#PartiuPensar: por instantes de plenitude, potência e luz #PartiuPensar, estamos juntos de novo e o nosso assunto é a moral. O que é mesmo a moral? Você se lembra, moral é um conjunto de princípios que livremente decidimos respeitar.
Um conjunto de regras que cada um de nós pode se impor. Um conjunto de condutas que cada um de nós pode se proibir e tudo isso, claro, levando em conta os interesses, as pretensões e os direitos das outras pessoas. Claro, fazemos isso também em nome do entendimento que temos de nós mesmos e de um entendimento que temos de toda a humanidade.
A moral, portanto, é a resposta que cada um de nós dá para a pergunta: “O que cada um de nós deve fazer? ”. Conjunto dos deveres de cada um de nós definidos por um a um de nós.
Conjunto dos imperativos que cada um de nós reconhece como legítimos, como justos de serem respeitados. Agora, é claro, isso nos permite entender, em primeiro lugar, que a moral nada tem a ver com as nossas esperanças. A moral é a vida que decidimos viver aqui e agora.
Podemos esperar pela riqueza, esperar pela felicidade, esperar pela beleza, podemos esperar pela glória, mas um comportamento moralmente virtuoso, uma conduta digna, por essa nós não podemos esperar. Essa cabe-nos deliberar, decidir e agir agora mesmo. A moral é aquilo que cada um de nós se impõe a si mesmo, então, isso significa que nunca fazemos moral para o outro.
Você já parou pra pensar o quão prazeroso deve ser pra muita gente julgar o comportamento do outro, sobretudo negativamente? Pra falar bem, os candidatos são bem menos numerosos, mas pra falar mal, nossa… Num lugar de trabalho, basta uma maquininha de café e mais de uma pessoa, você fica ali cinco minutos e pode apostar, sempre vai aparecer alguém pra falar mal de alguém. E, é claro, falar mal por falar mal fica meio vazio se não tiver uma conduta a julgar, uma nota atribuída a um comportamento.
“Você viu o que fulano de tal fez? ” “Nossa, que absurdo! Eu fico revoltado com essas coisas, viu?
”. E assim a gente passa um bom tempo da nossa vida atribuindo nota à conduta dos outros. Sendo assim, eu quero crer que não deva ser muito desagradável a tarefa, essa de julgar os outros e condenar aquilo que fizeram.
Pois muito bem, é preciso lembrar que toda vez que atribuímos uma nota baixa, um valor negativo à conduta de alguém, isso nada tem a ver com a moral. Podemos até nos tomar por moralizadores, o que pressupõe sempre um viés um pouco algo autoritário, de superioridade do próprio olhar sobre o olhar alheio, de superioridade do próprio valor sobre o valor alheio, de superioridade da própria dignidade em relação à dignidade do outro, cuja vida estamos avaliando. Nada disso tem a ver com a moral.
Porque a moral, a gente já disse, essa é sempre na primeira pessoa do singular. É por isso que, muitas vezes, o comportamento moralizador de alguns cai muito mal, é muito desagradável. Alguém que passa a vida julgando os outros, alguém que passa a vida falando mal dos outros é muito desagradável.
Aqui eu lembro do meu pai, que com as suas intuições, muito pôde me ensinar, e ele dizia: “Não podendo falar bem dos outros, não diga nada. Evite, portanto, a conduta moralizadora. Evite, portanto, o achincalhe alheio.
Meta-se com a sua própria vida, que já é suficientemente complicada”. Em outras palavras, no lugar de um moralismo barato de terceira pessoa, fique na moral digna da primeira pessoa e procure viver você, de maneira soberana, da melhor maneira possível. O que estamos tentando ensinar é que a moral só é legítima na primeira pessoa do singular.
A moral só é legítima do Eu para o Eu. A moral só é legítima quando impomos a nós mesmos um limite de conduta. A moral só é legítima quando atribuímos a nós mesmos uma nota que nos enche de vergonha.
