Olá, boa noite, grande Padre José Eduardo! E aí, meu caro, tudo bom? Padre, como está? Tudo bem, graças a Deus. Dando boa noite também a todos que estão entrando. Temos muitos sacerdotes e também muitos leigos que vão participar com a gente desse nosso bate-papo. Que legal, que legal! Muito bom te ver. Pois é, quanto tempo! Vi você pessoalmente desde janeiro, né? Vamos já aproveitar e fazer uma oração. A gente começa invocando o Espírito Santo. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e
acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra. Oremos: Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da sua Consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém. Sede da sabedoria, rogai por nós. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Então, vou parar só para formalizar aqui a nossa apresentação, embora você dispense apresentações. Imagina, ninguém dispensa apresentações. O Padre José Eduardo, como vocês sabem,
é sacerdote da Diocese de Osasco, em São Paulo, licenciado em Filosofia e também Doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. E já faz alguns anos que ele é pároco da Igreja de São Domingos, em Osasco. Também, quantos anos de pároco? 12 anos ou 13? Não sei... 12? 12 anos. O Padre Eduardo é um amigo de longa data, há pelo menos 20 anos, né? Mais do que isso, eu acho. Mais de 20 anos, né? Éramos seminaristas ainda quando a gente se conheceu, e de lá para cá temos uma bonita história de
amizade sacerdotal, é verdade. Nos conhecemos ainda, eu acho que você estava na filosofia. Possivelmente. Imagina, eu tenho 18 anos de padre, 17, 20, 25 anos... Facinho... Exatamente, por aí. E você tinha cabelo na época ainda, né? Sim. Então, faz muito tempo mesmo. Com certeza, mais de 20 anos. Bom, Padre Eduardo, sem muitas delongas, para a gente não cansar o povo, a ideia, como vocês sabem, é fazer um bate-papo entre dois sacerdotes que amamos a Igreja, sobre o tema da direção espiritual. A importância da direção espiritual é o tema amplo desse nosso bate-papo, e a ideia,
como o próprio nome sugere, é que seja uma conversa leve e que, no entanto, possa trazer alguns elementos tanto doutrinais quanto, sobretudo, elementos práticos da nossa vida pastoral, da nossa experiência como sacerdotes, no que diz respeito ao tema da direção espiritual. Então, a gente não tem nenhum roteiro amarrado, mas temos mais ou menos umas linhas que gostaríamos de traçar aqui para abordar esses temas que nos parecem importantes. Quando a gente toca esse assunto, a gente vai deixar espaço aqui também, se alguém eventualmente quiser fazer alguma pergunta ou algum comentário, a gente vai anotando e, no
momento oportuno, podemos tentar responder também essas questões. Para iniciar, assim, Padre Eduardo, como ponto de partida, talvez a gente pudesse falar sobre a própria expressão "direção espiritual", né? É uma palavra que não tem um único significado. Tem um sentido, digamos assim, mais amplo e um sentido mais estrito quando falamos de direção espiritual. O que poderíamos definir como essa expressão "direção espiritual"? É um meio de formação, em sentido abrangente, né? Acho que é bom começar por aí. É um meio de formação em que nós formamos espiritualmente a pessoa. Então, nesse sentido, existe, por exemplo, uma direção
espiritual coletiva que vem do Papa até nós, sacerdotes. Essa direção espiritual nós damos na homilia, nós damos também no aconselhamento de confissão, nós damos informações em palestras, etc. A direção espiritual, em sentido amplo, também existe. Nós podemos falar de diversos outros métodos ou modos de direção espiritual. Por exemplo, quando a gente bate um papo entre padres, um irmão ajudando o outro, não necessariamente existe a direção espiritual propriamente dita, mas nós estamos ali nos aconselhando, etc. Então, em sentido amplo, isso também pode ser uma direção espiritual. Cortando agora, as pessoas não se dão conta de que
os fiéis são constantemente dirigidos, nesse sentido amplo, pelos pastores da Igreja: a homilia do Papa, a homilia do pároco na paróquia, uma pregação, uma catequese, em sentido amplo, é uma direção espiritual. Também estão perdidos. Orientados, ex... Eu acho que isso faz com que a gente precise de direção espiritual, que é necessária. Direção espiritual, bom, nesse sentido, sim. Mas, digamos, todos recebem certa direção espiritual que vem através dos meios ordinários de santificação que a Igreja nos oferece. Então, em sentido amplo, podemos dizer que estamos sendo direcionados espiritualmente, dirigidos espiritualmente a todo momento na Igreja, né? Em
sentido mais estrito, como poderíamos definir a direção espiritual? O que é a direção espiritual estrito? A direção espiritual é um meio de formação que é destinado a ajudar o homem na vida de oração, a que ele progrida na vida de oração. E como a oração não é uma espécie de compartimento estanque, pois ela tem a ver com todos os aspectos da nossa vida, porque, na perspectiva cristã, o crescimento na oração demanda necessariamente o crescimento na virtude. Então, tudo que diz respeito à nossa vida sob o aspecto da oração é o tema da direção espiritual. Então,
oração, mortificação, exame de consciência, os nossos exames, a nossa luta ascética, né? O exame particular, as leituras que faço, também os aspectos da minha vocação, os aspectos da vida sobrenatural... Aqueles... que dizem respeito também a, digamos, a virtude propriamente dita, as virtudes teologais, as virtudes cardeais, a castidade, etc. Tudo isso entra no âmbito da direção espiritual. Mas a finalidade é conduzir o homem para a oração. Por que é preciso dizer isso? Porque, por exemplo, uma pessoa que vem à direção espiritual simplesmente para bater um papo com o padre, está apenas tomando o tempo do padre.
