É meu grande prazer convidar a Gabriella Villas Bôas, nutricionista materno infantil, com quem estou trabalhando justamente este aspecto da introdução alimentar dos bebês. Gostaria, Gabriella, que você se apresentasse ao nosso público especialmente o seu currículo. Você é uma nutricionista que se destacou no meu curso Nutricoach, estou muito feliz de tê-la como parceira na introdução alimentar.
Eu também, Sophie. E como colunista no meu blog. Então vamos lá.
(Música) Quem é você, Gaby? Meu nome é Gabriella Villas Bôas, como a Sophie falou, sou nutricionista materno infantil, sou de Natal, Rio Grande do Norte, e desde que me formei, há quase 12 anos, eu trabalho com alimentação infantil. Me apaixonei por essa área, e desde então atuo no consultório, também faço oficinas culinárias para os pais poderem entender melhor como é esse momento, ensino eles a cozinhar.
E também trabalho com a parte com a educação alimentar e nutricional nas escolas, porque agora a gente tem esse assunto da saúde, da alimentação saudável, está muito presente no ambiente escolar. E a nossa preocupação é que esses professores estejam transmitindo isso pros alunos de uma forma deturpada já, como a gente vê. O pode, não pode, o proibido.
. . Então todos esses trabalhos eu faço dentro desse universo da alimentação infantil.
Legal. E o que levou você a fazer meu curso? O que interessou você?
Eu fui fazer o Nutricoach porque eu fui professora e durante esse período que eu estava lecionando, eu vi a necessidade de tentar encontrar ferramentas que eu conseguisse fazer com que os alunos entendessem que é muito importante esse olhar humanizado para a nutrição. A gente se alimenta, o corpo e a alma, e a gente precisa de um olhar mais atento para todos aqueles que nós estamos prestando atendimento. O comportamento alimentar é tão importante quanto o nutriente que a gente está comendo, né?
Exatamente. E a gente sabe que quando trabalha com criança, a gente trabalha muito com os pais. E aí a gente precisa ter ferramenta para trabalhar com todos os públicos.
Não só as crianças mas também os adultos. E foi isso que fez com que eu me inscrevesse no seu curso, para concorrer à sua bolsa de docentes. Parabéns, você ganhou!
E você vê que estamos nós duas com sotaquezinho, você de Natal, e eu com sotaque francêss. . .
Então, introdução alimentar com sotaque. Mas interessante que tanto de Natal quanto de São Paulo, a gente está super alinhadas. E fiquei encantada com isso.
É verdade. E talvez você possa falar um pouquinho das abordagens da introdução alimentar de hoje, Isso. Primeiro eu vou começar com o BLW, a sigla significa Baby Led Weaning, que é "desmame guiado pelo bebê".
E é uma abordagem que é muito interessante, mas ao mesmo tempo o profissional tem que olhar com certo cuidado. Porque, como existe muito material na internet para consulta, pode ser que as mães, pesquisando por conta própria, tenha uma visão um pouco distorcida do que essa abordagem. .
. quais são os princípios dessa abordagem. Então a gente precisa ficar atento, porque muitas mães acabam fazendo essas pesquisas na internet por conta própria, e acabam tendo uma interpretação um pouco deturpada do que realmente essa abordagem traz de princípios.
E muitas vezes, com terrorismo nutricional. - Sim, muitas regras. .
. - Muitas regras! E em vez de ter uma abordagem que vai dar autonomia para a criança, fluindo, em paz, vira uma briga.
E até uma dieta restritiva. Isso. A gente estava, inclusive no nosso workshop, conversando, e uma das participantes perguntou, porque ela teve alguns casos de bebês que já chegaram lá com desnutrição com 1 ano, porque as mães insistiram tanto em fazer o BLW, que não perceberam que o bebê não estava conseguindo se adaptar.
Porque a gente precisa ter essa sensibilidade. Às vezes a gente quer começar a introdução alimentar de uma determinada forma, mas o bebê não se adapta. E a gente precisa estar atento, prestando atenção, por isso que a introdução alimentar responsiva é tão interessante.
Porque é uma troca, um diálogo, mesmo que o bebê não fale. O adulto segue com um comportamento, o bebê dá um sinal, e o adulto responde ao sinal que o bebê vai dando. E essa palavra responsiva é a palavra que a gente está seguindo, é como uma dança entre o adulto que alimenta e a criança.
