O desejo que você jura que é seu não é seu. É sério? Me fala aí de onde veio a última coisa que você quis de verdade.
E eu não tô falando de fome, de sono ou de tesão. Essas aí o corpo pede sozinho. Eu tô falando daquela vontade específica, seu tênis, a viagem, o cargo, aquele apartamento com cozinha de ilha que você viu numa foto e pensou: "É isso, é essa vida aí que eu quero".
Eu vou começar com a coisa mais idiota que eu consigo pensar. Olá, Buu. Um bonequinho fofinho que no escuro eu acho até um pouco aterrorizante.
Esse boneco aí apareceu do nada e tomou conta de tudo. Um ano e meio atrás, ninguém sabia o que que era aquilo. Hoje tem gente fazendo fila na rua, pagando a mais, comprando caixa lacrada, sem saber qual vem dentro, igual a figurinha da Copa, só que é adulto e com cartão de crédito.
Mas calma que eu não tô aqui apontando o dedo, não, tá? Eu tenho uma garrafa de água que me custou R$ 90. R$ 90 para mim pôr água.
A garrafinha veio cheio, só que a água que sai da minha torneira é de graça. É exatamente a mesma. Mas enfim, a questão é que você não quis o laabubu.
Ninguém acorda com um buraco no peito em formato de boneco chinês. Aconteceu outra coisa e é essa outra coisa que me interessa. Pensa numa criança, dois moleques, dois brinquedos iguais, saídos da mesma caixa, mesma cor, mesmo tudo.
E mesmo assim um quer o do outro. chora, espirneia, que é aquele ali. Não tem nada de especial naquele brinquedo.
O que dá valor é simplesmente o fato de tá na mão do vizinho. E a gente acha que cresce e perde isso. A gente não perde, só troca o brinquedo por uma coisa mais cara e arruma uma justificativa mais bonita.
Teve uma época, não faz muito tempo, em que todo homem usava uma calça tão apertada que comprometia a fertilidade. Isso é fato, tem estudo. A galera estava espremendo os próprios bagos voluntariamente porque calça larga tava brega.
trocou no detalhe a chance de ter filho por caber no jeans e ninguém ficou no provador pensando: "Pera aí, será que eu quero mesmo isso? Você só queria. A vontade já tinha chegado pronta.
E aqui que tá o negócio que eu queria que você sentisse. A coisa que você acha que é mais sua, o que você quer, seus sonhos, seus gostos, aquele isso aqui sou eu de verdade. É justamente a parte de você mais montada por fora.
Você abriu a boca um dia e falou: "Eu sempre quis morar fora. Eu sempre fui de empreender. Eu nunca liguei pro que os outros acham.
" E jurou de pé junto que aquilo ali brotou de dentro. Orgânico, autêntico, totalmente seu. Que nada, veio tudo de fora e entrou tão cedo que você nem percebeu a hora que entrou.
Faz aí um teste rápido agora na sua cabeça. Pega um desejo grande seu, daqueles que organizam a sua vida inteira e tenta rastrear ele até a origem. Qual foi a primeira vez que você quis aquilo?
E quem que tava na sua cena? Quase sempre tem alguém na cena. Um primo mais velho, um professor, o cara mais maneiro da sua sala, um canal no YouTube que você maratonava, alguém.
Você nunca quis nada, totalmente sozinho. Eu também não. Ninguém nunca quis.
Eu sei que isso aí incomoda. A gente gosta de pensar que escolheu, que pesquisou, sentiu, decidiu com a própria cabeça. Dá uma sensação ruim aceitar que metade do que você correr atrás foi catalogado, que te empurraram sem você nem pedir.
Mas segura essa sensação ruim mais um pouquinho. Não corre dela ainda, porque é a coisa mais útil que tem nesse vídeo todo. E olha, se isso já valia lá na caverna, com as duas dúzias de pessoas da sua tribo, imagina agora, porque rolou uma mudança nos últimos 15 anos que pegou esse mecanismo todo e botou num tamanho que a cabeça humana nunca foi feita para aguentar.
A aldeia virou algoritmo. Por quase toda a história da humanidade, sabe quantas pessoas existiam para você? Umas 150, 200 no talo.
Era isso. As pessoas da sua aldeia, do seu vilarejo, da sua quebrada lá pelo ano 1200. Você nascia ali, crescia ali, casava com alguém dali, seus filhos casavam com os filhos deles e você ia ser enterrado no mesmo pedaço de terra onde o seu avô já estava.
