Vamos começar. O ano era 1872. A Alemanha, recém unificada sob o comando de Oto von Bismarck, vivia um momento de euforia nacionalista, acreditando que a força e o progresso científico definiriam o futuro do continente. [música] Nesse contexto, Friedrich Nietzs publicou sua primeira grande obra O nascimento da tragédia a partir do espírito da música. Era [música] um texto ousado, profundamente poético, que unia filosofia, estética e filologia. Nele, Niet propunha radical, compreender a cultura grega não como um modelo de serenidade racional, mas como o resultado de uma tensão trágica entre duas forças opostas, Apolo e Dionísio. Nietzs
via no espírito Apolínio a busca pela ordem, pela forma e pela medida, representando a razão e a harmonia, enquanto o Dionisíaco expressava o caos, o instinto e o êxtase vital. >> [música] >> Para ele, a grandeza da tragédia grega estava justamente nessa fusão entre o sonho apolíneo e a [música] embriaguez dionisíaca. Essa visão colocava a arte como a expressão suprema da vida, capaz de revelar verdades que a razão jamais alcançaria. A obra foi dedicada ao compositor Richard Wagner, que Niet admirava intensamente. Wagner simbolizava, para ele, a tentativa moderna de recriar o espírito trágico da Grécia
antiga por meio da música. O filósofo acreditava que a ópera wagneriana representava a união entre mito e arte, algo capaz de restaurar o sentido espiritual perdido pela modernidade. Durante esse período, Niet viveu uma relação quase devocional com o músico, que o recebia em sua casa em Triben, onde discutiam filosofia, arte e religião por horas a fio. Porém, a recepção de o nascimento da tragédia na academia foi desastrosa. Os filólogos consideraram o texto confuso, excessivamente metafórico e distante do rigor científico esperado. Um de seus colegas na Universidade de Basileia chegou a afirmar que Niets havia traído
a filologia pela poesia. Ele se tornara estranho entre seus pares. Mesmo assim, a obra teve impacto profundo fora dos muros universitários. [música] Críticos de arte. Poetas e pensadores viram ali uma nova forma de compreender o mundo. Como analisou o professor José Thomas Brum da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado em 2005, o nascimento da tragédia rompe com a racionalidade moderna ao colocar a arte como origem da filosofia e não seu complemento. Essa inversão conceitual seria uma das marcas mais poderosas do pensamento nitiano. Nos anos seguintes, Niets percebeu que sua ligação com Wagner
começava a se deteriorar. Enquanto o músico se aproximava da religião e do nacionalismo alemão, o filósofo seguia em direção oposta, cada vez mais crítico das instituições e das ideias de redenção. [música] Em suas cartas, Niets começou a expressar incômodo com o que chamava de teatralização moral de Wagner, sugerindo que o artista havia transformado sua arte em propaganda espiritual. Durante esse período, sua saúde física e mental começou a declinar. As dores de cabeça e os problemas de visão se agravaram, tornando a escrita uma tarefa penosa. Ainda assim, ele persistia, convencido de que a filosofia deveria ser
vivida como uma experiência estética e não como um sistema de verdades. Niets acreditava que o homem moderno havia perdido o contato com o trágico, refugiando-se em explicações racionais e em valores morais herdados do cristianismo. Ele dizia que a verdadeira força humana residia em aceitar o sofrimento como parte da vida, sem recorrer à esperança de uma salvação futura. Somente aquele que contempla o horror da existência e ainda assim a ama é digno de viver", escreveu em seus cadernos de notas. Essa concepção da vida como arte trágica abriria caminho para toda a sua obra posterior. [música] Como
destacou o filósofo em sua obra Introdução a Niet, publicada em 1985, Niet inaugura a filosofia da suspeita ao revelar que os valores supremos da humanidade são construções históricas e não verdades eternas. Após o impacto inicial de o nascimento da tragédia, Niets decidiu afastar-se do círculo wagneriano. O rompimento definitivo ocorreria poucos anos depois, mas já nesse momento ele intuía que seu caminho seria solitário. A academia o rejeitava, a religião o condenava e os artistas o viam como um pensador hermético. No entanto, ao colocar a arte como expressão da vida e não como sua representação, Niets havia
lançado a primeira pedra de uma revolução filosófica. O nascimento da tragédia seria mais tarde reconhecido como o início de uma das transformações mais profundas do pensamento ocidental, a destruição da crença na verdade absoluta. Mas o que ele não imaginava [música] era que, ao romper com o mundo da arte e da academia, Nietzs daria início a um período de isolamento e questionamento [música] que mudaria para sempre sua visão de mundo, um caminho que o levaria à desilusão e, paradoxalmente, à liberdade interior. O ano era 1878. Frederich Nietzsche tinha 34 anos e já não era o jovem
entusiasmado que via na arte o sentido supremo da existência. Vivendo isolado na Suíça, afastado da Universidade de Basileia e dos círculos intelectuais de sua juventude, [música] ele começava a experimentar uma profunda transformação interior. As crises de saúde o forçavam a longos períodos de reclusão. [música] E foi durante esse isolamento que nasceu uma das obras mais importantes e controversas de sua trajetória. Humano, demasiado humano. Um livro para espíritos livres. Esse livro marcou a ruptura definitiva com Richard Wagner e com o romantismo filosófico que o havia inspirado. [música] Niets abandonou o tom lírico e simbólico de o
nascimento da tragédia [música] e adotou um estilo aforístico, conciso e racional. Passou a examinar o ser humano não como uma entidade espiritual, mas como um produto da história, da biologia e da cultura. Cada pensamento, cada emoção e cada crença, dizia ele, poderiam ser explicados pelas condições concretas da vida e não por uma essência divina. [música] Em humano, demasiado humano, Niet descreveu o homem como uma criatura em constante transformação, impulsionada por instintos e desejos. A moral, a religião e a arte, que antes pareciam transcendentes, foram reinterpretadas como construções humanas destinadas a tornar a vida suportável. O
