Seja bem-vinda, Ana Cristina Mena! Oi, Roberto, obrigada, é um prazer estar aqui com você! Sejam todos bem-vindos e bem-vindas ao Narrativas Compartilhadas.
Hoje, eu tenho o enorme prazer de estar aqui conversando com a Ana Cristina Mena. A Ana nasceu em Sorocaba e, em uma conversa que tivemos, ela disse que se considera uma pessoa comum, como dizia a Ritali, uma filha de Deus nessa canoa furada, remando, remando. Eu não acho que ela seja tão comum assim, né?
Mas, enfim, ela vai contar um pouco da história dela aqui para nós hoje. Só para vocês saberem, eu tive a felicidade de tê-la como aluna na escola de Túlio Vargas. Lá, ela participou do festival de teatro da escola e, depois que ela participou, principalmente convidada pelo Mário Mascaranhas, que era primo dela, eu nem sabia disso, na verdade.
Depois, ela participou com Zé Henrique de Paula, que é muito querido, e o Zé Henrique é hoje um dos grandes diretores de teatro em São Paulo, e não só de São Paulo, porque ele é um dos grandes teatrólogos atuais do Brasil. Então, eu vou puxando o papo aqui com a Ana, mas ela vai contar toda essa história. Então, Ana, conta um pouquinho da sua formação nas escolas de Sorocaba.
Primeiramente, onde você fez o ensino fundamental? Então, Roberto, eu estudei no Mailasqui e fiz o ensino fundamental lá, na verdade, da quarta à oitava série. Nesse período, comecei a me interessar pelo teatro, né?
Eu tive aula com a professora Guaraci, que incentivava bastante os alunos. A querida Guaraci trazia textos teatrais para a gente, e montamos o Auto da Compadecida do Suassuna. Uhum, mas assim, a gente apresentou na quadra da escola, né?
A gente improvisou ali um cenário, um figurino; todos os alunos da classe se envolveram nesse projeto. Foi muito bacana, mas era algo bem simples, bem improvisado mesmo. Depois, eu entrei no Júlio Vargas para fazer o ensino médio e tive aula com você, que foi uma alegria muito grande, né?
Você foi uma pessoa que me incentivou muito à leitura e me apresentou o teatro de uma outra forma, através do festival de teatro que tinha na escola. O meu primo Maro Luí me convidou para entrar no grupo de teatro dele em 1987. Professor, sim, a gente montou o Oráculo do Artur Azevedo.
Então, essa foto não está muito boa, mas aí está você. Tem o Denis S. É isso mesmo!
Eu fazia a personagem da Helena, né? Isso daí. Vocês apresentaram também logo depois do festival de teatro.
Olha que legal, lá no Teatro Municipal! Tô aí com o Flávio Miguel, né? O padre Flávio é hoje o presidente da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba.
Muito bom, muito bem lembrado! Padre Flávio Miguel Júnior, né? Ele mesmo.
E ele era engraçadíssimo! A gente ria muito com ele, ele era muito solto. Eu, o Denis e o Sandi Denis, e quem nos dirigiu foi o professor Rivaldo José Carvalho.
Ele estava lá com a gente. Aí já mudou, né? O teatro já era teatro de verdade para mim; já tinha marcação cênica, tinha cenografia, tinha figurino, iluminação, sonoplastia.
Era aquela coisa! Eu fiquei encantada com aquilo, achei incrível. Naquele ano também, eu conheci o Zé Henrique.
Zula, isso! E, naquele ano, ele montou o Esperando Godot, do Samuel Beckett, e eu fiquei impressionada. Foi a primeira vez que eu vi teatro do absurdo.
Foi a primeira vez que eu tive contato com o teatro do absurdo, e aquela montagem foi fantástica. O Zezinho era um menino ainda, mas com uma capacidade que eu nunca vi depois. E você tinha visto já Vido de Noiva também, não?
Não, não tinha visto, porque ele tinha feito essa montagem. Eu não tinha entrado ainda no De Noiva com 16, Esperando Godot, mas foi incrível. Eu sinto que não tenha uma gravação, alguma coisa aí que possa ter guardado aquela montagem, porque foi impressionante.
