Em 1965, um homem entrou no [música] cartório em São Luís do Maranhão e saiu com um nome diferente. Ele tinha 35 anos e se chamava José Ribamar Ferreira de Araújo Costa. Mas no cartório adotou o apelido do pai, nascido nas terras de um inglês conhecido pela vizinhança como Sirney. Ele virou José Sarney. Nas próximas seis [música] décadas, esse sobrenome iria atravessar a política brasileira como Poucos. Mas essa não é a história [música] de José Sarnei. Essa é a história sobre um país onde a política tem sobrenome. Sobre como em quase todos os cantos do Brasil,
do Acre Maranhão, do Belém ao Distrito Federal, das capitais com milhões de habitantes, as vilas quase inabitadas, o poder não circula, ele é transmitido. De pai para filho, de avô para neto, [música] de marido para esposa, de clã para clã. Na próxima hora, nós vamos conhecer de Perto quem são essas famílias. Vamos investigar como elas chegaram ao poder e como continuam no mesmo lugar. E vamos entender porque esse fenômeno não é uma anomalia. Essa [música] é a nossa história. Essas são as famílias que governam o Brasil. [música] >> [música] >> Para entender de onde essas
famílias vieram e porque elas ainda governam o Brasil, a gente precisa voltar para um Personagem que parece pertencer a um universo escondido do passado, o coronel. E a primeira coisa que você precisa saber sobre o coronel é que muitas vezes ele não chegou a ser um coronel de verdade. [música] Essa patente vinha da Guarda Nacional, uma Guarda criada em 1831, que na prática transformava quem tinha prestígio num determinado local numa autoridade militar. Se você tinha terra, renda, sobrenome e acesso ao poder, Podia virar coronel, às vezes por nomeação, às vezes por influência. A guarda foi
perdendo importância até desaparecer nas primeiras décadas do século XX. O título não. Ele foi engolido pela cultura política do interior. Coronel deixou de ser patente [música] para se transformar num cargo informal, sinônimo de quem manda. Esse fenômeno foi destrinchado com maestria nesse livro aqui. Coronelismo, enchada [música] e voto, do jurista Víor Nunes Leal, publicado em 1949, quase 80 anos depois. [música] Esse ainda é o livro que melhor explica, porque algumas famílias governam pedaços do Brasil à gerações. [música] E a tese central dele é até contrainttuitiva. A gente imagina o coronel como um homem muito poderoso,
o senhor da fazenda, da vida e da morte. Leal mostra o contrário. Nas palavras dele, o coronelismo não nasce da força do coronel, nasce da fraqueza dele. No Final do século 19, o Brasil tinha acabado de se livrar da escravidão. A economia agrária estava em crise, as cidades cresciam, os imigrantes chegavam, a terra rendia menos. O patriarca do interior já não era o senhor absoluto que tinha sido tempos atrás, durante o período escravista. Do outro lado, havia uma república recém-nascida, que no papel prometia tudo, eleição, [música] constituição, federalismo, governo Representativo, mas na [música] prática mal
atravessava a porteira de muitos municípios. Faltava estrada, policiamento, burocracia, justiça. Dessa fraqueza nasceu um pacto. Em primeiro lugar, o coronel oferecia ao estado uma coisa que o estado não conseguia produzir sozinho, uma aparência democrática. E aqui um parênteses importante. Nesse momento, votar não era como a gente entende hoje. O voto não era secreto. Ele era aberto, vigiado na Frente de todo mundo. A mesa eleitoral era controlada por gente ligada ao coronel. A ata era escrita por gente ligada ao coronel. E muitas vezes o resultado nem precisava sair da una, saía direto da pena. Era como
se chamava na época, uma honestidade quase poética de eleição a bico de pena. No fim, muitas vezes a urna não passava de um enfeite. Esse pacto tinha uma escada. Em primeiro lugar, o eleitor dependia do coronel. O coronel, por sua vez, Entregava votos ao governador e o governador entregava deputados ao presidente. O presidente deixava o governador mandar no estado. Um servia ao outro. A dependência do eleitor era evidente. Onde o estado não chegava, o coronel chegava. Era ele que levava o doente pro hospital na cidade grande. Era ele que pagava o remédio, que botava comida
na mesa em um ano de seca, que arrumava o caixão na hora da morte, que falava com o delegado quando alguma Confusão acontecia, que emprestava dinheiro sem juros e sem documento. [música] O voto em parte era pago, era uma contrapartida de uma vida inteira de favores. E o que o coronel recebia em troca disso tudo? >> [música] >> recebia o estado, recebia o cargo de delegado pro sobrinho, o cargo público pro genro, a verba da estrada, a licença do comércio, ganhava o apoio da polícia, da justiça, do cartório. Em 1930, esse Modelo começa a ruir.
Vargas virou presidente e em 1932 criou a justiça eleitoral. O voto ficou secreto. A máquina do coronelismo quebrou, mas a lógica não morreu. Ela só trocou de roupa. O coronel sai do cavalo e entra no avião. A fazenda vira uma holding. O Jagunço vira assessor parlamentar. O delegado vira diretor de estatal. O curral vira base eleitoral e as famílias permanecem onde sempre estiveram. >> [música] >> Muitos dos sobrenomes que apareciam nas atas da Primeira República são os mesmos que aparecem na lista dos senadores que estão no poder nesse momento. Em alguns casos, esses sobrenomes vão
muito além da primeira república. A família Andrada, por exemplo, descendente de José Bonifácio, o patriarca da independência, tem alguém ocupando um cargo eletivo nacional desde 1826. São cinco gerações, 16 deputados e senadores, quatro presidentes da Câmara, Oito ministros, dois ministros do Supremo. A história dos nossos clãs políticos é sobretudo uma história de adaptação. Essa é a história de José Sarnei que eu citei no início desse vídeo. Sarnei começou na UDN. Quando os militares tomaram Brasília, ele virou arena, depois passou pro PDS, rompeu, ajudou a fundar a Frente Liberal, que virou PFL e acabou no PMDB.
cinco partidos em seis décadas. Sarnei foi deputado federal, governador, senador Pelo Maranhão, presidente da República e senador pelo Amapá. Presidiu o Senado quatro vezes. Ele construiu seu clã em torno de três âncoras. A primeira foi a Terra. Em 1969, no início do seu governo no Maranhão, Sarnei sancionou a lei número 2979, que entrou pra história como a lei Sarnei de Terras. O Maranhão tinha e ainda tem enormes extensões de terras públicas. Pela regra antiga, para vender uma terra dessas, o governo precisava Abrir concorrência. [música] Era preciso anunciar o lote, receber as propostas e vender para
quem cobrisse a oferta. A Lei Sarnei de Terras permitiu vender terras públicas o requerimento do interessado, sem a exigência prática de concorrência em todos os casos. A legislação colocou um único limite. Cada pessoa podia comprar no máximo 3.000 haares. O problema é que o limite valia por sócio. Se uma empresa quisesse comprar terra, cada um dos sócios dela Contava como uma pessoa diferente. Você juntava sem amigos ou sem parentes ou sem nomes que inventava no cartório, abria uma empresa com esses 100 sócios e essa empresa podia comprar 300.000 1000 haar de terra pública sem leilão.