A moral só é legítima, vixe, quando somos nós mesmos a julgar a nossa conduta, porque, em relação aos outros, bem, aí seria melhor a compaixão, aí seria melhor a misericórdia. E quando a conduta alheia é mesmo inaceitável, fique tranquilo. O direito deve dar conta de restabelecer o status quo, de punir os culpados, de julgar e condenar quem agiu de forma lesiva e danosa a toda a sociedade.
Afinal de contas, vem aqui comigo: quem pode exatamente saber dos motivos do outro? Quem pode ter certeza dos desejos do outro? Quem pode cravar quais foram as verdadeiras intenções do outro?
Você foi egoísta? Covarde? Você se aproveitou da fragilidade alheia?
Você abusou, violou, violentou, furtou, roubou? Bem, cabe a você então julgar direitinho o que fez. Cabe a você ser um especialista avaliador da própria conduta e, sobretudo, cabe a você deixar que cada um faça o mesmo.
Bem, meus amigos, aqui vai mais uma observação importantíssima. Pare pra pensar agora e venha comigo, me dê a sua mão. A moral é um pensamento sobre a própria conduta.
A moral, portanto, é uma reflexão a respeito do que vamos fazer, do que devemos fazer, do que deveríamos fazer. A moral implica reflexão, deliberação, tomada de decisão, escolha, e tudo isso está presente quando você entra numa sorveteria e se depara com 50 sabores de sorvete. Você olha, você examina um a um os sabores, você pensa e você escolhe: morango.
Bem, você deve estar me ouvindo perplexo e se perguntando: “O que tem a ver com a moral escolher sorvete de morango e não sorvete de chocolate? ” E a resposta é: Nada! E é aqui que nós aprendemos mais uma coisa importantíssima sobre a moral: ela não é uma questão de preferência.
Quando você exerce simplesmente uma preferência que só pretende valer pra você mesmo, isso nada tem a ver com a moral. O que significa que, ao escolher morango, você não parte da premissa de que o morango seja superior ao maracujá. Muito menos você parte da premissa de que todos deveriam tomar sorvete de morango.
Você não quer dizer com isso que quem escolhe sorvete de creme seja uma pessoa abjeta. Você não entende que o morango confere a sua vida uma dignidade que flocos não conferiria. Não, nada disso.
Morango é só uma preferência. Agora, imaginemos que você tenha sido insultado na rua e que você, coincidência ou não, fato raro ou não, você está armado, e, diante daquele insulto, que dura até um certo tempo, você pensa sobre o que deve fazer. Você pensa sobre o que vai fazer, mas, aí, você concorda comigo, não tem muito a ver com o sorvete de morango.
Muito embora lá você tenha pensado, escolhido, deliberado, decidido e tomado sorvete de morango, e agora você vai pensar, escolher, decidir, deliberar e executar alguma coisa, o certo é que não são escolhas comparáveis. E por que não? Ah, sabe o que é?
É que quando você escolhe sorvete de morango, como eu acabei de dizer, é só uma preferência. Aliás, inclusive você mesmo ontem tomou sorvete de maracujá, pra você o morango é uma escolha daquele momento que não precisa valer pra mais ninguém, muito menos pra você amanhã. Agora, quando você delibera entre tirar o revólver e atirar em alguém, é um pouco diferente.
Sabe por quê? Porque atirar ou não em alguém é uma decisão que, você sabe, vale além daquele momento. É uma decisão que engaja você.
É uma decisão que você não mudaria ontem ou amanhã e é, sobretudo, uma decisão que você toma acreditando que qualquer outra pessoa na mesma situação devesse fazer o mesmo. Então, veja, agora não é uma preferência de momento, não é uma preferência de circunstância, não é uma preferência meramente subjetiva. Não.
Agora, matar ou não matar é uma decisão que vai além daquela ocasião, vai além daquele cenário, vai além daquele agressor e vai além de você. Você faz aquilo que você acha que qualquer um, na mesma situação, também deva fazer. Portanto, olha que interessante, muito embora a moral comece na primeira pessoa do singular e termine na primeira pessoa do singular, na hora de refletir sobre o que o Eu deveria fazer, ele acabará recorrendo, você não sabe a quê?