Foi incrível! E aí, eu passei a trabalhar com o Zézinho, né? Depois disso, a gente saiu daquele âmbito do teatro estudantil para o teatro amador propriamente dito.
E aí, ele fez uma tentativa de montar mais uma vez o Vestido de Noiva, do Nelson Rodrigues. Isso. Mas, infelizmente, a gente não conseguiu concluir, né?
Ele não conseguiu o patrocínio. Ele fez uma belíssima montagem. Eu vi tudo, né?
Ele montou um projeto belíssimo, toda a parte de ação, figurino, sonoplastia. . .
tudo! Ele tinha até um peso de ferragem que precisava usar, porque tinha um cenário circular, e ele tinha até o número de parafusos, tipo parafusos. Em São Paulo, fomos assistir a uma peça que estava passando na época.
A peça profissionalmente, A Esposa de Nelson Rodrigues, liberou para ele apresentar o grupo, liberou também de São Paulo, porque seria teatro saindo do estudantil e passando para amador. Não ia cobrar ingresso; eles concordaram, mas, aqui em Sorocaba e região, ele não conseguiu patrocínio. Uma pena, era um projeto grandioso mesmo, né?
O texto era muito diferente, uma montagem que exigia níveis no palco onde se ambienta a realidade, a nação, a memória, né? Ele criou toda uma estrutura para o cenário que ia ficar muito bacana, mas, infelizmente, não conseguiu patrocínio e a gente precisou engavetar esse projeto. Sim, mas depois nós.
. . Fizemos ainda um texto russo que foi muito difícil: um espetáculo que tinha 4 horas de duração, que foi "A Gaivota", do Anton Chekhov.
E aí eu trabalhei com o Ademir Feliziani, né? O Armando e o Armand. A gente tinha o pessoal ali, fera mesmo, e foi um espetáculo que a gente ficou uma temporada, né?
No teatro, vocês se apresentaram onde? No SESI? É, e nesse meio tempo também eu conheci o Eliz.
A gente chegou a fazer umas oficinas juntos, né? Fiz umas aulas de teatro com a Edmeia Pereira, então circulei aí pela cidade, né? Conheci muita gente bacana.
Depois, nós ainda montamos, com o Zé Henrique, "O Mal-entendido", do Camus, né? Que foi por sugestão sua, né, Albert Camus? Isso.
Ele fez uma pegada assim, meio de tragédia grega, né? Inclusive nos figurinos, ele fez cada ator preparar o seu próprio figurino baseado em tragédia grega. Ele fez essa leitura do texto do Camus pelos gregos, né?
Foi muito enriquecedor, foi muito bacana fazer esse trabalho também. O Armando atuava ou ele auxiliava? Atuava na "Gaivota".
Na "Gaivota", eu não lembro porque eu assisti, mas eu não lembro direito. É bastante coisa. Então, a gente até precisou adaptar aquele texto porque ficou muito comprido, né?
A apresentação ficou muito comprida. E aí era um texto difícil, né? Dava 4 horas de duração.
Dava. Daí o Zezinho fez uns cortes ali para enxugar um pouco, mas a gente inicialmente estava dando tudo isso aí mesmo de espetáculo. Mas foi um período muito bacana mesmo.
Aprendi muita coisa e eu levo pra vida isso, né, Roberto? É uma vivência que trouxe, eu acho que essa curiosidade de conhecer o pensamento das pessoas, de ler, de aprender, né? E até agora, né?
Porque depois você saiu de Sorocaba e foi estudar fora. Foi, eu fui estudar em Bauru, né? Eu fui fazer faculdade de Arquitetura em Bauru.
E lá eu eng Gaveteiro, "Vestido de Noiva", né? Que a gente não tinha terminado aqui. Eu montei lá.
Montou e atuou também, ou não? Atuei também. Ah, é?
Qual papel você fez? Lembra? Os colegas da Arquitetura, né?
E dos outros cursos também, nós montamos um show dos bichos lá. Era o primeiro ano de faculdade e a gente fez uma noite de teatro e uma noite de música, né? E na noite de teatro, nós apresentamos "O Vestido de Noiva".
Eu fiz o papel da Alaíde. Alaíde! E foi bem legal também.