O Maranhão carrega essa cicatriz até hoje. Nesse momento, 2,8% dos [música] imóveis rurais maranhenses ocupam mais da metade da área total do estado. 70 municípios mais pobres do Brasil estão [música] no Maranhão. A segunda âncora de Sarnei foi A televisão. A TV Mirante foi inaugurada em março de 1987, no meio do seu mandato presidencial. [música] A concessão foi dada por uma sociedade entre os filhos dele, Fernando, Rosiana e Teresa. Em 1991, a Mirante saiu do SBT e virou afiliada da Globo. Hoje é o eixo do sistema [música] Mirante, que cobre o estado inteiro em TV,
rádio e internet. Nós falaremos mais sobre isso até o final desse vídeo. A terceira âncora foi A família. A filha Rosiana foi deputada federal, governadora do Maranhão por quatro mandatos e senadora. O caçula Sarnei Filho foi deputado federal por nove mandatos e ministro do meio ambiente. O neto Adriano Sarnei foi deputado estadual. O genro Jorge Murade, marido de Roseana, foi secretário de planejamento da gestão dela. Fernando Sarnei, filho do meio, nunca disputou eleição, mas comanda o grupo Mirante. Foi membro do comitê executivo da FIFA e Em maio do ano passado chegou a ser nomeado presidente
interino da CBF. Quase todas essas pessoas foram alvo em algum momento de denúncias, investigações ou escândalos. E nenhum desses problemas com a justiça impediu o Sarnei de receberem inúmeras homenagens por todo o Maranhão. Por exemplo, essa aqui é uma cidade chamada Presidente Sarnei. Quem nasce [música] aqui é sarneiense. 17.000 pessoas vivem nesse lugar que tem um IDH No mesmo patamar do Haiti. Em 2016, ela foi classificada como a pior cidade do Brasil no índice de bem-estar urbano calculado pelo [música] Observatório das Metrópoles da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ter uma cidade inteira em homenagem
a você parece exagerado, mas é aqui em São Luís, na capital do estado, que as coisas passam de todos os limites. Aqui tem Avenida José Sarnei, tem rua José Sarnei em mais nove bairros. Tem travessa José Sarnei, tem Praça José Sarnei, tem a ponte Governador José Sarnei sobre o rio Anil, inaugurada em 1970 pelo próprio Sarnei quando era governador. E não para nele. Há também o Tribunal de Contas Palácio Roseana Sarnei, a rua Rosiana Sarnei, a travessa Roseana Sarnei, a vila Rosiana Sarnei, um bairro inteiro, a escola estadual Rosiana Sarnei Murad, a unidade integrada Rosiana
Sarnei Murad, tem Avenida Sarnei Filho, Rua Sarnei Filho, Vila Sarnei Filho, tem Maternidade Marli Sarnei em homenagem à esposa de Sarnei, rua Marl Sarnei, travessa Marli Sarnei, Praça Marl Sarnei, Tem também o fórum desembargador Sarnei Costa em homenagem ao pai do Sarnei e a rodoviária [música] Kiola Sarnei em homenagem à mãe dele. O domínio é tão abavaçalador que em Bom Jardim no interior do estado, existiu por anos uma escola pública batizada com o nome de uma neta de José Sarnei. Fernanda Sarnei tinha só 6 anos de idade quando virou o Nome de escola. São mais
de 100 escolas públicas espalhadas pelo Maranhão, batizadas com algum sarnei numa rede de ensino que figura entre as piores do país. Esse é um tipo bem particular de poder. Para essas famílias não basta governar o estado, é preciso renomear o estado. Quando uma família vira um nome de avenida, de fórum, de hospital, de escola, de bairro e até de cidade, ela deixa de aparecer só no debate político. Ela passa a aparecer na conta de luz, no Caminho do ônibus, no mapa do celular, no endereço da consulta médica. O clã vira [música] parte da paisagem. O
sarneísmo não é um caso isolado, é um modelo e modelo se repete. Vamos descer o mapa e sair do Maranhão, descer pela costa do Nordeste até esse estado aqui, [música] bem pequeno entre Pernambuco e Sergipe, com pouco mais de 3 milhões de habitantes. Essa aqui é Alagoas. Alagoas é um dos menores estados do Brasil. Esse lugar é quase um laboratório para Entender como funciona a natureza do clã político brasileiro. Porque numa área de pouco mais de 100 km [música] entre a capital Maceió, uma cidade do interior chamada Murici, uma cidadezinha menor ainda chamada Junqueiro e
[música] essa aqui no litoral chamada Barra de São Miguel, cabem três clãs que influenciam [música] o país inteiro. Desse pequeno pedaço de terra, em pouco mais de duas décadas, [música] saíram três figuras centrais da Nova República. um Presidente da República, [música] um senador que presidiu o Senado quatro vezes e um deputado que presidiu a Câmara em dois governos opostos, Colo, Calheiros e Lira. Três famílias em três bases territoriais e uma história que começa com tiro. No dia 4 de dezembro de 1963, no plenário do Senado, Arnond Melo, senador por Alagoas, sacou uma arma e disparou
contra o seu grande desafeto político, o outro senador do estado, Silvestre Pericles, e errou. Mas Não errou por pouca coisa. A bala foi parar num outro homem que estava [música] perto, um suplente do Acre chamado José Cairala, que morreu horas depois do tiro. Arn foi absolvido. A tese que prevaleceu no julgamento foi a de crime acidental. É o único caso da história do Congresso Brasileiro em que um senador matou outro homem dentro do próprio plenário e saiu sem ser preso. 26 anos depois desse tiro, [música] no ano de 1989, O filho de Arnon, um homem
chamado Fernando Color de Melo, foi eleito presidente da República. O primeiro presidente civil eleito por voto direto em décadas. >> [música] >> também o primeiro presidente a sofrer um impeachment na Nova República. Além do pai, o avô materno de Colo, Lindolfo Color, já havia sido deputado federal e ministro do trabalho de Getúlio Vargas. Com a vitória em 1989, a linhagem Atingiu o seu ápice, mas com o impeachman, a força eleitoral da família desabou. Color nunca mais foi o mesmo. [música] Em 2024, um sobrinho dele até tentou disputar uma vaga de vereador em Maceió, usando o
nome Fernando Colo na urna. >> [música] >> mas só recebeu 569 votos. Pouco tempo depois disso, foi preso, condenado a 8 anos e 10 meses de prisão por receber 20 milhões deais em propina. [música] Para Piorar, em setembro do ano passado, depois de quase cinco décadas no ar como afiliada da Globo, a TV Gazeta, emissora que o pai de Colo construiu, [música] perdeu o sinal da rede. A Globo rompeu com a família e passou a transmitir a sua programação no estado por outra emissora. O império ruil. [música] Mas Color não é o único sobrenome poderoso
de Alagoas. O segundo clã vem do interior, de Murici. O patriarca aqui é Renan Calheiros, senador há mais de 30 Anos. Renan está há mais tempo no cargo do que qualquer outro senador em atividade no Brasil. Antes do Senado, ele foi líder do governo Color na Câmara e ministro da justiça do governo FHC. também presidiu o Senado quatro [música] vezes. O filho dele, Renan Filho, foi prefeito de Murici, depois governador de Alagoas por dois mandatos e então ministro dos transportes do governo Lula. O irmão de Renan, Olavo Calheiros, é deputado federal por Alagoas. O outro
Irmão Renildo ocupou essa mesma posição por Pernambuco. A família está nesse momento ao mesmo tempo no Senado, na Câmara, no Ministério e no governo estadual, não em décadas diferentes. Hoje, o terceiro clã de Alagoas vem da cidade de Junqueiro, no Agreste, terra natal do patriarca Benedito de Lira. Mas a base recente da família é em Barra de São Miguel, um balneário pequeno, turístico, com pouco mais de 8.000 habitantes. Hoje quem manda nesse lugar É Artur Lira, filho de Benedito de Lira. Artur presidiu a Câmara dos Deputados em Brasília de 2021 até o ano passado. No
