Em uma das regiões mais marcantes do Nordeste brasileiro, um ousado projeto chama a atenção. Com 82 pilares e quase três quilômetros de extensão, a Ponte Ferroviária sobre o Rio São Francisco é o elo indispensável entre dois munícipios na Bahia. Aliás, você sabia que esse trecho faz parte da construção de uma ferrovia com mais de 1.
500 quilômetros de extensão? Então prepare-se para viajar conosco a uma das obras mais impressionantes do país nos últimos anos. Localização, escala e dimensão do projeto A Ponte sobre o Rio São Francisco está situada entre os quilômetros 825 e 828 da futura Ferrovia de Integração Oeste-Leste, a FIOL, mais precisamente entre os munícipios da Serra do Ramalho e de Bom Jesus da Lapa, no Oeste da Bahia.
Inegavelmente ambas as localidades contam com paisagens deslumbrantes. Enquanto a Serra do Ramalho apresenta uma topografia caracterizada por elevações, vales e desfiladeiros, Bom Jesus da Lapa é popular por uma excêntrica quantidade de grutas naturais. Uma delas, aliás, abriga um Santuário com o nome da cidade.
Concorrente ao título de uma das sete maravilhas do Brasil, em um concurso realizado em 2008, esse local é palco da terceira maior romaria do país, entre o fim de julho e começo de agosto. A cada ano, o evento atrai aproximadamente 600 mil pessoas ao município. Bem além do suporte que oferecerá ao turismo, fato é que a Ponte Ferroviária baiana será parte de um marco de desenvolvimento econômico e social na região.
Um monumento à união e ao progresso no coração do país. A seguir, vamos entender como (e porque) um projeto dessa magnitude surgiu no Nordeste brasileiro. De fato, é impossível falar sobre a ponte deste vídeo sem mencionar o projeto maior do qual faz parte: a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), também conhecida como Ferrovia Oeste-Leste, ou ainda Ferrovia Engenheiro Vasco Azevedo Neto.
Esse é um projeto ferroviário ambicioso que visa conectar o interior do estado da Bahia aos portos da costa atlântica. Para isso, o FIOL cortará a Bahia desde o leste, a partir da região portuária de Ilhéus, até o oeste do estado, atravessando parte do território de Tocantins, até Figueirópolis. Por sinal, no munícipio tocantinense, há a previsão de conexão com outro importante projeto nacional: a Ferrovia Norte-Sul, que ligará tais regiões do país.
Vale destacar a FIOL terá um papel transformador na economia regional, facilitando o transporte de cargas e impulsionando o desenvolvimento de áreas antes isoladas. Com uma extensão prevista de 1. 526 quilômetros, a FIOL atravessará terras férteis, rios e serras, para oferecer uma nova rota logística para escoamento da produção agrícola, mineral e industrial.
Em meio a esse cenário promissor, é preciso destacar que a obra da Ponte sobre o Rio São Francisco, bem como a Ferrovia Oeste-Leste, envolveu desafios técnicos e ambientais significativos para transpor obstáculos naturais, como rios e serras. Mas, afinal, como a Ponte entre Serra do Ramalho e Bom Jesus da Lapa venceu esses desafios? Construção do projeto A obra da Ponte sobre o Rio São Francisco envolveu um sistema de construção criado no Brasil há quase 100 anos para vencer grandes vãos e simplificar o projeto.
Mas antes de conferirmos mais sobre isso, é preciso retornar a 2015, ano em que as obras começaram. Logicamente, o projeto foi iniciado com a criação das fundações da ponte. Para isso, foram utilizados três métodos: • Hélice contínua, no qual há a penetração de trado contínuo e injeção de concreto, de maneira simultânea; • Hammer Grab, uma ferramenta projetada para captar e remover solo solto ou rocha pré-esmagada pelo cinzel do fundo do poço; • E tubulão de ar-comprimido, fundação com revestimentos que auxiliam na escavação do fuste, parte alongada e cilíndrica da estrutura.
Em conta à complexidade do projeto, com mais de 80 apoios ao longo de 2. 900 metros de extensão, esse processo tomou quase dois anos de obras, sendo sucedido pela instalação dos blocos de coroamento. Essa ação visa à transferência da carga dos pilares para estacas, brocas e outros elementos da fundação.
Na sequência, houve o encamisamento metálico, ou seja, a colocação de uma manga metálica ao redor de cada um dos pilares da ponte, para garantir a estabilidade necessária à concretagem desses elementos. Vale destacar que os pilares foram erguidos pelo método de fôrmas deslizantes, um processo hidráulico e rápido para obras de concreto armado de grande altura. Aliás, por falar em método, lembra-se que há pouco comentamos sobre um sistema nacional de construção utilizado nessa obra?
