k Olá eu sou o Rafael Julião Eu Sou formada em letras pela UFRJ Eu sou professor de literatura brasileira e também sou pesquisador de canção Popular eu recebi o convite da editora antofágica para falar um pouco sobre o livro Vidas Secas que é um clássico da literatura brasileira de um escritor alagoano chamado Graciliano Ramos e eu vou tentar falar aqui um pouco das características do livro tanto do do contexto do conteúdo alguns aspectos formais também alguns traços marcantes desse desse autor essa é a história de uma família de migrantes numa região sertaneja e a gente
acompanha a trajetória dessa família que é composta por um vaqueiro chamado Fabiano e a sua companheira que é Sinha Vitória eh seus dois filhos o filho mais novo e o filho mais velho uma cachorrinha chamada baleia e Inicialmente um papagaio que vai começar a história com eles é um livro que tem 13 capítulos e o primeiro capítulo se chama mudança e É nesse capítulo que a gente é apresentado a essa região e essa família e a gente acompanha o início desse processo de migração então ao longo desses 13 capítulos a gente acompanha não só esse
processo de imigração mas muito brevemente o Fabiano e a família encontram uma casa abandonada numa fazenda sem vida segundo a expressão do do livro e eles se instalam ali e o Fabiano consegue um emprego provisório de vaqueiro e a partir daí a gente vai acompanhando e os episódios os acontecimentos que se passam com essa família é importante dizer que o vida secas é um livro de 1938 é o quarto romance do Graciliano Ramos eh embora seja um tanto questionável o termo romance mas vamos vamos assumir como um romance ele começa em 19 33 com uma
obra chamada Caetés em 34 ele publica angústia em 1936 o famosíssimo São Bernardo e em 38 Vidas Secas Então vale a pena a gente perceber que essas obras todas estão colocadas nos anos 30 e e isso é importante porque existe um movimento literário uma espécie de tendência literária chamada regionalismo de 30 que seria ex amente um conjunto de obras que tenta falar sobre regiões específicas do país sejam elas no nordeste no norte mais ao sul eh ou ainda nos interiores do Rio de São Paulo nas regiões rurais é interessante esse termo regionalismo porque ele toda
a obra em alguma medida seria regionalista eh mas a gente acaba por considerar as obras escritas nos grandes centros urbanos com temas pretensamente universais como obras eh que tendem a Universal Então esse termo já é um termo que exige desconfiança porque o literatura regionalista seriam todas mas quando eu me referi a isso aqui eu estou falando dessa tendência literária específica eh e aí as regiões Rurais do Brasil os interiores do Brasil Sertão acabam sendo regiões muito exploradas por essa tendência literária então o vida seca seria uma obra emblemática dessa literatura como é também eh O
Livro 15 da Raquel de Queiroz da escritora cearense Raquel de Queiroz que a gente também acompanha um processo de imigração de uma família sertaneja no sertão do Ceará né dessa vez acompanhando a família do Chico Bento sua companheira cordolina e seus filhos também interessa pensar sobre o regionalismo de 30 que a ideia de regionalismo não é exclusiva dos anos 30 eh houve em muitos momentos da literatura brasileira regionalismos o romantismo por exemplo eh naquela tentativa de criar uma identidade nacional uma idealização do Brasil muitas vezes vai buscar em regiões específicas do Brasil o que seriam
traços particulares do país então o José vencar por exemplo tem uma obra de 1875 que se chama o sertanejo e a gente acompanha a história do sertanejo Arnaldo eh representado num sertão da Terra Brasileira e claro com uma tendência muito diferente mais idealizante com uma linguagem mais subjetiva também importa dizer que esse regionalismo específico dos anos 30 ele tem a ver com um contexto Mais amplo de Brasil é a gente pensar por exemplo que nos anos de 1880 houve uma transição muito grande eh na história do país em 1888 teve abolição da escravatura em 89
a república enfim isso tudo coloca o Brasil num num outro passo de transição rumo a uma espécie de modernização e isso vai ser interessante que esse processo de modernização de urbanização que vai avançar nas décadas seguintes de 1890 1900 1910 1920 ela vai se apresentar de uma forma contraditória ao mesmo tempo que muitas formas de modernização vão se dar nas cidades nas mentalidades no pensamento na estrutura social por outro lado eh vão se conservar uma série de traços arcaicos do Brasil de heranças da estrutura colonial patriarcal escravocrata que vão deixar as suas marcas nos momentos
seguintes então quando chega a regionalismo de 30 eh ele é uma expressão de alguma forma de um Brasil que tá nesse processo de modernização contraditória e essa literatura dos anos 30 também vai registrar ora essas contradições ora a contraface desse processo de modernização então o sertão vai funcionar muitas vezes como uma imagem em negativo desse processo de de modernização também importa falar que a gente tá nos anos 30 no governo do Getúlio Vargas que vai de 1930 a 45 o primeiro governo dele e que vai ser um momento importante não só de uma imaginação Nacional
