Vocês lembram que o Jean Silva desabafou sobre o público brasileiro tão crítico com seus próprios atletas? Disse lá no AG Fight que se sentia melhor tratado nos Estados Unidos e não fazia muita questão de lutar por aqui. Aí o Davidon Figueiredo, entrevista ao João, nosso repórter foi mais específico, disse que é o trash talk que faz a torcida brasileira se voltar contra os seus.
Eu já acho uma coisa mais macro, um fenômeno global/ra humano. Porque jogar pedras em pessoas públicas em posições de autoridade faz parte de um ritual que todos nós participamos. A gente é meio invejoso e tem um certo prazer em ver caindo qualquer um com mais destaque ou sucesso.
Aquela velha noção do prego que se destaca leva martelada. Existe praticamente todos os idiomas e culturas. Quer ser famoso, se destacar, participar da economia de escala que pode encher seus cofres?
Se prepara então para virar vidraça, porque a pedrada vem, o pagamento extra é justamente por isso. Isso se for humilde, se prometer, prometer e não cumprir, meu camarada, se prepare para ser devorado vivo pela mesma opinião pública que te chamava de valente. Sim, quem fala e faz vira figura mítica, lendária, mas esse foi o destino de uma ou duas pessoas na história.
A maioria infla estoura que nem balão. Isso acontece em qualquer lugar do mundo. Não tá reservado só a nós tigrada do terceiro mundo.
Olha só a situação do Bow Nichel. Nas últimas 24 horas, testemunhamos um dos maiores linchamentos virtuais da história do esporte. O grosso disso vindo dos próprios americanos.
E olha que falamos de um herói universitário, um cidadão modelo. E olha que não tô falando só dos fãs despejando mágoas, frustrações e usando malandro como pinata humana. Tô falando de ex-campeões mundiais, colegas de profissão, as principais vozes do esporte descascando o cara que só tem 29 anos.
Luke Hold disse que ele é uma porcaria. A Jamã Sterling acha que tem que mudar de categoria porque é pequeno e com esse tamanho não vai vencer nenhum tópico. Josh Thompson sugeriu que o FC cortasse B Nickel para ele ganhar experiência em eventos menores.
Dana White o chamou de lento na coletiva de imprensa. O programa do Daniel Corm com Chelse Sony hoje na ESPN americana foi praticamente todo sobre o Bow Nico. Cormet que tentou ser empresário do cara em 2019 foi até bem duro.
Questionou se Nichol era um lutador de verdade. Aqueles com coração que topam sofrer, apanhar, né? cavar fundo para tentar vencer uma luta.
O exemplo dado foi dele mesmo, né? Que contra o John Jones, adversário bem mais alto, abusou do Clinch e encheu a sua linha de cintura de ajoelhada. Corm disse que sentiu muita dor, apanhou muito, foi horrível, mas não se entregou.
MMA Guru, talvez o youtuber com mais audiência no nosso nicho, fez um episódio inteiro pisoteando no Nichel para mais de 200. 000 pessoas em 24 horas. resgatou várias frases que envelheceram mal do Nichel dizendo que o wrestling do Hunzet Kimaev é um lixo e venceria destruiria o lobo no MMA entre os fãs.
Então é ladeira baixo, milhares, talvez centenas de milhares de esculacho, né? Fraude ali é elogio. Beleza.
O cara prometeu muito, mas cumpriu pouco. Eu entendo. Mas sabe o que é engraçado?
O público clama, quer ver superherói? Lutadores confiantes, valentes. Ninguém consome discurso pé no chão, dizendo que vai ser difícil, que luta é 50%, e super respeita o adversário.
Aí vem ele, supre a demanda, entrega o que o público quer e numa noite ruim é apedrejada. No final das contas, essa foi só a oitava luta profissional. Ele tem 3, 4 anos de esporte.
Constatar que o clinch não tá tão desenvolvido e por isso sofreu contra adversário bem mais alto, malandro e mais experiente, não deveria chocar ninguém. Só chocou quem estava com a expectativa desmedida, achando que era Pelé ou quem já queria alguém para apedrejar de qualquer forma. Só o ponto levantado pelo Cormê que é bem relevante.
MMA definitivamente não é para todos. Ser brabo no wrestling colegial não é a mesma coisa. Você não tá levando golpe traumático e nem sendo assistido por 100 milhões de pessoas.