Então, direção espiritual de verdade é para quem quer crescer na oração, mas não só quer; quer e pôs os meios. Senão, é uma perda de tempo para ambos os lados. Veja que interessante: você tocou num tema aí que talvez algumas pessoas, pelo menos isso na gente toca na vida paroquial, procuram um sacerdote para uma conversa que não propriamente é uma direção espiritual. A gente poderia dizer que ali se trata de um pedido de aconselhamento pastoral concreto, enfim, mas não propriamente direção espiritual. Inclusive, muitas pessoas, e eu creio que já é uma avaliação pessoal, desperdiçam essa
graça de poderem ter uma boa direção espiritual como um caminho de santificação e ficam em questões muito periféricas de resolução de problemas pontuais da vida. Quantas vezes nós, como sacerdotes, somos procurados, não sei, como conselheiros amorosos na vida de um casal ou para resolver problemas econômicos, enfim? Que fazem parte também da nossa vida aqui na Terra e, portanto, dizem respeito à santidade. Mas muitas pessoas querem solucionar esses problemas pontuais e não estão interessadas na santificação de sua alma. Você percebe também nos atendimentos em geral? Percebo, não, e isso tem que ficar muito claro de princípio,
né? Como o termo direção espiritual é um termo ambíguo, porque ele pode significar muitas coisas, como já dizíamos no começo. Então, a maior parte das pessoas que pedem direção espiritual, o que elas estão precisando é só de um aconselhamento e de algumas orientações, etc. Mas elas não suportariam uma direção espiritual em sentido estrito, ou seja, vamos falar da oração. Como é que você reza? Quais são as dificuldades que você encontra para rezar? E aí, periodicamente trazer o assunto: como é que eu rezei nesses dias? O que está travando? O que está acontecendo aqui? Aí o
diretor espiritual vai lá enxergar, digamos assim, qual é o que está enguiçado naquela pessoa, e se é de ordem sobrenatural ou de ordem natural. E é uma coisa prática; a direção espiritual não é, digamos assim, um sarau de poesias, né? Que eu vou falar: "Ó São João da Cruz, ó Santa Teresa, ó Santa Dinna, Santo del Garda, não sei quem". É uma coisa prática. Portanto, quer dizer, isso demanda experiência de oração por parte do diretor; senão, ele não vai conseguir dirigir. Quer dizer, se é alguém que não sabe rezar, então direção espiritual ele não vai
dar. O que ele vai dar é um aconselhamento, muitas vezes apenas com base no bom senso. Bom, então, é importante. Você tocou agora, já está abrindo uma janela interessante. Em primeiro lugar, a direção espiritual não se trata de aconselhamentos para resolução de problemas específicos e pontuais que permeiam a nossa vida. Ela tem uma finalidade muito superior como um meio de santificação daquela alma, né? Ela pode chegar até nós para resolver algo pontual, mas ela tem que entender que o que o sacerdote tem a oferecer para ela é muito mais do que a resolução de um
simples problema. Muitas pessoas ficam afastadas da igreja durante, bom, tempo: uma vida pouco sobrenatural, enfim, e por conta de uma situação específica, de um problema grave pelo qual ela está passando, ela se aproxima da igreja. Mas muitas vezes, o que a gente percebe ali é que ela não quer realmente se converter, não quer mudar de vida; ela quer solucionar a questão dela. Então, se a pessoa não tem a consciência de que o que nós temos a ofertar a ela, o que a igreja tem a ofertar a essa alma, é sobretudo de ordem sobrenatural, ela vai
acabar se frustrando. Mas isso não deixa de ser também, de alguma forma, o que aconteceu com o Senhor, né? Quando as pessoas procuravam por causa da fome, na multiplicação dos pães e dos peixes. Isso é muito patente, né? As pessoas querem saciar suas necessidades temporais e a direção espiritual é, sobretudo, para ajudar a alma a alcançar o céu. E aí você toca num tema interessante: quem pode ofertar essa ajuda na igreja? E você falava do diretor espiritual. Quem pode ser diretor espiritual? A gente vai falar sobre isso, mas principalmente agora, quando você toca no fato
de que o diretor espiritual precisa, ele mesmo, ter uma vida sobrenatural, uma vida de oração, já que ninguém dá o que não tem. A gente poderia abordar agora esse tema um pouquinho, até porque tem muitos sacerdotes que estão nos ouvindo, né? Quais seriam as qualidades requeridas para que alguém se tornasse um bom diretor espiritual? Ah, ele precisa ser um mestre da oração. Ou seja, é alguém que efetivamente sabe rezar. A primeira coisa, como é que funcionaria isso, digamos assim, em termos normais, desde a perspectiva do que é a direção espiritual em sentido estrito, ou seja,
em sentido estrito, né? A coisa iria mais ou menos assim: o dirigido começou a rezar meio que porque assim, as coisas sobrenaturais não são controladas pelo homem; então, digamos, aquela pessoa foi rezando o terço, ela começou a ler a vida de um santo. Deus vai atraindo aquela pessoa, né? De alguma maneira, e de repente ela começa a receber consolações ou... Ela começa a receber iluminações ou ela começa a receber algum tipo de arrependimento muito grande, alguma coisa assim, de tal modo que ela não consegue administrar aquela situação. Então, ela vai procurar quem? Um mestre espiritual.
