu imaginário, ter dentro do meu imaginário ideias diferentes das que eu tinha, vocabulário diferente do que eu tinha, formas de pensar, temas diferentes dos que eu tinha. E isso não tem como não me deixar uma pessoa mais inteligente. Seja o que for, gente, seja, como eu falei, Sartre, seja Marx, estou falando assim dos principais, né, que são colocados ali no grupo de cima do Panteão contrário, seja Rousseau, seja Nietzsche.
Cara, eu posso ler de tudo deles e depois falar: "Cara, esses caras são um problema, são problemáticos, são perigosos. " Posso chegar a toda essa conclusão, mas não posso negar que meu imaginário não se expandiu lendo e estudando. Entendeu?
Isso vai fazer diferença. Não tem como. Além disso, quando me permito ter contato com autores diferentes dos meus e de ideias antagônicas às minhas, isso vai possibilitar também que eu desenvolva uma capacidade de entender melhor não apenas os autores, mas aqueles que são influenciados por eles.
Vocês concordam com isso? Vamos falar desses autores aqui que eu citei, que são assim a nata daqueles que são considerados da trup inimiga, né? Então, você tem Nietzsche.
Vai falar que Nietzsche não influenciou pessoas, que não criou uma cultura de pensamento, que não criou fórmulas próprias que foram repetidas durante décadas e chegam até nós de várias maneiras? Isso cria uma cultura própria. Essa cultura faz parte do nosso mundo.
Então, quando eu entendo isso, quando eu consigo observar isso, compreender isso, saber do que está sendo falado, entender o que está sendo falado, estou não apenas entendendo Nietzsche, não estou apenas entendendo aqueles que seguem Nietzsche, mas estou entendendo também a cultura que faz parte disso, estou entendendo o mundo que faz parte disso. Eu estou entendendo o próprio mundo que vivo, porque eu também estou dentro disso. Eu posso, até com consciência, tendo entendimento, discordar e não repetir as ideias, mas estou dentro desse ambiente.
Essas ideias estão me cercando o tempo todo, e é muito melhor conhecê-las do que não conhecê-las. E a gente pode falar isso de Marx, muito, muito, muito. Escrevi até um livro exatamente sobre isso: como as ideias da filosofia marxista se impregnaram no mundo e formataram a forma de pensar do nosso tempo.
Você pode falar isso de Sartre, de alguma maneira, você pode falar isso de Rousseau, de alguma maneira, então você pode falar isso de Freud, muito também, de alguma maneira. Então veja bem, são autores que, independentemente de qualquer coisa, tiveram o mérito de formar culturas. Essas culturas estão no mundo e estão influenciando o mundo e estão nos cercando, de alguma maneira.
Vivemos cercados por elas, por essas ideias. Então, é importante conhecê-las. Não tem como!
Então, quando me disponho a estudar esse pessoal, claro que antes de tudo me torno muito mais preparado para viver nesse mundo em que vivo, porque agora eu entendo melhor o mundo. Não é só aquela ideia de que eu preciso conhecer o meu inimigo. Também, se me disponho a militar, mesmo que intelectualmente, em relação a esse pessoal, eu preciso estudá-los.
Isso é óbvio! Por exemplo, eu escrevi um livro sobre filosofia marxista, um livro crítico à filosofia marxista, mas antes de tudo, eu me dispus a estudar a filosofia para poder explicar para vocês. Mas mesmo que eu não fizesse isso, só pelo fato de entender melhor o mundo, ainda que não tenha a disposição crítica ou a disposição militante, mas só o fato de eu entender o mundo, eu entender essas ideias para entender o mundo em que vivo já é motivo suficiente.
Por isso que eu não abro mão de ler; pelo menos metade dos meus estudos são de autores que não fazem parte das minhas convicções, das minhas ideias, que não fazem parte das minhas crenças, que não concordam comigo em crenças. Grande parte dos autores, pelo menos metade dos autores que eu leio, não fazem parte daqueles que possuem crenças semelhantes às minhas, princípios iguais aos meus, convicções como as minhas. E eu acho isso maravilhoso!