Ele acabará recorrendo a um princípio que vale mais do que aquela situação específica. Um princípio que vale além daquela particularidade, um princípio que vale além daqueles particulares agressor e agredido. Um princípio, portanto, que transcende o seu tempo e o seu espaço.
É um princípio que vale pra mais gente. É um princípio que você supõe deve ser seguido e nortear a vida de qualquer um. Olha que bacana!
A moral que começa e termina na primeira pessoa do singular, ela passa por um princípio com pretensões de universalidade e isso é muito, muito, muito lindo, não é? Isso é muito lindo e eu continuo lamentando nunca ter tido, ao longo da minha educação de base, um professor que me pegasse pela mão e que me conduzisse a entender isso com essa clareza, sabe? Nós sabemos muito bem que, no final das contas, na hora de agir, a gente vai agir em função do que a gente aprendeu.
A gente vai agir em função das coisas que já viu os outros fazendo. Há sempre um aprendizado moral na vida e esse aprendizado moral se dá, sim, num tempo e num espaço. Esse aprendizado moral é muito dependente da cultura em que vivemos.
De tal modo que, se em um determinado lugar, numa determinada época, for muito comum, recorrente, entendido por certo práticas de intimidade com vários parceiros, então, é claro que, na hora de tomar uma decisão, é possível que esse elemento cultural participe decisivamente dessa escolha. Portanto, podemos entender que não haja propriamente uma moral absoluta, mas quando eu me proíbo, quando eu me proíbo alguma crueldade, quando eu me proíbo a violência, quando eu me proíbo o racismo, quando eu me proíbo o homicídio, quando eu me proíbo a injúria, quando eu me proíbo tantas outras condutas que passam pela minha cabeça mas que eu não me autorizo implementar, nesse momento, no momento dessa proibição, no momento dessa decisão, não se trata de uma questão de preferência, que dependeria do gosto de cada um, como um sorvete de morango. Não, não.
Na hora de tomar uma decisão de não caluniar, não agredir, não ofender, não matar, não furtar e não roubar, o que há por parte de quem decide é, sim, uma pretensão universal. Vale pra mim, vale pra qualquer um. Desse modo, veja que interessante, talvez cada um de nós se proíba mentir.
E por quê? Olha, por presumir que todos devessem dizer a verdade. E por quê?
Por presumir que, se todos mentissem, se todos mentissem sistematicamente, se todos mentissem o tempo inteiro, ora, a interação e a convivência estariam definitivamente comprometidas e é por isso que nós começamos qualquer relacionamento presumindo a verdade do que é dito. Uma espécie de confiança de principio, e se alguém então vira pra mim e diz: “Eu me chamo Salete. Nasci em Vargem Grande do Sul.
Estudei economia. Trabalho naquela empresa e exerço a função de chefe de RH”, pois eu voltarei pra casa convencido de que aquela moça se chama Salete, nasceu em Vargem Grande do Sul, estudou economia e é chefe de RH de tal empresa, até que eventualmente algum fato venha demonstrar a inverdade da afirmação. Mas do mesmo modo que supomos que as nossas afirmações, as nossas informações sejam tomadas por verdadeiras até que provem o contrário, assim também fazemos em relação aos demais, até porque, se tudo fosse sempre mentira, não haveria nem por que abrir a boca.
A pessoa começa dizendo: “Eu me chamo Salete”, você diz: “Mentira, já sei que não é verdade”. “Nasci em Vargem Grande do Sul. ” “Mentira, já sei que não é verdade.
” Seria estúpido! A pessoa, a partir daí, já calaria a boca e diria: “Bom, então continua você. Eu daqui não me manifesto mais”.
Por quê? Porque é absolutamente insuportável ter as próprias afirmações tomadas de ofício por mentirosas, e é por isso que quem mente sabe que a mentira só é eficaz porque todos a tomam por verdade. Pelo menos no começo, pelo menos por princípio, pelo menos de cara, porque se não tomassem por verdade o que é dito, a mentira seria ineficaz e não haveria nem por que mentir.
