Olá, essa entrevista faz parte de um trabalho acadêmico da disciplina de educação e diversidade cultural do curso de pedagogia da UFPB. Nosso objetivo é compreender as percepções das pessoas sobre a identidade étnica e como isso se relaciona com a sua vida pessoal e profissional. Bom, eu posso fundamentar a minha fala das contribuições, por exemplos, do Boas, France Boas, que trabalha com uma determinada concepção do que é cultura, uma concepção do que é raça, uma concepção do que é povo, enfim, uma determinada concepção do antropológico.
A ideia do étnico, geralmente do ponto de vista do senso comum, se refere a grupos específicos, a raças, a povos. Eu gosto de me referir à ideia da etnia, partindo do pressuposto daquilo que eu chamo de comunidades humanas. Do ponto de vista eh geral, nós percebemos que os processos de colonização sempre trabalharam com a perspectiva de que existe um povo que é mais e de que existe um outro povo que é menos.
Por causa disso, quis se dominar, explorar, manipular, usar, abusar e até achou-se que se tinha o direito de matar, externar. Brasil que o diga do ponto de vista antropológico, né? E agora citando, por exemplo, um sociólogo que eu gosto muito chamado Norbert Elias.
Quando o assunto é povo, quando o assunto é gente, quando o assunto é civilização, ele diz que não existe uma civilização, mas civilizações, de que não existe um povo, mas que existe, existem povos, de que não existe uma única sociedade, mas que existem sociedades e de que nenhuma sociedade pode se considerar melhor ou superior à outra. Porque cada sociedade humana é única e irrepetível no seu processo de formação, constituição, vivência e ao mesmo tempo elaboração ou elaborações dos seus saberes. Sendo assim, eu penso que do ponto de vista humano, toda comunidade humana, toda comunidade humana, ela é uma etnia.
Toda comunidade humana, ela é um povo. Toda comunidade humana ela é um grupo ou ela é, na verdade, não é uma determinada forma de ser humano. Sendo assim, não existem povos mais, nem povos menos, mas cada povo é o único.
Logo, eu tô pensando que nós não vivemos eh num num mundo aonde haja seres humanos que são superiores ou seres humanos que são inferiores, mas nós vivemos num mundo constituído por humanidades, de que a humanidade ela não é única, ela não é um padrão, mas que a humanidade ela se faz justamente nesse viés da diversidade, da pluralidade, da transpluralidade, da multi, não é, culturalidade. Enfim, quando eu penso a comunidade humana, eu penso num diálogo de etnias autônomas, aonde cada uma é única e aonde cada uma expressa determinada forma de Com base nessa sua compreensão, como você se identifica etnicamente? Em que momento de sua vida você passou a se reconhecer?
Houve alguma experiência marcante ou alguma pessoa relacionada a isso? Do ponto de vista pessoal, eu me sinto um ser humano. E eu tô pensando um ser humano na relação com a comunidade humana.
do ponto de vista histórico, como alguém que nasceu no Brasil e que nasceu no Nordeste, tentaram me convencer de que eu era o resultado de um processo de colonização [Risadas] e que eu deveria ser aquilo que são os povos que me colonizaram, até que estudando, vivendo e me relacion Eu também descobri que eu não devo ser aquilo que quem me colonizou é ou se tornou, mas que eu devo ser aquilo que eu sou. E que essa forma de ser, ela passa pela nossa brasilidade de todos os dias. Ela passa pelo reconhecimento dos nossos ancestrais.
Ela passa pela cultura ou pela educação ou pelos valores que as nossas ancestralidades nos comunicaram e passam necessariamente por aquilo que ainda estamos fazendo de nós mesmos. Ou seja, nós não somos aquilo que os nossos colonizadores disseram que éramos, mas nós podemos ser muito mais do que aquilo que nós temos sido a partir de uma identidade própria, a partir de um lugar próprio e a partir de um reconhecimento singular. Por isso que quando eu penso a minha forma de ser no mundo, aí você coloca a questão da experiência.