Eu faço questão de pelo menos metade desses autores serem assim, porque eu preciso ter uma ideia clara, preciso ter uma ideia clara de tudo para, no final das contas, fortalecer as minhas convicções. Ah, mas isso é perigoso! Claro que é perigoso, mas o mundo do conhecimento é um mundo perigoso.
Eu não estou aqui para fazer o que é seguro; estou em busca de conhecimento e não de segurança, tá entendendo? Claro que nós também fazemos, né? Eu também faço uma seleção prévia dos autores que eu escolho, né?
Mas essa minha seleção prévia está muito mais baseada na relevância do que na concordância. Aliás, quase nunca é na concordância. A seleção prévia que eu faço é: se o autor é relevante, eu tenho que fazer uma seleção prévia.
Não dá para ler tudo que aparece. Um autor desconhecido, que ninguém sabe nada, eu olho para ele e falo: "Ah, não quero saber não" ou "vou ler porque eu preciso ler tudo". Não, eu tenho que fazer a seleção prévia.
Então, assim, tem os autores conhecidos que nós já sabemos. Não tem como! Escapar autores desconhecidos.
Você tá no cebo, isso acontece direto comigo. Tô lá no cebo e pego um livro, pô! A coisa mais deliciosa de estar em ceo é fazer isso, né?
Ir lá, pegar o livro e folhear. É nesse folhear que eu vou ter uma ideia. Já tenho experiência suficiente para, lendo ali uma ou duas páginas, saber mais ou menos a linha que o cara segue e saber mais ou menos se tem alguma relevância, se tem algo importante ali que ele pode me trazer, se tem alguma profundidade.
Então, é isso que eu vejo: "Ah, profundidade, isso aqui é profundo, tem relevância, vale a pena dedicar tempo a isso. " Essa é a seleção prévia que eu faço, né, para descartar ou não o livro. Nunca, nunca, nunca pelo lado que a pessoa está.
Nunca! "Ah, não vou ler esse livro porque esse livro é do. .
. é do. .
. é do Marx. Não leio o Marx porque Marx é materialista, porque Marx é ateu, porque Marx é comunista.
" Não, não! Vou ler se me interessar. Se eu quiser entender o assunto, se eu quiser entender o mundo que envolve esse assunto, eu preciso ler, sim!
E é isso que vai fazer a gente se tornar pessoas mais sábias. Não tem jeito, é assim: estudo é se lançando nos livros, se lançando nos autores. E, verdadeiro estudo, ele não tem preconceito.
No mundo de hoje, é até difícil. Aconselho até vocês a não ficarem muito falando que vocês estão lendo por aí, porque as pessoas não entendem. Não tá mesmo!
No mundo da intelectualidade, mesmo no mundo dos estudos. . .
Ixe, quantas vezes eu vi as pessoas torcendo o nariz quando eu falei que tava lendo! Sem brincadeira, pessoas de gabarito, pessoas conhecedoras. Nos momentos em que a política está fervendo, isso se torna mais forte ainda.
E, ah, eu não tenho muita paciência para isso não, gente! Não tenho paciência não! Uma coisa que eu prezo é a minha liberdade de fazer o que eu bem entenda.
E se eu quiser ler, eu vou ler. Se vocês olharem minha biblioteca, tem de tudo aqui: amigos, inimigos, né? A gente fala: tem de tudo!
Então, não vou ficar com essa frescura, não! Leio o que eu quiser, estudo o que eu quiser e procuro estudar o máximo que eu puder, porque eu quero sempre conhecer mais. Esse é o objetivo de ter uma vida mais voltada à intelectualidade.
Meu objetivo é sempre expandir minha consciência, expandir meu imaginário, entender melhor as coisas e não deixar passar o mínimo de conhecimento possível. Se eu tenho um conhecimento, tá ali, e eu desprezá-lo, isso me incomoda. Eu quero saber, ainda que depois eu possa falar que aquilo ali não tem nada a ver comigo, mas pelo menos entendi o que estava sendo dito ali.
Certo? Concordam com isso aí? Espero que vocês reflitam sobre isso e possam se dispor a estudar cada vez mais.
Tá bom, gente? Por hoje é isso aí e até a próxima!