Não haveria tampouco por que dizer a verdade, talvez nem houvesse verdade ou mentira, e é por isso que, claro, a gente acaba entendendo com clareza que, quando falamos de moral, falamos de decisões, deliberações e condutas que acreditamos devessem ser respeitadas por mais gente. Isso ganha particular importância justamente quando podemos ser a vítima. Daí a regra de ouro: Não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você.
E não é porque você vai sofrer que você dirá a verdade. Não, é apenas pra você entender que você sempre será um dia o outro do outro, e, portanto, é claro, aquele que um dia será sempre o outro do outro é claro que tenderá a agir dignamente com o outro. Por quê?
Porque espera a reciprocidade em algum momento. Não se permita agir de maneira lesiva ao outro, do mesmo modo que você espera que o outro não aja de maneira lesiva a você. Eis aí a grandeza, a universalidade e a solidão da moral, que, apesar de pretender o universal, sempre parte da vida vivida do particular e termina ali mesmo o particular, decidindo o que vai fazer da sua vida.
A palavra valor remete às coisas do mundo. Remete também às coisas do homem, ao que pensa, ao que diz, ao que sente. Certamente há, por isso mesmo, vários tipos de valor e o primeiro que vem à mente é o definido pela economia.
É, por exemplo, o preço de um produto ou de um serviço. Costuma resultar do encontro entre quanto as pessoas desejam consumi-lo e quanto há a disposição para o consumo, demanda e oferta. Leis do mercado que tiram de cada indivíduo a possibilidade de um controle absoluto sobre quanto as coisas valem.
Esse primeiro valor, o preço, pode nada ter a ver com as nossas sensações. A sua avó deixou a gargantilha de presente, e você amava sua avó, e a sua avó morreu e você ficou muito triste. Mas aquela gargantilha é, como dizem hoje, um gatilho; gatilho que te permite lembrar da sua avó e a lembrança da sua avó acalenta.
É unguento para dores. A gargantilha, então, vale muito pra você, embora no mercado não valesse nada, é de material ordinário, encontrável em qualquer lugar, preço próximo do zero. E você, que pediu a avaliação, ouviu do especialista em joias: “Melhor conservá-la.
Ela vale muito mais pra você do que pra qualquer outra pessoa no mundo”. É por isso que algumas coisas têm valor existencial, como alguns aspectos da vida que fazem a vida valer a pena, e valer a pena é “valer as penas”, e antes de valer as penas, é valer. E, assim, a excelência é valor ou amor também, alegria.
Mas há o valor que podemos atribuir a cada uma das nossas condutas, assim como há o valor que os outros podem atribuir às condutas de qualquer um. Como já vimos, são os valores morais, no primeiro caso, e os valores éticos, no segundo caso. E você certamente não tem ideia do tamanho do abacaxi, do tamanho do enrosco, e aqui eu lembro de uma história que li um dia.
Os detalhes me escapam, mas a essência da trama basta. Era uma senhora que relatava as peripécias do seu avô, e o seu avô houvera nascido de família complicada e fora ele mesmo bastardo, concebido fora do matrimônio, mas ele mesmo se casara, tivera três filhos e constituíra família. Tinha as suas convicções, suas convicções a respeito de justiça e, sobretudo, de como deveriam ser as relações humanas.
Como deveria funcionar uma cidade pra que fosse justa, como um governante deveria governar. Chega a Segunda Guerra Mundial e este indivíduo, avô da senhora que conta a história, é convocado para o exército nazista, e como talvez muitos tenham feito, recusou-se. Recusou-se a lutar.
Recusou-se a integrar o exército. Recusou-se a fazer parte daquele movimento. Recusou-se mesmo sabendo que a recusa resultaria na sua morte.