Então, voltando ao BLW, eu também tive no meu consultório, uma paciente que já tinha feito um tratamento comigo, ela tinha compulsão alimentar, ela tinha vivenciado muito estresse na infância dela, com uma mãe extremamente restritiva, e a gente fez um trabalho lindo, ela melhorou muito, engravidou, teve uma gravidez super tranquila, e quando o bebê nasceu, tudo em paz, ela amamentou, até a introdução alimentar. E a introdução alimentar foi feita com toda a boa vontade, e ciência, pela pediatra e pela nutricionista da pediatra. Só que essa introdução BLW veio com muitas regras.
E essa minha paciente começou a voltar, ela mesma, a ter uma relação muito complicada com a comida, por medo de mostrar para a filha dela, um comportamento qur não era perfeito. Então ela começou a me dizer que ela começou a comer escondida da filha, para a filha não ver que a mamãe estava comendo de vem em quando um bolo, e a menina tendo 1 ano e 2 meses, claro que ela sabia! Então ela veio buscar uma ajuda de novo no meu consultório para reorganizar essa relação dela também com o bebê.
E muito interessante que, conversando com essa paciente, o que me deparei é que ela tinha tido como regra desse BLW de não dar um grama de açúcar para o filho. Então, essa interdição do açúcar, como se o açúcar fosse veneno, que não pode dar, que pode até estragar o metabolismo do bebê, eu achei super exagerado. E em vez de ajudar essa mãe, complicou a relação dela.
Então a gente conversou, claro que não liberei geral o açúcar, mas eu falei que numa preparação que você também pode compartilhar com sua filha, ela tem 1 ano e 2 meses, ela já quer participar da mesa. Ela já passou daquela fase inicial da introdução alimentar onde o açúcar, a gente evita, né? Então, é melhor evitar quando tem essa introdução BLW inicial, mas também ver que não é uma.
. . Não tem uma data fixa onde a criança pode.
Isso, isso. . .
Foi interessante e talvez possa ajudar alguém do público, com essa dificuldade de ter escutado tanto terrorismo contra alguns ingredientes. Tem o açúcar, tem o suco, tem o ovo, tem o leite. .
. Talvez você possa falar um pouquinho sobre isso. Primeiro eu queria só retomar, Sophie, porque a gente esqueceu de falar que o BLW é um método no qual o bebê se alimenta sozinho.
Então a gente bota a comida na bandeja, e o bebê vai se alimentar pegando ele mesmo as comidas. A gente geralmente corta os alimentos no comprido, para que o bebê segure uma parte, e fique uma parte do alimento para fora para que ele consiga morder. Então ele vai começar a comer devagarzinho porque no início ele não tem essa habilidade, mas aos poucos ele vai aprimorando essa habilidade motora.
Outra questão também importante do BLW, é que no BLW o bebê come a mesma comida da família desde o início. E aí a gente tem dois pontos. As famílias que não têm a alimentação adequada, e que acabam consumindo ultraprocessados, e isso acaba indo para o BLW do bebê, o que não é legal.
E aquelas famílias que têm cuidado excessivo com a comida. Também. Não é legal.
- E que gera até uma ortorexia. . .
- Dos pais! - Dos pais, porque. .
. - É o que a gente está vendo, né? Esse medo de dar um alimento potencialmente perigoso, em vez de querer proteger, você, na realidade, pode até aumentar a angústia da criança, que pode sentir ess angústia do pai.
É, então hoje as pessoas estão com medo de comer frutas e verduras se, por acaso, não encontram orgânicos. Se você tem condições, está dentro da sua realidade, você tem acesso, que bom que você consome orgânicos. Mas a gente não pode simplesmente deixar de comer frutas e verduras porque não tem acesso a isso, não e, Sophie?
Eu não sou também de obrigar todo mundo a comprar orgânicos, o tempo todo. Eu mesma vou à feira, e lá eu compro minhas frutas, eu não estou vigiando isso o tempo todo. Agora, se no supermercado tem uma oferta de uma fruta orgânica, ou de vez em quando, vou ao mercado ou à feira, aí sim, se o preço também está razovável, porque não é para pagar 400 vezes mais em uma fruta.
Então, não entrar nesse terrorismo, não entrar nessa dicotomia de alimento bom, alimento ruim, alimento potencialmente perigoso. Mas deixar essa criança desenvolver autonomia alimentar, acho que essa palavra autonomia é a palavra do BLW, né? Isso, a autonomia do bebê, realmente no BLW, como é o bebê que coordena todo esse processo, sem interferência do adulto, ele vai colocando na boca, e ele vai conseguindo perceber qual é a quantidade de comida suficiente para satisfazer, para ele ficar satisfeito.