Ou seja, a partir daí, a pessoa tem matéria para uma verdadeira direção espiritual. Porque Deus está pedindo mais daquela pessoa e, possivelmente, a primeira coisa que o diretor vai fazer é ensiná-la a orar, quer dizer, a fazer-la, digamos, percorrer os graus de oração, ensinando a meditar, ensinando a amar Deus no fundo da oração, que esse é o objeto da oração: amar Deus, né? A comungar bem, etc. Porque o fervor vai aumentando na medida em que o fervor vai crescendo, vai se simplificando. Então, as graças e o diretor espiritual vão acompanhando o ritmo das graças e
vendo para onde Deus está soprando, ou seja, para onde Ele está levando aquela alma. E, na medida em que Deus já vai conduzindo, o diretor vai ajudando, especialmente porque, quando a vida de oração começa de verdade, o conhecimento sobrenatural de Deus é acompanhado pelo conhecimento sobrenatural de nós mesmos. Ou seja, nós vamos enxergando os nossos defeitos, as nossas misérias, o nosso nada, o quanto nós somos abjetos, o quanto nós somos nojentos, o quanto nós somos asquerosos. E isso vai levando a alma a uma verdadeira humildade, mas que, de certo modo, a deprime. Então, o diretor
espiritual vai, ele vai precisar, a alma vai precisar muito do diretor espiritual, porque ele vai ser aquele pai que vai aconselhá-la, que vai entendê-la, que vai rezar por ela, que vai acompanhá-la, etc., etc., né? E assim por diante. Em termos normais, seria isso. Quer dizer, o diretor espiritual é um mestre na oração, porque ele mesmo está percorrendo esse caminho, ele mesmo é um homem de oração. Então, ele para para rezar. Ele não conhece… que é um dos problemas que nós temos hoje, padre Demétrio: as pessoas acham que ler livro de espiritualidade é a mesma coisa
que ser espiritual. Não é assim. A vida espiritual não é como uma espécie de manual de engenharia, o manual de mecânica em que eu estudo e se a pessoa for fazendo alguma coisa assim como eu estou dizendo, ela vai chegar. Não é isso. A vida espiritual é viva, Deus que conduz. Então, é Ele que conduz cada alma no ritmo em que Ele quer. E a alma pode se atrever a ir além daquilo que Deus L está assinalando. Dou um exemplo, um exemplo e um princípio: o exemplo de São Francisco de Assis. Ele foi da primeira
para a oração em um dia só, que foi o dia que ele se converteu. A graça tomou o coração dele e ele simplesmente entrou na oração de simplicidade, ficou tomado de amor, de fervor, etc. Mas por quê? O chamado sobrenatural que Deus tinha para a vida de São Francisco era aquele. Uhum... Outros santos tiveram caminhos diferentes. Agora, qual é o princípio? É o seguinte: aquilo que nos leva da fé para a caridade é a esperança, e a esperança é uma virtude que Deus vai, digamos, aumentando na alma. Ele vai acelerando na alma na medida em
que a alma se desapega das coisas terrenas e começa, digamos, a se fixar naquelas que são sobrenaturais, naquelas que são eternas. E, digamos, ela vai se unindo mais, mais e mais, a Deus. Ou melhor dizendo, Deus vai unindo mais e mais a alma, levando-a da fé para a caridade. Ela vai chegar ao dom da sabedoria, vai chegar a ser tomada totalmente por Deus, só que é um processo. E é um processo que, de um lado, é de gradual esvaziamento daquilo que é terreno e, de outro lado, é de gradual preenchimento daquilo que é eterno. Nós
não temos controle nenhum sobre isso; é Deus que o realiza em nós. Então, nesse sentido, a direção espiritual entra como um meio, um facilitador, para que a pessoa seja orientada nesses sinais na vida dela, né? E conduzi-la no caminho da graça, na vida sobrenatural, na vida interior. Importante destacar também que o diretor espiritual não está aqui para substituir a consciência da pessoa. O grande protagonista, digamos assim, da direção espiritual é o Espírito Santo de Deus. O padre é um meio, né? Ele está ali para tentar colaborar, ao menos não atrapalhar, o papel do Espírito Santo
naquela alma. E isso não substitui o empenho da pessoa para alcançar a santidade, tendo sempre a consciência de que ela não vai alcançar o céu com base nos seus próprios esforços, né? Essa coisa da pessoa querer viver uma vida espiritual quase que de forma autônoma, né? Pelagiana, pelagiana, né? E, muitas vezes, gnóstica também, né? Acha que, pelo conhecimento, ela vai alcançar as altas moradas da vida espiritual, da vida interior. Enfim, isso eu penso que é um fenômeno que tem muito a ver com esse nosso mundo de hoje, né? Que as pessoas se formam isoladamente, né?
Eu faço um curso na internet, eu leio livros. Enfim, a Igreja é uma comunidade, né? Deus quis, de algum modo, que nós dependêssemos uns dos outros, né? E a direção espiritual mostra isso também: a dependência que nós temos de alguém que nos oriente, de alguém que nos conduza. E você falava da vida de oração do sacerdote, né? Do diretor espiritual como um todo. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Se você não tem vida interior, como é que você vai educar alguém, ajudar alguém, orientar na vida da graça? Eu penso também... Que, além da vida
de oração e de outras virtudes que a gente pode tratar aqui, que são requeridas para que alguém seja um bom diretor espiritual, é necessário que um bom diretor espiritual seja também um dirigido espiritualmente. E aqui, falando um pouquinho da nossa classe sacerdotal, o que eu percebo muitas vezes é que o seminarista, em geral, nossos seminários, têm uma direção espiritual obrigatória individual para cada formando, né? O que se vê muitas vezes é que a pessoa se ordena e abandona a direção espiritual. Parece que ela se torna autossuficiente e, talvez por isso, muitos sacerdotes não dediquem tempo
à arte, à tarefa, ao ministério da direção espiritual, justamente porque não percebem como aquilo é importante, já que eles mesmos não fazem isso, né? O que você poderia dizer a respeito? Eu quero dizer assim: se nós olharmos para a vida dos Santos, um santo conhece o outro; ninguém se santifica assim, sozinho, do nada, né? Então, São Paulo teve que conhecer lá o Ananias; nosso Senhor mandou ele para Ananias. Quem que é o Ananias na fila do pão? Ninguém sabe direito. Mas foi ele que teve que instruir São Paulo naquele começo da vida espiritual. O São
