[Música] a boxeadora imane kelif medalhista de ouro nas olimpíadas de Paris em 2024 ganhou notoriedade não apenas pela sua Conquista Mas pela discussão sobre as regras de gênero nas olimpíadas direitos humanos e esportes são assuntos de cidadania e é sobre isso que eu converso agora com Valesca Vigo ela é Doutora pela Escola de Educação física e esporte da Universidade de São Paulo Valesca Muito obrigado pela sua participação em nosso programa bem-vinda de maneira remota ao Estúdio da TV Senado Eu que agradeço Marcelo é sempre um prazer poder falar do do assunto obrigada pelo convite Então
esse assunto gerou muita polêmica gerou muita desinformação muita muitas fake News né muitas notícias falsas e eu queria começar a a nossa conversa trazendo um pouco de um histórico né porque foi um caso que ganhou notoriedade mas essa questão do gênero nas olimpíadas e nos esportes já é uma questão que vem acontecendo há alguns anos eu queria que você falasse um pouco primeiro sobre esse histórico quando é que começa essa discussão nas olimpíadas né E como é que e isso esse tema começou a ser tratado né quando se elege uma pessoa que ela possa ou
não participar eh eh de um esporte olímpico como né na categoria masculina ou feminina então Marcelo Na verdade eh essa questão Ela já tem bastante tempo dentro do movimento Olímpico né Eh desde a década de 30 que o movimento Olímpico começa a pensar especificamente na categoria feminina se a as integrantes dessa categoria eh tem uma APAR masculinizada né Eh isso eu tô colocando aqui como os gestores olímpicos pensam né ali na época eh e se talvez nesse momento né homens estariam eh invadindo a categoria feminina Então você tem essa preocupação já acontecendo há muitos anos
né Eh começa ali ainda no século XX ali na nas três primeiras décadas né do século XX eh e aí a gente vai ter uma ideia então de que é necessário e essa ideia né vem com a gestão Olímpica mesmo o presidente do comitê Olímpico internacional da época né Eh de que é preciso fazer alguma coisa para investigar o gênero das atletas e acho que é bem importante deixar aqui que isso acontece só na categoria feminina né O que a gente tá falando hoje nunca aconteceu na masculina né em nenhum momento se pensou que algum
eh de alguma maneira que os homens eh eh poderiam não ser legítimos né como eu gosto de chamar né agora isso vem paraa categoria feminina né Será que existe mesmo Será que todas as mulheres né são mulheres de verdade né são legítimas eh isso acontece em especial eh com mulheres não ocidentais eu acho que é importante marcar né A primeira vez que isso vai acontecer eh tô falando da década de 30 acontece ali na edição de Berlim né Eh com uma atleta chamada Dora ren né que é do salto em altura Mas um pouquinho antes
ainda nos jogos de 28 A gente tem também essa essa dúvida em relação ao gênero de uma atleta japonesa né a hitom no então sempre vem uma ideia ali com a uma aparência que não é ocidental apesar da gente ter essa atleta né Eh alemã né participando e tendo essa dúvida mas depois a gente vai olhando para isso e vai vendo que são mulheres japonesas né uma mulher japonesa ali em 28 e depois eh hoje mulheres eh do continente africano especialmente né É o caso da o caso da Argélia né agora como é que que
eh como é que começou esse processo né hoje a gente vai falar um pouco mais sobre isso são várias formas de teste tem um teste de eh cromossômico tem a questão hormonal tem um teste biológico no começo na no século passado quando essa discussão começou essa preocupação em que os esportes eh eh as categorias femininas não fossem invadidas por homens né como você bem citou aqui eh como é que era esse processo para como é que foi o desenvolvimento desse processo para poder determinar Não essa pessoa realmente é mulher ou então aqui não não não
é não se trata de uma mulher eh eu falei que tudo começa lá na década de 30 né mas os testes de verificação de gênero eles vão chegar somente na década de 60 pela primeira vez porque a gente também tem duas edições olímpicas sendo canceladas por conta do eh das guerras mundiais né sim eh e Então como é que se vai pensar ali ali em 48 já tem uma questão que é eh essa mulher precisa se provar mulher então elas têm de apresentar eh Um certificado médico que né Elas tem que passar por por uma
um exame visual ali médico que informa que essa mulher tem uma certa composição corporal né uma certa aparência que vai dizer que ela é uma mulher né ah então elas têm esse certificado em 48 E aí todas as atletas têm que apresentar né e na década de 60 a gente vai ter pela primeira vez o teste cromossômico né ah por que o teste cromossômico porque em 66 a gente tem o um teste de palpação genital sendo aplicado em uma em um campeonato de atletismo e obviamente né a a a invasão desse né vai fazer com