- E isso é muito legal. . .
- É, respeitando. . .
Respeitando a fomo do bebê desde o início. Outra coisa também é que ele acaba adquirindo uma coordenação motora, uma precisão motora, muito cedo. Porque ele mesmo manipula as comidas, e aprende a usar os talheres muito cedo.
Então o BLW, ele tem vários pontos positivos, mas o que a gente precisa tomar cuidado, é que ele, realmente, por ser uma abordagem relativamente recente, a gente precisa de um acompanhamento do profissional, para ver se essa criança está crescendo e se desenvolvendo de forma adequada, e também para dar suporte para essa família. Para não cair nesse risco dela estar naquele BMW rigoroso, que acaba virando uma alimentação restritiva. É.
Porque a alimentação tradicional, também, ela não é do mal. Não é porque acontece o BLW que a gente tem que colocar tudo no lixo o que os nossos ancestrais, nossos avós e pais, estavam fazendo. Que a gente tem que ter um bom senso, dentro dessa introdução alimentar.
Até porque, nem sempre os pais estão disponíveis para dar as refeições dos bebês. e às vezes a gente precisa que uma babá, uma avó de um pouco mais de idade que não se sente segura em ficar vendo o bebê comer, que tem medo. .
. Essa insegurança do cuidador também passa para o bebê. Então se é um cuidador que não se sente à vontade no processo, ele também não vai dar certo.
Porque o cuidador precisa ter confiança que o bebê é capaz de se alimentar sozinho. É. .
. essa confiança é super importante. Então, tem o BLW, que é uma abordagem que é bem descrita na ciência, que a gente até acha super interessante, e tem essa introdução que a gente chamou de introdução responsiva, mais flexível, então pode dar algumas palavras sobre ela?
Na abordagem responsiva, na verdade, a gente deixa o bebê conduzir todo o processo. Então a gente não escolhe nem mão, nem colher. A gente apresenta o alimento de várias formas para o bebê, tanto na colher, quanto em pedaços, deixa o bebê explorar esse ambiente, esse alimentos, e ele vai escolhendo qual é a forma que ele vai se sentindo mais à vontade e mais seguro de se alimentar.
É uma maneira também, Sophie, que a gente tem do cuidador ir percebendo que o bebê é capaz. Porque aí, ora ele oferece um alimento na colher, ora ele oferece o alimento em pedaço, ele vai vendo que o bebê consegue pegar, consegue engolir, e aí na medida que o bebê vai se demonstrando capaz, o cuidador vai deixando o bebê mais à vontade para se alimentar sozinho. Então, essa dança que você falou, desse diálogo, de sempre o cuidador estar prestando atenção no que o bebê comunica para ele, é muito importante.
E é isso, não tem caminho certo nem errado, o importante é ouvir o bebê, o importante é ouvir a fome do bebê, o importante é estar dialogando e ter uma coerência entre os cuidadores. E lembrar que, na mesma família, você pode ter um filho que fez de um jeito, o outro filho vai fazer tudo diferente, e a vida é bonita por isso. Porque não existe um só padrão.
Então respeitar tudo isso, e entender que a introdução alimentar é um momento privilegiado de reconstrução até da sua própria relação com a comida, da relação da família inteira. Eu digo muito nos meus cursos, que o momento da introdução alimentar do bebê, acaba sendo também o momento da introdução alimentar da família, de se provar alimentos que a família ainda não conhecia, ou de voltar a provar alimentos que você talvez ache que não gostava, mas na verdade é porque você provou só de um jeito, e talvez você goste, por exemplo, de cenoura ralada em vez de cenoura cozida. Então é uma forma de você redescobrir alguns alimentos.
E aí se a gente caminha nesse processo de 6 meses, que é o tempo que dura a introdução alimentar junto com o bebê, quando chega com 1 ano a família está toda alinhada, está todo mundo tendo uma alimentação equilibrada, tranquila, em paz, e tudo flui com naturalidade, né? Que é o objetivo de uma introdução alimentar em paz. Com ciência e consciência.
Então, Gaby, muito obrigada pela presença hoje, temos muitos projetos juntas, fiquem aguardando nossas notícias.