João Maria tinha um padre Belley, que era o sacerdote, o seu pároco de infância, né? E São João Bosco tinha São José Cafasso e Santa Teresa tinha São Pedro de Alcântara. São João da Cruz teve Santa Teresa e assim por diante, né? Os santos, eles... por trás de um santo você sempre tem outro. Agora, imagine os pecadores. Engraçado que, se eu pretendo crescer na vida espiritual por mim mesmo, pelas minhas próprias forças, eu estou enganado, né? Eu não posso fazer isso. Agora, eu entendo, veja bem, que nem todo mundo ainda, digamos assim, despertou para a
necessidade da vida espiritual. Para um sacerdote, inadmissível; mas para um leigo, sim. Quer dizer, não é todo leigo que precisa de um diretor espiritual nesses termos que estou falando, né? É mais ou menos o seguinte: você pega uma pessoa não alfabetizada e coloca para fazer um doutorado em filosofia? Não, né? Então, também você não precisa pegar um doutor em filosofia para ensinar a alfabetizar pessoas. Você tem um desnível. Então, algumas pessoas, o que elas precisam mesmo é da coisa mais normal: "Meu filho, para de pecar. Para de viver essa coisa indecente. Para de fazer isso
daí." Ou: "Calma, vamos lá, né? Tenta não comer a padaria inteira." Quer dizer, você precisa corrigir pecados mais grosseiros e fazer a pessoa, pelo menos, assim, vai à missa aos domingos, tenta rezar todo dia, etc. Na medida em que a pessoa vai crescendo espiritualmente, a necessidade da direção espiritual vai se mostrando, vai se demonstrando de maneira gradativa. E, nesse ponto, nós, padres, deveríamos ser mais exigentes conosco próprios, ou seja, não apenas ler livros sobre espiritualidade, mas livros de espiritualidade. E há uma grande diferença entre essas duas categorias de livros, né? Então, por exemplo, se você
lê o Rougier, o Garg, o Tan ou, senão, o Padre Eugênio Maria, você está lendo livros sobre espiritualidade. Se você ler "A prática do Amor a Jesus Cristo", se você ler "As máximas eternas", se você ler "Imitação de Cristo", "A Nuvem do Não Saber", "O Peregrino Russo", você está lendo livros de espiritualidade. Eles estão te ensinando a rezar, né? E, por exemplo, um livro que eu gosto muito, "A Tempo para Deus", do Jacques Philippe, ou, por exemplo, "Amizade com Cristo", do Benção, que é um livro muito bom também, ou, por exemplo, "A Subida do Monte
Carmelo", de São João da Cruz. Esses livros são livros de espiritualidade, eles estão ensinando a prática da oração. Só que, é claro, se você não tem uma pessoa que já passou por essas armadilhas da vida espiritual, ela já sabe lidar com as dificuldades que a vida espiritual tem em si mesmo. Você vai ler aquilo e não vai entender. E aí, muita gente se engana com certo lirismo, né? Então, a pessoa começa a falar ah da Sé Moras e não sei o quê e tem uma linguagem adocicada e não sei o que lá, meio pietista, sei
lá o quê, mas no fundo, no fundo, no fundo, não tem mais nada; é só aquilo mesmo. É a fumaça sem fogo, né? Então, hoje há muito disso em circulação e nós, padres, precisamos, no fundo, aprender a rezar, e por isso precisamos procurar mestres espirituais. O padre tem que ter a consciência de que ele tem uma alma a ser cuidada. Daí a necessidade de ter um diretor espiritual também. Eu creio que muitos sacerdotes já não fazem mais direção espiritual, infelizmente, é uma realidade, por conta disso, não dedicam tempo para atender as direções espirituais. E comentava
alguém agora aqui na live que mal consegue um confessor, quanto mais um diretor espiritual. Entrando aqui já num problema prático, eu penso que temos dois problemas: um, talvez, realmente uma negligência por parte de nós, sacerdotes, de dedicar tempo para o confessionário e para a direção de almas. Entender o padre que entre as tarefas que ele tem em mãos, que não são poucas, e aqui envolvemos coisas de administração de paróquia, obras, assistencialismo social, que também faz parte, enfim, todas as questões que envolvem a vida da igreja como um todo, nós temos que entender. Que nós não
fomos ordenados para ser engenheiros, arquitetos ou qualquer coisa do tipo. O principal que nós temos a oferecer às almas é Deus, e Deus principalmente com tempo dedicado aos sacramentos, à pregação, à direção espiritual de forma ampla e de forma específica também. Tempo de confessionário tem que ter; o padre tem que ter tempo para atender as almas. Então, um problema aqui é de fato a nossa negligência. Porém, por outro lado, há um problema prático aqui que a gente não dá conta de todo mundo. Você tem uma paróquia, eu tenho uma aqui, e nossa paróquia tem milhares
de fiéis. Se todo mundo resolvesse fazer uma direção espiritual individual, a gente atenderia uma pessoa a cada, não sei quantos anos, né? Então vamos aqui, não sei se já pensou sobre isso, né? Será que a gente teria alguma alternativa para ofertar, além de pedir para os padres dedicarem mais tempo a essa tarefa? Como a gente poderia encontrar soluções, alternativas para ajudar as pessoas a que não percam, né? Essa direção, essa orientação, digamos assim, mais personalizada, não só de forma ampla. Na igreja sempre houve pessoas espirituais, né? Pessoas que têm uma vida de oração profunda. Por
exemplo, monges e monjas deveriam ser pessoas com a vida espiritual mais profunda. E há pessoas assim, mesmo pessoas leigas, mas que têm uma vida de oração profunda. Por exemplo, eu me lembro quando eu era criança, conheci pelo menos na minha comunidade de origem três pessoas que tinham uma vida de oração mais profunda. E o que eu fiz? Me aproximei delas, aprendi a rezar um pouco com elas. Santos, por exemplo, Santa Catarina de Sena era leiga, terciária dominicana. Ela era diretora espiritual; não tem esse nome, né? Ela dirigia espiritualmente, por exemplo, o confessor dela. O confessor