Eu me lembro de um dia em que eu visitei a África e eu fui à África participar de um evento acadêmico e depois de fazer aquela imersão, eu fui convidado a conhecer um dos campos de concentração nazista que ficava ali pertinho do deserto africano, um campo nazista que ficou conhecido como Tarrafal. Era um lugar para onde se enviava, por exemplo, os presos eh políticos, tanto da Espanha como também de Portugal. Um lugar feito para matar, um lugar feito para exterminar.
Ali eu pude ver como o olhar de um povo pode ser perverso e diminuidor de um outro povo, olhando para os horrores daquele campo de concentração nazista. Mas visitando as feiras africanas, visitando as escolas africanas, visitando universidades africanas, visitando as ruas africanas, eu pude perceber como a humanidade é mais. E eu tomo os povos africanos como sendo os nossos irmãos originários, mas também tomo esses povos para dizer assim: "É que poucos povos sofreram tanto a tentação de deixar de ser o que são, mas poucos povos resistem tanto em seu e que por causa disso ensinam a todos os demais que ser humano é isso, é poder viver em diversidade ou existir na sua própria diversidade.
" Então aqui eu somo vivência, aqui eu somo história, aqui eu somo experiência, aqui eu somo o sonho, um sonho de poder ver a humanidade se fazendo a partir daquilo que cada sujeito é e não daquilo que determinadas tendências pretende dizer o que devemos ser ou o que nós somos. Eu acho que essa para mim é uma questão valiosa, porque para mim a condição humana é uma condição. Ela não é um estado em que nós estamos fechados, prontos e acabados, mas é uma condição aberta em que estamos nos fazendo e nos fazendo através disso, através das nossas relações, inclusive relações étnicas.
Porque a sensação que eu tive ao pisar a África é que eu estava pisando dois mundos. um mundo antigo e ao mesmo tempo um mundo que se faz novo a cada instante. E somos nós, os brasileiros de todos os dias.
Na sua opinião, a sua etnia trouxe impactos na sua vida pessoal ou profissional? Se sim, você acredita que ela mais ajudou ou atrapalhou? Poderia me dar exemplo de algumas situações?
Posso sim. Por exemplo, meus avós, por parte de pai, nasceram numa região da Mata Norte. em Pernambuco.
Aquela é uma região de uma riqueza cultural folclórica extraordinária. É dali que vem maracatu, é dali que vem ritmos, é dali que vem sons, é dali que vem frutos, frutas, enfim. E eu consigo ver lá atrás como as vivências dos meus avós influenciaram meu pai.
E como ainda hoje essas heranças do meu pai também são marcantes na minha própria vivência, principalmente naquela fase da infância. Então eu penso que aquele contexto ali, ele é um contexto muito rico e ele é um contexto de diálogo étnico, porque ali nós temos a comprovação, por exemplo, de que tribos existiram ali, indígenas, por exemplo, né? Outros povos passaram por ali.
Aquela é uma região também muito marcada pela presença portuguesa, pela presença holandesa, enfim, nós temos ali um encontro de muitos povos. Eu acho que eu não posso me pensar morando em João Pessoa, na Paraíba, desarticulado dessa vivência que muito mais do que ser apenas uma vivência regional, ela é uma vivência étnica. Ela é uma vivência, não é, de um povo, de um povo que se pensando ali conseguiu não somente sobreviver, mas influencia a cultura, inclusive não somente de Pernambuco, mas eu acredito que influencia a cultura do Brasil e do mundo.
Veja, por exemplo, os sonhos que nascem dali. Pense no Chico Saise, por exemplo, né? Pense no Maracatu, pensa no Frevo, pensa em todas essas misturas que nascem daquele lugar.
e de como isso diz, de do modo como nós somos, ao mesmo tempo que específicos, nós também nos fazemos nessas relações, né? Eu consigo olhar para isso não à toa. Eu me lembro que morando em Caruaru e por trás da minha casa, na rua, por trás tinha a presença do Bumba, meu boi.