Congresso, Lira articulou parte do que ficou conhecido como orçamento secreto [música] e depois do sistema das chamadas emendas PICs. Mecanismos que permitiram aos deputados destinar bilhões de reais em verbas sem muita transparência. Até 2022, Barra de São Miguel havia recebido quase R$ 13 milhões deais em emendas do orçamento Secreto, cerca de R$.500 por habitante em 3 anos. Desse total, mais de 8 milhões foram assinados pelo próprio Artira. A média nacional em municípios desse tamanho é de R$ 42 por habitante. Agora vamos sair de Alagoas, [música] atravessar Pernambuco e analisar esse estado aqui, a Paraíba. Aqui
o mapa mostra duas variações do mesmo fenômeno lado a lado. Primeiro com a figura do coronel, da honra, do sangue, da rivalidade familiar. >> [música] >> Depois a do clã moderno com prefeitura, emenda, obra federal, poder legislativo. A primeira cena dessa história acontece no restaurante Guliver, [música] no bairro de Tambaú, na orla de João Pessoa. Quando o governador da Paraíba, um homem chamado Ronaldo Cunhaa, entrou nesse estabelecimento num dia quente de primavera de 1993, encontrou sentado jantando o ex-governador do estado, Tarcísio Buriti. Os dois eram inimigos políticos e dias antes Buriti havia acusado publicamente o
filho do governador, um deputado chamado Cásio Cunha Lima, de desviar verbas do combate à seca. [música] Ronaldo sacou um revólver e disparou três vezes contra ele. Burit sobreviveu após dias em coma e Ronaldo chegou a ser preso por algumas horas. Ele renunciou ao governo no ano seguinte e mais tarde viraria deputado federal e senador antes de morrer em 2012, sem Nunca ter sido condenado pelo crime. Esse não é o Brasil império, não é a República Velha. Nós estamos em novembro de 1993, foi praticamente outro dia. A base dos Cunha é Campina Grande, a segunda maior
cidade da Paraíba. Ronaldo foi prefeito. O filho Cásio foi prefeito, depois governador, depois senador. Romero Rodrigues, parente político do grupo, governou Campina Grande por dois mandatos. Bruno Cunha, neto de Ronaldo, Foi eleito prefeito em 2020 e reeleito em 2024 com quase 58% dos votos. [música] Em 2008, Cásio Cunha caverno da Paraíba por abuso de poder econômico, mas virou senador 2 anos depois, eleito com mais de 1 milhão de votos. A 300 [música] km de Campina Grande, no sertão paraibano, fica Patos. É a quarta maior cidade do estado e a base de outro clã. Em Patos,
[música] a família Mota Vanderley atravessa décadas. Naboranderlei foi prefeito em 1955. O neto Naborzinho foi prefeito em 2005. A sogra de Nabor, Francisca Mota, foi prefeita em 2013. Em 2020, Naborzinho voltou à prefeitura. Em 2024, ele foi reeleito com 73% dos votos. São sete décadas com o mesmo grupo familiar controlando a mesma cidade. Em fevereiro do ano passado, Hugo Mota, neto da família, médico que chegou a ser o deputado federal mais jovem da história brasileira, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. [música] Recebeu 444 votos dos 513 disponíveis. Foi o sucessor escolhido por Artur Lira.
Na prática, o que nós vimos nos últimos anos foi o controle da câmera sair de Barra de São Miguel dos Lira para Patos dos Mota, [música] de um clã pro outro. Mas essa história ainda não acabou. Agora é a hora de ir pro norte do país, mais especificamente no Pará, em Belém, na Bahia do Guajará. Em novembro do ano passado, por duas semanas, Belém virou uma vitrine do País. A cidade acolheu chefes de estado, diplomatas, empresários, ONGs e jornalistas do mundo inteiro. A capital do Pará foi vendida como a porta de entrada da Amazônia. Mas
Belém não é só isso. Belém é também a capital de uma das máquinas familiares [música] mais duradoras da política brasileira. A história desse grupo aqui, Os Barbalho, começa pequena. Começa com esse homem, Laércio Barbalho, deputado estadual nos anos 50. [música] Mas quem transforma a Família em outra coisa é o filho Jader. Jader Barbalho iniciou a sua trajetória política como vereador em Belém. Depois foi deputado estadual, deputado federal, governador do Pará por dois mandatos, ministro da reforma agrária do governo Sarnei, ministro da previdência do governo Itamar e senador pelo Pará. Em 2001, ele chegou à presidência
do Senado. O filho de Jader, Hélder Barbalho, foi eleito e reeleito governador do Pará. Em abril desse ano, Ele deixou o governo do estado para disputar uma vaga no Senado. A primeira vista, é a versão moderna do clã, jovem, articulado, preocupado com as questões ambientais. Mas essa reportagem do Estadão identificou pelo menos 20 parentes ligados à família barbalho ocupando cargos em órgãos públicos do estado no governo dele. A esposa do governador, Daniela Lima Barbo, é conselheira do Tribunal de [música] Contas do Estado, o órgão que julga as Contas do governo do marido, [música] cargo vitalício
até os 75 anos, com salário em torno de R$ 35.000 R por mês. A tia do governador, Mara Lúcia Barbalho, é conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios. O primo Lourival Barbalho Júnior é secretário adjunto do Tesouro Estadual. Outro primo, Alex Pinheiro Centeno, é desembargador do Tribunal de Justiça do Pará. Mais um primo, Igor Normando, foi eleito prefeito de Belém em 2024 e o irmão do Governador, Jarde Filho comandou o Ministério das Cidades no governo Lula. A pasta que distribui o programa Minha Casa Minha Vida. Quando o STF foi provocado por uma ação a anular
a nomeação da esposa do governador ao Tribunal de Contas, o pedido foi rejeitado. A jurisprudência da Corte é que a súmula vinculante 13 proíbe nepotismo na administração pública, mas não atinge cargos políticos. A lei brasileira barra o nepotismo mais Grosso, o sobrinho contratado direto pelo tio, mas abre exceção para indicações entre poderes, tribunais de conta, quinto constitucional, nomeações chanceladas por votação e o clã moderno aprendeu a se adaptar por [música] essas pressas da lei. O caso da Daniela Barbalho não é exceção. 32% dos conselheiros dos Tribunais de Contas estaduais brasileiros t parentes na política. Em
Alagoas e Sergipe, cinco em cada sete conselheiros tem parente Político. O Tribunal de Contas é, na prática, o cemitério institucional dos clãs, cargo vitalício até os 70 anos, salário equiparado ao de desembargador e poder de decidir se as contas do parente passam ou não passam. É uma mamata. Mas a nossa viagem pelo Brasil ainda não acabou. Durante quase três décadas, esse estado aqui, a Bahia teve uma sigla mais forte do que qualquer partido. ACM, Antônio Carlos Magalhães. ACM era filho do deputado federal Francisco Peixoto de Magalhães Neto. [música] E o filho começou cedo. Foi deputado
estadual ainda na UDN, deputado federal, prefeito de Salvador, governador da Bahia três vezes, ministro das comunicações do governo Sarnei, senador, presidente do Senado. Os baianos chamam de carlismo. O pilar simbólico do carlismo é essa emissora aqui, a Rede Bahia, afiliada da Globo. Seis emissoras de TV cobrindo o estado inteiro. TV Bahia em Salvador, TV Subaé em Feira de Santana, TV Santa Cruz Em Itabuna, TV Sudoeste em Vitória da Conquista, TV São Francisco em Juazeiro, TV Oeste em Barreiras. A Rede Bahia se descreve hoje como o maior grupo de comunicação no norte e nordeste do Brasil.