A gente envolveu ali todo mundo, os professores. Foi, a Prefeitura de Bauru inclusive colaborou com a gente e a gente apresentou lá no teatro do campus. Foi qual universidade?
Era a UNESP de Bauru. Entendi. E depois você?
Depois eu voltei para Sorocaba e voltei a trabalhar com o Zé. Aí ele estava montando "Mabet", sei. E aí eu comecei nos ensaios.
Meu papel era o da Lady Mabet, mas infelizmente eu não pude continuar e segui outros caminhos. Outros caminhos. Daí você foi fazer o quê?
Você, na verdade, já entrou na área de turismo já naquela época, ou não? Já. No início eu dei aulas.
Ah, é? Você deu aula? Dei aula de inglês.
De inglês, sei. Mas logo depois eu já comecei no turismo. Eu comecei em companhia aérea, na verdade, né?
Comecei a trabalhar nessa área, na Latam. Latam, é. E na época era só Tam Linhas Aéreas, né?
Depois que virou Latam. Sei. E depois passei a trabalhar em agência de viagem e fui guia de turismo.
E hoje eu tenho a minha agência, né? Já faz a Pride Turismo. A gente já está no mercado há 9 anos.
9 anos? Hoje, virtual, né? É, hoje nós trabalhamos em home office desde a pandemia, né?
Certo. Mas daí entrou só a Pride Turismo, já tem acesso? É, já, desde dessa época.
Nós fechamos a sala e passamos a trabalhar só em home office mesmo. Mas sinto falta. Sinto falta.
Estava até conversando com a Ana Cláudia, que estava pensando em reabrir a sala, entendi. Contratar mais funcionários e retomar o presencial. É o presencial, exato.
Entendi. Ótimo. E ainda do teatro, como que fica?
Tem assistido bastante? Depois disso tudo? Ah, eu sempre que posso assisto espetáculos.
Fui a São Paulo. Fui, fui sim, fui com a minha amiga Suzana, que participou. Encontrei depois de muitos anos.
A gente trabalhou juntas em "O Mal-entendido", do Camus. E depois a gente perdeu contato por muito tempo. A gente se reencontrou em um clube de leitura do SESC aqui em Sorocaba.
E daí a gente retomou essa amizade. Foi bem legal. A gente combinou e foi assistir um espetáculo do Zé Henrique em São Paulo e a gente conversou com ele depois do espetáculo.
Ai, foi muito emocionante! Que bacana! Foi o encontro?
Foi, foi o urinal, urinal. Certo, lá no espaço dele. Então, lá no Núcleo Experimental de Teatro da Barra Funda.
É muito bem, muito bem, muito bem. Então, mas essas questões de leitura você também deve ter vindo já da sua família. Você lia bastante já quando pequeno, seu pai e sua mãe?
Seu pai e sua mãe eram professores também, né? Professores também. Eles eram professores de Artes Industriais.
Artes Industriais. Dava aula onde? Ai, Roberto, eu já não sei.
. . Que que escolas deram aula?
Não, a minha mãe ainda deu, mas deu, deu, deu aula mais tempo que meu pai. Meu pai foi trabalhar em outro ramo. Depois, minha mãe ainda deu aula aqui em escolas estaduais aqui em Sorocaba, mas eu acho que, assim, o ambiente favorecia, né?
Ter sempre ali livros, música e manualidades, né? Trabalhos manuais ali. Eles dois, eles sempre me incentivaram bastante também a desenhar, a ler, a escrever.
Então, para uma criança curiosa, isso foi muito valioso, né? Entendi, assim, estimulante. Como que você se via naquela época que você estava fazendo teatro?
E hoje, né? Vamos dizer assim, qual era a importância daquilo que você estava fazendo? Você chegava a parar para pensar naquela época de adolescência e fazendo essas atividades na escola e depois se profissionalizando?
Olha, Roberto, eu me envolvi muito nessas atividades, né? Eu realmente cheguei a pensar em cursar artes cênicas, né? E, naquele momento, eu pensava que era um universo incrível, né?
E gostava demais do estudo dos personagens, da criação dos diálogos, da interação entre as pessoas ali. E eu acho que tudo isso a gente leva pra vida, né? Uhum.
