Esse espaço eh foi onde eu escrevi a Delicada, meu último livro. É como um quarto dentro da sala, né? Um aquário, como como eu chamo.
Aí como eu pensei em organizar aqui, que é uma organização que eu vi na casa de um amigo meu, ele organiza por países. E aí eu achei, ah, fica muito bom isso, né? Até [música] porque você começa a ver quais são os lugares que você lê mais e tal.
Só que eu fui percebendo que não ia ser possível fazer tão organizado quanto ele fez, porque ele é uma pessoa mais organizada que eu e porque tem mais parede. Então foi crescendo de um jeito um pouco mais monstruoso do que a meu plano inicial. [música] Eu sou uma pessoa que estudou teatro antes de escrever.
Então eu tenho uma, digamos que uma base e de livros teóricos sobre teatro e sobre escrita [música] que eu eu tenho essa necessidade de que isso se junte, sabe? que fique na minha primeira prateleira. Então aqui eu tenho Shakespeare, tem Tennesse Williams, tem UNESCO, Clarisspector, por exemplo, tá deslocado aqui porque o lugar de literatura é brasileira é para lá, mas esse livro, a descoberta do mundo, que é um livro de crônicas dela, né, eh, para mim é um livro sobre escrita também.
Então, tô constantemente pegando como uma espécie de oráculo, acabei deixando ele aqui pelo uso, né? Esse Wood Allen aqui também ele tá deslocado porque a minha parte de cinema é para cima, mas ele não tava cabendo. Acabei trazendo para cá.
Foi um livro que eu numel que eu tava, ele tava na mesa de cabeceira e eu achei o livro muito bonito e perguntei se eu podia levar e eles me disseram não primeiro, mas eu não roubei. Eu fiquei, deixei na mesa e depois recebi um telefonema depois de um minuto da recepção dizendo assim: [risadas] "Então ele veio para cá por sorte. Esse livro foi muito, foi uma das minhas leituras mais importantes do ano passado.
É muito incrível. É um livro que não é uma ficção. É um livro onde a Neid ela fala de fato sobre o que aconteceu com ela na infância.
É um ensaio, eh, mas de uma de uma contundência assim muito impressionante. Eu leio mais ensaio e teoria do que ficção. Eu tava na casa da Uda H semana passada, né?
é que é um espaço que convida todos assim a visitar um lugar maravilhoso. E conversando com a Olga, que é uma artista que mora lá e cuida do acervo, eh, ela disse que ela disse que a Ida lia muito também, não ficção. Eu acho que talvez seja uma coisa de quem escreve ficção, porque no período que você tá escrevendo teu romance, é, às vezes você lê ficção atrapalha a o tom, então você precisa ir para um outra, sabe, para uma outra coisa e e aí você depois volta a ler mais ficção quando você descansa dos romances.
Bom, esse livro eu comprei numa num sebo perto aqui de casa que já fechou, inclusive. É uma coletânia de contos e esse conto aqui, Josefina cantora, é muito muito muito impressionante. Eu me lembro de ter sentido tanto estranhamento e maravilhamento assim junto só com a Clarice.
Ah, e eu acho que Cafica e Clarice tem uma uma simbiose assim, né, no modo como eles constróem uma linguagem muito particular, mas aqui juntou muitos livros que eu tô relendo pro livro que eu tô escrevendo agora. Então eu deixo mais na mão, porque são livros que eu preciso eh voltar muito a eles. E aí eu deixei essa pilha como uma pilha de trabalho, digamos assim, de releitura.
E tem um Bartes aqui também que eu acabei de ler, muito legal, a preparação do romance. Volume dois, o volume um tá muito raro e caro. Vou esperar.
Eu tenho várias eh vários modos de interagir no texto. Esse marca esses marcadores são uma forma de encontrar que é que é uma ilusão, na verdade, porque quando você vai procurar de novo suas coisas, você não acha nada. Nada tá no lugar onde você deixou.
Eh, porque também tem uma coisa da da leitura, ser um fluxo e você chega naquele clímax pelo fluxo da leitura, não o trecho em si isolado. Então, nunca tem o mesmo impacto quando eu volto, mas ainda assim eu marco porque eu acho que é um gesto de maravilhamento. um livro que foi super difícil encontrar, que é esse O Corpo poético, é uma pedagogia da criação teatral do Lecock, que foi um teórico do corpo que estudou máscaras, estudou desenvolvimento corporal dos atores.