Eu me lembro do dono desse boi chamado seu Gesso. O nome do boi era Tireteima. E eu me lembro que todas as vezes que eles começavam a ensaiar, eu ia com um grupo de amigos.
pra rua por trás para poder assistir os ensaios do Bumba Meu Boi eram épocas de preparação. Ali nós tínhamos laúsças, ali nós tínhamos a Burrica, ali nós tínhamos muitos movimentos e aquilo era encantador para mim. E dessa fase tem uma memória que eu acho marcante, é que um dia eu fui para um desses ensaios só de short, era uma criança de 10, 12 anos, descalço, sem camisa.
E eu me encantei tanto por aquilo que o boi começou a andar pela rua, pela cidade. E quando eu me dei conta, eu tava num bairro da cidade de onde eu já não sabia mais voltar para casa. Ali eu só tive uma ideia.
Bom, como eu não sei voltar para casa sozinho, o que é que eu faço? Eu tenho que acompanhar o boi. A hora que o boi voltar, eu vou saber onde estou.
Só tem uma questão, é que esse negócio começou de manhã e o boi só voltou para casa à noite. Até que eu explicasse a minha mãe onde eu estava. Bom, eu já tinha levado uma boa reclamação, mas eu me lembro de que eu fui tomado por aquele sentimento, por aquela, por aquele envolvimento, né, rítmico, cultural.
E aquilo foi me conduzindo. Acho que essa é uma boa metáfora da vida, né? do modo como as nossas heranças e influências, elas também, à medida que nos encantam, também nos acompanham, né, ou nós as acompanhamos.
Acho que esse é um movimento. [Música] A palavra etnia geralmente dá para tem a ideia de grupos étnicos distintos. O que seria um grupo étnico distinto?
uma condição, não uma condição, mas uma subdivisão dentro do que seria a raça humana, né? Principalmente olhando aspectos fenótipos e culturais, mas principalmente fenótipos. Hum.
Eu ao todo me considero uma pessoa branca, né? Mas não teve nenhum momento revelador ou marcante. Foi, eu acho que foi algo que foi se desenvolvendo no meu meio, né, no meu meio cultural e social que ao qual eu vivo, onde a maioria das pessoas da minha família são brancas, sendo algumas também negras, né, outras consideradas se autodeclaradas pardas.
E eu vi que eu acho que me encaixaria mais nessa autodescrição do que em outro tipo de autodescrição, né, como preto ou parado ou até mesmo amarelo. Sim, sim. Eh, eu acho que eh, infelizmente minha minha minha eh minha etnia, né, meu por ser branca possa ter me ajudado em alguns aspectos da minha vida, tanto de forma cultural também ou quanto de forma social.
Por quê? Porque há muito se falar, principalmente em relação ao Brasil, e estratificação social e questões étnicas referente tanto a questões históricas quanto sociais e culturais. Eh, quando há de se pensar um um jovem eh de periferia há de se pensar automaticamente ele ser um sendo negro, né?
Isso pode impactar até numa escolha profissional, por exemplo, ou até mesmo a questão da do preconceito das pessoas mesmo, por preferir, se uma pessoa uma pessoa branca atingir um padrão específico ou do que uma pessoa negra, né? Tendo essa esse preconceito e essa esse racismo estrutural. Olha, eu não tenho certeza da real significado da palavra etnia, mas para mim etnia é a diferença entre ou eh cores, origens, tipos de de raças ou locais de nascimento.
como os orientais, os ocidentais, os afrodescendentes, os russos, os europeus, os africanos, os asiáticos. Eh, acredito queia para mim é isso, é essa divisão entre às vezes ou o local de nascimento ou conglomerado de de locais de nascimento ou um uma junção de povos que se parecem entre si. Para mim é isso.