dela era um dirigido dela; ela tinha vários filhos espirituais e atendia várias pessoas. Santa Joana d'Arc, embora ela estivesse capitaneando o exército da França, atendia os soldados. Eles abriam a alma com ela; era uma leiga. A mesma coisa São Nicolau de Flue, que também era um leigo, mas um homem que atendia, que dava conselhos espirituais, etc. Ou seja, toda a alma que está realmente no caminho da santidade e que está realmente na vida de oração consegue ensinar, pelo menos do jeito que ela reza. Então, isso também é direção espiritual, embora não tenha esse nome. Porque,
às vezes, as pessoas chegam pra gente e falam assim: "O senhor pode ser o meu diretor espiritual?" Coisa quase de glamour, né? "Padre Fulano é o meu diretor." É uma coisa meio boba porque não tem oficialidade nenhuma nisso, né? Eu sou diretor espiritual no ato de dar a direção espiritual; terminou a direção espiritual, eu não sou seu diretor, não vou te teleguiar. E esse tipo de dependência espiritual, psicológica, faz mal para as pessoas. Por exemplo, a gente viu em tempos complicados, né? Às vezes, o padre novinho, padre novo, é meio surtadinho, né? Porque acha que
tem a tendência de se achar o salvador do mundo. Quando a gente é padre jovem, a gente é muito orgulhoso e aí começa a juntar os seus filhinhos espirituais que são teleguiados ali pelo padrezinho. E se ele tiver ainda uma certa dificuldade psicológica, for um pouquinho lunático, por exemplo, aí junta aquele pequeno grupo de teleguiados e fica ali. Isso não é direção espiritual, né? Tem nada a ver com direção espiritual, muito menos com ser filho espiritual. Filho espiritual não é ficar na dependência; a Igreja não é creche. Nosso Senhor diz lá em São Paulo, em
Efésios 4, 11-12, que Deus instituiu apóstolos, profetas, evangelistas, etc., para o aperfeiçoamento dos santos, para que eles cresçam e alcancem a maturidade de Cristo e a sua plenitude, e não sejam como crianças levadas ao sabor das ondas, etc. Então, esse tipo de dependência que às vezes as pessoas querem ter em relação a nós, nós precisamos aprender a cortar. Peraí, não! Direção espiritual não é isso. Eu te dou uma direção, eu te dou um parâmetro, te ensino algo; eu estou te ajudando você a crescer na vida de oração. Mas começou com aquela coisa melosa, aquela dependência,
aquela veneração, cai fora, porque nós não somos seres. E hoje em dia, vivemos num tempo de muita aparência. Então, tem para todo lado. Tem aí o Henri Cristo, o Cristo do São Francisco, o Cristo do Padre Pio, o Henri Cristo do cardeal, sei lá de quem, e que é tudo bobagem. Porque, na verdade, a santidade é uma coisa interior. E você tocou num ponto interessante ao falar que pode haver direção espiritual, não necessariamente com esse nome, mas efetiva, entre os leigos. Um bom amigo nosso, que tem uma boa formação doutrinal, que se empenha em viver
uma vida reta, uma vida de santidade, de alguma forma, ainda que seja uma forma ampla, não deixa de ser um diretor de almas também, porque ele acaba, de alguma forma, contribuindo para lapidar as almas que convivem com ele. Pense quando Nosso Senhor subiu ao céu; os Atos dos Apóstolos dizem, tá lá em Atos 1:14, que eles perseveravam unanimemente em oração com Maria, mãe de Jesus, os discípulos dele, os irmãos dele, etc. Ou seja, o que Nossa Senhora ficou fazendo ali dez dias com os apóstolos no Cenáculo? Porque a palavra ali "eles perseveravam" é uma palavra
muito interessante. É uma palavra que fala de insistência, de bater na porta. Ela estava ensinando aqueles apóstolos a rezar. Não, Senhora! Era o quê? Era Padre! Não, Nossa Senhora era, era a leiga, é a Mãe de Deus. Então veja, eu acho que não deve existir diretora melhor do que Nossa Senhora. É o Nosso Senhor Jesus Cristo, São José, depois, que é leigo também, e, digamos, são os modelos da santidade, né, abaixo de Cristo. Então, se existe uma pessoa, uma pessoa que tem a virtude de ser Santa, você vê isso nas virtudes heroicas. Como é que
você vê que uma pessoa tem vida de oração? Não é tanto na questão exterior, sabe? A gente esbarra em Santos e não vê. Você vê que aquela pessoa tem virtude, que ela ultrapassa o que é humano: na paciência, na capacidade de perdoar, no amor generoso, no autoesquecimento. Você nota virtudes reais, não virtudes retóricas. Falar de virtude é fácil; difícil é ter virtude, né? Que é o outro problema de hoje em dia. Todo mundo tem aquelas virtudes aburguesadas. Fulano reza, se tranca dentro de casa, não faz nada por ninguém e acha que tá tudo bem, né?
Quer dizer, ele não suja as mãos, ele não vai em direção às pessoas. Não tem, digamos assim, um ímpeto apostólico arrebatador. Ele tem egoísmo disfarçado, espiritualidade, narcisismo espiritual. Então, o que acontece? Eu vejo pessoas que têm virtudes heroicas e eu vou me aproximar delas porque elas têm santidade real. E aquilo é o quê? É o fruto de uma oração que acontece intimamente. Quando Santa Teresinha morreu, a Madre disse: "O que se poderá dizer dessa pobre freira que morreu aos 24 anos? Ficou sempre ali no Carmelo." As irmãs perceberam a santidade de Santa Teresinha lendo os
escritos dela e depois, uma enxurrada de milagres foi acontecendo após sua morte. Então, quando é que nós vemos verdadeira santidade, que é o fruto da oração? É quando nós vemos virtudes reais. E eu sempre digo que existem duas virtudes que são mata-burro, ou seja, não têm "mas": a virtude da humildade e a virtude da obediência. A humildade, quer dizer, se o fulano se acha, se você vai corrigi-lo e ele se encrespa, "Ah, não, não, você não entendeu!", ele se defende. Ele tá o tempo todo ali, não tem humildade. E obediência, porque Santa Faustina dizia, né,
que o diabo pode fingir a humildade, mas ele não pode fingir, ele não consegue fingir a obediência. Se eu chego no fulano e falo: "Quem manda em você?" "Ah, ninguém! Eu sou autônomo, sou livre, faço o que eu quero!" Quer dizer, quem manda em mim é Deus, eu sigo a inspiração. Vá se lascar! Não tem nenhum. Porque a primeira coisa que uma alma verdadeiramente humilde pede é alguém para mandar nela. Ela precisa que lhe dê uma ordem, ela quer obedecer. Então, uma caridade ardente é uma terceira virtude, uma caridade verdadeira, que a pessoa ama mesmo.