que as atletas eh reclamem sobre o teste o teste cai ISO acontece naquela né naquele naquele evento né naquela edição exatamente naquele evento que é um evento do atletismo né não uma edição Olímpica né Eh mas aí entra o teste cromossômico esse teste como ele é feito por uma coleta de saliva eh então você não tem um vamos dizer uma invasão como era antes né E esse teste vai ser então muito mais aceito né Lógico que tem atletas que também vão dizer como assim eu preciso me provar mulher né mas eh esse teste vai ser
muito mais simples Sutil então ele vai sendo aceito eh ele dura 30 anos né ele vai ser aplicado até a década de 90 né Eh mesmo com a comunidade externa o comitê Olímpico internacional criticando duramente esse teste né dizendo Olha esse teste ele não é efetivo né Por quê primeiro porque você tem eh a gente não tem só a combinação XX XY né a gente eh a ciência moderna acabou [Música] binarização funciona eh ele não é efetivo ele pode ser eh ele pode dar falso positivo o resultado né mas mesmo assim a gestão Olímpica continua
insistindo que o teste é necessário né E vamos pensar aqui né em mais de 100 anos de jogos olímpicos nunca aconteceu o que eles estavam pensando de um homem invadir a categoria masculina né Eh então em relação ao teste cromossômico é isso né 30 anos sendo aplicado mesmo com duras críticas né externas e e tentando derrubar né esse tipo de teste cromossômico então ele não é Eh vamos dizer assim não dá uma resposta absoluta né não é possível não é exatamente um teste conclusivo ele dá um indicativo mas eh o fato de uma pessoa ter
o cromossomo eh ter encontrado numa pessoa o cromossomo Y não significa que ele necessariamente essa pessoa é do gênero masculino exatamente a gente tem uma variação né dos cromossomos eh Então não é só xx ou XY mas a gente tem XXY tem xo né então Eh o que que acontece eh uma pessoa né um bebê vai ser marcado como masculino ou feminino só dentro dessas duas possibilidades dentro eh ali no Nascimento né ou antes do nascimento ainda né na na eh num num num ultra som né já vai já vai tendo essa marcação de forma
binária né ou é menino ou é menina né E a gente tem uma variação biológica né que que não não termina aí né só no só nesses dois polos né ou é ou é menino ou é menina ou é homem ou é mulher Valesca é nessa variação biológica que entra a o chamado intersexo exatamente né por isso também que se usa mais a palavra variação intersexual porque dentro do do próprio intersexo Você pode ter esse tipo de variação como eu falei cromossômica eh em relação aos órgãos reprodutivos né e é exatamente isso né a pessoa
intersexual ela pode ter uma combinação de elementos que a medicina marca como masculina masculino e feminino né ah eh a pessoa intersexo fica exatamente né nesse vamos dizer assim combinando essas duas possibilidades e aí como é que eh como é que essa questão foi resolvida porque o a o teste cromossômico foi aceito durante muito tempo depois de um tempo você a ciência foi mostrando que existem as variações Então não é determinante ser XX ou X Y tem as nuances e tem essas variações qual é qual foi o passo seguinte como é que a gente qual
é o estado da arte hoje né como é feita essa essa definição essa elegibilidade de que atletas podem participar ou não o caso por exemplo da iman kelif também teve o caso da boxeadora tailandesa as duas taiwanesas aliás né as duas eh medalhistas de ouro né ali e o ting e a e a iman kelif elas foram eh desclassificadas pela associação internacional de box mas o comitê Olímpico chancelou as duas e como esportistas do gênero feminino como é que foi e esse process como é que é essa esse como é que isso tá sendo definido
hoje para determinar quem pode ou não participar na categoria feminina tem uma história bem importante que acontece lá na década de 80 porque uma das atletas com variação intersexual que vai ser impedida de participar né da das competições eh ela entra com uma ação contra a Federação Internacional de atletismo né alegando que os testes são humilhantes são eh são são invasivos são a a a questão da de ser confidencial né não acontece de repente a coisa toda se espalha vai pra imprensa né e o nome dessa atleta Maria Rosé Martinez patinho hoje ela é uma
das consultoras do comitê Olímpico internacional eh para eh pra Construção dos dos documentos de elegibilidade né tanto para pessoas com variação intersexual como para pessoas trans eh o que que acontece quando ela entra com essa ação contra a Federação de Atletismo eh ela vai ter uma ajuda de uma comunidade médica que vinha ali tentando derrubar o teste cromossômico né e dizendo que ele não era efetivo apesar disso a comunidade médica que apoia ela vai entender que os testes de verificação de gênero tem que continuar né de alguma forma tem que as atletas T que se