A família argumentava em sentido contrário, que ele deveria aceitar participar daquele exército porque só assim continuaria vivo e ele tinha deveres conjugais. Dever de esticar a sua vida e assim proteger sua família, esposa, filhos, netos. Continuar trabalhando, honrando suas incumbências familiares, continuar presente, continuar protetor, continuar provedor, continuar, em suma.
E aí, então, a senhora me conta que o avô fincou o pé, não deu ouvido aos familiares e negou-se a se alistar. Com isso, tal como era previsível, foi morto, deixando assim a sua família, deixando assim a sua esposa, seus filhos, seus netos. E é claro, aqui, vocês, que estão me ouvindo, já estarão se perguntando: “Mas e agora?
Qual o valor desse "não" ao exército nazista? ” É o “não” de um herói que se recusou a sucumbir à pressão autoritária, soluta, sanguinária, cruel, injusta. Defensor que era da liberdade, da capacidade que temos todos de argumentar e de decidirmos juntos, de maneira democrática, o nosso futuro, os limites das nossas ações, que humanidade queremos para nós e deixar para os nossos herdeiros.
Ele foi coerente com o que sempre houvera pensado, com o que sempre houvera defendido. Aceitar a proposta nazista seria negar-se. Negar a sua vida, sua história, suas convicções, sua trajetória.
Porém, claro, ao fazer isso, nosso amigo abandonou a família. Ao fazer isso, ele empobreceu a família, apequenou a família, entristeceu a família e, portanto, ele causou muito dano. Um dano às pessoas que poderia não ter causado se tivesse aberto mão das suas convicções e aceitado a proposta que lhe fora feita.
Portanto, ao dizer: “Faça isso pela sua família”, no final das contas o que se dizia é: “Coloque a sua família acima das suas convicções, acima da coerência entre essas convicções e as próprias práticas”. Talvez se houvesse dor em sucumbir, se houvesse dor em aceitar aquilo que sempre se combatera, se houvesse dor em se curvar diante da pressão do inimigo, que isso fosse suportado em nome do outro, dos outros, dos seres amados, da família. A família continuava argumentando: “Você nada pode fazer sozinho.
A sua recusa em nada mudará o andamento das coisas para a humanidade. Ninguém saberá, será inútil, ao passo que nós, nós sim, sofreremos”. Aos 36 anos, este homem foi morto.
Qual é, então, o valor dessa recusa? É a recusa de um tolo, de um ingênuo ou a recusa de um herói? De uma alma altiva e digna ou de um pai negligente?
Qual é o valor do “não” do avô dessa senhora? É claro que a história é contada pra você se virar, não seria eu aqui a apresentar a resposta certa. Isso tiraria de você a oportunidade riquíssima de dar tratos à bola, de caraminholar sobre pra que lado penderia a sua própria alma.
Um dos maiores avaliadores da conduta humana, um dos maiores joalheiros do valor, da moral e da ética foi o alemão Immanuel Kant. Um indivíduo rigoroso, metódico, sistemático, filósofo, que se tornou professor e acabou escrevendo uma grande obra de filosofia, quiçá a mais importante da filosofia moral de toda a modernidade, senão de toda a história. E esse Kant, tão incrível, tão bem-sucedido, tão famoso, de maneira muito incisiva ele disse, lá pelo final do século XVIII — ele que viveu durante todo o século XVIII —, ele tinha uma convicção profunda que eu gostaria de compartilhar com você na hora de você entender como é que ele avaliava, atribuía valor às decisões e às condutas humanas.
Claro que ele fez outras coisas também, viu? Ele pesquisou sobre o universo, falava de física, fez umas reflexões sobre a Via Láctea com uma espécie de espiral de estrelas, coisa que acabou se confirmando. Ele levava uma vida bem solitária, nunca se casou, talvez por nunca ter encontrado alguém que o suportasse, mas só depois dos 60 anos é que ele escreveu o filé-mignon da sua obra.
Não vem aqui ao caso apresentá-la como uma bibliografía, porque o que importa aqui é a ideia. E qual é a graça do que diz o nosso amigo Kant? Presta bem atenção, hein!