No coronelismo antigo, controlar território era controlar terra, delegado, cartório, giaunço. No carlismo, controlar território é também controlar a imagem do território. ACM construiu um clã. O filho ACM Júnior foi senador e comandou a Rede Bahia. O irmão Ângelo Magalhães foi deputado estadual, deputado federal e constituinte. O sobrinho Paulo Magalhães passou pela Assembleia e pela Câmara dos Deputados. [música] Paulo Magalhães Júnior chegou à Câmara Municipal de Salvador. Luís Eduardo Magalhães, filho de ACM, foi o seu herdeiro mais promissor. Chegou a ser presidente da Câmara dos Deputados [música] e era considerado por FHC um candidato natural à
presidência da República. Só que em 98, Luís Eduardo Morreu de um ataque cardíaco fulminante aos 43 anos, quando costurava uma candidatura ao governo da Bahia. [música] Em 2006, a família sofreu um BAC. A Bahia elegeu Jaques Wagner do PT, governador do estado. [música] Foi a primeira derrota estadual em larga escala do clã. No ano seguinte, a CM morreu. Desde então, o carlismo não é mais o mesmo. [música] ACM Neto, neto do patriarca, é o herdeiro do clã. E dá para dizer que ele tem um estilo bem Menos truculento que o avô. Foi prefeito de Salvador,
reeleito em 2016, com 74% dos votos. tentou o governo da Bahia em 2022, mas perdeu para Jerônimo Rodriguees também no PT. E se você acha que esse fenômeno é coisa do Nordeste ou da Amazônia, precisa conhecer esse clã aqui. A família Caiado tá fincada na política goiana há mais de 200 anos. Antes da República, antes da independência, [música] a linhagem começa ainda no final do século XVI, com Um homem chamado Manuel Caiado de Souza, que pediu seis Maria à coroa portuguesa. As terras ficavam à margem do rio Uru. Era terra, gado, parentela e poder local,
o roteiro clássico do Brasil profundo. Daí pra frente, geração após geração, sem interrupção, quase sempre houve um caiado em algum cargo de poder em Goiás. Olha a extensão da família. Antônio Ramos Caiado, o Totó Caiado, dominou a política goiana entre 1912 e 1930. foi deputado federal, senador e a Maior expressão do coronelismo de Goiás na primeira república. Mas Totó não governava sozinho. O irmão dele, Brasil Ramos Caiado, foi presidente do estado entre 1925 e 29, cargo equivalente na época a governador. Outro irmão, Leão de Ramos Caiado, foi senador estadual. Outro Caiado, Arnufo Ramos Caiado, foi
deputado estadual. Esse sistema atravessou o século XX em zigue-zague, mudando de regime, de partido e de constituição. Veio a República Velha, os Caiados estavam lá. Veio o Estado Novo, os Caiados seguiram. Veio a redemocratização de 1945, os caiados ocupavam o mesmo lugar. Veio a ditadura militar e na ditadura Leonino de Ramos Caiado, sobrinho de Totó, governou o Goiás. [música] Nesse tempo todo, os caiados não estavam apenas pedindo voto, eles também estavam controlando a terra. São centenas de milhares de hectares acumulados ao longo de girações. Fazendas espalhadas por dezenas de Municípios de Goiás. Rebanho de gado
de elite, comércio, pecuária, reservas de capital rural. Quando chega a Nova República e o Brasil passa a discutir uma reforma agrária, é em Goiás que aparece a resposta organizada dos fazendeiros com os Caiado. Em 1985, com a redemocratização e o avanço do MST, nasceu a União Democrática Ruralista, a UDR, e nasceu como uma entidade de produtores rurais. comprava gado em leilão para financiar campanhas, Articulava bancadas no Congresso, politizava o campo brasileiro. O presidente da UDR entre 1986 e 1989 era um neto de Totó Caiado, um médico ortopedista formado em Brasília, herdeiro direto da linhagem, Ronaldo
[música] Caiado. Em 89, com a UDR no auge, Ronaldo se candidatou à presidência da República. Esses grupos se uniram e montaram o PT. Tudo bem, foram unânimes, foram uniformes na crítica, Contundentes. Quando eles chegaram ao poder, eu posso garantir que é o que é o mais vistoso desastre administrativo já visto no Brasil. teve menos de 1% dos votos, mas a candidatura cumpriu uma função maior, nacionalizou o sobrenome e o projeto. Daí para frente, quase tudo deu certo. Cinco mandatos como deputado federal, senador, eleito e reeleito governador à duas vezes no primeiro turno. Em Goiás, os
Caiado não precisaram Abandonar a marca do campo para parecer modernos. Eles modernizaram a própria marca rural. Tudo que a gente viu até aqui do Sarnei no Maranhão aos Caiado em Goiás obedece a mesma lógica. O clã nasce ancorado na terra, tem uma cidade ou uma região que é o seu reduto, uma economia local que sustenta a sua base eleitoral, um patriarca que vira sobrenome e um sobrenome que vira marca. A família é dona do lugar antes de ser dona da política e é dona da política Porque é dona do lugar. Mas existe um caso recente
que não obedece a nenhuma dessas regras. Não tem fazenda, não tem TV local, não tem três gerações de prefeitos e mesmo assim, em 7 anos, virou um dos clãs mais poderosos da política brasileira. No Rio, da família Maia, Garotinho e Pisani, nós estamos vendo o nascimento de um clã em tempo real. Não é uma família instalada a gerações no mesmo território. O clã não nasceu da terra, da televisão, da Prefeitura ou do Tribunal de Contas. Os Bolsonaro vem de outro lugar. Vem da zona oeste do Rio de Janeiro, Campo Grande, Reialengo, Bangu, Santa Cruz, Guaratiba,
região historicamente associada a militares aposentados, classe média baixa, eleitorado evangélico. Jair Bolsonaro era capitão da reserva quando entrou na política. [música] tinha tido uma trajetória militar marcada por atritos com o próprio exército. Em 86, foi preso Disciplinamente após publicar um artigo na Veja reclamando de baixos salários da tropa. No ano seguinte, foi acusado de planejar explodir bombas em quartéis em protesto. Foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar em 88 e foi pra reserva. No ano seguinte foi eleito vereador do Rio, em 1990 deputado federal e aí ficou por sete mandatos consecutivos. Durante quase três décadas, Jair
