Nós passamos a última semana aqui nesse canal falando muito sobre os excessos da Nintendo com o Switch 2, sobre o descaso da empresa com o Mercado nacional, mas agora eu acho que é importante também a gente olhar pro outro lado dessa história, identificar o outro grande culpado pelo fato de que a gente vai ter aqui jogos de Nintendo Switch 2 custando R$ 500. E eu acho que isso é importante não para minimizar a culpa da Nintendo nessa história ou então para tentar relativizar os preços absurdos desses jogos, mas sim pra gente simplesmente entender o que está acontecendo, entender a realidade que a gente habita e pensar em como a gente pode alterar essa realidade. E por realidade, obviamente eu estou falando da realidade fiscal de importação de videogame aqui no Brasil.
Eu tenho plena consciência de que esse vídeo aqui talvez seja o mais perigoso da história desse canal até agora. Primeiro porque a gente vai falar de política, que é um assunto que sempre traz as pessoas mais bem intencionadas da internet, só gente boa. E segundo que alguns esquisitos podem pegar esse vídeo numa bolha e tentar falar internet afora aí que eu tô passando pano pra Nintendo, que eu tô minimizando o problema da empresa aqui no Brasil.
Assim, para essas pessoas desse segundo grupo, só me resta torcer para que elas tenham um pouquinho de boa fé e assistam também a pelo menos um dos outros vídeos em que eu carquei a Nintendo sobre isso nos últimos dias. E para as pessoas do primeiro grupo, a minha esperança é que esse vídeo acabe sendo chato, técnico, matemático demais para prender a atenção delas. Elas simplesmente se distraiam e vão fazer outra coisa, né?
Mas dito tudo isso, vamos lá, cara, porque eu realmente acho que é importante a gente entender essa questão, porque na realidade, se a gente quer melhorar a situação dos videogames em geral, não só Nintendo aqui no Brasil, a gente precisa atacar onde a gente consegue, onde a gente tem mais poder de mudança, né? E assim, falar de boicote contra Nintendo, fazer campanha em rede social, talvez isso até surta algum efeito, é importante, mas são tiros mais longos. Agora, falar sobre como esses produtos são taxados aqui no Brasil, entender como isso funciona e tentar mudar isso é algo que é da nossa alçada, cara.
Teoricamente, os caras que tomam essas decisões são nossos funcionários. Então, é importante a gente entender como exatamente isso funciona e como isso está atrapalhando o nosso hobby de florescer de verdade aqui no Brasil. E assim, instintivamente, todo mundo que é brasileiro e gosta de videogame sabe de uma maneira meio genérica do problema da taxação, né?
Só que a gente sabe em termos não específicos, né? Então, sei lá, ah, o jogo tá sendo importado aqui no Brasil, aí do nada aparece uma nuvem escura chamada taxação, chove em cima do produto e ele fica exponencialmente mais caro. Só que como exatamente isso funciona?
Isso é uma coisa que até eu que trabalho nessa indústria há mais de 20 anos ainda tem um pouquinho de dificuldade de articular. Porque inclusive tem gente que argumentaria o sistema de tributação brasileiro é complicado de propósito, justamente pra gente não entender onde exatamente os caras estão ferrando com a gente. A taxação na indústria de videogames, especialmente sobre produtos importados, é uma taxação burra, injusta e que prejudica o próprio regime de taxação.
que o propósito dito desses impostos, teoricamente, é fomentar a indústria nacional de videogames, que é um objetivo qual os impostos trabalham contra, que fica sempre no horizonte à distância ali, porque o negócio é de difícil acesso. Então, os brasileiros não criam interesse pelo videogame como eles poderiam criar e aí não fomenta-se a indústria nacional, né? Então é um negócio completamente besta.
E isso não é uma questão de partidarismo político nos últimos 10 anos, cara. Essa é uma herança da ditadura, literalmente. Herança da ditadura.