filósofo via o homem como um ser que cria ilusões para sobreviver ao peso da realidade. Segundo o professor Scarlet Marton da Universidade de São Paulo, em estudo publicado em 1999, Niet inaugura uma crítica radical à metafísica ao demonstrar que o pensamento humano é guiado mais pela necessidade de crença do que pela busca da verdade. Essa visão aproximava o filósofo das ciências humanas emergentes, como a psicologia e a sociologia, e o colocava na linha de pensadores que décadas depois revolucionariam a compreensão do comportamento humano. A obra foi recebida com espanto e hostilidade. Os antigos admiradores de
Nietzs o acusaram de ter se tornado cético e niilista. [música] Wagner, sentindo-se traído, respondeu com ironia: "O filósofo perdeu a música. Niets, por sua vez, via no afastamento do mestre um ato de libertação. [música] Ele não queria mais ser discípulo de ninguém. Em uma carta de 1879, escreveu: "Eu me recuso a ser o eco de outra voz, mesmo que essa voz tenha sido bela. A forma fragmentada do livro, composta por mais de 600 aforismos, refletia a tentativa de Nietzsche de libertar-se dos sistemas fechados da filosofia tradicional. Ele acreditava que a verdade não poderia ser expressa
em tratados, mas em lampejos de intuição, como o relâmpago que ilumina por um instante a escuridão. O contexto histórico também influenciou essa virada. A Europa vivia o auge do positivismo científico e do progresso técnico, mas também enfrentava cres morais e políticas. A fé no racionalismo, defendida por August e John Stuart Mill começava a mostrar suas limitações. Nietzs percebeu que a razão, embora poderosa, não era suficiente para dar sentido à existência. Toda a filosofia é uma confissão de seu autor", escreveu ele. Uma frase que refletia a tensão entre sua lucidez intelectual e seu sofrimento físico. Durante
os anos em que escreveu humano, demasiado humano, Niets viveu uma rotina austera. Viajou para regiões montanhosas em busca de ar puro, tentando aliviar as dores de cabeça, os problemas digestivos e a sensibilidade à luz. Em cartas a amigos, descrevia dias inteiros de trabalho interrompidos apenas por breves caminhadas ao sol. Sua saúde frágil o forçava a uma vida solitária, [música] mas essa solidão também o fortalecia espiritualmente. Como analisa o filósofo Martin Heidegger em sua conferência Quem é Niet, publicada em 1961, [música] a solidão de Niet não é apenas geográfica, é ontológica. Ele se separa da humanidade
para pensar o que ela teme, o vazio deixado pela morte de Deus. Essa observação revela a dimensão existencial de sua obra. Niets não atacava a religião apenas por crítica intelectual, mas por compreender que o homem precisava reinventar o sentido da vida em um mundo sem transcendência. O livro também inaugurou o estilo que o tornaria único, [música] uma escrita que combina filosofia, literatura e psicologia. Ele analisava com ironia e precisão as fraquezas humanas, a inveja, a vaidade, o orgulho, sem jamais perder o tom de empatia. Niets via a humanidade como algo trágico, mas também belo em
sua tentativa incessante de criar significados. A publicação de Humano, demasiado humano, marcou o início do que ele chamaria de sua segunda fase filosófica. O jovem professor de filologia havia se transformado em um pensador livre, desconfiado das verdades eternas. A arte e a religião perderam sua aura sagrada, e em seu lugar surgia o homem com suas contradições e fraquezas, humano, demasiado humano. Mas o que Niet ainda não sabia era que essa jornada em busca da liberdade intelectual o levaria a um território mais perigoso, o da completa rejeição dos valores morais. E seria justamente nessa travessia que
ele escreveria uma de suas obras mais provocadoras, Aurora. O ano era 1881 e Friedrich Nietzs vivia um de seus períodos mais solitários e produtivos. Após o lançamento de humano, demasiado humano, ele havia se afastado completamente da universidade e vivia como um filósofo errante. Sem vínculos acadêmicos, sem renda estável e com a saúde cada vez mais debilitada, Niet vagava entre pequenas cidades da Suíça e da Itália, [música] buscando lugares com clima seco e luminoso, onde pudesse suportar suas dores de cabeça e os espasmos nervosos. Foi nesse exílio voluntário [música] que ele escreveu uma de suas obras
mais introspectivas, Aurora. [música] Reflexões sobre os preconceitos morais. Aurora marca um novo estágio em sua filosofia, uma etapa de depuração. Aqui, Niets se propõe a investigar as origens da moral, questionando o valor e a legitimidade dos princípios éticos que orientam a civilização ocidental. Ele já não buscava respostas na arte, nem na religião, mas na história e na psicologia humana. Perguntava-se: "De onde vem nossos juízos morais? O que faz o homem considerar certas ações boas e outras más? E sobretudo o que escondem essas categorias?" Para Niet, a moral não era um reflexo da verdade divina, mas
uma invenção humana moldada por interesses e instintos de poder. Em Aurora, ele escreveu: "Não existe ação moral em si, há apenas interpretações morais". Essa ideia desmontava séculos de tradição filosófica de Sócrates ao cristianismo e colocava o homem diante de uma nova responsabilidade, [música] a de criar seus próprios valores. Em suas longas caminhadas por Sios Maria, nos Alpes suíços, Niets levava um pequeno caderno no bolso. Ali registrava aforismos curtos, observações sobre o comportamento humano e reflexões sobre o futuro da civilização. Foi nesse ambiente montanhoso que surgiu a metáfora da aurora, o momento em que a noite
da moral tradicional começa a ceder lugar à luz de um novo pensamento. A crítica à moral cristã tornou-se o eixo central do livro. Nietzsche via no cristianismo uma moral de resignação criada pelos fracos para limitar os fortes. O instinto vital, a vontade de potência [música] havia sido reprimido em nome da obediência e da culpa. Ele comparava a moral cristã a um veneno suave que tornava os homens dóceis e submissos. No entanto, longe de pregar o caos moral, Niet defendia a necessidade de uma nova ética baseada na afirmação da vida e não na negação do desejo.