O mundo inteiro cabia num raio de uns poucos quilômetros. E era com essas 150 pessoas aí que você se comparava. Era o seu campeonato inteiro.
Você queria ser o melhor caçador, a melhor tecelan, o sujeito mais respeitado em volta da fogueira. E o teto da sua ambição era ser o melhor entre 200. Parece pouco, era pouco, mas era um número que cabia na sua cabeça.
A cabeça humana foi lapidada ao longo de milhões de anos para dar conta de uma comparação desse tamanho aí. 200 rostos, 200 histórias. É isso, acabou.
Aí nos últimos 15 anos, 15 e um piscar de olhos na escala da espécie, essa aldeia foi substituída. Cresceu também com globalização, viagem barata, todo mundo conectado. Mas tamanho não é o que interessa.
Aqui no lugar da aldeia entrou um algoritmo e o algoritmo não tá ali para te aproximar de 200 pessoas que você conhece. Ele tá ali penerando uns 5 bilhões e rankeando cada uma por um critério só. O quanto ela é boa em fazer você querer o que ela tem.
Os campeões mundiais nesse quesito, os medalhistas olímpicos de te dar inveja sobem pro topo. E o algoritmo te serve esses caras aí toda manhã. antes de você botar o pé no chão.
Pensa nisso, [música] cara. Você abre o olho, tu ainda nem escovou o dente. E a primeira informação que vai entrar na sua cabeça é um moleque de 24 anos na sacada de uma cobertura em Balneário Cambúu, dizendo que liberdade financeira é questão de mentalidade.
Logo depois, uma menina fazendo pilates 7 da manhã com Mateado. Logo depois, um casal que largou tudo e tá em Bali. antes do café, antes de você sequer existir como pessoa naquele dia ali, você já levou três porradas de olha tudo que você não é e eu sei o que você tá pensando.
Beleza, filosofatos, rede social faz mal, eu já sei, tempo de tela, largo o celular, vai abraçar uma árvore. Não, não, calma, não é por aí não. Eu não vou mandar você fazer detox de dopamina, não.
Tempo de tela é a menor das suas preocupações. É sério, o que tá em jogo aqui é uma coisa bem maior. é você passar os próximos 40 anos da sua vida correndo atrás de uma versão de você mesmo que não é sua, que foi montada peça por peça por gente que você nunca vai conhecer, que não sabe que você existe, que não tem absolutamente nada a ver com a sua vida.
É disso que eu tô falando. Tá bem longe de ser sobre tempo de tela. E olha, para eu ser honesto com você, não é que a aldeia fosse um paraíso.
Longe disso, a aldeia te sufocava para caramba também. Só que de outro jeito, todo mundo sabia da sua vida. Ninguém podia destoar.
Se você fosse gay, tu tava ferrado. Se você quisesse fazer qualquer coisa diferente do que seu pai fazia, podia esquecer. Aquilo prendia de um jeito horroroso também.
Então, não é saudade de aldeia. Não me entenda mal. Eu não quero voltar pro ano 1200 de forma nenhuma.
Eu só quero que você enxergue o que foi trocado. A gente saiu de uma cela pequena e apertada e foi parar num descampado gigante com 5 bilhões de pessoas correndo e alguém te convenceu de que você precisa ganhar de todas elas. E você nem decidiu entrar nessa corrida.
Acha que decidiu, mas você não decidiu não. Tem um mecanismo bem velho dentro da sua cabeça, muito mais velho que qualquer celular que te bota para correr antes de você perceber que já tá correndo. E é esse mecanismo que eu preciso te mostrar agora.
Você não quer o tênis, você quer ser o cara do tênis. Então, deixa eu tentar te mostrar como é que esse troço funciona por dentro, porque tem um desenho aqui que muda tudo na hora que você enxerga. A gente imagina que querer é uma linha reta.
Tem você de um lado e tem a coisa do outro lado, o tênis, o carro, o corpo, a grana, o que que for. E tem uma setinha ligando você nessa coisa. Simples assim.
Eu quero, o objetivo tá lá e eu vou atrás. E a frustração que você sente seria só o tamanho da distância entre onde você tá e onde a coisa tá. É assim que todo mundo desenha o próprio desejo na cabeça.