A gente adora falar essa frase, a taxação de videogames alta do jeito que é é uma herança da ditadura militar. Ali nos anos 80, o regime militar fez uma reserva de mercado para tentar criar uma indústria nacional. Foi quando a gente teve os nossos primeiros videogames muito fabricados aqui no Brasil, em território nacional, né?
versões brasileiras de videogames que existiam lá fora. E aí mais paraa frente, na explosão neoliberal aqui do Brasil, nos anos 90, o Color liberou a importação de produtos eletrônicos como videogames, só que manteve impostos altíssimos lá em cima, justamente para manter vivo esse protecionismo, essa barreira de proteção para uma indústria nacional que no fim das contas nunca se desenvolveu direito. Então essa taxação excessiva que permeia a indústria dos videogames hoje em dia vem lá de trás, cara.
Passou por Itamar, passou por FHC, passou por Lula, passou por Dilma, passou por Temer, passou por Bolsonaro. O Bolsonaro foi o único cara que reduziu um pouco os impostos. Ele reduziu o IPI de consoles do hardware especificamente, o que fez com que os preços do PlayStation 5 e do Xbox Series X, por exemplo, na época, caíssem entre R 300 e R$ 400.
Mas ele não mexeu em nada relativo a software e todo o resto tá lá exatamente do jeito que tava quando eu comecei a jogar videogame. Até aqui, beleza, né? Acho que a maioria das coisas que eu disse até agora são de conhecimento amplo e generalizado.
E nenhuma delas explica especificamente porque o maldito Mario Kart World vai chegar às lojas brasileiras custando R$ 500. Então, para entender isso, eu fui mais a fundo. Eu fiz uma pesquisa, eu bati os resultados dessa pesquisa com um advogado tributarista.
Foi uma coisa que eu achei importante fazer para não ficar pagando de maluco aqui, falando coisa errada sobre assunto sério, né? E agora eu vou apresentar os resultados dessa pesquisa para vocês através de números. Eu peço desculpas.
A principal ferramenta que eu usei nas minhas consultas é um simulador de volume de impostos que existe no site da Receita Federal. É uma ferramenta pública. Você pode, por conta própria, checar todos os dados que eu falar aqui.
Inclusive, eu vou deixar aqui na descrição do vídeo os links importantes para que você faça suas próprias consultas. Mas a realidade que essa ferramenta aí me mostrou é uma bem assustadora, cara. é uma de que na real a Nintendo não tá completamente maluca, velho.
Ela tá meio que lidando com a situação que existe por aqui. Como o foco desse vídeo é especificamente o Mario Kart World a R$ 500, os números da simulação que eu vou mostrar aqui para vocês nesse vídeo são referentes ao código de NCM que representa todos os tributos que incidem sobre cartuchos de Nintendo Switch especificamente. Só que antes da gente ir pra simulação, a gente precisa conversar um pouquinho sobre qual é o preço que a Nintendo coloca na nota fiscal da transação entre ela e a importadora que distribui os produtos dela aqui no Brasil, que é a Solutions to Go.
E o problema é que a gente não sabe esse preço. A gente nunca vai saber esse preço a menos que ele vaze por meios escusos, porque é segredo de mercado deles. Então, o máximo que a gente pode fazer é especular, calcular, tentar imaginar uma faixa ali que faça sentido para um jogo como Mario Kart World, que lá fora está sendo vendido a 80.
Como ponto de partida, eu vou usar um dado que eu tenho como parte de uma apuração que eu fiz na época no All Jogos em 2013 a respeito de Call of Duty Black Ops 2. A Activision cobrava por unidade do jogo vendida para um varegista $8. Então, para vender pro consumidor final lá nos Estados Unidos por 60 na época, uma cópia de Call of Duty Black Ops 2, a varegista, a Best Buy da vida, Walmart da vida, pagava pra Activision $8, que é 80% do valor sugerido do produto.
A questão é que pro nosso exemplo específico, a gente vai ter que extrapolar um pouco nesse ponto, porque a relação entre Activision e Bestuy não é exatamente a mesma relação que existe entre Nintendo e Solutions to Go. A Solutions de Go compra os jogos da Nintendo, mas eles operam sob um acordo de distribuição um pouquinho diferente, porque de certa forma é como se a Nintendo fosse meio que uma cliente da Solutions to Go. Acho que dá para colocar nesses termos, o sucesso da Solutions to Go é mais importante pra Nintendo do que era o sucesso da besty pra Activision.