foi um deputado de baixo clero da Câmara até 2018, quando [música] virou presidente da República. Os filhos seguiram seus passos. Flávio Bolsonaro 01 começou como deputado estadual no Rio e chegou ao Senado. Carlos Bolsonaro 02 virou vereador do Rio. Eduardo Bolsonaro 03 foi para outro estado. Virou deputado federal por São Paulo. Chegou a ser o deputado mais votado do país. Jair Renan 04 foi eleito vereador de Balneário Camburiu. Disputou o cargo usando como nome de urna Jair Bolsonaro o nome do pai. [música] E a Expansão familiar não para nos filhos. Rogéria Bolsonaro, a primeira esposa
de Aí, foi vereadora do Rio por dois mandatos. [música] Ana Cristina Vale, a segunda esposa, tentou carreira política no Distrito Federal. O mesmo fez Renato Bolsonaro, irmão de Jaí, no circuito eleitoral em São Paulo. Comparado com tudo que falamos até agora, o caso Bolsonaro tem uma estrutura totalmente diferente. O ativo do clã é a ideologia. Os Bolsonaros governam porque carregam Um conjunto de ideias que [música] mobilizam o eleitor. A família não tem uma cidade como reduto, tem uma faixa do eleitorado brasileiro espalhada por todos os estados. Se o clã tradicional é vertical, [música] preso num
pedaço de geografia transmitido pelas gerações, o clã Bolsonaro é horizontal. [música] Ele se espalha e se reorganiza onde aparece uma oportunidade. Não precisa de fazenda, [música] nem de TV, nem de prefeitura no interior. Precisa de Pauta. Por isso, sobrenome viajou. Eduardo foi [música] para São Paulo, Jair Renan foi para Santa Catarina junto com Carlos. Em outros tempos, isso seria impensável. Um Calheiros não vira deputado por Pernambuco, um Caiado não vira governador do Acre, mas o clã ideológico não tem geografia. E é exatamente por isso que [música] a família Bolsonaro é o caso mais difícil de
prever, porque ideologia se mantém ou se evapora muito mais rápido do que Terra, do que TV [música] e do que Tribunal de Contas. A geografia dos clãs políticos é, na larga medida, a geografia do Brasil. As mesmas famílias que ajudaram a construir o Brasil profundo, [música] as estradas, as escolas, os hospitais, os portos, os polos industriais, as redes de comunicação, construíram em paralelo redes pessoais de poder que limitam até hoje a renovação política do país. E essas redes funcionam como um circuito Fechado. [música] Quando uma família passa décadas no mesmo cargo, ela aprende muitas coisas.
Aprende a captar verba federal, [música] aprende a financiar campanha, aprende a indicar parentes pro Tribunal de Contas, aprende [música] a transferir voto pro filho. Isso significa, na prática que prefeitos de família política devem ser melhores no cargo do que prefeitos [música] sem família política, mais experientes, mais conectados, mais capazes de captar Recursos. Ou pelo menos é isso que a teoria diria. [música] Em 2015, três economistas, dois deles ligados à Universidade de Stanford resolveram testar essa tese. Eles publicaram um estudo analisando 17.000 candidaturas a prefeito no Brasil entre 1996 e 2012 e compararam o desempenho de
[música] prefeitos que tinham um clã com o desempenho de prefeitos que não pertenciam a um clã. Os pesquisadores descobriram [música] que os prefeitos de Famílias tradicionais na política gastam em média 8% mais do que os que não arrastaram a família pra política. Gastam 16% mais em despesas de capital, em obras, em infraestrutura. [música] Recebem entre 6 e 7% mais em transferências federais, mas eles não promovem diferença de crescimento econômico, nem de geração de emprego, nem de desempenho educacional. [música] nem de mortalidade infantil. Nessas cidades não há diferença em saneamento, Asfalto ou coleta de lixo. Ou
seja, os clãs gastam [música] mais, recebem mais e não entregam mais. Eles tiram mais do que põe. E por que continuam sendo eleitos? Em 2024, quatro pesquisadores, três brasileiros e um americano da MT publicaram uma pesquisa com essa pergunta: "O que se passa na cabeça do eleitor que escolhe em quatro eleições seguidas? sempre a mesma família. Os pesquisadores entrevistaram milhares de pessoas em 90 municípios pequenos de Sete estados do Nordeste e cruzaram esses dados com cadastro eleitoral de uma década e meia. Em 2020, no Nordeste, 42% dos candidatos a prefeito tinham o mesmo sobrenome de
algum candidato do passado. Em quase 30% dos municípios da região, a mesma família competiu em pelo menos quatro eleições seguidas. A conclusão dos pesquisadores foi a de que no Brasil rural o clã político é como um partido político informal, tem uma base de eleitores leais, uma marca fácil de Reconhecer e costuma competir com os mesmos rivais. A pesquisa chegou à conclusão que o eleitor que vota num lira em Barra de São Miguel muitas vezes não vota porque calcula qual é a melhor opção pra cidade, vota porque é um lira. Aquele sobrenome é como se fosse
o time dele nessa competição. É parte da identidade que ele carrega, que muitas vezes ele herdou do pai que vai passar pro filho. E os lir em Barra de São Miguel são apenas um caso entre dezenas Espalhadas pelo país. A lista das famílias que a gente acabou de visitar é apenas uma amostra. A geografia se repete pelo Brasil. No Acre, os irmãos Jorge e Tion Viana governam o estado cada um por dois mandatos consecutivos. No Piauí, os Portela Nogueira atravessam três gerações, o ex-governador Lucídio Portela, a deputada Miriam Portela e o atual presidente do PP
e ex-ministro Ciro Nogueira, neto de um, filho da outra. No Mato Grosso, os irmãos Júlio e Jaime Campos foram governador, prefeito, senador e deputado. Duas carreiras paralelas, mesma família, mesma cidade base, base grande. No Mato Grosso do Sul estão os Tebet. O pai Ramê Stebet foi governador e senador e a filha Simone foi senador e ministra do governo Lula. No Distrito Federal, Joaquim Roriz foi governador quatro vezes. As filhas dele, Jaqueline e Liliane, viraram deputadas. No Ceará, os irmãos Sid Gomes e Ciro Gomes foram governadores, ministros e Prefeitos. [música] Ivo Gomes, irmão deles, foi prefeito