provar e mulheres né E essa essa equipe acaba ajudando ela a ajudando ela da seguinte maneira então se não é o cromossomo Então tem um outro marcador biológico E aí eles vão eh voltar o olhar para a testosterona para os níveis de de testosterona né que é o que a gente vê hoje eh sendo eh muito discutido né na imprensa e e mesmo no meio Acadêmico popularmente né é a discussão da testosterona por a a Maria patinho né ela tem uma variação intersexual em que a testosterona dela é elevada mas eh as células não respondem
a esse efeito né então eles vão usar essa essa lógica de que se é a testosterona que eh que faz né a a que quase que coloca esse limite do que é homem e mulher né Eh se é a testosterona então o principal fator biológico Então vamos focar nela né o que acontece é que a a gente não para de falar de testosterona né como como eu coloquei aqui e novamente a gente tá vendo que eh não existe um fator biológico único que consiga delimitar essa linha né do que é homem do que é mulher
uma mulher e muito mais uma uma mulher com eh níveis elevados de testosterona não necessariamente ela vai ter uma vantagem competitiva dentro do esporte por essa característica exatamente o próprio coi reconhece isso no terceiro eh no terceiro documento que ele publica dizendo Olha não tem uma investigação eh teórica que prove né que isso é Absoluto em especial que uma pessoa vai vencer uma competição por conta só da do do nível de testosterona quer dizer se uma pessoa vence uma competição Porque tem uma testosterona elevada Então a gente tem que também fazer o mesmo na categoria
masculina né e assim não que eu né tenha esse não que eu queira isso né mas a lógica né movimento a esse tipo de pensamento né então por que que isso não é feito na masculina então quer dizer Michael felps eh Bolt todos esses grandes medalhistas tinham testosteronas altíssimas por isso eles foram eh por isso eles foram eh um dos medalhistas mais importantes né Eh o a a atleta o atleta ele chega a ser Olímpico chega a ser campeão olímpico campeã Olímpica por uma série de fatores né e fatores sociais também né não só os
biológicos né Eh mas é é é é é um corpo como um todo né esse ele não funciona a partir de um fator biológico né Então essa é a crítica que está sendo feita hoje eh e na verdade né o que se busca também de eh é derrubar os testes de verificação de gênero pela discriminação pela invasão né alguns testes de verificação de gênero por exemplo eles não param em uma coleta sanguínea em uma coleta urinária né Eh eles eles vão paraa palpação genital ainda de atletas por exemplo com variação intersexual como é o caso
da cter semenia né um dos casos mais famosos aí do esporte Mundial eh e de outras atletas além dessa palpação genital teve eh exam de imagem eh coleta sanguínea coleta urinária histórico familiar eh desde a infância eh passando pela puberdade né é uma é uma investigação altamente invasiva Então existe hoje eh uma pressão pela derrubada de qualquer tipo de verificação de gênero e aí como é que ficaria nesse caso a uma vez que derrubem essas essas esses mecanismos de verificação de gênero qual seria o critério né e e hoje ainda tem uma uma questão que
não não é o comitê Olímpico internacional quem define hoje essa essa elegibilidade essa aprovação esse processo ele foi eh destinado assim a cada uma das federações Então as diferentes entidades esportivas tem diferentes regras e se for derrubada a o teste de verificação qual seria o critério para que uma pessoa possa eh competir sem ter que passar por todo todas essas situações Olha o critério seria exatamente assim não não ter nenhum critério na verdade né porque a categoria masculina não tem nenhum critério Eu acho que isso é importante marcar que isso só acontece na feminina né
então isso é uma é um tipo de discriminação é um tipo de escrutínio de investigação só do corpo eh feminino né a masculina não passa por isso ninguém precisa se provar homem né É uma questão de identidade então passaria a ser uma questão de identidade de gênero como a pessoa se eh eh se se enxerga exatamente o que tem no no último documento do coi é por aí né e o que a gente viu no caso das boxeadoras também foi isso Qual é sua identidade de gênero como você se autoa afirma né E essa apresentação
dos documentos já me basta né porque como eu coloquei aqui mais 100 anos nenhum homem entrou na categoria feminina né para poder participar né Eh e uma coisa que que eu vou trazendo ali ao longo da pesquisa por exemplo é eh a gente tem essa ideia de inferioridade né da categoria feminina em relação à masculina por isso a gente precisa separar as coisas né Só que existe eh sempre especialmente né ali pensando socialmente a categoria feminina ela sempre tá um passo abaixo da da masculina justamente porque não tem o mesmo tipo de investimento o mesmo