Ele iria dizer o seguinte — presta atenção porque isso aqui é muito legal. Ele diria o seguinte: que em momento algum devemos levar em conta as consequências de uma ação para atribuir valor a essa mesma ação. Aí você vai dizer: “Escuta, se eu não posso atribuir valor a uma ação pelas consequências, porque as consequências de uma ação não devem desempenhar nenhum papel na avaliação dessa ação, então, o que é que tem valor, o que é que importa na hora de atribuir valor?
O que é que eu tenho que considerar na hora de atribuir valor a uma ação? Diz logo! ”.
Claro que, para Kant — grande pensador, é K-A-N-T, Immanuel Kant —, ele dirá que o que importa é o motivo da ação, é por que você fez isso. É, no final das contas, o que você pensou pra decidir fazer daquela maneira, é o caminho de inteligência que você percorreu pra poder chegar àquela decisão, e não o que efetivamente aquela decisão acabou provocando no mundo. Nossa!
Se você, por exemplo, quis ajudar um doente e acaba, por conta da sua ajuda, dando tudo errado, o que importa é a razão pela qual você agiu do jeito que agiu, é isso que importa. A consequência não interfere em nada entre outras razões, porque não controlamos as consequências, porque as consequências decorrem do que nós fizemos, mas de muitas outras coisas também. Não importa o que aconteceu depois, importa a razão pela qual você agiu como agiu.
Kant, portanto, não é um consequencialista, tá certo? Claro que os consequencialistas existem e dizem exatamente o contrário: o que importa é o que acontece depois. É o que acontece depois que vai permitir atribuir valor à ação ou não, ao passo que Kant disse que não, o que importa é tudo que passou pela cabeça de quem decidiu.
As razões pelas quais agiu e assim por diante. Ficou claríssimo! E há, então, a história que também eu lembro de ter lido em algum lugar.
É de uma moça, mal casada com um indivíduo violento e que não gostava do filho do casal. E um belo dia ela chega em casa e vê o menino estatelado no chão, teria se espatifado da escada, sem que nunca se soubesse muito bem se não tinha sido o pai a empurrá-lo ou o menino caído porque fugindo do pai. O certo é que o menino estava gravemente ferido.
A mãe do menino então decide levá-lo ao hospital, claro, e o menino está ali, na iminência de levar uma vida muito ruim, muito nefasta, porque estava todo arrebentado, e o corpo médico propõe uma solução arriscada de uma operação que poderia devolver ao menino alguma mobilidade, alguma vida mais próxima do normal. A mãe então autoriza a realização da operação, mas a operação é muito malsucedida e o menino acaba morrendo. Essa moça então vai, tempos depois, estudar filosofia e ouve do professor de filosofia, o segundo maior filósofo moral do Ocidente depois de Aristóteles: “as consequências de uma ação jamais devem ser consideradas na hora de avaliar a ação, porque o que importa na hora de avaliar a ação são as razões pelas quais a pessoa agiu como agiu”, e é claro que nós tínhamos que entender o que passou na cabeça daquela mãe na hora em que autorizou a operação da criança de verdade.
Terá ela agido daquele modo para expiar sua culpa de ter deixado a criança sozinha com o pai sabidamente violento? Terá ela agido daquela forma para diminuir a sua dor de ver a criança profundamente diminuída, apequenada, amputada, condenada? Como ela se encontrava?
Por que terá agido? Terá agido egoistamente ou terá agido de fato de modo a permitir uma vida melhor ao filho? E ela pergunta com os olhos marejados de lágrimas: “Professor, é verdade mesmo que as consequências de uma ação não devem ser levadas em conta na hora de atribuir valor a essa ação?
Kant tem razão, professor? ”. Bem, meus amigos, aqui ficamos porque, é claro, isso tudo é pra gente aprender a pensar juntos.
Um grande abraço! Você ouviu #PartiuPensar, por Clóvis de Barros Filho, trazido até você pela Revista INSPIRE-C. Gostou do nosso programa?
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