Meus queridos irmãos e irmãs, hoje celebramos Missa votiva pelos sacerdotes, porque com grande alegria e, ao mesmo tempo, com grande responsabilidade e pedido de perdão a Deus eu celebro vinte e nove anos de ordenação sacerdotal. Quero agradecer desde já a presença caridosa dos irmãos de sacerdócio que vieram aqui concelebrar e me ajudar a agradecer e a pedir perdão. Essas duas coisas precisam ser feitas hoje, e para fazê-las bem, para fazer essas duas coisas, fazê-las bem, é necessário responder a uma pergunta: “Quem és tu?
” Quando apareceu São João Batista, os fariseus e os chefes dos judeus enviaram embaixadas até ele para perguntar: “Quem és tu? ”, porque não sabiam quem era João Batista, se ele era o próprio Messias, se ele era o profeta que deveria ser esperado. “Quem és tu?
” E se essa pergunta cabe a São João Batista, ela cabe muito mais ao sacerdote, e essa é a primeira grande missão do sacerdote: mergulhar no seu próprio mistério. “Quem és tu? ” Nós podemos responder, tentar enxergar um pouco do mistério do sacerdócio católico, dizendo, em primeiro lugar, com relação àquilo que o sacerdote é… Naturalmente, quem é o sacerdote?
Vamos usar as palavras que Jesus usou para Santa Margarida Maria Alacoque: “Quem és tu? Um abismo de miséria e de ignorância”. Esse é o padre.
Porque o padre é escolhido dentre os homens. Deus poderia ter escolhido sacerdotes de outra categoria de pessoas; Deus poderia ter escolhido uma das ordens angélicas para serem sacerdotes; Deus poderia ter designado às potestades do céu que fossem elas os sacerdotes, e então nós teríamos sacerdotes que não seriam “miséria”, mas teriam uma altíssima dignidade natural e que não seriam ignorantes, mas que veriam a Deus face a face. E no entanto Deus escolheu pobres homens que andam neste mundo às apalpadelas.
Deus não escolheu a Virgem Maria para ser sacerdote. Se o tivesse feito, teria constituído um sacerdócio imaculado, um sacerdote santíssimo. No entanto, Deus escolheu como instrumento a pequenez, a miséria de sacerdotes homens, iguais aos outros homens.
E, portanto, quando os incrédulos dizem que: “Ah, o que vocês querem com o padre? Padre é um homem qualquer”, o que nós devemos dizer é: “É verdade. O padre é um homem qualquer”.
Essa é a primeira coisa: “Quem és tu? ” O padre é realmente um homem qualquer, “um abismo de miséria e de ignorância”. Mas nesse abismo de miséria e de ignorância Deus quis depositar um tesouro altíssimo, constituindo o sacerdote a maior dignidade que possa existir na face dessa terra.
Nós católicos sabemos: se por aqui viesse um rei com a sua corte, ou um presidente da república, ou um grande magnata bilionário, dono da maior empresa do planeta; se aqui viessem grandes dignatários e pessoas importantes, nenhum cargo de importância neste mundo precederia o sacerdote. O sacerdote, por encargo humilde que ele tenha, seja pequeno pároco de aldeia lá nas lonjuras do Pantanal, o sacerdote, ele tem uma dignidade maior do que a de todos os seres humanos na face desta terra. Por quê?
Porque, embora ele seja um abismo de miséria, ele é instrumento do próprio Deus para nos trazer a Deus. O que seria de nós sem os sacerdotes? Essa é uma pergunta que me vem sempre, todas as vezes que eu quero refletir sobre o mistério daquilo que Deus me chamou a ser: “Quem és tu, padre?
Quem és tu? ” E para saber quem é o padre eu me imagino em um mundo sem sacerdotes, um mundo sem a Eucaristia, um mundo sem o perdão dos pecados, um mundo sem a pregação da Palavra com a autoridade dos pastores, um mundo onde ninguém tivesse autoridade sobre o Corpo de Cristo na Eucaristia e autoridade sobre o Corpo de Cristo que é a Igreja. Não, meus queridos.