O sistema em questão é o de balanço sucessivo. Desenvolvido pelo engenheiro Emílio Baumgart, nos anos de 1930, o balanço sucessivo teve um papel fundamental na execução do vão central da Ponte sobre o Rio Francisco. Sem a necessidade de escoramento do vão, as aduelas avançavam em balanço, por meio de um carro de avanço.
Apoiada na estrutura central, ou adula de arranque, esse carro se movimentava por meio de trilhos e rodas em cada seção transversal, dando vida à montagem da ponte. A seguir, veio o processo de concretagem de dois elementos. O primeiro deles, as pré-lajes, mais precisamente placas pré-moldadas que serviram de apoio à concretagem do tabuleiro da ponte.
Já o segundo elemento, as vigas, também pré-moldadas, compostas de concreto protendido. Para elevá-las, foi utilizado um sistema de içamento, por meio de treliças. Após esses procedimentos, a equipe de obra realizou a concretagem dos vãos e do tabuleiro, seguida pela conclusão do lançamento das vigas e concretagem das sarjetas laterais.
Em dezembro de 2018, o projeto da Ponte sobre o Rio São Francisco foi concluído, rendendo uma megaconstrução em um belíssimo cenário do Nordeste brasileiro. E, muito além disso, trazendo enormes expectativas de benefícios de crescimento para a região. De fato, a Ponte sobre o Rio São Francisco é uma das obras mais marcantes do país nos últimos anos.
Contudo, em termos de números, é curioso notar como ainda é uma parte ínfima do projeto FIOL. Um exemplo disso tem a ver com a extensão, de 2,9 quilômetros. Logicamente, vale destacar que esse é um número considerável, sendo, por exemplo, apenas 800 metros menor à Ponte Rodoferroviária Rollemberg-Vuolo, que liga São Paulo ao Mato Grosso do Sul.
Contudo, quando pensamos, digamos, em um cenário macro da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, a ponte no Oeste Baiano representa aproximadamente apenas 2% da extensão do projeto. Em outras palavras: quando concluído, o FIOL terá 1. 526 quilômetros de extensão, distância quase o suficiente para duas viagens de ida e volta entre as cidades de São Paulo e Curitiba.
Outro aspecto interessante da Ponte sobre o Rio São Francisco tem a ver com o total de vãos. São 80 vãos de tamanho mediano (35 metros) e um vão grande, o central, que mede 110 metros. Aliás, esses 110 metros seriam capazes de proporcionar a passagem de dois Icon of the Seas, o maior navio de cruzeiros do mundo, lado a lado.
Bem além das medidas, fato é que a estimativa de custos na ponte surpreende de maneira positiva: 135 milhões de Reais. Embora represente quase 19% do custo total do lote 5 da ferrovia, que compreende um trecho de 162 quilômetros de extensão, vale destacar que a ponte está situada em um dos trechos que demandou elevada complexidade de engenharia. A título de comparação, a Ponte Jornalista Phelippe Daou (ou Ponte Rio Negro), no Amazonas, foi orçada em 1,1 bilhão de Reais.
Com 3,6 quilômetros de extensão, é possível afirmar que cada quilômetro custou aproximadamente 305 milhões e 500 mil Reais. Já no projeto da Ponte sobre o Rio São Francisco, cada quilômetro sai por quase sete vezes menos que o da ponte no Norte brasileiro: cerca de 46 milhões e 550 mil Reais. Parte do projeto FIOL, a Ponte sobre o Rio São Francisco será um importante vetor de transformação econômica na região Nordeste do país.
Entre um dos principais benefícios está a redução de custos no transporte de grãos, álcool e minérios, sobretudo para transportes de carga de longa distância. Vale ressaltar também que o projeto interligará dos estados de Tocantins, Maranhão, Goiás e Bahia aos portos de Ilhéus/BA e Itaqui/MA. Isso proporcionará o desenvolvimento econômico e social dessas regiões, incentivando investimentos, modernização da infraestrutura e, logicamente, a geração de empregos.
Tais benefícios também devem ser estendidos às regiões Norte, Sudeste e Sul do país, uma vez que a conexão com a Ferrovia Norte-Sul, em Figueirópolis trará muito mais economia ao transporte inter-regional. Já em termos de sustentabilidade, a estimativa é de que o projeto FIOL, como um todo, seja capaz de desafogar o transporte por caminhões nas estradas da região, gerando uma redução de até 86% na emissão de CO² na atmosfera. Conclusão Megaconstruções como a da Ponte do Rio São Francisco mostram a vocação da construção civil brasileira para encontrar soluções práticas, que integrem tecnologia e natureza.
Portanto, não há dúvidas de que esse é um projeto que serve de exemplo a demais países em todo o mundo.