E tá errado. Falta uma coisa nesse desenho. Falta um terceiro ponto.
Porque sempre tem uma terceira pessoa metida no meio da história lá em cima, formando um triângulo que você nem desenhou. E é essa pessoa aí que ensina você a querer. Repara na ordem.
Você não olha pro objeto direto. Você olha primeiro pra pessoa. A pessoa tá lá com o objeto.
Aí você quer. O desejo passa por ela antes de chegar em você. Ela é o atravessador.
Isso aqui, esse triângulo, quem desenhou foi um francês chamado Renê Girar, professor lá de Stanford, passou a vida dele inteira mastigando isso aí. Escreveu uns livros densos para caramba e batizou esse negócio aí com o nome chiquérmo de desejo mimético. Mimético, sou profundo, né?
Sou uma parada de gente muito inteligente, né? Pois é. No fundo, o que o cara descobriu depois de décadas de pesquisa é que o ser humano é um macaco olhando macaco.
Você vê o outro macaco com a banana e a banana que estava ali parada o tempo todo, de repente fica interessante. Foi preciso de uma carreira acadêmica inteira e umas 1000 páginas para concluir que a gente é uma fotocópia que se acha original. Eu adoro girar, de verdade, mas é isso.
E agora vem a parte que arde, porque você não para na banana lá no fundo, o que você quer é ser o macaco inteiro, virar aquela pessoa. Você olha pro cara do relógio, do carro, da namorada gata, do abdômen trincado, [música] e você imagina que ele tem alguma coisa por dentro, que ele acorda em paz, que ele se sente amado, respeitado, importante inteiro. E aí o seu cérebro faz uma continha torta, instantânea, que você nem percebe que fez.
Ele tem um carro, ele se sente inteiro. Então o carro é o que deixa a pessoa inteira. Então se eu conseguir o carro eu também fico inteiro.
É um raciocínio furado do início ao fim. Mas você faz, eu faço. Todo mundo faz essa merda o tempo inteiro com cada coisinha.
E o detalhe mais cruel é que esse cara que você inveja do relógio e do carro provavelmente tá mais quebrado por dentro do que você. O carro tá financiado em 60 vezes. A namorada tá de saco cheio dele.
Ele acorda 4 da manhã com taquicardia pensando na parcela. Só que você não comprou o homem de verdade, você comprou a embalagem. E na embalagem estava escrito paz interior.
Deixa eu te dar um exemplo que talvez você já tenha vivido na pele. Tinha alguém na sua escola ou na faculdade que ninguém dava a mínima. Pessoa OK, mediana, passava batida, você nunca olhou duas vezes.
Aí no intervalo qualquer, do colégio para facu, sei lá, essa pessoa começou a receber atenção. Os outros passaram a achar ela interessante, bonita, gente, começou a querer ficar com ela. E aí do nada você também começou a achar, pô, ela é meio gata agora, né?
A pessoa quase não mudou. O que mudou foi que os outros começaram a desejar e você pegou esse desejo no ar igualzinho a uma gripe. Nem reparou que pegou.
Achou que tinha reparado nela por conta própria, porque no fundo é tudo a mesma forma embaixo. Tira a casca de qualquer desejo seu, o carro, a sua viagem, o seguidor, o cargo, o boneco chinês lá do começo e embaixo tem sempre a mesma coisa, igualzinha em todo mundo. Vontade de ser amado, de ser visto, de importar para alguém.
Os enfeites mudam de uma pessoa para outra, mas a fome lá embaixo é a mesma em todos nós. E é exatamente por isso que é tão fácil te vender qualquer enfeite. [música] Basta pendurar nele a promessa de matar essa fome.
Quem detona a sua cabeça não é o Neymar, é o cara da sua rua. E aqui o jogo fica feio de verdade, porque tudo depende de quem é a pessoa lá no topo do triângulo. E tem dois tipos de pessoas ali.
O primeiro tipo tá longe demais de você. Tão longe que vira quase paisagem. O Neymar, a Anita, o Messi, o Mr Beast, o cara que você acha que é o máximo, sei lá quem.
Você admira, acompanha, até que é um tantinho da vida que ele tem, mas não dói. Isso não tira o seu sono, porque lá no fundo o seu cérebro sabe que você não tá competindo com o Neymar. Vocês não jogam no mesmo campeonato, nunca jogaram.
