Se se me pergunta qual é o país que, para mim, deu os melhores narradores literários, ou seja, romancistas, novelistas, contistas, eu direi, sem sombra de dúvida, que é a Inglaterra. Muitos escritores ingleses me agradam enormemente: Charles Dickens, entre os primeiros; a mesma Jane Austen, gosto muito dela; Chesterton, né? E, muito particularmente, Stevenson, Robert Louis Stevenson.
Ele é conhecido, é um escritor conhecido, e em particular é famosa a obra dele "O Médico e o Monstro", né? "Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde" é o título original, muito melhor para mim que "O Médico e o Monstro". Mas falemos em termos de "O Médico e o Monstro", que é o título conhecido no Brasil.
Bem, é uma obra espetacular, aliás, vale muito a pena ler o livro de Chesterton sobre Stevenson. Mas, falando de "O Médico e o Monstro", em particular, é famosa a interpretação geral que, já desde há muito tempo, se dá a este livro. O livro retrata as duas faces do homem: sua face angélica e sua face tenebrosa, diabólica; o bem e o mal igualmente presentes no homem.
Esta é uma interpretação absolutamente ideológica, moderna e falsa. Stevenson era um moralista; era um escritor tipicamente moralista. O que ele faz neste livro é mostrar que o médico faz um pacto fáustico, diabólico, como falso, não exatamente com o demônio, mas com o pecado.
Ele queria levar uma vida desregrada e consegue um método científico para fazê-lo sem comprometer-se socialmente. Tá bem? E a obra, que não chega a ser um romance, é uma novela.
É um conto longo ou uma novela que se encaminha para um desfecho trágico, exatamente para mostrar que este pacto feito pelo médico é algo ruim e condenável. Como eu disse, Stevenson é um moralista; era um moralista, e realmente o clima da obra é uma coisa impressionante. O encaminhamento que ela dá para o desfecho trágico é impressionante; é realmente impressionante.
Mas não é para mostrar, neutra e indiretamente, que o homem tem duas faces, o bem e o mal. Não é para mostrar que o homem não deve ceder ao mal, que o homem não deve fazer um pacto com o mal. É isto.
Stevenson, salvo engano, se minha memória não me trai, era de família protestante. Creio que perdeu a fé, mas nunca deixou de fazer transparecer, deixar transparecer em suas obras um moralismo, uma moral de cunho religioso, né? Deus está presente em suas narrativas, e é realmente uma obra-prima.
É o melhor dos seus livros, né? Ele tem vários outros muito bons, mas este é o melhor de seus livros. Vale muito a pena.
Há boas traduções ao português; eu não estou aqui com nenhuma à mão, né? Esqueci de trazê-la, mas há boas traduções, é fácil encontrá-las, e é um livro de leitura rápida. É uma obra de leitura rápida.
Uma das edições que eu tenho aqui traz três obras suas, salvo engano, sim, três obras, né? A primeira é "O Médico e o Monstro", a última também muito boa; a segunda, não tanto, sobre uma coisa meio do gênio da lâmpada ou algo parecido. Mas "O Médico e o Monstro" é uma das obras maiores da literatura narrativa dos últimos tempos, de cunho, repito, moralista.
E o ambiente trágico, o desfecho trágico, o clima tenebroso não é para mostrar indiferentemente as duas faces do homem: uma face tenebrosa e uma face luminosa. Essa coisa que herdamos do nominalismo de Ockham, para o qual o homem é livre para praticar o bem e o mal, não, não é isto o que faz Stevenson ali. Não.
Stevenson elabora, escreve uma tragédia breve, né? Com tons faustianos, ou seja, é como se fosse um pacto do personagem com um demônio. Ele não utiliza isso; quer dizer, ele até se refere ao demônio, sim, é um pacto com o demônio, tá?
Com o mal, com o demônio, como se queira interpretar, né? Com desfecho trágico que leva à conclusão de que aquilo é um mal e, como todo mal, deve ser evitado. Isto está presente ao longo de todas as obras de Stevenson.
Como eu disse, é um moralista. Repito, aliás, leiam isso! Eu aprendi, aliás, bastante com Chesterton, que insiste nesse caráter moralista de Stevenson.
É isso. Este é um vídeo breve, né? Tão breve como a obra-prima "O Médico e o Monstro", "Dr Jekyll e Mr Hyde".
E anuncio aqui que, provavelmente, meu próximo vídeo sobre arte, sobre literatura, será, a pedido de alguns dos seguidores aqui do canal, sobre a "Divina Comédia" de Dante. Eu, por muito tempo, me neguei a aprofundar-me no assunto e, muito menos, a falar dele publicamente. Falar publicamente da "Divina Comédia" porque ela tem algo de problemático.
Mas veremos qual é a minha conclusão atual que me leva a ter uma segurança para gravar um vídeo sobre a "Divina Comédia". No livro "A Arte do Belo", eu digo: "É literatura, é literatura sem dúvida alguma, né? Mas faço uma ressalva: há coisas que discutir.
" Pois bem, discuti estas coisas comigo mesmo desde então. Quantos anos são? Dez anos já do lançamento da primeira edição; a segunda, já houve uma segunda edição da primeira edição da "Arte do Belo".
E, de lá para cá, eu reli a "Divina Comédia", né? E hoje estou seguro para gravar um vídeo e tratar o assunto com segurança. Bem, é isto.
Recomendo-lhes efusivamente "O Médico e o Monstro" como uma das obras-primas da literatura narrativa universal e digo-lhes: escapem desta interpretação superficial, tosca, ideológica que o mundo atual quer dar a esta pequena obra-prima. Muito obrigado pela atenção e até nosso próximo vídeo.