de um Brasil que vai passar a ser imaginado partir da ideia da missen Nação da cultura eh do futebol do do carnaval da música portanto então tem ali todo um projeto de de tentativa de integração nacional o antôni câ eh em uma fala dele nos ensina a a olhar por exemplo como é interessante que nos anos 30 do os anos 30 e 40 São momentos fundamentais do rádio no Brasil eh que é um elemento integrador vocês imagine eh qual é a importância do rádio no sentido de conectar as mais diferentes regiões do Brasil naquele momento
histórico e o Antônio Cândido vai dizer que o rádio contemporâneo doal ISO de 30 também Lembrando que a gente se refere ao regionalismo de 30 mas ele Dura as décadas de 30 40 ele segue né os seus autores segu inscrevendo nessa tendência então o Antônio Cândido por exemplo que eh viveu grande parte da vida em São Paulo ou no Sudeste de modo mais geral conta como ele teve através do romance regionalista oportunidade de conhecer e o Brasil ou con outras regiões do Brasil entender que aquelas pessoas aquelas realidades também estão circunscritas dentro do mesmo país
que ele eh e é interessante que até hoje a leitura do Vidas Secas é Um Desafio pra gente porque nos coloca e pra gente falando aqui como um um homem do Rio de Janeiro eh nos coloca para ver e conhecer uma realidade outra e ainda assim uma realidade mesma né um mesmo Brasil e completamente diferente também eu acho que é muito importante falar desse título Vidas Secas que parece que todo mundo já ouviu falar sobre esse livro todo mundo já ouviu falar sobre sobre esse título E esse título já abre um Imaginário já evoca um
Imaginário para nós muito forte e eu acho que tem uma senha de leitura aí interessante quando a gente pensa uma espécie de triangulação entre personagens ambiente e linguagem é como se fosse assim a gente é apresentado um ambiente seco um ambiente árido portanto uma paisagem seca paisagem do Sertão da Catinga ao mesmo tempo a gente é apresentado a personagens que têm as Tais Vidas Secas e esse secas aí tá no sentido de vidas áridas minguadas com poucas Posses poucos recursos e ao mesmo tempo uma linguagem a linguagem desse narrador a linguagem desse livro livro é
também uma linguagem concisa seca e áspera em muitos momentos Então dessa triangulação entre ambiente personagens e linguagem é que se constrói esse livro então eu vou seguir essa essa sequência começando da da paisagem eh é muito impressionante como o Graciliano Ramos constrói por meio do seu narrador esses espaços essas cenas a primeira cena do livro A primeira frase eu sou louco por primeira frase de livro A primeira frase do livro diz o seguinte na planí avermelhada os juazeiros alargavam duas Manchas Verdes então vocês vejam que era muito fácil simplesmente dizer que na no espaço ali
da Catinga tinha duas duas árvores não ele vai fazer na planície então ele já aloca a região com uma região plana avermelhada e Esse vermelho mistura o nosso Imaginário sobre a terra a catinga que nos reporta a uma a uma mata Branca mas ao mesmo tempo é uma terra marrom sobre a qual incide um sol Então essa terra avermelhada e ele apresenta dois juazeiros que viram Manchas Verdes no meio desse cenário aliás uma coisa muito importante para um leitor do do Vidas Secas é que a gente acaba sendo apresentado um vocal ário imenso de coisas
que dão nome a a coisas que um leitor de outras regiões do país por vezes desconhece então a gente tem que saber aí em alguma medida embora a edição da antofágica seja cheia de notas explicativas a gente tem que cultivar essas palavras então a gente pensar por exemplo nos juazeiros e nos jatoba e nas Aroeiras como árvores da da região da Catinga saber dos mandacarus e dos chiqu chiques que são plantas eh da da família dos cactos ou ainda as macambiras que t a ver com uma espécie de bromélia ali da da Catinga todo um
conjunto de animais que a gente apresentado também as prais que são o e uma espécie de bichinho roedor que a cachorrinha baleia gosta de caçar as palavras vinculadas ao gado e pensar que Fabiano é um vaqueiro então a gente precisa saber o que é uma rez ou o que são rezes que são as cabeças de gado e saber o que é um novilho que é um um gado jovenzinho então todo um conjunto de vocabulário é apresentado pra gente que nos conduz a esse a esse Imaginário eu falei da da questão do ambiente agora a gente
tem que falar um pouco da questão dos personagens que estão nesse ambiente temos então aí o Fabiano que é descrito como um vaqueiro um homem bruto de poucas palavras e sem Posses e que é o chefe dessa família assim a Vitória aliás é importante eh olhar para esse Sinha porque a gente tende a ler sinhar e a gente tem que est avisado que e tanto Sinha quanto Sinhá estão vinculadas à ideia de senhora a palavra senhora são eh variaç as linguísticas de senhora mas siná como a gente sabe nos leva ao imaginário de uma mulher