Segundo o professor Osvaldo Jacóia Júnior, em artigo publicado pela Universidade Estadual de Campinas em 2003, em Aurora, Niet dá os primeiros passos em direção ao diagnóstico do Nilismo, ao mostrar que os valores da civilização europeia perderam sua força criadora. Essa leitura acadêmica brasileira é fundamental para compreender o alcance da obra. Niets não queria destruir [música] a moral, mas libertá-la da mentira. O contexto europeu reforçava suas inquietações. [música] A ciência moderna, impulsionada pelo darwinismo, começava a desafiar os fundamentos religiosos. O homem já não era visto como criação divina, [música] mas como resultado da evolução natural. Nietzs
viu nisso tanto uma oportunidade quanto um perigo. Se o homem era apenas um produto da natureza, poderia também reinventar-se. Mas sem uma nova bússola moral, corria o risco de se perder no vazio. O estilo de Aurora é o de um pensador em transição. Mais maduro e disciplinado, Niet escreve com clareza cortante, alternando ironia e profundidade. Seus aforismos revelam uma mente que observa o mundo com ceticismo, mas também com esperança. [música] Ele acreditava que o amanhecer de uma nova filosofia exigia coragem, a coragem de viver sem garantias metafísicas. Durante esse período, Nietzs se distanciou ainda mais
de antigos amigos e familiares. Sua irmã Elizabeth, que se aproximava de ideais nacionalistas e religiosos, não compreendia seu pensamento e o via como blasfemo. Ele, por sua vez, considerava que ela representava exatamente o tipo de moral que ele combatia, a moral dos ressentidos. Sozinho, escrevendo entre crises de dor e momentos de lucidez, Niet experimentou um tipo de liberdade inédita. Em carta a seu amigo Peter Gast confessou: "Sinto-me como um homem que acorda antes dos outros e caminha sozinho na aurora. Não há trilhas, apenas o frio e o silêncio, mas há também a promessa de um
novo sol. [música] Esse novo sol seria o símbolo da filosofia afirmativa que ele começava a construir. Aurora é, portanto, a passagem entre o ceticismo de humano, demasiado humano, e o otimismo trágico de suas obras seguintes. A dúvida cede lugar à criação. O desencanto dá espaço à possibilidade de recomeço. Como observa o filósofo francês Gilles de L em seu ensaio Niets e a filosofia, 1962, em Aurora. Niets anuncia a tarefa do filósofo do futuro, destruir ídolos e criar valores. Essa ideia seria a base do conceito de espírito livre, aquele que ousa pensar além do bem e
do mal. Quando concluiu o manuscrito, Nietzs sentiu que havia atravessado uma fronteira invisível. Já não era o discípulo de Schopenhauer, nem o admirador de Wagner. >> [música] >> era um pensador autônomo, consciente de que sua filosofia o isolaria do mundo, mas o tornaria inteiramente seu. Mas o que ele não imaginava era que, logo depois de escrever Aurora, uma nova explosão de ideias tomaria conta de sua mente, uma fase de entusiasmo criador que culminaria em uma das obras mais luminosas de toda a história da filosofia, a Gaia ciência. O ano era 1882 e Friedrich Nietzs parecia
renascer. Após os anos sombrios de solidão e enfermidade, o filósofo atravessava uma fase de energia intelectual intensa, marcada por uma nova clareza de pensamento. Instalado em Gênova, no norte da Itália, e depois em Nice, ele respirava o ar do Mediterrâneo, observava o mar, os mercados, os sons da cidade e a luz do sol, todos símbolos de vitalidade que contrastavam com a rigidez moral e teológica que ele tanto criticava. [música] Desses dias nasceu uma das obras mais poéticas e provocadoras da filosofia moderna, Aaia Ciência, D. Frisenshaft. [música] Emia ciência, Nietzs celebrava a vida como um fenômeno
estético. O título não se referia à ciência acadêmica, mas a ciência alegre, o saber conquistado pela experiência, pela criação [música] e pelo riso. O filósofo via a alegria como forma de coragem, rir diante do absurdo, viver sem garantias e amar a existência, apesar do sofrimento. [música] Essa era para ele, a mais alta expressão da sabedoria. O livro é composto por aforismos, poemas e parábolas que revelam um nit mais solto, quase literário. Nele aparece, pela primeira vez uma de suas ideias mais célebres e perturbadoras: Deus está morto. Essa frase, longe de ser uma provocação ateísta vulgar,
era um diagnóstico espiritual. Nietzsche observa que no século XIX a fé religiosa havia perdido seu poder de orientar a vida humana. A ciência, a razão e o progresso haviam destruído o fundamento metafísico da moral. [música] Deus está morto, dizia ele, e nós o matamos. Mas essa morte de Deus não era motivo de festa, era o início de uma crise. O homem moderno, libertado das antigas crenças, ainda não havia encontrado novos valores para substituí-las. O perigo do niilismo, o sentimento de vazio e perda de sentido começava a se manifestar. Como explica o filósofo João Evangelista da
Silva da Universidade Federal de Minas Gerais, em seu estudo de 2008, Niet não celebra a morte de Deus, mas a encara como o acontecimento mais grave da modernidade, o fim de qualquer certeza absoluta. A Gaia ciência também introduziu o conceito de eterno retorno, uma das ideias mais desafiadoras do pensamento nitiano. Em uma parábola famosa, um demônio aparece e diz ao homem que ele deverá viver sua vida inúmeras vezes, repetindo cada gesto, cada dor, cada alegria. A questão que Niet propõe é simples e devastadora. Se você soubesse que teria de viver sua vida infinitamente, amaria a
vida o bastante para desejar isso? A resposta para ele definiria o verdadeiro valor da existência. A filosofia de Niet nesse período tornou-se mais afirmativa e luminosa. Ele abandonou o tom cético de Aurora e passou a exaltar a criatividade humana. A ciência e a arte não eram mais vistas como rivais, mas como expressões diferentes da vontade de potência. [música] A força que impulsiona toda a forma de vida. Essa vontade, dizia ele, [música] é o que move o homem a superar-se continuamente. Durante a escrita de Agaia Ciência, Nietzs travou uma intensa relação intelectual com L. Andreas Salomé,