O sacerdote, de fato, é “um abismo de miséria e de ignorância”, mas é ao mesmo tempo constituído por Deus como instrumento, e por isso não é exagero dizer: o sacerdote é um homem divino. O sacerdote é um homem divino, e exatamente por isso, por causa de sua altíssima dignidade, por causa daquilo que ele é — instrumento direto com o qual Jesus toca com suas mãos —, exatamente por isso o sacerdote é atacado de todos os lados. Porque aí vem a terceira coisa.
“Sacerdote, quem és tu? ” Número um: miséria e ignorância; número dois: grandíssimo dom de Deus, constituído em dignidade acima da de todos os homens e, por isso — número três —, chamado por Deus a viver o exercício de configurar a sua vida a Cristo, pois “o discípulo não é maior do que o seu Mestre. Perseguiram a mim, perseguirão também a vós; odiaram a mim, odiarão também a vós”.
E aqui o sacerdote deve se perguntar seriamente: se ele é instrumento de Cristo, algum incômodo ele deve causar no mundo. Não é que nós precisemos ser perseguidos da mesma maneira, mas algum incômodo nós devemos estar causando a Satanás, àqueles que são seguidores de Satanás, o mundo, e algum incômodo nós devemos estar causando em nossa própria carne. Ou seja, esses são os três inimigos da alma, o diabo, o mundo e a carne.
E se nós estamos sendo verdadeiros e santos sacerdotes, conforme aquilo que Deus quer, em primeiro lugar você, padre, deve estar sumamente incomodado, porque o ser sacerdote deve incomodar a sua carne, e a sua carne arma a maior perseguição e a maior batalha contra você mesmo, padre. Claro, porque se os três inimigos da alma são Satanás, o mundo e a carne, então Satanás, o mundo e a carne são os arqui-inimigos do sacerdote. Então Satanás não quererá, não irá desejar que você continue sendo padre.
Ele irá fazer de tudo para arrancá- lo do sacerdócio, por uma doença física, por uma perturbação ou descontrole emocional e psiquiátrico, por uma tentação moral de pecado, por um escândalo, uma calúnia, uma armadilha… Satanás fará de tudo para você deixar o sacerdócio. E o próprio mundo. O mundo irá dar mais opções.
O mundo irá dizer: “Mas para que tudo isso? Para que ser padre, diferente dos outros? Seja igual a nós”.
E os argumentos que Satanás e o mundo apresentam são argumentos até aparentemente virtuosos: “Para que essa soberba? Seja humilde e se comporte como os outros. Todo o mundo vai por aí de calça jeans.
Por que você anda vestido diferente? Todo o mundo vai ao shopping, todo mundo vai à praia. Você também tem direito, você também pode…”.
E o mundo vai armando armadilhas para dizer: “Vamos, seja igual a todo o mundo”, e quando você for igual a todo o mundo, padre, o mundo não terá mais padres. Porque Jesus não escolheu os Apóstolos para serem “como todo o mundo”. Jesus escolheu os Apóstolos “para estarem com Ele e enviá-los em missão”.
Ter uma vida recolhida, de intimidade, de amor e de oração não é uma “coisa” opcional na vida de um padre. Finalmente, o grande inimigo que é a carne. Porque, depois que colocamos para fora as tentações demoníacas; depois que fechamos a porta da casa paroquial, desligamos os computadores e os celulares e deixamos as tentações do mundo lá fora, vem a tentação da carne, e quando eu digo “tentação da carne”, não pensem logo em tentações sexuais, porque essas não são as piores.
A maior tentação pela qual eu passo e passei durante esses vinte e nove anos de padre é a tentação de certo ódio contra mim mesmo, um ódio contra mim mesmo que diz: “Mas eu não mereço ser padre”, e isso é verdade. “Mas eu não deveria ser assim, eu deveria ser outra pessoa. Eu deveria ser diferente”.
Um ódio contra mim mesmo quer dizer o seguinte. Se eu tivesse uma escolha; se Deus enchesse a Arena Pantanal — que é o estádio de futebol aqui de Cuiabá — de milhares de filhos do meu pai e da minha mãe, todos eles virtuosos, com qualidades intelectuais, emocionais, físicas melhores do que as minhas, eu nunca me escolheria. Se eu tivesse de escolher entre esses milhares de homens para nascer, filhos do meu pai e da minha mãe, eu teria escolhido uma pessoa melhor.