tipo de eh o o mesmo tipo de de de incentivo é o caso do futebol por exemplo é o futebol feminino demorou muito tempo a decolar e ainda é uma situação bastante diferente se a gente pensar em em termos de eh salários até da própria exposição mediática que o futebol feminino tem em relação ao masculino realmente tem e essa diferença e essa fala sua agora me traz uma uma pergunta que eu ia eh trazer para você essa então essa eh esse essa questão né esse tema de elegibilidade de escolha quando uma pessoa pode ou não
participar na categoria masculina ou feminina é separação isso aí é uma discussão eh biológica é uma discussão social uma discussão política em que categoria você colocaria essa essa discussão sobre as regras de gênero nas olimpíadas ol olhando para todo o histórico né eu eu tentei ampliar minha visão e olhar para a categoria feminina como um todo Desde quando ela começa né nos jogos olímpicos que é em 1900 a primeira participação feminina né e eu tentei ampliar justamente para entender né eu eu estudei eh mulheres eh com variação intersexual e mulheres trans né ess Essa participação
mas eu queria saber e as mulheres C gêner né Quais quais são os obstáculos que Elas tiveram de enfrentar Porque isso me trouxe uma visão de como a categoria feminina fica nesse lugar de inferioridade porque socialmente né ela não tem o mesmo tipo de incentivo como você bem colocou né Marcelo e como politicamente eh os gestores olímpicos ou os gestores das federações né em especial da Federação Internacional de atletismo seguram para que essa categoria feminina não se desenvolva o suficiente né com com falta de incentivo apoio técnico apoio de de psicólogos e psicólogas muitas vezes
né Eh não é nem só a questão financeira né mas eh muitas vezes você tem essa Gama né de de de possibilidades de de apoio não chegando até a categoria feminina e o que é importante né Não só essa esse tipo de apoio não chegando mas as mulheres em determinados esportes foram proibidas aqui no Brasil por lei porque 40 anos de participar dessas atividades ou seja uma mulher poderia ser presa ir pra cadeia caso ela fosse pega praticando modalidades como rugby as lutas o futebol né então o que a gente vê hoje na categoria feminina
por exemplo né se a gente pensar ali ó as primeiras crianças as primeiras meninas que conseguiram jogar futebol sem essa lei provavelmente foram a Cristi e a né porque essa lei vai cair ali próximo dos anos 80 né então a categoria feminina ela tem esse esse obstáculo para conseguir se desenvolver mais né Eh e sempre vou colocar um caso só para fechar aqui pensando em mulheres C gêner né Tem um caso muito importante de de ser falado que é o de uma atleta olímpica do tiro que na na edição de 92 em Barcelona né uma
chinesa chamada Zang Chan eh essa essa categoria era mista né E ela participa e a Zang Chan ganha né Essa essa nessa categoria do tiro o que que vai acontecer a partir dali a Federação Internacional de tiro vai proibir a participação de homens e mulheres em con junto Porque justamente né não havia a expectativa a possibilidade né de que uma mulher algum dia fosse vencer eh um esporte fazendo praticando junto com os homens né então quando ela vence eh a Federação ao invés de comemorar né ela tira as mulheres eh e o tiro vai voltar
duas edições olímpicas depois da de 96 com uma categoria feminina né vai separar para que isso não apareça para que não apareça que as mulheres C gêneros também podem vencer homens e gêneros né então é é muito você me perguntou se é social se é política se é biológica é tudo isso ao mesmo tempo eu diria É e tem um longo caminho a ser percorrido agora no começo da entrevista eu comentei a gente tá falando aqui de direitos Direitos Humanos a gente tá falando de esporte É principalmente de esporte é o seu foco de pesquisa
E especialmente Nessas questões de de gênero agora tudo isso é assunto de cidadania e aí eu pergunto para você o que é cidadania bom eh cidadania para mim seria poder fazer parte de uma coletividade né ah e essa coletividade eu acho que ela coloca aí todas as possibilidades para todas as pessoas né Eh todo tipo de direito para todas as pessoas né e não só para algumas e eu tô pensando isso no esporte né Eh quem seria a cidadã da categoria feminina né hoje a gente tem algumas cidadãs dentro da categoria feminina podendo participar dessa
coletividade e a gente tem outras sendo proibidas né Então para mim sempre tá ligado a essa questão da atividade se eu posso ou não fazer parte desse coletivo maior né e não de um grupo pequeno e específico bom Valesca Vigo Doutora pela escola de educação física e esporte da Universidade de São Paulo Muito obrigado pela sua participação no nosso programa Eu que agradeço Marcelo obrigada mesmo pela oportunidade e Agradeço também a você que acompanha a programação da TV Senado assine o canal da TV Senado no YouTube ative as notificações e acompanhe toda a produção do
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