A comunicação, a troca, e isso influencia na vida profissional depois. Eu trabalho hoje vendendo viagens. Na verdade, eu vendo sonhos, né, Roberto?
Eu vendo a possibilidade de pessoas realizarem sonhos. Exatamente! Então, ter essa leitura do humano é fundamental pro meu trabalho.
Sim, eu acho que isso vem de lá de trás também, né? Vem do teatro, vem daquelas atividades que a gente fazia em sala de aula com você. Que atividades, aquelas atividades que a gente fez?
Eu me lembro muito, assim, do modernismo, que inclusive a gente apresentou na oficina Grande Hotel. Eu me lembro do trabalho do simbolismo também, que a gente declamava poemas, fazia leitura de texto, sempre assim caracterizados, com ambientação, né? Pequeno cenário e luz.
E todo recurso que a gente tinha disponível na escola lá a gente usava para fazer essas apresentações nas suas aulas, né? E esse daí da Grande Hotel, Oficina Grande Hotel, foi uma montagem de sala de aula mesmo com poetas do modernismo. Poetas modernistas, isso!
Exatamente. E daí foi apresentado lá dentro, ou lá fora, na escola? Foi lá dentro, foi lá dentro.
Na época, foi lá dentro. O prédio era todo conservado, na época, né? Era um espaço bonito e a gente fez lá.
Sei, aproveitou a estrutura lá e tinha aí a condição de fazer um joguinho de luz, né? Uma sonoplastia. A gente aproveitou e caprichou.
Foi legal, muito bom! Então, você acha que essas atividades ajudaram para você, mesmo pessoalmente, né? Com certeza.
Então, conte mais alguma coisa que você queira que você achou que não falou ainda e gostaria de contar pra gente. Ai, Roberto, eu acho que tá aqui conversando com você é uma alegria e um privilégio. Você sempre foi um professor muito querido e um amigo também, né?
Eu acho que você trouxe para mim e pros meus colegas uma dimensão do humano que poucos professores trouxeram com esse trabalho tão rico, né? Em sala de aula, você trouxe muito mais do que a literatura pra gente. Você trouxe uma capacidade de interpretação do mundo para nós, fantástica.
Mas não era eu, não sou eu, é a literatura e vocês mesmos, gente! Só era média, não tinha nada a ver. Você trouxe uma riqueza pra gente que a gente leva pra vida e a gente lembra disso com carinho enorme.
A gente conversa, eu tenho um grupo de amigas dessa época que a gente se encontra pelo menos uma vez por mês, né? É sagrado! E a gente sempre lembra, né, da época lá do Getúlio e a gente fala dessas aulas com muito carinho, sabe?
Daí saíram artistas, né? Esse nosso grupo tem a Gabriela Flores, que é cantora, aí a Gabriela. E tem a Eandra, que fala muitíssimo bem!
Quando foi nas bodas de prata da Luciana Martinez, ela foi a mestre de cerimônias e ela falou muito bem, né? E são coisas que vêm de lá, né, Roberto? Essa amizade é muito bonita, né?
Vocês preservam até hoje, é isso? É bom demais! Será que dá pra existir escola, uma sociedade, sem escola?
Eu acho que não, Roberto. Na minha opinião, não. Acho que essa vivência é fundamental pro desenvolvimento das pessoas.
Aham. Essa troca é fundamental. Ali a gente aprende muito mais do que só as matérias que os professores ensinam, né?
E quando a gente tem a sorte de ter professores comprometidos assim, a gente ganha muito com isso. E o Getúlio fez muito isso, né? Muito, muito.
Ah, sim! Os professores, toda uma equipe, direção, todo mundo, né? Verdade, Ana querida!
Mas é isso, viu? Que coisa boa estar aqui com você, conversando um pouco, trocando algumas ideias. Muito obrigado, viu?
Eu que agradeço pelo convite! E que nos encontremos em breve, se Deus quiser. Com certeza!
Obrigada! Eu que digo, querida, muito obrigado pelos seus depoimentos, viu? Até breve!
E você que está nos acompanhando, nos seguindo, muito obrigado pela presença e até o próximo encontro. Um abraço!