Então, ela vai lá, ela vai na sujeira, naquela pessoa que precisa; ela trata um indigente com amor. Essa caridade, né, que acompanha, que ajuda o outro, que é generoso, essa caridade verdadeira é fruto de santidade e das demais virtudes que acompanham isso tudo. Então, veja, às vezes a gente confunde gente lesada com gente santa e não tem nada a ver, porque um estoico consegue ter autocontrole, ser aquela pessoa zen. Não tem nada a ver com santidade. Isso, a paciência cristã é algo que transcende tudo isso, não é a ataraxia estoica; ela é fervente no amor.
Então, nós precisamos de santidade verdadeira. E, às vezes, a santidade verdadeira está naquela dona da igreja, aquela fulaninha que ninguém dá muita importância para ela, mas ela aguenta aquela situação, aquela família, vai levando, ela tá doentinha, lá sempre alegre, agradando a Deus. Poxa vida! O que será que ela tem, né? Você vai entrando, você junto fica ali do ladinho dela, vai ver como ela reza, o fervor, vai rezar o terço, vai mergulhando nos mistérios, amando Cristo, etc. Aí vai na frente de um crucifixo e ali tá, né? Amando Cristo, um amor tão puro, tão verdadeiro.
Tal e aquilo se manifesta em virtudes. Veja que interessante! Você fala de virtudes reais, né? A verdadeira santidade se manifesta por meio de virtudes reais e não de virtudes aparentes, porque a gente vive em um universo de aparência. E as pessoas têm necessidade de se espelhar em alguém. E nesse mundo da internet, tantas vezes de faz de conta, às vezes a gente se frustra porque vê personagens que não são reais, um cristianismo que não é real. E a gente tá cheio de gente ao nosso lado, gente santa, gente boa, que pode nos inspirar no nosso
dia a dia, que pode, de alguma forma, nos dirigir, nos apontar o caminho. E são pessoas concretas, né, de carne e osso, não são perfis de internet, né? O que eu quero dizer é que, muitas vezes, a gente, até com boa intenção, mostrando só as nossas qualidades, enfim, acaba apresentando um cristianismo falso que não contempla também as nossas misérias, as nossas limitações, né? E, claro, a pessoa esquece que a santidade passa por isso também. Inclusive puxando para o tema da direção espiritual. Direção espiritual, a gente não vai fazer ali uma entrevista de emprego, né, de
ficar dizendo o que que eu rezo, o que que eu faço, o que, mas ali para mostrar também as minhas misérias, aquilo que eu gostaria que ninguém soubesse, sobretudo, aliás, né? A minha fraqueza, abrir minha alma. Porque uma boa... Direção Espiritual. É aquela em que a gente rasga o coração e mostra nossa miséria, nossa fraqueza. Até porque, se falta essa sinceridade, pouco pode fazer o diretor espiritual e, digamos assim, pouco pode fazer o próprio Espírito Santo de Deus, né? Porque não encontra ali um terreno onde Ele possa exercer o seu âmbito de atuação. Padre Eduardo,
umas pessoas levantaram aqui sobre esse tema também, de quem pode ser o diretor espiritual. Algum sacerdote, irmão nosso, apareceu e escreveu, né? A gente poderia contar mais com religiosos ou com os diáconos. Eu tenho uma opinião, não sei se você vai concordar comigo, mas eu acho que a gente poderia formar na Igreja também. Fala-se tanto de ministérios leigos, enfim, por que não formar com bons cursos de doutrina, eventualmente até uma pitada de psicologia, que não cai mal, de outras ciências humanas também, que possam colaborar, mas principalmente de vida interior, de vida espiritual, né? Acética, mística,
enfim, formar boas pessoas para atuarem como orientadores também nas comunidades, na paróquia, por exemplo. Não poderíamos, por exemplo, numa paróquia, ter casais que tenham vida interior, boa experiência, para orientar outros casais, de alguma forma também auxiliar o ministério sacerdotal? O que você pensa a respeito disso? Olha, eu não sou amante das estruturas, porque eu acho que uma estrutura não consegue fazer nada, né? E, no caso, a direção espiritual precisa nascer justamente de alguém que tem fome de Deus, verdadeira fome de Deus, né? Uma pessoa assim é aquela que vai passando pela vida de oração e
que consegue efetivamente ter aquela penetração psicológica própria da empatia. Ela consegue enxergar as coisas na luz da providência divina, ela tem a sabedoria infusa dada por Deus para poder conduzir aquela alma. Senão, vira apenas um serviço de aconselhamento, que eu acho que hoje em dia é uma coisa até nobre. Então, por exemplo, se nós temos uma pastoral familiar e nessa pastoral familiar nós temos um serviço de aconselhamento, acho ótimo, acho lindo. Se a gente tem serviço de aconselhamento, até dado pelo padre mesmo, por outras pessoas, pelos diáconos, fantástico! Precisa que as pessoas estão muito doidas,
até porque muita gente que procura a gente não está provavelmente buscando uma direção espiritual. Se a gente contasse isso a leigos, isso ajudaria a gente a ter mais tempo para ajudar efetivamente direções espirituais, né? Exatamente. Agora, a direção espiritual mesmo demanda um mestre na oração e demanda alguém que realmente esteja sendo atraído por Deus para uma oração mais real, mais viva, né? Eh, você veja que coisa, né? Por exemplo, eu acho que existem dois pontos, duas fases que são fundamentais na espiritualidade. A primeira é o que vulgarmente se chama de fase ascética, que consiste em
quê? Na prática, consiste em esvaziar a memória do apego e da lembrança do pecado e substituí-la pela lembrança de Cristo. Então, por exemplo, São Paulo da Cruz ele aconselhava muito a rezar os mistérios do Rosário olhando Cristo, para poderem se encher de Cristo, de Jesus mesmo. Por isso que a vida sacramental, a comunhão, a leitura do Evangelho, a leitura espiritual bem direcionada, servem para impregnar a alma de Jesus Cristo. É, digamos assim, depois da conversão, a coisa mais importante. Agora, quando Deus vem e purifica a alma, porque Ele precisa passar um fogo de purificação para