Só que não se sabe. De repente aquele golpe no fígado teria arriado qualquer um. Seu treinador principal, Mike Brown da American Top Team, também foi alvo de muita crítica.
Ele lançou hoje um textão no Instagram, basicamente dizendo que o Bow não tem experiência de jaula e nada substitui isso. Concordo. É muito pouco tempo para esperar que o cara seja bom em tudo.
Só que aí a gente também entra num paradoxo interessante. Não seria mais proveitoso que o melhor wrestler do UFC focasse no wrestling? Por no momento de dificuldade o cara não atirou uma queda, porque o plano A não era fazer o que faz desde os 4 anos de idade?
Será, por exemplo, que Hanzad Kimaev é bom no clans? Não sabemos e talvez nunca saberemos, porque ele não vai para lá. Bota para baixo.
Se aventura na guarda do The Reader, bate, evita finalização, bate, evita finalização de novo e de novo. Não foi isso que vimos. Vimos o quê?
Uma tentativa de ser completão, perfeitão, que falhou. O carro chefe tem que ser sempre o wrestling e o melhor norte no momento para ele é o Aron Pico. Wrestler de nível olímpico que meteu o louco no MMA, quis virar o novo Anderson Silva e foi nocouteado uma porção de vezes.
Aí quando passou a priorizar o wrestling não perdeu mais. O mais difícil agora de longe, como eu já havia dito, é a parte psicológica. Como alguém com 120 vitórias em 123 lutas no wrestler colegial, 7-0 no MMA, que perde tão pouco, lida com a derrota mais frustrante, mais vista da carreira.
Porque se for uma questão de suprir toda a expectativa alia, nem é mais possível, porque não dá mais para ser John Jones duplo campeão invicta. Se ele pensar assim, esquece, vai abandonar logo o esporte estilo Ronda Rousy, devorada pela derrota. Agora, se o foco for apenas vencer a próxima luta, cagar pra reputação e tentar se afastar desse linchamento virtual todo, Nico Nico continua sendo uma ótima promessa.
The Reader, inclusive hoje no programa do Ran, deu graças a Deus que enfrentou o Nichol agora e não em dois ou três anos porque ele acha o cara diferente. Ainda assim queria chamar atenção aqui porque talvez estejamos fazendo a conta ao contrário. Bom, Nico pode ainda ser o bichão sim voltar com sangue no olho e estraçalhar uma galera.
De repente, o maior recado aqui é que o The Reader é o cara e tava sendo muito grosseiramente subestimado. Olha só, em seis meses de UFC ele finalizou o maior finalizador da história do peso médio, o Gerald Michark, tirou o Kevin Holland para nada, para pangaré. Kevin Holland, que no Twitter pós luta mandou o seguinte, abre aspas, eu avisei a vocês, esse cara é um gorila e não nos esqueçamos que Nichol também é uma besta e agora fez o que fez com a maior promessa da categoria nos Estados Unidos.
Isso sem qualquer necessidade de adaptação, lutando pela primeira vez no Ocidente e com esse exato conjunto de regras. Então eu tô com a impressão que vai ser difícil bater esse holandês. Ele é muito grande pra categoria, diferenciado no grappling, aguenta porrada, não cansa, é inteligente.
Tanto que são 20 vitórias no MMA e apenas um homem o derrotou. Anatol Malikin, peso pesado de origem. Foi campeão russo de Rash estilo livre, peso pesado.
Eu tô achando que encontramos um Iri pro rasca da vida. alguém desse quilate, só que versão grappler e juntando idade, né, já 34 anos e o que fez vão acelerá-lo. Não sei se já com Chance Stricklan ou Kai Borralho, mas se não for isso, pelo menos um Jared Canonier, um Anthony Fluff Fernandes, um Romanolides ou até um Robert Whter vai rolar.
E boa sorte para qualquer um deles, porque o cavaleiro holandês é um problema. Mas claro, isso é apenas o meu ponto de vista, os meus dois centavos. O que acharam do massacre que Bow Nichle tá sofrendo lá nos Estados Unidos?
E se acham que The Reader é tudo isso? Se vem o copo meio cheio para um e meio vazio para outro ou não. Tem uma leitura diferente?
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M.