uma jovem escritora russa que havia impressionado o filósofo com sua inteligência e independência. [música] Nietzs a conheceu em Roma e logo se encantou por ela, vendo nela o ideal do espírito livre que ele tanto admirava. chegou a pedir-lhe em casamento, mas foi recusado. A recusa o feriu profundamente, mas também inspirou reflexões sobre o amor, a solidão e a criação. Apesar da aparência alegre, o livro reflete uma luta interior. Niets percebia que o homem moderno estava diante de um abismo, sem Deus, sem verdades eternas e sem destino garantido. No entanto, ele via nesse abismo a chance
de um novo começo. O que não me mata me fortalece. escreveu [música] uma das frases mais citadas de toda a filosofia moderna e uma síntese perfeita de seu pensamento. Como observou o filósofo francês Albert Kamu em O homem Revoltado 1951, Niet foi o primeiro a entender que sem Deus o homem deve criar por si mesmo a medida de todas as coisas. Essa leitura ilumina o núcleo de Hai ciência. A libertação do homem não se dá pela destruição da fé, mas pela criação de um novo tipo de amor à vida, o amor fati, o amor ao
destino. [música] O livro foi dedicado a seus amigos, que ele chamava de espíritos livres, aqueles capazes de rir diante da verdade e viver sem ilusões metafísicas. Mas poucos compreenderam seu tom. Muitos o acusaram de cinismo, outros de loucura. Niet, contudo, sabia que falava para o futuro. Ele mesmo escreveu: "Sou um mensageiro vindo cedo demais". A Gaia ciência marca o ponto de virada em sua filosofia. [música] O pessimismo de Schopenhauer fora deixado para trás. Em seu lugar surgia uma ética da criação e da força. A morte de Deus, longe de ser o fim, era o recomeço,
a aurora de um novo tipo de homem, o Ubermch, o homem capaz de afirmar a vida em toda a sua plenitude. Mas o que Nietzs ainda não sabia era que a ideia do homem que supera o homem [música] ganharia forma plena em sua obra seguinte, um livro escrito como uma canção poética e profética que mudaria para sempre a história do pensamento. [música] Assim falou Zaratustra. Era o início da década de 1880 e Friedrich Nietzs vivia uma espécie de êxtase intelectual. >> [música] >> Isolado em Sios Maria, nos Alpes suíços, ele passava horas caminhando entre montanhas
cobertas de neve e lagos cristalinos, escrevendo em cadernos o que chamava de pensamentos dançantes. [música] Foi ali, cercado por silêncio e natureza, que ele concebeu sua obra prima. Assim falou Zaratustra, um livro para todos e para ninguém. Publicado em quatro partes entre 1883 e 1885, Zaratustra é uma das obras mais enigmáticas e poéticas da filosofia ocidental. Inspirado pelo profeta Persa Zaratustra ou Zoroastro, fundador de uma antiga religião dualista, Niet cria um personagem simbólico que desce das montanhas para ensinar aos homens uma nova maneira de viver. Livre das amarras da moral, da fé e das convenções.
O livro é escrito como uma parábola, misturando filosofia, poesia e profecia. O ponto central da obra é a ideia do Ubermch ou além do homem. Zaratustra anuncia que o homem é apenas uma ponte entre o animal e o além do homem, um ser que cria novos valores, que não teme o caos e que transforma o sofrimento em força criadora. Essa figura não representa um ser superior no sentido biológico ou racial, como mais tarde distorceriam os ideólogos do século XX, mas um ideal ético e espiritual, o homem que se recria continuamente, sem depender de verdades externas.
Em uma das passagens mais célebres, Nietzs escreve: "O homem é algo que deve ser superado". Essa frase resume a essência de sua filosofia. A vida é movimento, transformação e superação constante. O ser humano que se acomoda à moral herdada, que busca [música] certezas e segurança, nega sua própria natureza criadora. Para Niet, viver plenamente é aceitar o fluxo da existência, com suas dores e belezas como uma dança trágica e jubilosa. Em assim falou o Zaratustra, o tom de Niet torna-se profético e teatral. Ele abandona o discurso analítico e adota o estilo de um poeta que fala
diretamente a alma. O livro está repleto de imagens simbólicas, o sol, a montanha, a serpente, a águia, que representam forças internas do espírito humano. O próprio Nietzsche descrevia Zaratustra como sua obra mais profunda e mais perigosa, pois sabia que poucos a compreenderiam. O contexto pessoal do filósofo durante a escrita era de solidão absoluta. [música] Ele já havia rompido com Wagner, perdido o contato com amigos e familiares e recusava convites acadêmicos. Vivia com recursos mínimos, publicando suas obras às próprias custas. >> [música] >> Mesmo assim, Nietzs escrevia com uma intensidade que parecia ignorar a fragilidade de
seu corpo. As crises de dor o faziam interromper o trabalho por dias, mas quando voltava à escrita fazia-o com fervor. Como explica o professor Osvaldo Giacoia Júnior em Niet, o Humano como memória e projeto publicado pela editora da Unicamp 2014, Zaratustra [música] é o momento em que Niet transforma filosofia em literatura e pensamento em estilo de vida. [música] Ele abandona a figura do professor e assume a do profeta. Essa observação ajuda a entender a dimensão estética e existencial da obra. Niet não descreve uma doutrina, mas encena um despertar. Entre os conceitos mais marcantes de Zaratustra
[música] está o do eterno retorno retomado de Agaia Ciência, mas agora apresentado como uma experiência de redenção. Zaratustra desafia o leitor a amar cada instante da vida de modo tão profundo que ele desejaria repeti-lo eternamente. Essa ideia chamada de amor fati, o amor ao destino, simboliza a aceitação incondicional da existência. Em uma carta escrita em 1883, Nietzs relatou a um amigo o momento em que concebeu a ideia central da obra. Caminhava junto ao lago de Sios Maria, quando a sombra de uma grande rocha me fez parar. Foi ali que o pensamento do eterno retorno me
atravessou com a força de um relâmpago. No plano simbólico, Zaratustra representa a destruição dos antigos deuses e a criação de novos valores. Niets afirmava que toda a cultura [música] viva precisa de mitos para existir e que o homem moderno, ao matar Deus, havia perdido o seu. O papel do além do homem seria justamente o de criar novos mitos, [música] não transcendentais, mas humanos. nascidos da própria vida. Apesar de sua profundidade, o livro foi recebido com incompreensão. A crítica o considerou obscuro, [música] exagerado e pretencioso. Niets, consciente disso, escreveu no prefácio: "Este livro pertence a poucos,