E esse livro foi legal porque eu comprei no CEO e aí veio com uma carta do livreiro do CEO, eh, dizendo que me lia. E aí fiquei, só que eu tava tão esperando tão ansiosamente que eu abri muito rápido o pacote, abri assim e aí eu dei uma rasgada na carta dele. Aí foi muito, foi triste até pedir desculpas.
Depois a gente se encontrou num evento literário. Aqui são livros mais inexplicáveis. Eles vão de filosofia, psicanálise, cinema e dança, que é também uma espécie de obsessão que eu tenho.
Assim, eu adoro ler sobre dança. Eu comecei a estudar a dança, o movimento por conta do meu segundo livro, Pequena Coreografia do Adeus, que a minha personagem, ela tem um momento na dança. A Pina Balcho foi uma grande teórica para mim, né?
Eu adoro os movimentos dela, adoro o trabalho dela. Esse livro é maravilhoso. E aí fala muito sobre o trabalho dela, tem imagens.
É, foi um livro muito importante pr pra construção do pensamento, né, da pequena coreografia do adeus. E acho que um outro livro aqui dessa pilha favorita é esse da Luiz Bujoá. Também é raro e importante para mim.
A Júlia, né, a minha personagem da pequena coreografia do adeus, ela tem diários e eu nunca tive diários, então comecei a caçar diários de artistas. Temos aqui, por exemplo, da Virgínia Wolf, que foi bem importante pra minha criação. Lendo Diários, eu acabei caindo na Luiz Bujoá, que já era um artista que eu admirava.
Esse livro, ele é uma mistura de escritos, diários, entrevistas e artigos sobre o trabalho dela. E aí a primeira frase desse livro é muito impactante. Ela diz assim: "Meu nome é Luís Josefine Bujoá.
Nasci em 24 de dezembro de 1911 em Paris. Toda a minha obra nos últimos 50 anos. Todos os meus temas foram inspirados em minha infância.
Minha infância jamais perdeu sua magia, jamais perdeu seu mistério e jamais perdeu o seu drama. E aí fui avançando até que eu encontrei, tem um momento que eu encontro aqui a capa do livro, ó. A primeira vez que eu vi foi isso aqui, eu fiquei, ah, é isso e eu nem sabia que era vermelho.
Aí quando eu fui dar um Google, eu falei: "Meu Deus, essa é [música] a capa do livro". E deu certo de ser mesmo a capa. E aí a capa do pássaro, que também é um trabalho da Bujoá, e a capa da Delicada.
Eles já estão bem vividos, né? Os livros que eu levo para trabalhar. Então, as capas já estão bem machucadas.
Essa é a capa da Delicada. Aqui eu comecei a tentar fazer essa organização que o meu amigo que eu vi na estante do meu amigo. Então por exemplo, aqui eu pensei: "Ah, aqui vamos os ingleses".
E aí juntei, mas aí já vem um carve aqui que é norueguês. Então fui puxando aqui Noruega, tem Dinamarca, ou seja, eu não consegui fazer, porque o que que acontece? Essa arrumação que eu fiz já faz um ano e meio e a biblioteca é viva.
Então, eu começo a me perder, começo a descer, subir, enfim. Esse livro eu amo. É um livro Ensaio sobre a Sombra, né, em Louvor da Sombra.
Um livro muito especial, um clássico super fininho, mas tão intrigante. E foi um livro que é um livro que eu reli para poder entender um pouco da atmosfera do meu próximo livro. Então ele ele me deu o frescor dos pátios, a o poder das sombras, do insólito.
É um ensaio que eu recomendo muito, belíssimo. Um outro livro que eu amo demais é esse da Natalia Ginsberg, As Pequenas Virtudes, que são ah textos curtos, fica entre contos e crônicas, assim, ela falando sobre diversas questões, inclusive da própria literatura. Tem um texto lindo aqui que chama Meu ofício, que ela fala sobre a escrita, como a escrita se deu para ela, como as coisas aconteceram desde a infância, uma coisa assim muito bonita, sabe?
O meu ofício, ó, tá marcadinho esse livro também. Outro assombro interessante que acho que talvez dialogue aqui com a Josefina, cantora, são aqueles momentos de linguagem pura, sabe? Eh, a Maria Gabriela Lansol, uma escritora, poeta portuguesa.