de Sobral, cidade base do clã, por dois mandatos. [música] Em Rondônia, o senador Valdi Halp e a esposa Marinha Halp ocuparam ao mesmo tempo cadeiras no Senado e na Câmara. Em muitos desses casos, em algum momento, aparecem os mesmos elementos. [música] A família, num dado momento, ganha o controle de uma emissora de TV ou de uma rádio ou das duas coisas. [música] É o que a gente chama de coronelismo Eletrônico. A Constituição de 88 proíbe que parlamentares recebam concessões de rádio e TV. O artigo 54 é explícito. Deputados e senadores não podem firmar nem manter
contrato com pessoa jurídica de direito público. E concessão de rádio TV é exatamente isso. Um contrato com o estado por prazo determinado para explorar um pedaço do espectro rádioelétrico, que é juridicamente um bem público. Mas a regra tem uma brecha, a possibilidade da concessão não ficar Em nome do parlamentar, ficar em nome da esposa, do filho, do pai, do irmão, [música] de uma sociedade familiar com cinco sobrenomes diferentes. Em alguns casos, de ficar em nome de um aliado político, um nome de fachada juridicamente independente. O Brasil, na prática, decidiu que tudo isso é legal. Foi
durante o governo Sarnei que o nosso país viveu o que ficou conhecido como a farra das concessões. Centenas de Outorgas de rádio e TV foram emitidas pelo poder executivo nesse período. Antônio Carlos Magalhães foi o ministro encarregado de assinar boa parte [música] desses decretos. A TV Bahia da família Magalhães foi inaugurada no início do governo Sarnei, mas dois anos depois trocou de afiliação, saiu da Manchete pra Globo. Em dezembro de 86, Sarnei assinou o decreto que outorgou a concessão da TV Cabugi em Natal ao então ministro da administração, Aluío Alves, Patriarca de outro clã. A
emissora foi inaugurada em 87 como afiliada da Globo. A família Alves dominou a comunicação do Rio Grande do Norte por três décadas. Em 1990, o último ano do governo Sarnei foi a vez do governador do Ceará, Tasso Jereissat, [música] inaugurar a TV Jangadeiro em Fortaleza, que ele ainda controla. Em muitos estados a concessão da TV é só vitrine. Embaixo dela há um andar mais discreto, o das rádios comunitárias. Em 1998, uma lei criou um Regime especial paraa rádio comunitária. [música] A ideia era democratizar o veículo, dar voz a associações de bairro e comunidades rurais. A
primeira grande leva dessas concessões saiu na virada do século. Foram autorizadas 2205 [música] rádios comunitárias no Brasil nesse período. Dois pesquisadores Venício Lima e Cristiano Aguiar Lopes cruzaram a lista dessas rádios [música] com cadastros eleitorais e descobriram que Mais da metade delas tinham algum vínculo político partidário [música] identificável. Igreja ligada a vereador, associações de bairro ligada a deputado, cooperativa ligada a prefeito. Mas é na concessão de TV que essa associação fica mais nítida. Por exemplo, as gerações, o Rio Grande do Norte é governado por três famílias, os Maia, os Alves e os Rosado. Os Maia
detém a TV Tropical em Natal, [música] afiliada da Record. O sócio principal da emissora é José Agripino Maia, ex-governador e ex-senador por três [música] mandatos. O outro sócio é o filho dele, Felipe Maia, ex-deputado federal. Em torno da TV Tropical, a família estruturou ao longo dos anos uma rede de rádios espalhadas pelo interior. Os Rosado mantém a TV Mossoró. O clã é antigo. Diz Rosado foi prefeito de Mossoró três vezes. Rosalba Rosado foi governadora do Rio Grande do Norte. Sandra Rosado e Larissa Rosado são ex-deputadas. Os Alves eram donos da Rádio Cabujem Natal, da rádio
Difusor em Mossoró e do jornal Tribuna do Norte. Como eu disse antes, a TV Cabudi foi outorgada ao então ministro Aluíso Alves no governo Sarnei. Mas em 2017, com o clã mergulhado em problemas financeiros e judiciais, [música] quando Henrique Eduardo Alves, filho de Aloío, foi denunciado na Lava-Jato, todo o sistema foi vendido. Em Pernambuco, na cidade de Caruaru, [música] está a TV Asa Branca. A concessão foi outorgada em 89 ao então Deputado federal Inocência Oliveira, ex-líder do governo no Congresso. A emissora entrou no ar em 1991 como afiliada da Globo. A família continua no controle
até hoje. Também em 91, outra emissora entrou no ar em Pernambuco, a TV Grande Rio em Petrolina dos Coelhos. Os Coelhos são uma das famílias políticas mais antigas do Nordeste, dominam Petrolina há mais de 100 anos. Nilo Coelho foi governador de Pernambuco e presidente do Senado durante a Ditadura militar. O filho dele, Fernando Bezerra Coelho, foi senador e ministro. O neto Fernando Filho, foi ministro das comunicações no governo Temer, justamente a pasta que distribui concessões de rádio TV. O outro neto, Miguel Coelho, foi prefeito de Petrolina. A concessão da TV Grande Rio foi outorgada em
1990 pelo então ministro das comunicações, Antônio Carlos Magalhães, ao deputado estadual Geraldo Coelho, irmão de Nilo. Hoje a Emissora é controlada por Patrícia Coelho, filha do também ex-deputado Osvaldo Coelho. No Maranhão, além do sistema mirante do Sarnei, a filiada da Record também tá ligada a uma família política. A TV Cidade pertence ao ex-senador Roberto Rocha do PSB, filho do ex-governador Luís Rocha. O irmão dele, Luís Rocha Filho, foi prefeito de Balsas e morreu em 2023. No estado também opera o sistema Difusora. A TV difusora foi a primeira emissora do Maranhão, fundada em 1963 pelos irmãos
Bacelar, uma família política tradicional do estado. Em 1987, ela foi vendida ao governador Epitácio Cafeteira, mas quando Cafeteira foi pro Senado em 1990, [música] ele repassou a empresa pra família do governador eleito Edson Lobão. Sob o comando do Lobão, a difusora migrou da Globo pro SBT em 1991 [música] e construiu uma rede de 79 retransmissoras espalhadas pelo [música] Maranhão. Em 2017, o Ministério Público Federal entrou com uma ação pedindo a cassação das concessões da difusora com [música] base no artigo 54. Naquele momento, o filho do senador Edson Lobão, [música] Edinho Lobão, controlava 984 das 985