[música] talvez a ninguém ainda. Ele sabia que sua filosofia falava para o futuro." Como destacou o historiador Patter Slotterdick em seu estudo Pensar depois de Nietzs publicado em 2004, [música] Zaratustra é o nascimento da filosofia pós-moral. A partir dele, o pensamento ocidental nunca mais pôde ser o mesmo. De fato, o impacto de Zaratustra seria sentido décadas depois, influenciando escritores, psicanalistas e artistas do mundo inteiro. Ao concluir a última parte do livro, Niet escreveu em seu diário: "Dancei, [música] sorri, sofri e escrevi". Era uma confissão poética e dolorosa. Sua filosofia havia atingido o auge da criação,
mas seu corpo e sua mente começavam a dar sinais de colapso. O filósofo, que falava pela voz de Zaratustra acreditava ter iluminado o caminho da humanidade. Mas o que ele não imaginava era que, após essa explosão de lucidez, mergulharia em um período de solidão e cansaço, do qual surgiria uma obra ainda mais crítica e desafiadora, [música] além do bem e do mal. O ano era 1886. >> [música] >> Friedrich Nietzs havia completado 42 anos e se encontrava em um ponto de virada decisivo. As dores de cabeça, a fraqueza muscular e as crises de visão haviam
se intensificado, mas sua mente permanecia aguda e incansável. Depois da poesia profética de Assim falou Zaratustra, ele decidiu escrever uma obra mais direta, filosófica e [música] combativa. Assim nasceu, além do bem e do mal, prelúdio, a uma filosofia do futuro. [música] Cisaratustra era o grito visionário de um profeta. Além do bem e do mal, foi o manifesto de um pensador maduro que queria enfrentar o coração da filosofia ocidental. Nietzsche abriu o livro com uma provocação, supondo que a verdade seja uma mulher. E por [música] que não? Não seria o problema que todos os filósofos até
agora foram desajeitados com as mulheres? A metáfora não era apenas irônica. Ela denunciava a arrogância dos filósofos que acreditavam ter possuído a verdade de forma definitiva. Para Niets, a filosofia tradicional de Platão a Kant havia sido movida pelo medo do caos e pela busca de uma ordem moral absoluta. Nessa obra, ele apresenta o conceito de vontade de potência, Vilesur Mact, a força vital que move todos os seres. Essa vontade não é o desejo de dominação sobre outros, como às vezes foi mal interpretado, mas o impulso interior de superação, a tendência de toda forma de vida
em expandir-se, criar e afirmar sua existência. O homem forte para Niet é aquele que cria seus próprios valores. O fraco é aquele que aceita os valores prontos e chama isso de virtude. Com além do bem e do mal, Niet propôs uma nova maneira de pensar a moral. Ele afirmou que as categorias de bem e mal eram invenções humanas, frutos de contextos históricos e psicológicos. Assim como em Aurora, ele denunciava a moral cristã como uma moral dos fracos construída sobre o ressentimento. Para ele, o verdadeiro pensador deveria ir além dessas oposições simplistas. Deveria criar uma ética
da força, da alegria [música] e da afirmação da vida. Segundo o professor Benedito Nunes, em sua obra Niet e a Verdade, publicada pela Universidade Federal do Pará em 1985, Nietzs inaugura uma nova ontologia do valor ao mostrar que não existe moral universal, mas interpretações históricas da vida. Essa leitura ajuda a compreender a ousadia do filósofo. Ele não apenas criticava as ideias tradicionais, mas questionava os próprios fundamentos da verdade. O livro é composto por 296 aforismos curtos intercalados por sessões em que Nietzsche fala diretamente ao leitor com ironia e lucidez. Ele ataca os dogmas da filosofia,
a pretensão da ciência, a neutralidade e a hipocrisia das religiões. Nenhuma instituição escapa de sua análise. Ao mesmo tempo, Niet reconhece o perigo de seu próprio pensamento, o de ser mal interpretado como pura negação. O contexto político da Europa reforçava o senso de crise. O império alemão, unificado sob Bismarck, vivia a euforia do progresso industrial e militar. A moral burgu exaltava a obediência, o trabalho e a fé na ordem. [música] Niets, em contraste, via nisso um sintoma de decadência espiritual. Para ele, a verdadeira cultura floresce apenas quando o homem aceita o conflito e o risco.
O que é bom? Perguntava ele. Tudo o que eleva o sentimento de poder no homem, tudo o que o faz crescer. Durante esse período, Nietzsche começou a se distanciar também da irmã Elizabeth, que se envolvia com grupos nacionalistas e antissemitas. Ele repudiava o uso político de suas ideias e o fanatismo ideológico de qualquer tipo. Em cartas, deixou claro que seu pensamento não deveria ser usado para justificar preconceitos ou tiranias. Essa clareza moral, muitas vezes esquecida pelos leitores posteriores, revela a profundidade ética de seu projeto. Libertar o homem, não subjugá-lo. Em além do bem e do
mal. Niet também introduz o conceito do filósofo do futuro, aquele que não busca verdades eternas, mas experimenta, cria e destrói valores como um artista. [música] Ele via o pensamento como um ato de coragem estética. A filosofia dizia, deveria ser um perigo permanente, não uma instituição acadêmica. Como observa o filósofo francês Michelle Foucault em seu ensaio Niets, a genealogia e a história, 1967, Niet não procura a origem dos valores, mas suas estratégias de poder. Essa ideia ecoa diretamente o espírito de além do bem e do mal, em que o conhecimento é visto como uma forma de
luta e não de contemplação. Com o lançamento do livro, Niets esperava encontrar novos leitores, mas a recepção foi novamente fria. As editoras se recusavam a investir em suas obras e o público não compreendia suas críticas à moral. Ele chegou a publicar exemplares às próprias custas e enviá-los a amigos, mas poucos responderam. O filósofo vivia modestamente, sustentado por uma pequena pensão e pela generosidade de amigos como Peter Gast. Mesmo assim, Nietzs sabia que estava abrindo um caminho inédito. [música] Ele se via como um explorador do espírito humano, alguém que escrevia para o século XX e além.