Existe uma espécie de “agressividade passiva”, de falta de amor-próprio à luz do olhar de Deus que depois se transforma em falta de amor ao próximo. Porque, exatamente porque eu não me amo, eu não me escolho. A tendência é tratar o outro com distância, com indiferença e com desprezo.
Mas nós temos de crer, nós temos de crer que fomos escolhidos. Eu digo a vocês, meus irmãos sacerdotes aqui — alegria de ter hoje dez padres aqui conosco —, eu digo a vocês: Deus escolheu você; creia nisso. Você não se escolheria.
Existe dentro de nós, naqueles que ainda não alcançamos um grau de santidade superior e que ainda estamos patinando na busca da santidade, existe dentro de nós um grave “espinho na carne” que é o fato de nós não nos amarmos como Deus nos ama. Nós nos amamos querendo ser outra coisa; nós nos amamos querendo ser um personagem; nós nos amamos querendo ser sei lá o quê… Mas Deus nos chama a nos amarmos como somos. Aceite-se.
Aceite sua miséria, aceite sua miséria e seu abismo de ignorância e diga a si mesmo: “Coragem. Ele te chama, Ele te escolheu, Ele te quis. Você não se quis”.
O Pe. Overland e o Pe. José Tiago sabem muito bem que eu não queria essa Missa.
Faz duas semanas que eu “esperneio”. Eu tinha pedido ao Pe. José Tiago para falar com o Pe.
Overland: “Padre, o senhor celebra a Missa. Eu quero celebrar a Missa no dia do meu sacerdócio escondido, quieto no meu lugar”. Mas depois eu vi que isso era uma tentação da carne, do inimigo da alma, uma tentação que dizia: “Já que eu não me amo, ninguém pode razoavelmente me amar.
Já que eu não me escolheria… Que ilusão é essa? Eu estou enganando as pessoas. Eu vou fazer festa de sacerdócio para quê?
Para enganar as pessoas? Para elas acharem que eu sou alguma coisa? ” Mas a grande verdade, meus irmãos, é que, sendo um abismo de miséria e de ignorância, Deus nos escolheu e fez de nós… e nos constituiu para estarmos com Ele e para sermos instrumentos de salvação no mundo.
Isso nos confunde, isso nos deixa divididos a nós sacerdotes. O diabo vem e vem ao nosso ouvido para nos tentar, para que a gente tenha uma falsa humildade e diga: “Eu não sou nada”. Mas nós temos de nos erguer acima dessa tentação e dizer: “Não, eu sou.
Sou um abismo de miséria e de ignorância escolhido por Deus”. Por isso o povo faz bem em crer no Cristo em mim. O povo faz bem em se inclinar para beijar as nossas mãos.
O povo faz bem em confiar no poder do nosso ministério. O povo faz bem, porque o que seria do mundo sem sacerdotes? O que seria do mundo sem homens — abismo de miséria e de ignorância — que se dispusessem a dizer: “Sim, Senhor, eis-me aqui para ser instrumento dos vossos sacramentos e da vossa Palavra, para oferecer o santo sacrifício no altar”.
Termino essa homilia como a comecei, perguntando como os mensageiros dos sumos sacerdotes e fariseus a João Batista: “Quem és tu? ” Quem é o sacerdote? Os inimigos do sacerdote dirão: “É um homem qualquer”, e nós diremos: “Não, é pior ainda.
Nós somos ‘abismo de miséria e de ignorância’”, mas abismo de miséria e de ignorância escolhido, eleito para ser instrumento de Deus para a salvação de muitos. Rezem, meus queridos, rezem pelos sacerdotes, para que, depois de um ministério fecundo e depois de termos salvado tantas almas, não nos percamos nós, não nos desviemos nós e não terminemos nós, com estas marcas benditas do Ressuscitado em nossas mãos, no abismo do Inferno para pagar pelos nossos pecados. Que Deus tenha misericórdia também de nós, e que Nossa Senhora, na porta do Céu, interceda em nosso favor e diga ao seu Filho: “Mas, Jesus, é verdade; ele não foi muito santo, não… Mas ele salvou a tantos.
Tem piedade dele, Jesus”.