levar a alma para, digamos, a união com Deus na sua simplicidade, aquilo que a gente chama de união divina ou a contemplação da deidade de Deus, então nisso daí é só Deus que pode nos chamar. Eu não posso me atrever a fazer isso, é Ele que me chama, mas Ele me chama mediante uma purificação passiva, em que Ele desfaz a alma. Ele pega a alma e desmancha para ficar só o que é d’Ele. Então, veja, por que estou dizendo isso? Porque talvez um bom caminho, uma boa pista, seja simplesmente ter grupos de meditação que aprendam
a, digamos, o que dizia Santo Afonso, a fazer a prática do amor a Jesus Cristo. Pode ser com qualquer devoção: ao Coração de Jesus, ao crucificado, ao menino Jesus, às Chagas de Jesus, ao sangue de Jesus. Enfim, encher a alma de Cristo pelo caminho que Deus me chamava. E isso não me parece muito complicado no sentido de que conseguimos formar algumas pessoas para uma espiritualidade mais prática. Então, veja, o próprio Rosário é uma escola de espiritualidade, desde que eu aprenda não apenas a rezar, mas eu aprenda a comungar Cristo em pedaços, como dizia o padre
que eu gosto tanto, o dominicano, Euis Eu Voier. É que se saturar de um beber do Cristo. Então, o próprio Rosário é uma escola de espiritualidade. A liturgia das horas é uma escola de espiritualidade, se a pessoa aprende a rezar, deixando a Palavra de Deus entrar no seu coração, e ela vai deixando Cristo, né? E a liturgia das horas atual tem sempre um verso cristológico no título do Salmo, para colocar Cristo no Salmo, para que nós possamos nos encher do Cristo. Uhum. Então, esses meios, esses recursos, todos eles servem para ir, digamos assim, criando esse
ambiente mais sobrenatural à nossa alma. Então, um padre que não tenha uma espiritualidade muito grande, ainda deveria começar por aí, consigo mesmo. Depois, um padre, um leigo, um diretor de grupo de oração, sei lá o quê, né? Depois, a própria devoção eucarística, né? Que Nosso Senhor, presente na Eucaristia, eu me encher de Cristo Eucarístico através da adoração, da comunhão espiritual, etc. A partir do momento em que Jesus Cristo... Está bem sedimentado pela fé na alma. Então, Deus começa a puxar as pessoas para algo mais, mais, mais, mais espiritual, mais místico mesmo. Alguém comentou aqui se
um padre não for um bom diretor espiritual. Eu não sei se a gente poderia dizer isso, né? Que a direção espiritual, diferente dos sacramentos, não acontece ex opere operato, ou seja, independente das qualidades, da santidade do ministro. Mas eu acho que a direção espiritual, sim, tem uma dependência das virtudes da vida interior daquele ministro, embora o Espírito Santo possa atuar por meio de qualquer pessoa. Eu penso que aqui tem um papel muito importante da qualidade de quem dirige, né? Não sei se você está de acordo com isso. Também concordo. O que eu diria para as
pessoas é o seguinte: existe um certo escalonamento, e o que eu quero dizer com isso? Primeiro, para o nível do aconselhamento, a maior parte dos padres que eu conheço, eu diria assim, mais de 90%, são homens muito sensatos. Se você for buscar um padre, ele não vai te levar para o caminho do pecado. É assim, só realmente alguns que são muito doentes, assim que a gente serve. Mas é uma mínima parte. A maior parte dos sacerdotes vai te levar para o caminho da virtude; isso eu tenho absoluto. Eu verifico isso com os meus olhos. Dão
bons conselhos. Não podem não ser conselhos teologicamente muito profundos, mas vão te dar bom conselho. Percebe pela sensatez quando tem um exagero, quando a pessoa está indo para o caminho do escrúpulo. Pode ter uma formação moral um pouco mais relaxada, mas tem aquele bom, aquele certo faro para dizer, por exemplo: muitas pessoas vêm me procurar porque o padre deu um conselho supostamente mais laxo, mais relaxado, e quando eu vou verificar, ele errou no princípio, mas na aplicação ele acertou para aquela pessoa. Ele falou o que tinha que falar. Então, a gente precisa tomar bastante cuidado
com as nossas avaliações. Agora, eu acho que se Deus está te levando por caminhos de uma oração mais elevada, você tem que ir atrás de um mestre espiritual. Agora, sendo bem realista, eu não encontro muitas pessoas com isso. O que eu encontro mais é arroz com feijão mesmo, pessoa que está precisando tomar um conselho, está precisando ser reorientada, etc., mas do que propriamente uma direção para a vida de oração em sentido mais alto. Caros, nosso tempo está chegando ao fim e apareceram diversas perguntas aqui. A gente anotou algumas delas. Não vai dar tempo de responder
a todas; peço até desculpa por isso. Mas eu creio que, não sei se Padre Eduardo, assim, se a gente for bem pontual, respostas bem diretas em algumas delas aqui. Bora, bora, e aqui a gente vai respondendo só para não passar em branco. Por exemplo, do padre Wesley Macedo: um diretor espiritual tem que ser um padre somente, e não outro? Eu creio que essa resposta de alguma forma já foi dada, mas se eu entendi o que ele quer dizer, o seguinte: eu posso fazer direção espiritual com mais de um padre. Pois é, está ambíguo aqui. E
aí eu diria o seguinte: tem que tomar um pouco de cuidado com isso porque você pode se tornar uma pessoa, digamos assim, um pouco esquizofrênica, né? Às vezes um padre leva para uma direção, o outro pode levar sutilmente para outra espiritualidade. Então, eu escolheria um diretor espiritual e ficaria com ele; e rever também quais são as motivações para trocar de diretor, né? Que muitas vezes é praticar algum defeito, enfim, ou às vezes é uma pessoa meio imprudente mesmo. Às vezes tem que mudar. É recomendável fazer a confissão na direção espiritual nos mesmos momentos? Momentos diferentes.