Ele pode comprar uma ilha amanhã que você bate palma e vai dormir tranquilo. O segundo tipo é o veneno. É a pessoa que tá do seu tamanho, do seu bairro, da sua sala, da sua família, da sua academia.
perto bastante pro seu cérebro carimbar como um concorrente direto. E aí já era. Aí entra a inveja, o aperto no peito, a sensação horrível de que você tá ficando para trás.
Porque quando a pessoa tá no seu nível, o seu cérebro lê como um jogo de soma zero. Se ela ganhou, foi de você. É burrice, a vida não funciona assim, mas é exatamente assim que a gente sente.
Agora pega e junta isso tudo aí com o algoritmo lá de trás. A rede social fez uma sacanagem. pegou todo mundo que era de longe e jogou para perto.
Você vê o Neymar tomando café da manhã, vê o que que ele faz numa terça-feira de manhã, como é que é a casa dele por dentro, o que que ele come. Ele virou seu íntimo. Só que, presta muita atenção nisso, não é o Neymar que acaba com a sua cabeça.
O Neymar ainda parece longe. Mesmo de perto, quem acaba com a sua cabeça não é o Mr Beast, é o Rodrigo. Deixa eu te apresentar o Rodrigo.
O Rodrigo estudou com você. A mesma faca, a mesma sala. Vocês colavam um do outro na prova de cálculo.
As notas dele eram iguaizinhas à suas, às vezes piores. Um cara normal, ninguém apostaria nada nele. Aí você abre o Instagram numa quinta noite, deitado meio derrotado e tá lá o Rodrigo, agência de marketing dele.
AP com porteiro à vista, Hilux preta na garagem. Cara, tá namorando uma nutricionista que parece anúncio, cara. A legenda.
Gratidão pela jornada e aquilo ali te perfura. Não é Hilux, você nem quer Hilux. Você acha uma Hilux feia.
O que te perfura é que o Rodrigo, que era igual a você, foi parar num lugar que você não foi. Se deu para ele, era para dar para você e não deu. E isso machuca de um jeito que uma ilha nenhuma de bilionário vai machucar.
Se você for mulher, talvez o seu Rodrigo tenha outra cara. Talvez seja aquela menina que você segue desde o ensino médio, que era da sua turma, gente como a gente, e hoje mora sozinha no AP todo bege. Plantinha no canto, luz natural batendo, faz pilate às 7 horas da manhã, posta o Mátia, já foi para Lisboa duas vezes esse ano e a vida inteira dela aparece um anúncio de bem-estar com 11.
000 1 pessoas assistindo, você não faz ideia da vida real dela, não sabe se ela chora no chão do banheiro. Você vê um recorte de 15 segundos e mesmo assim se sente um lixo, sente que tá fazendo tudo errado. Esse é o estrago de verdade.
E ele quase nunca vem de quem tá longe. Vem de algum conhecido do seu tamanho, multiplicado por 1000, chegando no mundo inteiro todo santo dia. E você sempre vendo só o pedaço mais bonito de cada um, junta o melhor recorte de 1000 vidas diferentes e você monta um monstro que ninguém vence.
Porque esse monstro não existe. É um Frankenstein costurado com os destaques dos outros. E você tá ali sozinho, 11 da noite, no escuro do quarto tentando ganhar dele.
E não vai pensando que eu tô imune, viu? Eu queria te dizer que eu já superei isso, que eu não sinto mais. Uma mentira deslavada.
Semana passada mesmo, eu vi um cara que começou junto comigo e tá voando muito mais alto e eu fiquei mal por um tempo considerável. Eu aqui te explicando essa teoria toda. Não passa.
Só dá para ficar mais consciente e consciência já muda bastante coisa, mas tem gente que sabendo de tudo isso ainda escolhe o pior caminho para tentar fugir, que é o que eu quero te mostrar agora. Você largar tudo e pra bali também é cópia. Aí quando a ficha cai, quando você sacou o triângulo, o Frankenstein, o algoritmo, tudo bate numa reação que parece o auge da esperteza.
Você pensa: "Pronto, eu entendi o jogo, então eu saio do jogo. Todo mundo correndo atrás de dinheiro, carro, status e seguidor, você vai fazer o contrário. Vende tudo, larga a CLT e vai viver de verdade.