[música] O filósofo do futuro que ele descrevera em além do bem e do mal, era o espelho de si mesmo, um homem solitário, sem mestres e sem discípulos, guiado apenas pela própria força interior. Mas o que ele não imaginava era que em seu próximo livro levaria essa análise da moral às últimas consequências. A pergunta, quem somos nós? Se transformaria em uma dissecação implacável das origens do bem, do [música] mal e da culpa. Um exame que mudaria para sempre a filosofia ocidental. [música] O ano era 1887. Friedrich Nietzs estava em Turim, já exausto fisicamente, mas em
seu auge intelectual. [música] Após as reflexões provocadoras de além do bem e do mal, ele sentiu a necessidade de aprofundar suas ideias e explicá-las com mais clareza. O resultado foi uma de suas obras mais poderosas e sistemáticas: [música] Genealogia da Moral. Um escrito polêmico. Nessa obra, Niets decidiu investigar não o que é a moral, mas como ela nasceu. Seu objetivo era compreender as origens históricas e psicológicas dos valores humanos. Ele afirmava que as ideias de bem e mal não são universais, mas construções culturais criadas por grupos diferentes ao longo da história. Assim, a moral seria
uma espécie de campo de batalha, um espaço onde se expressa a luta entre forças opostas da vida. A genealogia da moral é dividida em três dissertações. [música] Na primeira, Niet analisa a origem dos conceitos de bom e mal. Ele mostra que nas sociedades antigas, bom era aquilo que pertencia aos nobres, aos fortes e criadores, os que afirmavam a vida com orgulho. Já ma era o que representava o fraco, o serviu, o ressentido. Com o tempo, porém, esse sentido se inverteu. Os fracos, através da religião e da moral cristã, passaram a chamar bom aquilo que era
humilde e obediente, e ma tudo o que expressava força e autonomia. Essa inversão de valores, chamada por Niet de revolta dos escravos na moral, foi, segundo ele, um dos maiores eventos espirituais da humanidade. Na segunda dissertação, ele aborda o tema da culpa e da má consciência. Niet argumenta que a culpa nasceu das relações de dívida entre pessoas. [música] Quem devia e não pagava era punido e essa punição se transformou em remorço interior. Com o avanço das religiões, especialmente do cristianismo, essa culpa foi internalizada e associada à ideia de pecado. Assim, o homem passou a se
voltar contra si mesmo, a vigiar e punir o próprio desejo, o que Nietzs chamou de animal de consciência. A terceira dissertação trata do ideal aso, a crença de que o sofrimento e a negação dos prazeres seriam moralmente superiores. Niets via nesse ideal uma forma de vingança da fraqueza contra a vida. Para ele, o aceta não busca a verdade, mas o poder. Ao pregar o sacrifício, ele domina o outro através da culpa e da esperança. O sacerdote aso é o redentor dos fracos, escreve Niets. Mas apenas porque lhes dá um sentido para o sofrimento, ainda que
falso. Como observa o professor Paulo César de Souza, tradutor e pesquisador da Universidade de São Paulo, em prefácio publicado em 2009, a genealogia da moral é a anatomia da civilização ocidental, um raio que ilumina o abismo entre o homem criador [música] e o homem ressentido. Essa análise acadêmica resume bem o impacto da obra. Nietzs transformou a moral em objeto de estudo histórico e psicológico, antecipando campos como a antropologia, a psicanálise e a sociologia moderna. A força da genealogia da moral está no método genealógico, um modo de pensar que busca as condições históricas e simbólicas das
ideias, em vez de aceitá-las como verdades universais. [música] Michelle Fou, um século depois, reconheceria nessa abordagem a origem de sua própria filosofia. Nietzs dizia que não há fatos morais, apenas interpretações morais e que o filósofo deveria ser, antes de tudo, um médico da cultura, alguém capaz de diagnosticar as doenças do espírito. O contexto europeu em que a obra foi escrita reforçava suas críticas. O império alemão exaltava a disciplina, o trabalho e a moralidade como virtudes nacionais. Niet via nisso um sintoma de decadência, uma sociedade que idolatrava a obediência e reprimia a criatividade. Ele via o
niilismo, a perda de sentido, como o destino inevitável do Ocidente, resultado da morte de Deus e da ausência de novos valores. Em suas cartas, [música] Nietzs descrevia a genealogia da moral como o livro mais claro e mais perigoso que já havia escrito. Era claro porque apresentava suas ideias com precisão, perigoso porque expunha o homem moderno em sua fragilidade moral. [música] O filósofo não poupava ninguém, nem a igreja, nem o Estado, nem a própria filosofia. Sua crítica atingia o coração da cultura ocidental, que, segundo ele, ainda se alimentava de ressentimento e culpa. Apesar de escrever em
meio a dores terríveis, Nietzsche manteve o humor cortante que o caracterizava. Em uma passagem célebre, ele ironiza: "Acreditamos que a humanidade amadureceu o suficiente para rir de si mesma? Se sim, estamos salvos". Essa frase sintetiza sua esperança paradoxal, o riso como forma de lucidez diante do absurdo. A genealogia da moral consolidou Niets como o pensador da suspeita. Ele havia desmontado as estruturas da moral tradicional, revelando-as como construções humanas, cheias de contradições. A partir dali, sua filosofia entraria em sua fase final, [música] mais livre, mais intensa e, ao mesmo tempo, mais próxima do colapso físico e
mental. Como escreveu o estudioso Walter Kaufman em Nietzs Philosopher Psychologist Antichrist, 1950, a genealogia da moral é o ponto culminante da maturidade nitiana. Depois dela, o filósofo deixa de argumentar, ele apenas revela. E de fato, o que viria a seguir seria uma revelação extrema. A crítica mais feroz já feita à religião cristã e a moralidade moderna, escrita com o vigor de quem presente o fim. Era o nascimento de o anticristo. O ano era 1888 e Friedrich Nietzsche estava vivendo seus últimos meses de lucidez. Instalado em Turim, na Itália, ele passava os dias escrevendo compulsivamente, como