O ideal seria em momentos diferentes, porque o objeto de cada uma é diferente. O objeto da confissão são os meus pecados; o objeto da direção espiritual é a minha vida de oração, ainda que as duas coisas estejam conectadas, são de objetos diferentes. Então, nós precisaríamos um pouco a cada coisa dar sua verdadeira natureza, ainda que pode acontecer, por falta de tempo, etc., a pessoa vir fazer direção espiritual e depois se confessar, não há nenhum problema nisso. E também algumas vezes é relevante você trazer o tema também dos seus pecados e das suas misérias na própria
direção espiritual exatamente para uma orientação mais adequada. Também, pessoas de confissão frequente às vezes têm que tratar o pecado de uma maneira um pouquinho mais ampla. Então, por exemplo, a pessoa de confissão frequente, em geral, ela comete pecados mais veniais. Então, por exemplo, às vezes convém detalhar. Ela diz assim: "Olha, pedi a paciência porque uma pessoa me provocou etc., eu fui lá e respondi tal, tal", para aumentar o "tiquinho", só para o padre poder ter algo que dizer, porque senão a gente não consegue nem dar conselho. Apareceram algumas perguntas aqui sobre a frequência da direção
espiritual, e não há uma frequência, uma tabela de frequência. Cada alma é uma alma. O ideal é que haja uma continuidade, né? Não há uma frequência, a não ser que exista uma determinação; por exemplo, se você é seminarista, tem lá a determinação do seminário. Se você é religioso, tem as regras; se você é membro de uma comunidade, pode ser que lá tenha alguma regra nesse sentido. Mas, em geral, o que eu diria é o seguinte: uma direção espiritual, em 20 dias a um mês, eu acho que, se é verdadeira direção espiritual, eu creio que seja
suficiente, a não ser que haja uma necessidade mais específica. É uma boa direção espiritual e, com regularidade, geralmente, é uma direção breve e objetiva também, né? Exatamente, você vai levar um problema concreto. Olha, Padre, fui, estava por exemplo, né? Eu, eu, eu não estou conseguindo fazer meditação. Por quê? Eu entro numa oração, minha mente fica embotada. Digo, isso é só em relação à oração, não em relação... Bom, aí sim, mas se você está levando um problema real, o diretor vai ajudar a corrigir. Não precisa também varrer todos os problemas de uma única direção, né? Não
só os relevantes, né? Só por curiosidade, para José Eduardo, aqui... Eu posso falar de mim também. Você fala de você, uma direção espiritual que você faça com outro sacerdote. Você é atendido, digamos assim, pelo sacerdote. Quanto tempo leva, mais ou menos? Eu faço semanalmente e a minha conversa dura cerca de 20 minutos. Pronto, viu? Que interessante! É mais ou menos o que dura a minha direção espiritual, às vezes até menos, às vezes causa da menos. E a gente gostaria até de atender mais gente se essas pessoas fossem mais objetivas também, né? Simples e diretas. Então,
isso sobre a frequência. Em geral, as perguntas foram nessas linhas. Houve muitas perguntas parecidas. Uma interessante aqui: Direção espiritual pode ser considerada como um dom de alguns padres, alguns sacerdotes. O dom do conselho, que é um dos sete dons do Espírito Santo, né? Mas, assim, avivado, ele consegue ver, ter uma saída, né? Às vezes, uma penetração psicológica mais refinada. E, às vezes, sim, é um dom. Existem, eh, sacerdotes... A gente chama isso na tradição espiritual de sacerdotes experimentados. O que é um sacerdote experimentado? É um sacerdote que ele ouve, escuta e tal. Porque o que
acontece é isso: às vezes a pessoa vem com uma coisa e a causa é outra. Então, eu acho que à medida que você vai passando os anos, a gente vai percebendo mais facilmente isso. Mas às vezes vem uma luz de Deus. Então, a pessoa, sei lá, começa a falar do negócio, como... Tá esquisito. De onde a pessoa está, tal? Começa a fazer duas, três perguntas... Pá! Aí sai o rato lá de dentro! Aí eu percebo o que está acontecendo. Então, há sacerdotes que têm um pouco mais de... às vezes até algum dom extraordinário para enxergar
essas coisas. Além disso, entre as virtudes próprias de cada sacerdote, talvez alguma manifeste melhor esse caráter de pai, outro de mestre. Tem as qualidades pessoais de cada um também, que podem fazer a diferença ali, né? Exatamente. Perguntaram acerca de direção espiritual remota, né? Por internet, olha, eu acho que é possível, mas desde que haja um conhecimento prévio. Então, por exemplo, digamos assim: se esta semana, concretamente, eu não pude encontrar com o meu diretor espiritual, eu tive uma conversa telefônica com ele. Porém, ele me conhece e eu o conheço. Agora, eu atendi uma pessoa do, como
se diz hoje em dia, do Neida, remotamente. Eu não conheço, não sei quem você é. Eu te atendo assim, num... eu não estou vendo a sua vida, não sei o seu modo de se comportar. Eu tenho uma dificuldade maior de te ler. Então, vai ter uma perda aqui, e é importante que vai impactar no conselho que eu vou dar, na instrução. Tem prós e contras, mas não, não é proibido. Como os sacramentos, né? Que é necessária a presença física e real, não só virtual, do sujeito e do ministro ali, né? Exatamente. Bom, caríssimo, tem muita
coisa para falar, o tema é amplíssimo. Semana que vem a gente vai ter outra live sobre esse tema com outro irmão nosso, grande amigo Padre Manuel dos Santos, que inclusive escreveu livro sobre direção espiritual. No dia 3 de setembro, próxima terça-feira, às 9 horas, também a gente vai estar aqui com o Padre Emanuel, tratando mais sobre esse assunto. E a gente agradece de coração a disponibilidade do Padre José Eduardo. Desse nosso irmão, oferecemos também nossas orações por ele. Enfim, esperamos ter mais momentos como esse, se a providência permitir. Muito bom, Padre Demétrio, sempre simpático, jovial,
leve e bastante fluminense. Bom, caríssimo, obrigado pela atenção de todos. Fiquem com Deus e a nossa benção, hein. Do pai, do filho e do Espírito Santo. Amém. Tchau a todos, fiquem com Deus. Tchau!