Então vamos fazer a regrinha de três aqui. O que era 60 hoje é 80, no caso do Mario Kart World. Então o que era 48 agora é 64.
Só que de novo, a Nintendo vende o jogo para Solutions to GO muito mais barato do que ela vende esse mesmo jogo para uma best buy da vida. Então vamos presumir aqui que a Nintendo tá sacrificando parte do próprio lucro e vendendo cada cópia de Mario Kart World para Solutions to GO por $5, o que muito provavelmente é menos do que eles cobram na realidade, porque isso já tá muito abaixo da média da indústria. Então, beleza, temos aqui a nossa hipótese para quanto que a Nintendo declara na nota fiscal dessa venda.
de novo, cara. É impossível salientar isso o suficiente. Isso é uma hipótese especulativa.
A gente não tem esse número. Na realidade, a gente vai usar isso aqui como um trampolim para analisar a situação, tá certo? Tenha isso em mente.
Mas vamos lá. $35 no simulador da Receita Federal, considerando a taxa de câmbio que está sendo praticada no dia da gravação desse vídeo, que é R$ 5,68 por dólar. Logo de cara, em cima dos 35, nós aplicamos 18% da alíquota do imposto de importação, que coloca em cima do valor original 6$30.
E aí a gente precisa aplicar os 20% do IPI, o imposto sobre produtos industrializados, que também se aplica aqui. Só que os 20% não são sobre os $5 originais, é sobre o preço original já com o recálculo do imposto de importação. Então 20% de $41.
30, que é 8. 26, o que já faz o preço subir para $49. 56.
Aí em cima disso, e esse que é o negócio, né? Porque é cascata você aplica o imposto sempre ao cálculo com todos os impostos anteriores já embutido. Então em cima disso vem o PIS que é 2,10%, já coloca mais 87 centavos de dólar ali em cima.
Aí vem 9,7% do Cofins, que é mais $4. 87. E aí pelo cálculo da Receita Federal, acabou por ali.
Só que na realidade não, porque tem também o ICMS, que é um imposto do governo do estado. Aqui em São Paulo são 25%. 25% de $5.
29, que é 13. 82 para um total de 69. 12 ou na cotação de hoje R$ 392,90.
Só nisso, o preço do jogo já quase duplicou. Foram 97,5% de impostos sobre o preço original de venda da Nintendo para Solutions to Go. Existe a possibilidade do valor real dessa transação ser um pouquinho menor por causa de eventuais benefícios fiscais.
A gente não sabe se a Solutions Tugo ou com o governo estadual em torno do ICMS ou então com o governo federal em torno de algum desses outros impostos aí. Mas é uma possibilidade. Só que não termina por aí, cara.
Tem muito mais coisa. Quando você tira o seu produto ou do porto ou do aeroporto, você tem que pagar uma taxa de desembaraço. Aí você tem que pagar o transporte do produto pro armazém, de onde ele vai ser distribuído.
Você tem que pagar o seguro do transporte para garantir a integridade do produto. Você tem que pagar o custo de armazenagem, tem que pagar o marketing local, tem que arcar com os custos de RMA, a garantia, não só relativo ao consumidor final, mas também aos logistas. Tem o lucro da importadora, o lucro da Solutions Tugo, que a gente não faz a menor ideia de quanto é.
E acima disso tudo tem 30% do bruto que vai pro varegista, paraa Amazon, para Magalu da vida, que são os 30% que contemplam tanto o lucro dessas empresas com a venda, quanto os custos operacionais, a coisa da taxa de cartão de crédito. Então, mesmo se a gente desconsiderar todos esses custos adicionais que eu mencionei antes da gente chegar nos 30% do varejo, se a gente pega aqueles 691 e coloca os 30% do varejo em cima, a gente chega a $89. 85 ou R$ 510,77, ou seja, mais do que os 500 que a gente já tá reclamando tanto em pagar.