se pressentisse que o tempo lhe escapava. Em poucos meses, redigiu uma sequência de livros incendiários, entre eles o anticristo, obra em que sua crítica à moral e à religião atingiu o auge da radicalidade. Nietzs abriu o livro com uma frase que se tornaria um marco de seu pensamento. Vemos hoje uma espécie de homem doente, o cristão. A provocação não era gratuita. Para ele, o cristianismo representava a negação da vida, uma moral fundada na culpa, na submissão e na recusa dos instintos vitais. O título: O anticristo não significava uma defesa do mal, mas uma oposição ao
ideal cristão, que, segundo o filósofo, havia invertido todos os valores humanos. A obra é um ataque direto à tradição moral do Ocidente. [música] Niets acusa o cristianismo de transformar a fraqueza em virtude [música] e o sofrimento em mérito. O Evangelho dos humildes, escreve ele, é a revolta dos oprimidos travestida de bondade. Em sua visão, o cristianismo havia substituído a grandeza trágica dos gregos por uma cultura de ressentimento e culpa. O pecado se tornara o instrumento de controle das massas e o céu uma promessa de submissão eterna. Para Niet, a figura de Jesus histórico, não era
o problema. Ele o via como um homem nobre, que viveu de forma autêntica e livre, mas cujos ensinamentos foram corrompidos por seus seguidores. [música] O verdadeiro alvo de o anticristo era São Paulo, a quem o filósofo acusava de transformar a mensagem de vida e alegria em uma religião de sofrimento e negação. [música] Paulo foi o maior dos falsários escreveu Niet. inventou o cristianismo como um antídoto contra o mundo. A crítica vai além da religião. Niets denuncia o cristianismo como um sintoma da decadência cultural europeia. Para ele, o ocidente havia se tornado moralmente doente porque trocou
a força criadora pela obediência. A igreja, em vez de elevar o homem, o transformou em servo. "A igreja combate o instinto de vida, dizia. O cristianismo é a metafísica do carrasco, como explica o professor Roberto Machado em Niet e A verdade, publicado pela UFRJ em 1997. O anticristo é o momento em que Niets faz o diagnóstico final da civilização ocidental, [música] uma cultura de negação sustentada pela moral da compaixão e pelo medo do sofrimento. Essa leitura ajuda a perceber o tom cirúrgico do texto. Niets não escreve como um profeta furioso, mas como um médico que
identifica a doença de seu tempo. O contexto político e cultural reforçava suas críticas. A Europa do fim do século XIX vivia um surto de cientificismo, progresso técnico e moralidade burguesa. As classes médias, orgulhosas de sua fé e trabalho, viam o cristianismo como o pilar da ordem social. Nietzs via o contrário, uma civilização em declínio, [música] prisioneira de ilusões metafísicas. Ele clamava por uma transvaloração de todos os valores, uma reinterpretação radical da vida humana, livre da herança moral cristã. Em o anticristo, o estilo de Niets se torna afiado, [música] quase aforístico. Cada parágrafo é uma sentença.
Ele escreve com ironia, mas também com uma clareza que beira o desespero. Sua linguagem alterna entre o poético e o destrutivo, revelando um autor em plena combustão intelectual. [música] Ele sabia que estava rompendo definitivamente com o mundo ocidental. "Eu sou dinamite", escreveu em uma carta a um amigo. [música] "E de fato, o anticristo é o seu livro mais explosivo. A força do texto está na combinação de crítica e afirmação. Niets não destrói apenas o cristianismo. Ele propõe algo em seu lugar. uma moral afirmativa baseada no instinto de vida, na aceitação do corpo e na alegria
de existir sem justificativas transcendentais. O filósofo acreditava que o homem moderno precisava aprender novamente a amar a terra e o corpo, não o além e o espírito. Ele propõe a figura do espírito livre, aquele que cria valores próprios, celebra o acaso e recusa toda forma de submissão. Para Niet, esse homem do futuro seria o verdadeiro anticristo, não um inimigo da vida, mas seu defensor radical. O livro foi concluído em setembro de 1888, mas sua publicação foi adiada por causa do colapso mental que atingiria Niets poucos meses depois. A irmã Elizabeth [música] guardou o manuscrito e
só o publicou anos mais tarde, já manipulando trechos para adequá-lo à suas próprias crenças nacionalistas. [música] Mesmo assim, o texto original sobreviveu e sua força filosófica atravessou o século. Como observa o estudioso Walter Cfman em Nietzsche, Philosopher Psychologist Antichrist, [música] 1950, o anticristo é a demolição mais poderosa já escrita contra a religião e ao mesmo tempo uma confissão de fé na vida. Essa dualidade define o tom final de Niets, [música] um homem que destrói para libertar, que nega para afirmar. que escreve contra o desespero em nome da coragem. Nos últimos meses de 1888, Niet ainda
parecia lúcido, mas algo dentro dele se esgotava. Em cartas e anotações, escrevia frases que soavam como despedidas. Minha filosofia é [música] um sim dito à existência. era o eco final de uma vida inteira dedicada a transformar o sofrimento em força e a dúvida em criação. Mas o que ele não imaginava era que, logo após concluir essa obra, o peso da própria lucidez o levaria ao limite da mente. De sua última obra consciente, nasceria [música] um espelho de si mesmo, um livro em que o pensador olharia pela primeira vez para sua própria vida e destino. [música]
Exe Homo. No outono de 1888, [música] em Turim, Friedrich Nietzsche escreveu o que seria sua última obra consciente, Exomo, como alguém se torna o que é. [música] O título retirado das palavras atribuídas a Pôncio Pilatos, ao apresentar Jesus ao povo, exomo, eis o homem, [música] revela o tom provocador e autobiográfico do livro. Pela primeira vez, Niet não falava sobre deuses, moral ou civilizações. [música] Falava sobre si mesmo. Era o retrato de um filósofo à beira do colapso, consciente da grandeza e da tragédia de sua própria existência. Em Exomo, Niet analisa suas obras anteriores, comenta seu