de Posses diferente de sinha que tá aí com uma marcação simplesmente dela ser Senhora do Fabiano portanto ser eh companheira do Fabiano assim a vitória é uma personagem muito especial porque ela é uma das personagens mais desejosas do livro Ela sonha eh é muito marcante nessa personagem a reclamação dela que ela vive numa ela dorme numa cama de varas e o sonho dela é ter uma cama de couro exatamente como a cama do seu Tomás da bolandeira e isso vai voltando o livro todo e é também interessante pensar esse nome sim a Vitória como a
mulher dessa família de migrantes que passa toda essa necessidade essa dificuldade tem como nome Vitória em que medida aí eh uma espécie de ironia amarga em que medida aí há também uma afirmação da força dessa mulher cer aneja os filhos não recebem nome é o filho mais novo e o filho mais velho o que garante uma certa generalização desses personagens mas ao mesmo tempo permite uma identificação com essas duas crianças dessa família a cachorrinha que é eh uma personagem central dessa história toda ela se chama baleia eh e ela adora caçar prea e ela vai
ser uma personagem que condensa muito do afé afeto do pouco e seco afeto que essa história eh carrega e eu penso que também tem aí um nome de personagem interessante pra gente pensar como eh uma cachorrinha magra que vive numa região árida e seca vai se chamar justamente baleia Então até no nome dos personagens tem coisas aí pra gente pensar também importante a gente pensar numa questão racial que tá colocada no livro assim a Vitória descrita como uma mulher Cabocla portanto é uma mulher missen de branco com indígena ao mesmo tempo Fabiano tem uma descrição
ainda mais interessante ele é apresentado como vermelho queimado mas de olhos azuz e Barbas e cabelos ruivos ou seja um Evidente gesto de apresentação dessa família também a partir de um dado de miscigenação que também tem a ver com a forma com a qual Graciano Ramos vai imprimindo cores a esse livro então da mesma forma que essa paisagem é desenhada com os tons de marrom Branco Vermelho esses personagens também estão eh coloridos nessa dupla sinalização da questão da obsa e da questão estética do próprio desenho das cores daquele local partindo agora pra linguagem o Graciliano
Ramos vai fazer um livro narrado em terceira pessoa pessa como eu já disse ele tá dividido em 13 capítulos o Ruben Braga tem uma expressão ficou famosa que todo mundo retoma que é dizer que isso é um romance desmontável porque há uma certa autonomia de cada um desses capítulos eh de modo que Inclusive a própria origem do livro é um conto Graciliano romos fez primeiro o conto eh justamente baleia o conto que dá origem a aos outros todos então eles cham chama de romance desmontável porque é uma espécie de independência apesar de haver uma intencionalidade
na ordem né começar na na mudança no processo de migração na sequência vem uma série de capítulos que são acontecimentos que estão ali quase que coordenados são sucessivos mas são mais coordenados do que propriamente sequenciados o narrador em terceira pessoa todo mundo também chama atenção para isso diferente das outras obras do Graciliano dos outros romances que são em primeira pessoa Vidas Secas é em terceira pessoa com raríssimas falas desses personagens raríssimos diálogos e esse narrador em terceira pessoa tenta ao mesmo tempo dar conta daquela realidade sertaneja Mas também se aproximar desses personagens muitas vezes ele
acaba utilizando o recurso que a gente chama de discurso indireto livre em que a fala do narrador se confunde com a fala do personagem E aí aparece também certas marcas de oralidade nesse conjunto narrativo e sobretudo a gente vai ficando aí entre essa essa câmera afastada e essa câmera aproximada que nos permite a observação dessa realidade social brasileira mas também uma solidariedade que é construída entre nós e esses personagens mais uma coisa que eu queria observar e que é importante a gente ver que essa história contada no passado essa narrativa tá toda no passado mas
em diversos momentos fundamentais do livro há projeções de futuro assim a Vitória projeta um determinado futuro o menino mais novo projeta o futuro delend dado momento até a cachorrinha baleia faz projeções do Futuro geralmente Marcados pelo futuro do pretérito eh Quando vocês forem ler o livro prestem atenção em todos os momentos que isso acontece como você vocês se sentem nesses momentos do do livro e por fim é isso o ouv das secas é uma obra clássica eh o Ítalo Calvino nos ensina que a gente nunca leu Um clássico pela primeira vez parece que mesmo a
primeira vez que a gente vai ler um livro clássico a gente tá relendo Porque a gente já tem uma série de informações sobre ele é um livro que marca muito um determinado momento histórico um determinado espaço mas também tem uma capacidade grande de transcender a ele de nos tocar naqu H em nós da nossa dimensão humana então eu desejo uma boa leitura para todo mundo e eu volto no próximo vídeo para conversar sobre esse livro já lido um abraço para todo mundo