cotas da rádio e TV difusora. A cota restante estava com a esposa dele. Em [música] 2016, Edinho arrendou a rede para outro senador maranhense, o Everton [música] Rocha, do PDT. E algum tempo Depois vendeu de vez. O comprador foi um advogado chamado Willer Tomás de Souza, compadre de Ton. [música] Hoje o controle formal da emissora aparece em nome da irmã de Willer, Cristine Tomás, e de uma empresa chamada Difusora Comunicação SA. [música] Em 2023, o Estadão publicou uma reportagem mostrando que o ministro das comunicações de Lula, o deputado Jcelino [música] Filho do União Brasil do
Maranhão, havia assinado num único ano 31 autorizações de retransmissoras de TV para uma única emissora, a TV. Nenhuma outra emissora do país teve tantos pedidos do mesmo tipo atendidos naquele ano, enquanto 9.650 650 pedidos de retransmissão tramitavam no Ministério das Comunicações. [música] Os pedidos da difusora foram aprovados em prazo de 5 a 8 meses. [música] O diretor do departamento que aprovou esses pedidos foi nomeado em fevereiro daquele ano. O seu nome é Antônio Malva Neto e ele é ex-sócio de Willer Tomás no escritório de advocacia e ex-assessor parlamentar do senador Everton Rocha no Senado. [música]
Em setembro de 2023, Malva Neto despachou o pedido de rede nacional do grupo Difusora apenas 31 minutos depois do pedido chegar ao gabinete dele. Mas a lista de empresários do ramo da televisão envolvidos com a política não acaba no Maranhão. Em Alagoas, os calheiros também construíram sistema de Comunicação, mas essa história é diferente. [música] Em 1998, Renan Calheiros era senador e se preparava para disputar o governo do estado. O principal adversário dele, Fernando Color, detinha o grupo Arnond de Melo. [música] Com a TV Gazeta, filiada da Globo e diversas rádios em Alagoas. Renan decidiu montar
o próprio sistema. [música] Em sociedade com o usineiro e deputado federal João Lira, criou uma empresa chamada J Rádiodifusão. J de João, R de Renan. Mas os donos formais não eram nem João nem Renan, eram dois laranjas, um funcionário do gabinete de Renan do Senado e um corretor de móveis, amigo de João. Em 2007, no auge de uma crise no Senado, a revista Veja publicou uma reportagem mostrando que Renan tinha pagado quase R 15 milhão deais em dinheiro vivo para entrar na sociedade. [música] A reportagem mostrou que a operação foi feita à margem do imposto
de renda da justiça eleitoral e do Congresso. [música] Naquele mesmo ano, o Congresso presidido pelo próprio Renan, aprovou quatro novas outorgas de rádio em Alagoas, todas para JR Rádio Difusão. Dois anos antes, Renan e João Lira haviam rompido. Na partilha, Renan ficou com as rádios e o filho dele, José Renan Calheiros Filho, o Renan Filho, foi inserido formalmente como sócio. Hoje o sistema é controlado oficialmente por Renan Filho, atual senador, ex-governador de Alagoas, e pela esposa Dele, Renata Calheiros. Entre 2020 e 2021, quando o Renan Filho era governador, as rádios da família receberam mais de
R$ 1 milhão deais em verbas de propaganda do governo do estado. Goiás teve durante décadas o equivalente goiano dos Magalhães na Bahia, o grupo Jaim Câmara. A rede Anguera com 11 emissores de TV afiliadas da Globo cobrindo Goiás e Tocantins. Foi criada por Jaime Câmara em 1963. Jaime foi prefeito de Goiânia e deputado Federal. A concessão da TV Auera de Anápolis foi outada por Geisel ao senador Benedito Vicente [música] Ferreira, mas Benedito passou a toga paraa Jaime ainda na ditadura. Nesse momento, a terceira geração do clã [música] segue à frente do grupo. No Paraná está
a rede massa e a história dessa empresa começa em 1990, quando apresentador Ratinho foi eleito deputado federal pelo PRN, partido que tinha acabado de eleger Fernando Color, presidente. Em 2008, Ratinho comprou de um ex-governador do Paraná, Paulo [música] Pimentel, o pacote de quatro emissoras afiliadas do SBT: a TV Iguaçu, a TV Cidade, a TV Tibaji [música] e a TV Nipe, por R milhões deais em sociedade com o próprio SBT. [música] A TIUM ficou com 60% do controle. A rede Massa cobre hoje os 399 municípios do Paraná. A Massa FM é uma das maiores redes de
rádio do país, com afiliadas em 10 estados. Nos últimos Dois ciclos eleitorais, o filho do dono da emissora, o Ratinho Júnior, foi eleito e reeleito governador do Paraná. No Ceará, a TV Jangadeiro do sistema Jangadeiro é controlada diretamente pelo ex-governador e ex-senador [música] Tasso Jereissat, mas Tácio é casado desde os anos 70 com Renata Queiroz Jereissat, uma das herdeiras do industrial Edson Queiroz. Edson Queiroz era dono do sistema Verdes [música] Mares, afilihada da Globo no Ceará. Ele Morreu em 82 quando a esposa Yolanda assumiu o grupo. Em [música] 2016, com a morte de Yolando, o
controle passou pros seis filhos, entre eles Renata, esposo de Tasso. Táo, portanto, controla diretamente o sistema jangadeiro, afiliada da SBT. E pelo casamento também pertence à família que controla a filiada da Globo [música] no Ceará. Em Rondônia, a maior parte das emissoras de rádio do estado também pertencem a membros [música] da classe política. O Senador Assir Gurgat é dono da editora Diário da Amazônia. Jornal Rádio TV. O ex-governador e ex-senador Ivo Caçol é dono de uma emissora de rádio. O ex-senador [música] Odaci Soares tem a empresa de rádiodifusão Guaporé. O já falecido ex-deputado federal Antônio
Mourimoto conseguiu três concessões em três cidades estratégicas: Porto Velho, Giparaná e Vilena. [música] O ex-vice-governador Assis Canuto é sócio Da empresa de rádiodifusão Nova Fronteira. No Pará, os barbalhos estão no controle da Rede Brasil Amazônia. A RBA não foi fundada pela família. Em dezembro de 88, ela foi inaugurada pelo empresário Jair Bernardino. Mas 8 meses depois da inauguração, Bernardino morreu no acidente aéreo na baía de Guajará, perto de Belém. Os herdeiros decidiram vender a empresa. [música] Em 1990, no mesmo ano em que foi eleito o governador do Pará, Jard Barbalho comprou a Rede Brasil Amazônia.