Então, a realidade provável e e lembrando que a gente usou ó como base, que muito provavelmente é um preço mais baixo do que realmente é praticado pela Nintendo, né? Então, a realidade provável é que a Nintendo está de certa forma subsidiando a venda do jogo aqui no Brasil. É muito provável que a Nintendo lucre menos com um jogo vendido no Brasil do que ela lucra com um jogo vendido lá nos Estados Unidos.
E aí a questão que vem logo em seguida é, tá, como que isso explica então o fato de que todas as concorrentes praticam preços mais baixos do que a Nintendo, né? Os $ 70 para Sony são R$ 350 aqui no Brasil, para Microsoft são R$ 350 aqui no Brasil. O próprio Cyberpunk que tá sendo usado como exemplo no Switch 2 é mais barato do que o Don Kong Bananas, apesar de custar os mesmos $0 lá fora.
Como que isso faz sentido? A diferença tá no tratamento da cópia física. A Microsoft pode praticar os R$ 350 como conversão dos 70 sem perder muito dinheiro, porque ela não lança jogo físico no Brasil desde 2022.
A Sony pode fazer o mesmo, porque a Sony fabrica jogos aqui no Brasil, que é uma coisa que a Nintendo não faz. Poderia fazer, quem sabe faça lá na frente, mas no momento não faz. E o mesmo vale para muitas das third parties que praticam esse mesmo preço.
Então, cara, a minha conclusão depois de fazer essa pesquisa, depois de olhar com carinho para todos os números, é a de que, por mais que pareça, talvez a Nintendo não esteja tão maluca assim nessa questão. E é evidente que, mais uma vez jogando pros vídeos que já foram publicados sobre esse assunto aqui no canal, isso não exime a Nintendo completamente de sua culpa nessa história, né? Ela podia, por exemplo, fabricar os jogos aqui no Brasil, como faz a Sony.
Ela podia não estar cobrando $80 pelo Mario Kart World para começo de conversa. Ela podia, e aí já é um pouquinho mais difícil porque tem seus benefícios e seus malefícios. Ela podia lançar os jogos apenas no formato digital aqui no Brasil, porque o formato digital tem menos impostos que incidem sobre.
Não precisa considerar distribuidora, não precisa considerar varegista. Então, as margens da Nintendo são maiores. Talvez seria um artifício que eles poderiam usar para manter os preços mais em linha com o resto da indústria.
Só que, infelizmente, nesse momento, essa é a nossa realidade. Uma que, na minha opinião, a melhor chance que a gente tem para mudar é aplicando pressão nos políticos e não só de forma partidária em cima do presidente, mas sim também em cima do legislativo. Cara, direto aparece proposta legislativa de isenção fiscal para videogame no site do Senado com votação esmagadora do público a favor que não dá em nada.
Então a gente tem que aplicar a pressão onde der, cara, porque de novo é um regime tributário extremamente estúpido, até do ponto de vista do próprio regime tributário, porque se a ideia é arrecadar dinheiro com impostos, eu tenho certeza que eles arrecadariam mais dinheiro com imposto sobre videogame se o videogame fosse mais barato. Se eles reduzissem essas alíquotas, ia vender mais videogames. Se você olhar no montante final ali, eu tenho certeza que teria mais impostos sendo arrecadado se eles diminuíssem os impostos.
Só que isso nem chega nos caras, né? que não incomoda a vida deles em nenhum sentido, a menos que eles tenham um filho gamer, alguma coisa assim, e tá tudo bem do jeito que tá, né, para eles. Então, a nós cabe apenas encher o saco.
Tem que encher o saco da Nintendo também, mas também tem que encher o saco dos nossos governantes, cara. Porque se a gente quer que o nosso hobby prospere e se torne uma coisa tão abrangente quanto ela é lá fora aqui no Brasil, a gente tem que fazer nossa voz ser ouvida, tá certo? Mas é isso, espero que esse vídeo tenha sido um pouquinho elucidativo.
Eu aprendi muito com essa pesquisa aqui. Espero que vocês também. Se você curtiu, curte o vídeo, se inscreve no canal e entra em apoia.
c/tvph para ajudar a financiar diretamente o trabalho, tá certo? Muito obrigado mais uma vez pela sua atenção e até a próxima.