Vem o pacote inteiro. Ou você vira nome de digital em Bali, ou vai pra Índia se encontrar. Ou abraça o minimalismo, 30 objetos, menos é mais, vida leve.
E você se sente a pessoa mais consciente do planeta. Saiu da Matrix, não segue a manada. Eu lamento te informar, você não saiu de merda nenhuma.
Isso aí é mimético também. Pensa comigo um segundo. Por que que você quer largar tudo e surfar em cangum?
De onde saiu essa vontade tão específica, tão detalhadinha? Não brotou de dentro de você? Veio do mesmo lugar de sempre?
Você viu alguém fazendo, achou lindo e quis. Tem um exército de nômade digitais postando coconuts na praia. Você copiou esses caras aí igualzinho o seu vizinho copiou.
Ailux, mudou o produto da vitrine. A engrenagem é exatamente a mesma. E tem uma coisa ainda mais engraçada no fundo disso tudo.
Quando você rejeita o que os outros valorizam, você não se solta deles nem um pouco, continua amarrado, só que pelo avesso. Porque o recado escondido no eu larguei tudo é o seguinte: eu sou tão superior a vocês, escravos do sistema, que eu nem ligo para essas coisas que vocês morrem de vontade de ter. Tá vendo a pegadinha?
Você ainda precisa dos otários do escritório para se sentir alguém. Eles continuam sendo o seu espelho. Sem eles, a sua liberdade não vale nada.
Porque seria liberdade em relação a que a eles. Você não fugiu da comparação coisa nenhuma, só inverteu o sinal e seguiu comparando. O nome é de digital postóstopor do sol e 2 minutos depois vai conferir quantos curtiram.
O minimalista dos 30 objetos não aguenta 10 minutos de conversa sem ter que avisar que ele só tem 30 objetos. E o cara que largou a corrida dos ratos lançou um curso para te ensinar a largar a corrida dos ratos em 12 vezes de R$ 97. Ninguém saiu do jogo nenhum.
trocaram de quadra e juram que pararam de jogar. Continua tudo sendo placar, só que ninguém quer admitir que tá de olho nele. E eu falo isso com propriedade, porque eu já fui esse cara, eu não fui paraa Bali, mas teve uma fase que eu deletei minhas redes sociais e fazia absoluta questão de avisar cada ser humano que cruzava comigo.
Ah, eu saí do Instagram, hoje eu fico mais presente, eu leio mais, sabe? e ficava secretamente esperando alguém perguntar para eu poder contar de novo. Eu não tinha largado o jogo, eu tinha inventado um troféu novo, o troféu de "Eu sou mais evoluído que vocês que ainda usam essa porcaria".
Aí eu desfilei com esse troféu, todo orgulhoso por uns bons meses, até caia real que largar uma vaidade para alimentar uma vaidade maior é o pior negócio que tem. Então não cai nessa aí não, cara, que é a selada mais sofisticada do pacote. A Índia não vai te salvar, Bali não vai te salvar e jogar sua TV pela janela.
Então menos ainda, porque o problema nunca esteve na TV, no escritório, na cidade grande, no consumo, em nada disso. O problema mora na engrenagem dentro da sua cabeça e essa engrenagem embarca no avião para baliir junto com você, ainda te cutucando. E aí, quantas curtidas o Coconut fez?
Então, qual é a saída de verdade? Porque uma hora você precisa parar de só apontar o problema e falar o que quer fazer com ele. Não é fácil, não é rápida e eu não cheguei nela inteiro, mas tem.
Então, qual que é? E eu preciso ser muito honesto antes de eu abrir a boca que a saída completa definitiva eu ainda não tenho. Eu ainda dou minhas espiadas no Instagram do Rodrigo de vez em quando, mas tem um caminho e ele vem em duas partes, uma meio filosófica e uma absurdamente simples.
Eu vou pela difícil primeiro. A real é que você não vai escapar totalmente disso não. E quem te promete um escape total tá querendo te vender alguma coisa.
Eu sempre falo isso. Por quê? Porque a gente se define em relação aos outros e acabou.
Eu só sei se sou rico comparando com alguém. Só sei se sou inteligente, bonito, bem-sucedido comparando com outra pessoa. Não existe um termômetro de sucesso que funcione no vácuo sozinho ou numa ilha deserta.
A comparação tá no sistema operacional, não dá para desinstalar. Então não tenta parar de comparar porque não vai rolar não. A jogada é outra, escolher contra quem você compara.