Em 93, a RBA migrou da Manchete que estava em colapso para Bandeirantes, onde permaneceu até hoje. A rede cresceu desde então e hoje cobre 80% do território paraense com 42 retransmissoras. Em paralelo, Jader e a esposa Elsione Barbalho, deputada federal, a sete mandatos, compraram a Rádio Clube do Pará, a primeira emissora de rádio do Pará e da região norte. Junto com ela vieram o Sistema Clube do Pará de Comunicação, a Caja FM e a Belém Rádiofusão. Em 2016, o Ministério Público Federal entrou com cinco ações pedindo a cassação de todas essas concessões com base no
artigo 54. No ano seguinte, Jader e Elsioni transferiram as suas cotas pros filhos. Jader passou as suas pra filha Giovana. Elsione passou as suas pro filho Jader Filho e Hélder Babalho, o atual governador do Pará. Os alcolumbre no Amapá controlam praticamente toda a TV aberta do estado. A família é dona de três emissoras de TV Em Macapá. A TV Amazônia, retransmissora da Bandeirantes, a TV Macapá, retransmissora do SBT, [música] e a TV Kinócio, antiga TV Marco Zero, retransmissora da Record. Há ainda outras duas rádios na capital, a 99 FM e a Jovem Pan News. No
estado inteiro, das quatro afiliadas das grandes redes de TV aberta, três são da família. A única exceção é a Rede amazônica afiliada da Globo. A peça mais notável dessa engenharia é a TV Amazônia. Segundo Dados da Receita Federal, o único sócio cadastrado da empresa é Davi Alculumbre, atual presidente do Senado. A empresa foi fundada em março de 1989, quando Davi tinha 11 anos. O irmão dele, Josiel, primeiro suplente de Davi no Senado, declarou em 2020 R$ 30.000 em participação na TV. Mas no registro formal, Davi consta como único proprietário. [música] Em 2019, o então deputado
federal Davi Ocolumbre apresentou na Câmara um projeto de lei Para rebatizar o aeroporto internacional de Macapá. O nome escolhido foi Alberto Alcol Columbre, tio dele. Projeto foi aprovado. Hoje quem aterriça em Macapá pousa numa pista que carrega o sobrenome do dono da TV local. No Tocantins, estado criado em 1988, depois de um esforço de décadas do então deputado federal José Wilson Siqueira Campos, [música] os Siqueira Campos também construíram sistema de comunicação. Em 82, ainda no governo Figueiredo, Siqueira Campos recebeu uma concessão de rádio que leva o nome dele até hoje, a Rádio [música] Siqueira Campos,
em Colinas do Tocantins. Em 85, ganhou outra concessão em Porto Nacional. Siquera Campos governou o Tocantins três vezes. Ele morreu em 2017. O filho dele, Eduardo Seigueira Campos, foi prefeito de [música] Palmas três vezes. Deputado federal, senador e depois assumiu a presidência das afiliadas da Record no Tocantins. Outra ex-senadora do estado, Ktia Abreu, controlava com a família o SBT do Tocantins, mas em 2018 vendeu metade da operação e dois anos depois vendeu o restante. Em Roraima, a história se [música] repete. Em março de 1990, no penúltimo dia do mandato, o governo Sarne aprovou uma outorga
de concessão de retransmissão de TV em [música] Horaima pra Fundação de Promoção Social e Cultural de Horaima. Anos depois, essa concessão foi transferida para Buritis Comunicações, Empresa controlada por Rodrigo Jucá, filho do então senador Romero Jucá. Romero Jucá foi afiliado político de Sarnei desde os anos 80, quando presidiu a FUNAI. Em seguida, foi governador de Roraima quando o estado ainda era território federal [música] e senador a partir de 95. Investigações do Ministério Público de Roraima apontaram Jucá como proprietário de três emissoras no estado. A TV Caburaí, [música] a filhada da Band, a TV Imperial, Afilihada
da Recó e a Rádio Equatorial 93.3 FM. A TV Imperial é administrada formalmente pela filha do senador Marina Jucá. A TV Caburaí pela cunhada Rosilene Brito. Em Sergipe, as duas maiores afiliadas do estado pertencem à mesma família. A família Franco está na política sergipos. Augusto Franco foi senador, governador e deputado federal. A concessão da TV Atalaia em Aracaju foi obtida pelo grupo empresarial dele em 1972, quando era Senador. [música] A emissora entrou no ar em 1975, começou como afiliada da TUPI, passou pela Bandeirantes, pelo SBT e desde 2006 é afiliada da Record. Hoje é controlada
por Walter Franco, filho de Augusto e pelo neto Augusto Franco Neto. A TV Sergipe, afiliada da Globo, tem uma origem diferente. Foi fundada em 1971 por um grupo de 10 sergipanos, mas em 81, Albano Franco, filho de Augusto, comprou a emissora. Hoje a TV Sergipe é controlada pela viúva e pela filha do Irmão de Albano, César Franco. Tá tudo em família. Deu desânimo? Tudo que a gente viu até aqui, os clãs, as concessões transferidas pros filhos, [música] os tribunais de contas nas mãos das esposas, tudo isso poderia parecer aleatório. 27 estados, 27 histórias. Mas não
dá [música] para dizer que tudo isso é uma grande coincidência, porque essas coisas acontecem justamente no nosso país, porque as mesmas 200 famílias Atravessam 500 anos de história brasileira ocupando os mesmos lugares de poder. Porque essa é a nossa história. Em 1534, antes da palavra brasileiro significar alguma coisa, o rei de Portugal, Dom João I, tomou uma decisão administrativa. Ele pegou o mapa da colônia recém-escoberta e dividiu o território em 15 faixas paralelas que iam do litoral pro interior. Em seguida, ele entregou cada uma dessas faixas para um homem diferente. Esses homens não Eram funcionários
do rei. Eles ganhavam o direito de administrar [música] a faixa como se fosse propriedade privada. Podiam cobrar impostos, distribuir terras, abrir vilas, julgar disputa, comandar tropa e na hora da morte passar tudo pro filho. Você aprendeu isso na escola. Essas faixas se chamavam capitanias hereditárias. [música] O Brasil, antes de ser Brasil, nasceu como uma colônia em que 12 famílias receberam por carta do rei o direito de governar Pedaços de um continente [música] e de transmitir esse direito através dos séculos. A maior parte dessas capitanias fracassou. [música] Algumas viraram a base do que hoje são estados
inteiros. São Vicente virou São Paulo, Pernambuco virou Pernambuco, a Bahia de Todos os Santos virou Bahia. Mas a fórmula ficou: privatizar [música] a função pública, transmiti-la por herança, misturar o cargo do Estado com o patrimônio da família, tratar pedaços De país como propriedade. A primeira coisa que o nosso país fez antes mesmo de virar um país, antes da palavra Brasil existir, foi se entregar a um pequeno grupo de [música] famílias. Quase 500 anos depois, isso ainda é em larga medida o que o Brasil é. É verdade que capitania mudou de nome, virou cesmaria, [música] patente
de coronel, cadeira no Senado, afiliada da Globo, conselheiro do Tribunal de Contas, escola com nome de Neta do senador. Cada século inventa uma nova forma de chamar a mesma coisa. Mas o [música] gesto inicial, o gesto de 1534 de entregar pedaços do país a um pequeno grupo de famílias e deixar essas famílias passarem o pedaço pros filhos nunca foi desfeito. Esse é o Brasil, não o Brasil que aparece na propaganda política. [música] Esse é o Brasil das capitanias atualizadas. Das 12, 20, 300 famílias que governam pedaços do país à gerações, em algum Nível, em algum
cargo, com alguma sigla em algum lugar. Esse é o Brasil que governa o Brasil. เฮ [música] [música] [música]