E aqui esse livro Amarcão. Eu adoro cachorros, né? E e acho que ela ela traz aqui essa relação entre uma pessoa e um cachorro de uma maneira absoluta.
E aqui, ó, como vocês podem ver, tá bem escrito. E esse aqui é um velhíssimo companheiro. Eu não sei nem se é do ensino médio ou se é de uma outra edição, mas um poeta que foi o meu primeiro amor, né?
Eu eu aprendi a amar Fernando Pessoa logo que eu conheci. Isso dos heterônimos, eu já fazia teatro, eu fiquei muito intrigada como um poeta construiu personagens e sustentou essas personagens publicamente. Eh, e cada personagens com universo tão particular de todos os heterônimos, o Álvaro de Campos é o meu favorito.
Adaptar seu sua própria obra não é muito o meu perfil, porque como eu fico muito tempo [música] ah imersa num trabalho, é é um desejo de se afastar depois para construir outras coisas. No caso do pássaro que foi adaptado pela Elena Cerelo e pelo Nelson Basquerville, eh, adaptação, eu tenho um texto bastante teatral, então ela fez um solo, um monólogo. O que ela mais fez foi corte.
Qual foi sua sensação quando você assistiu? Ah, de encantamento. A Helena é muito boa atriz.
É, é bonito ver o trabalho ganhar corpo na boca de uma atriz que traz as camadas, coisas que eu tinha pensado, ela trouxe, sabe, com com corpo, com movimentação. Pro cinema. Eh, as roteiristas que estão trabalhando nos livros têm total autonomia.
Eh, se precisarem de mim, se quiserem me consultar, claro que eu estarei super disponível, mas fico ansiosa para ver o resultado de um trabalho que nasce do teu livro, mas que se transforma numa outra linguagem, né? Aqui eu tenho alguns dos da famosa fila infinita de livros pra leitura. Tento não olhar muito para eles porque parece que eles ficam me pedindo para ser lidos e a gente tem que ir um de cada vez.
E tem também os livros que eu estou que estão em andamento na leitura, né? Por exemplo, esse da Ágota que chegou há pouquíssimo tempo, o ontem, eu gosto muito do trabalho dela. E tem esse do Cotiz só o primeiro parágrafo, tô tô louca para mergulhar.
E em andamento também tá esse livro do sobre o expressionismo também é um livro que vai demorar um pouco à leitura, né? E aí tem o Thomas Man, que é um um escritor que eu comecei a estudar e no ano passado e tô com dois duas obras primas dele aqui para começar muito em breve. que é o Dr Fausto.
Ã, belíssimo. E, claro, a montanha mágica, né? Vamos terminar isso para começar logo a ler.
O apanhador no campo de senteio que tá para ser relido, que é um livro também que acho que vai me ajudar no meu próximo. As meninas também pra releitura e a Legião estrangeira também pra releitura. Eu costumo ir até o fim.
O que acontece às vezes quando é uma releitura, eu chego no ponto que eu preciso e guardo assim, se é uma releitura. Agora, se é uma leitura, eu vou até o fim, costumir até o fim. O que acontece é que às vezes o livro e eu não estamos no nosso melhor momento, então eu deixo para um outro ah eh uma outra época da minha vida, né?
Mas se tá em andamento é porque a minha perspectiva é de terminar. E temos também, já que estamos aqui, né, no meu atelier, vou mostrar para vocês uma caixa de palavras que eu costumo usar eh quando eu dou oficinas. Essa caixa de palavras são palavras órfãs, ela tem um guardião que vocês podem ver aí.
E ela tá até um pouco vazia, porque como eu acabei minha oficina na semana passada, muitas palavras aqui foram requisitadas e levadas pelos escritores, mas a brincadeira é que depois que essa palavra é adotada, ela não pode mais sair do seu campo de interesse de escrita. Então a gente vai deixar lá livre o acesso, mas a responsabilidade também de acolher cada uma delas. Vamos lá, vamos sortear uma enclausuramento.
Tem a ver aqui com a nossa vivência, porque é pequenininho o meu espaço, sabe? Estamos aqui tentando caber nesse lugar. Eu gosto muito de escrever no vidro aqui, né?