E aqui mora uma armadilha boba. A maioria das pessoas quando entende isso só troca os modelos por modelos um pouquinho melhores. Para de seguir o Rodrigo e vai seguir um Rodrigo mais rico.
Tu continuou na horizontal, só andou de lado. E não adianta, porque qualquer ser humano que você botar no pedestal vai ser cheio de defeito, contradição e merda igual a você, igual a mim. Você escala a montanha inteira para descobrir que lá no topo também tem um cara inseguro te esperando.
Então esquece a horizontal. A saída é para cima, é vertical. E eu sei, eu sei que isso suou uma frase de coach.
igual o quadro motivacional pendurado na parede do RH. E eu detesto isso tanto quanto você, mas me aguenta mais uns dois minutos. A ideia aqui é você parar de medir a sua vida pelas pessoas e medir por uma coisa que tá acima de qualquer pessoa.
Chama do que você quiser, verdade, amor, aprender. Se a palavra Deus te dá coceira, esquece o nome, pensa em qualquer coisa maior que a gente. O ponto é ter uma régua que nenhum ser humano alcança e que, justamente por isso, nenhum ser humano consegue te tirar.
Eu vou tentar aterriçar porque na teoria isso fica lindo e na prática e se evapora. Imagina que a sua régua antes de dormir vira uma pergunta só. Eu fiz alguma coisa verdadeira hoje?
Fui gente boa com alguém? Aprendi alguma merda nova? No dia em que essa vira pergunta da sua noite, o ap bege da menina do Pilates e a Hilux do Rodrigo perdem a força.
Não somem, perdem a força. Porque você saiu do campeonato deles e foi jogar um outro que não tem placar para apostar, que ninguém vê e que olha que doido, nem termina quando você morre. E aí entra a segunda parte, a simples, a que eu mais uso.
É velha para caramba, vem dos históicos. Lembrar que você vai morrer. Os romanos chamavam de memento more.
E antes que isso aqui vire incenso aceso e pedra de cristal na mesa, o Marco Aurélio, que era o homem mais poderoso do mundo naquela época, escrevia bilhetinho para ele mesmo no diário, lembrando que ele ia morrer e que era para não ser babaca com as pessoas. Hoje seria um lembrete no app de notas, espremido entre comprar ovo e ligar pro dentista, o sujeito mais poderoso da terra, basicamente fazendo terapia sozinho com caneta. E o louco é que funcionava.
Funciona sim. Você estica o horizonte, todo mundo cuja opinião te aperta o peito, o Rodrigo, a sua mãe, seu chefe, a galera da facu e a sua própria opinião sobre você também, todo mundo vai morrer. Você vai morrer provavelmente bem antes do que imagina.
E quando você lembra disso de verdade, sentindo no corpo e não só pensando, tudo afrocha um grau. Aquilo que parecia vida ou morte vira só uma terça-feira qualquer. E não tem nada de mórbido nisso, não.
É oposto. Se você tá aí esperando alguém te dar licença para fazer o que você quer, esperando o momento certo, a permissão, a confirmação de que o seu desejo é autêntico bastante, para com isso. Você vai morrer.
Isso aqui é tudo que você tem. Até onde a gente sabe, né? Não dá tempo de viver a vida do Rodrigo não, e ainda sobrar para viver a sua.
E é por isso mesmo que eu não quero que você confie cegamente em mim, nem em nenhum guru, nem nos estoicos. O Cca, por exemplo, o cara escreveu páginas lindas sobre não se apegar em dinheiro sentado numa fortuna que dava para comprar um país. Pois é.
Então, não terceiriza os seus valores para ninguém, nem vivo, nem morto. Pega o que te serve, joga o resto fora e decide com a sua própria cara contra o que você vai medir a sua vida. Lembrando sempre que ela é culta pra caramba, cara.
Você não vai acordar amanhã curado disso aqui, não. Eu não acordei, mas talvez na próxima vez que o fid te jogar na cara o pôr do sol perfeito de alguém às 7 da manhã, você lembre que aquilo é um recorte de 15 segundos, que aquela pessoa também vira pó um dia e que você tem coisa muito melhor para fazer com esse pouco tempo que sobra do que ficar querendo ser aquela pessoa. É isso aí, cara.
Se cuida. Sério?