Não posso bater, então não posso fazer nada. E aí a gente migrou de uma educação autoritária para o pior tipo de educação que tem, que é a permissiva. Agora, é interessante você estar falando, mas assim, essa questão de privacidade, eu sempre fui contra esse negócio de privacidade de criança e adolescente.
Mas eu me lembro que eu tinha muita dificuldade com os pais quando eu falei assim: "isso não existe, isso é você não querer ter essa responsabilidade". Eu estou entendendo, mas você achar que ele tem a autonomia para decidir tudo, tem uma coisa errada. Sabe aquela?
A maioria tem uma cultura, e eu acho que no Brasil, não sei, que as pessoas falam assim: é aquela mãe que vai tomando conta, vai tomando conta, aí chega na adolescência, do nada, essa mãe fala assim: "não, ele agora toma remédio". Aí você fala: "quantos anos? " "12".
"Não, ele tem que se virar, ele tem que se virar sozinho". Ela deu o remedinho até, sabe? Aí você fala assim: "então vamos fazer um teste".
Ele começa fazendo assim: ele toma um remédio no final de semana que você está por ali para ajudar, fiscalizar. Não, não, eu já falei: "acabou, acabou". Do nada, ela resolve que ele cresceu, decreta, emancipa.
E não é assim que ocorre, não é? Assim, a minha opinião é que há uma. .
. a gente vive hoje uma crise na parentalidade, e eu acho que não é só no Brasil, tá? E nem acho que é classe social, mais pobre ou mais rica.
Eu acho que é geracional, é a geração de pais atual, na qual eu me incluo, que eu tenho duas filhas adolescentes. Essa geração é uma geração de pais e mães disfuncionais, no sentido de que disfuncional porque não cumpre a sua função de adulto dentro de casa, dentro da família. Então, assim, eu sempre falo que quando eu faço palestras para os pais nas escolas, eu sempre falo e pergunto.
E é até legal porque eu vejo as mãozinhas levantadas lá dos pais e das mães. A minha geração, de quando eu era criança, né? Que é a geração de pais hoje em dia, criança, adolescente, pessoal que foi ali na infância nos anos 80, anos 90, o finalzinho ali dos geração X e millennials, nós fomos criados por pais autoritários e muitas vezes violentos, né?
Então, muita gente apanhou. Eu apanhei muito. Eu pergunto assim: quem aqui tomou puxão de orelha, palmada, chinelada?
A maioria levanta a mão. Mesmo quem nunca apanhou, foi criado de forma violenta. Ouviu frases do tipo: "não discute comigo, faz o que eu estou mandando porque eu sou sua mãe"; "engole o choro, para de chorar, senão vou te dar um motivo para chorar de verdade"; e coisas desse tipo.
Você vai fazer porque sim, ponto final. E aí vieram as teorias da parentalidade positiva, da educação não violenta, do apego e da importância da educação socioemocional, que é tudo maravilhoso. O problema é que as pessoas se perderam, as pessoas não entenderam.
Padrão por outro, não fez uma composição. As pessoas não entenderam porque, quando a gente conversa com educadoras parentais sérias de educação positiva, por exemplo, ninguém fala que é para deixar fazer o que quer. Ninguém fala que é proibido proibir, né?
As pessoas não entenderam, as pessoas se perderam. As pessoas falaram assim: "não posso bater, então não posso fazer nada". E aí a gente migrou de uma educação autoritária para o pior tipo de educação que tem, que é a permissiva.
Então, assim, os pais hoje são muito permissivos. Então eles não conseguem dar limite. Eles não conseguem exercer o papel de adulto.
Eu falo assim que parece. . .
eu vejo isso na minha sala de audiência porque dá ruim. Chegar lá, as escolas veem isso no gabinete lá da diretora, e você certamente vê, e os psiquiatras, os psicólogos nos consultórios. Parece que tem um bando de adolescentes morando junto e não tem adulto em casa, né?
Porque adolescente, no sentido do que é o adolescente, é um ser egoísta, impulsivo, que quer recompensa imediatamente, que não quer a parte chata da vida. Tudo bem o adolescente ser assim. A gente já teve lá também, tudo bem o adolescente ser assim.
Não tem nada de errado com o adolescente que é assim. Exato. O que é errado é um adolescente que tem 40 anos de idade.
Tem um psiquiatra que é meu amigo, que eu amo, que é o Ricardo Krause, que atende adolescente e tal. Ele fala uma frase que eu adoro, que é: "a gente vive uma epidemia de adolescência na sociedade. Os poucos adultos que a gente tem aí têm que tomar conta de todo mundo".
Então é isso que está acontecendo, né? E aí, quando você fala que uma mãe vira para o filho e fala assim: "ah, ele que vai tomar o remédio dele, se não tomar, o problema é dele", parece que a minha filha falando com a irmã, né? Parece papo de irmão, não parece papo de mãe?
Porque quando a gente estava lá nos anos 80, nunca que uma mãe ia falar isso. Nunca que uma mãe ia lavar as mãos e falar: "esse problema é meu". Então eu acho que isso é uma questão.
E aí você sabe melhor que eu que faz falta. Contorno, aí falta norte. E aí vem a depressão, e aí vem a vida sem sentido, vem a automutilação, e aí vem o que a gente está vivendo, e vem as taxas aumentando de suicídio.
De suicídio, exatamente. Suicídio, segunda maior causa de morte de adolescente hoje, disparado, podendo ser a primeira em breve, porque está aumentando em progressão geométrica. Mundial, mundial.