Eu sempre usei postite como uma forma de expressão nesse vidro. Agora lidando com esse material do vidro, o batom ele vem ao meu socorro assim para escrever algumas coisas que que eu quero que estejam no meu olhar, que não é uma coisa que eu quero que adormeça no caderno ou que vá eh pro texto no computador. Então, teve um momento que eu tava estudando sobre escrita e aí eu me veio isso que a escrita é escrever para proteger um lugar que ainda não existe.
Ah, talvez por isso que também eu seja tão protetora com esse espaço de nascimento de um romance. Eh, porque esse lugar ele ele vai nascer, né? Ele ele está nascendo.
Você é a testemunha desse nascimento, mas ninguém sabe. Isso é tão sutil que pode não nascer. Eh, a força do não nascimento é enorme, mas a força da presença, do desejo também é.
Então, há essa tensão entre o que não existe e o que é o vira a ser. E esse o relógio no Pulso do morto ainda bate foi de uma leitura do Cormec, [música] eh, que tava descrevendo um homem morto e os ponteiros do do relógio ainda girando, né? E eu achei essa frase bastante luminosa e aí eu trouxe ela para cá.
Aqui é o Manuel de Barros que estamos eu e ele num momento de muita proximidade, né? Estou com todos os livros dele aqui. E aí eu peguei essa esse sorriso lindo dele e deixei aqui para me iluminar.
Eu vou variando. Eu tenho muitas coisas na gaveta que eu não vou mostrar para vocês, que eu vou pondo, eh, vou fazendo, eh, uma composição que tem muito a ver com o estado de espírito do momento. Bom, aqui eu tenho ã alguns livros de literatura brasileira comemorânia.
É, tem muita coisa que eu amo por aqui. O Glar é um dos meus poetas favoritos. Esse livro é uma antologia, né, toda a poesia dele.
É um livro, uma edição muito bonita. Eh, adoro voltar aos poemas do Gular. Ele teve uma fase mais concreta também que inspira muito o meu trabalho.
Enfim, eu gosto de edições de cebo, né? Esse foi um amigo que me deu um livro lindo. Tem poemas sobre o flamenco que eu adoro.
Tem a Carol Rodrigues que eu adoro. Esse livro sem vista pro mar que ganhou o jabuti. Tá autografado, né, gente?
O bom da literatura contemporânea é que a gente vê os escritores e pede o autógrafo. Então isso é [música] é bem bonito. Esse livro aqui maravilhoso, um dos meus romances favoritos.
adora esse romance. Marcelino faz parte da minha trajetória. Escrevi pássaro na oficina dele.
O Jefferson também eu amo o trabalho dele. Estela sem Deus que é um dos meus favoritos. Eu não sei se tá aut está autografida.
Lavour arcaica, que é um dos meus livros favoritos. Olha, eu acho que o Raduan ele tem um tipo de linguagem que ele constrói mesmo uma atmosfera, um ritmo muito particular. E eu acho que esse tipo de livro, quando você tá escrevendo, quando você é escritor, ele é como um shot lírico.
Então você abre uma página, você lê um pouco, é como se você entrasse na literatura, sabe? E e entendesse como. E e aí eu me sinto muito concentrada e começo a escrever.
Esse livro é muito impressionante também, as horas que virou um filme, né? Mas o livro, uau, super livro, belíssimo. Tem a Lúcia Burlin, que é uma, nossa, uma escritora assim de mão cheia.
Esse livro é maravilhoso, maravilhoso. São contos, são vários dos contos dela aqui. Aqui a gente também tem um pouco de literatura latino-americana, Camila Souza Vilada, que é uma das minhas escritoras favoritas e eu tive a honra de encontrá-la no ano passado.
A gente fez uma conversa juntas. Tem esse da Suzan Sontag que eu adoro, que a entrevista que ela deu pra Rolling Stone, tudo marcadinho, né? falando é tão boa quanto escrevendo.
Ela disse que não. Ela disse que ela é muito boa escrevendo, mas falando é diferente. Mas eu acho ela uma excelente comunicadora também, né, da das visões que ela tem.
Enfim, maravilhoso. A rosa do povo. Esse livro aqui também é um maravilhoso.
Rosa na roda, rosa na máquina, apenas rosa. Selarei venda murcha, meu comércio incompreendido, pois jamais virão pedir-me e eu sei o que de melhor se compôs na noite. E não há oito contos.
Já não vejo amadores de rosa. Ao fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece. Aproveitem [música] a última rosa desfolha-se.