método filosófico e reflete sobre o sentido de sua vida. O tom é, ao mesmo tempo, irônico, poético e confessional. [música] Ele se apresenta como um pensador que viveu em contradição com o seu tempo, alguém que nasceu póstumo, isto é, destinado a ser compreendido apenas pelas gerações futuras. Logo, nas primeiras páginas, escreve: "Por que sou tão sábio? Porque sou tão inteligente? Por que escrevo tão bons livros?" Frases que à primeira vista parecem arrogantes, mas que, lidas em contexto, expressam a lucidez de um homem que se vê isolado, não por vaidade, mas por excesso de consciência. O
livro é dividido em capítulos curtos, onde Niet revisita suas principais obras. O nascimento da tragédia, humano, demasiado humano, assim falou Zaratustra e o anticristo, explicando o que pretendia com cada uma. Sua [música] escrita, embora permeada de humor, revela um tom de despedida. Ele se via como um guerreiro solitário que lutou contra as ilusões da civilização ocidental, enfrentando as religiões, a filosofia acadêmica e o moralismo burguês. Em Exomo, Niet apresenta o conceito do grande estilo, a capacidade de afirmar a vida mesmo diante da dor e do fracasso. "O que não me mata me fortalece", [música] repete
ele como um refrão, reafirmando sua visão trágica e heróica da existência. Para Niet, [música] a grandeza do homem está em suportar o peso da vida sem recorrer à esperança de salvação. Ele não queria consolo, queria intensidade. A estrutura do livro alterna entre análise filosófica e confissão pessoal. Em um dos trechos mais marcantes, ele escreve: "Eu não sou um homem, sou dinamite". Essa frase, tantas vezes citada resume o impacto de sua obra, a convicção de que suas ideias explodiriam as bases da filosofia tradicional. Em outro momento, ele escreve: "Depois de mim, nada será o mesmo". Eu
dividi a história da humanidade em duas partes. A ousadia dessas afirmações, mais do que megalomania, expressa o sentimento de um homem que, consciente de sua própria genialidade e solidão, previa o destino de suas ideias. O tom profético e desafiador de Exomo também reflete o estado emocional de Nietzsche. Entre 1887 e 1888, suas crises de exaustão e insônia haviam se intensificado. Ele dormia pouco, comia quase nada e escrevia obsessivamente. Em cartas, relatava estar possuído por uma força criadora insuportável. Ao mesmo tempo, suas relações pessoais se desintegravam. A irmã Elizabeth, que nutria ideias nacionalistas e antissemitas, rompera
com ele. Amigos o evitavam, temendo suas explosões verbais e seu comportamento errático. Segundo o pesquisador Domenico Lozurdo em Nietzs, o rebelde aristocrático, publicado pela Boi Tempo em 2007, Exiomo é o testamento filosófico de um homem que tentou transformar o desespero em grandeza. Sua loucura não é ruptura, mas o limite extremo de uma lucidez que já não cabia no corpo. Essa leitura ajuda a compreender o caráter quase místico do livro. Nietzsche parece conversar com a eternidade. No texto, ele se declara discípulo de Dionísio, o deus grego da embriaguez e da criação. Para Niet, Dionísio simbolizava a
aceitação plena da vida com toda a sua dor e beleza. Sou discípulo do filósofo Dionísio escreveu: "Prefiro ser um sátiro a ser um santo". Essa escolha final representa sua recusa de toda a moral as: afirmação última da vida contra o niilismo. O contexto histórico em que ex Romo foi escrito é decisivo. A Europa vitoriana vivia um momento de confiança científica e conservadorismo moral, mas Nietzs via nisso um sintoma de declínio. Ele acreditava que o niilismo, a perda de sentido e de valores, seria o maior desafio do século XX. A sua filosofia dizia, era um remédio
para essa crise, não uma fuga, mas um convite à reconstrução dos valores humanos a partir da terra, do corpo e da vontade. [música] O estilo do livro é inconfundível. Cada frase soa como um aforismo lapidado. Ele escreve com musicalidade e clareza, misturando orgulho e melancolia. Em uma passagem que resume toda sua obra, declara: "Eu ensinei o homem a rir de si mesmo como nunca antes." O riso para Niet era a mais alta forma de sabedoria, o gesto de quem aprendeu a suportar a verdade sem se destruir por ela. Poucos meses após concluir Romo, Niet sofreu
o colapso mental que encerraria sua vida intelectual. Em janeiro de 1889, em Turim, foi encontrado chorando e abraçado a um cavalo que acabara de ser açoitado. Um episódio simbólico e comovente, muitas vezes interpretado como o fim da razão e o triunfo da compaixão. A partir daí, nunca mais recuperou a lucidez. O manuscrito de Exiomo permaneceu inédito por mais de uma década até ser publicado pela irmã em 1908, já alterado em alguns trechos. Ainda assim, o texto sobreviveu como um dos documentos mais intensos e humanos da história da filosofia, o último lampejo de um gênio que
transformou a dor em arte e a solidão em pensamento. Como escreveu o crítico Harold Bloom em Gênio, os 100 autores mais criativos da história 2003. Niet foi o escritor que melhor compreendeu a tragédia da consciência moderna e a transformou em beleza. Exiomo é o espelho dessa tragédia, o autor diante de si mesmo, entre a lucidez e o abismo, entre o riso e a loucura. A partir dali, Niet deixaria de escrever. Sua vida terminaria em silêncio, cuidada pela mãe e depois pela irmã. Mas sua obra, escrita com febre e paixão, atravessaria os séculos, desafiando filósofos, artistas
e cientistas. Niets se despediu do mundo com uma lição que permanece viva. Torna-te quem tu és. Obrigado por assistir. Aqui estão mais dois vídeos que você vai gostar de assistir. Te espero lá.