Por isso que eu digo que isso é geracional. Isso não é do Brasil ou da América Latina, ou de quem é muito pobre ou de quem é muito rico. Isso daí é algo que é dessa geração de pessoas.
E aí essa é a luta, né? Então, assim, o que eu acho que é um dos aspectos do nosso trabalho é tentar trazer uma conscientização das famílias sobre a importância de assumir esse lugar de adulto. E aí, dentro desse lugar de adulto, existe.
. . Eh, uma coisa que é compreender é que o ambiente virtual não é um ambiente privado, é um ambiente público.
Segundo, não é um ambiente seguro, porque quando as famílias entendem isso, que não existe privacidade na internet, tudo é monitorado o tempo todo. E deveria ser mais, até é preciso mais monitoramento do que acontece. Fica fácil a gente monitorar; você modera em casa porque a meta está moderando, o TikTok está moderando, o Google está moderando.
E está mesmo. E eu posso falar assim, eu posso provar por A mais B porque eu recebo toda semana investigações contra adolescentes por crimes digitais, crimes cibernéticos, que vieram, por exemplo, via Interpol, mas que quem disparou a investigação foi a big tech que monitorou o que aquele adolescente estava fazendo na rede, viu que tinha conteúdo criminoso e mandou pra Interpol ou mandou pro NICMEC, que é hoje a principal organização de combate à pedofilia, né, ao abuso sexual infantil na rede e tráfico de pessoas. Então, o que acontece?
A mãe não sabe, mas o Google sabe. Aí vai a polícia, bate na porta e mostra uma foto, fala assim: "Você conhece isso aqui? " Tive um caso de um menino de 14 anos com muito material de pedofilia.
14, 14. E aí ele fazia o upload dessas fotos e vídeos no Google Fotos dele, na nuvem, na nuvem pessoal dele, particular. Entendi, entendi.
Bateu lá a foto de uma criança sendo abusada. O Google manda para a Interpol na mesma hora. E era um bebê que estava sofrendo abuso.
Aí a polícia chega na casa dele, bate na porta. A mãe atende, a polícia mostra a foto e fala assim: "A senhora conhece esse bebê? " Ela respondeu: "Conheço, é o irmão do meu filho por parte de pai.
" Gente, precisa levar seu filho para a delegacia! Então, assim, é assim que a família fica sabendo que o adolescente está envolvido em um ato criminoso: pela polícia. Porque não monitora.
Porque se moderasse, se monitorasse, se supervisionasse, quanto tempo levaria para descobrir que o menino está numa comunidade de pedofilia no Telegram, né? E você sabe que muitas vezes começa não é nem porque ele é pedófilo, mas porque é uma curiosidade. É uma coisa assim, tá ali descobrindo a vida sexual, viu uma cena que chamou a atenção e aí começa a olhar e vai ficando enredado por aquele grupo.
E aí tem uma coisa que acontece também, que é o fato de que muitas vezes esses jovens que se envolvem em ataques em escolas ou, enfim, em grupos criminosos, as comunidades extremistas no Discord que têm várias aquelas panelas de supremacia branca, de misoginia, são meninos sem amigos, isolados socialmente, sem amigos que sofrem bulling. Então, o que eles buscam? Eles buscam pertencimento.
Exatamente. O adolescente precisa pertencer a um grupo. E aí, onde ele encontra pertencimento?
Onde ele é visto? Aquele menino invisível a vida toda onde ele é visto, nesses grupos. Ali, as pessoas escutam.
Eu tô com um caso de um menino agora, um caso que me impressionou muito, porque eu tenho visto que o algoritmo do TikTok está jogando adolescentes em comunidades criminosas no Discord. Já peguei dois casos de interesse, né? Não, o algoritmo é exatamente esse.
Menino com 11 anos. Ele pesquisou no TikTok; você sabe que os adolescentes usam TikTok como ferramenta de busca, né? Deixou de ser a ferramenta Google.
Quem usa Google são os velhos, né? Gente, entendeu? Entendi.
Os adolescentes usam o TikTok: "Ah, quero uma receita de cookie", vai procurar no TikTok. "Quero saber o que faz para acabar com a acne", vai no TikTok. "Como é que a hidratação caseira de cabelo?
", do universo feminino, né? Que eu tenho menina, vai no TikTok. Dica de jogo de Roblox e Fortnite, tudo é no TikTok.
Então, esse menino colocou lá na lupa "extrema direita". Ele ficou interessado em saber sobre extrema direita, pesquisou lá e aí o algoritmo começa a bombardear ele com conteúdo de extrema direita. E um desses conteúdos era um link, uma foto com o link para um perfil de uma comunidade, melhor dizendo, uma panela, uma comunidade de supremacia branca no Discord.
Aí ele começa a frequentar. Um garoto de 11 anos, uma criança começa a frequentar. E aí, quando chega lá, ele começa a ser ouvido, ele começa a ser valorizado, ele começa a se sentir alguém que é visto.
E aí aquilo vai aumentando. E aí começa a falar que tem que matar as lésbicas, e que tem que fazer assim, acontecer e postar foto de símbolos nazistas. Ele vai, né?
Ele reproduz aquele comportamento porque ele quer ser igual aos pares. E aí, com 13 anos, como aquilo era uma coisa boa, ele acha que está formando autoestima. Exato.
E aí, com 13 anos, ele é investigado pelo Homeland Security. Investigação chegou assim, entendeu? Então, é isso.
E a família não tinha ideia de que ele estava usando nada disso. Isso, cada vez que você repete mais, está aumentando muito. Está muito, muito.
Está cada vez mais, porque, na minha opinião, primeiro porque o acesso a telefones celulares e as redes sociais é cada vez mais precoce.