Ah, eu atualmente não me identifico muito porque os traços japoneses que eu tenho já não tão mais tão presentes. Meus meninos têm muito mais cara de japonês do que eu, né? Eu acredito que hoje em dia eu me identifico só com uma pessoa parda, entendeu?
E não sei, não sou mais japonês, não tenho mais cara de japonês, mas a a definição ética começou porque provavelmente provavelmente não, a etnia japonesa é muito marcante, né? Ela sempre foi. Então, sempre que um um japonês se destaca, destaca não, ele se insere na sociedade, ele automaticamente é taxado de olha o japonesinho, o japonês.
Então você acaba se identificando porque as outras pessoas falam independente. Só a família de dentro que não, né? Porque japones é tudo igual, ninguém vai ver a diferença.
Olha, é assim, eh, eu vejo, inclusive por conta dos meus filhos, eh, hoje pouco menos por, mas existe uma uma pressão, uma expectativa muito grande quando você se diz que é uma pessoa japonesa, entendeu? Você é o famoso bom em tudo. Você é sempre o melhor.
E quando a você é uma é uma pessoa mediana, que foi muito o meu caso, eh as pessoas elas acabam perdendo brilho em você porque você não é tão espetacular quanto todo mundo. Mas automaticamente durante o a o avanço da minha vida, a questão do japonês trata que a pessoa te dá um pouco mais de respeito já na fase da do adulto por ele acreditar que você entende um pouco mais do que ele, entendeu? Então teve a etnia me trouxe impactos tanto bons quanto ruins, dependendo do ponto da vida que você pensar.
[Música] Então, sem pesquisar nem nada, só o que vem na minha cabeça, pensando assim, o que que vem com a palavra etnia, é uma mistura um pouco do lugar onde a pessoa nasceu, né, tipo a nacionalidade dela com a cultura onde ela criou e eh foi criada, né, cresceu. Então, porque assim, uma pessoa pode ser italiana, mas existe uma cultura diferente em cada lugar da Itália, assim como o Japão, como a França e tal, e ainda mais o Brasil que é gigantesco e a gente tem muitas culturas dentro do Brasil. Então, eu não sei, eu ligo a palavra etnia a também cultura.
Eu não sei se isso é muito loucura da minha cabeça, mas para mim se conecta a nacionalidade com a cultura onde a pessoa cresceu. Olha, eu sempre me considerei brasileira, né? Nunca questionei, digamos assim, quando comecei paraa escola, né, adolescente, tal, que a gente começa a ver um pouquinho mais em história do Brasil e tará, que eu entendi um pouco mais da questão de dos italianos, devem para cá, né, que meus parentes são descendentes italianos, mas mesmo assim eu me considerava brasileira porque muito do que culturalmente eles faziam, eh, já era muito misturado com coisas, crenças, né, e tal, aqui do Brasil já era muito misturado.
e não não considero que isso venha, né, advenha da cultura italiana. Eh, então sempre me considerei brasileira. O que eu percebi depois com o tempo é que eu tinha um lugar de privilégio na sociedade por ser branca, né, digamos assim, né?
Então, nunca questionei, tipo, não duvidei e sempre me identifiquei como brasileira. E eu acho que é isso. Não sei nem se eu falei alguma coisa que fez sentido.
Então, diretamente comigo, eu nunca reparei nada, né? Mas como eu te falei, eu acabei depois percebendo e descobrindo que a cor da pele as pessoas afetava certas situações. Então, teve empresa que eu trabalhei que não contratava pessoas que não fossem brancas.
Eh, não tem empresa que não, tipo, até contratava, mas não botava pessoas negras em cargos de liderança. Eh, eu acho que teve outras situações, mas agora eu não vou te lembrar. Essas foram as primeiras que me veio à mente.
Então, eu nunca concorri a um cargo alto, né, para falar, mas só pelo fato de ter sido contratada, né, nessas empresas. Então, meio que saí na frente, né? tive o privilégio aí e sei que existem outras situações mais graves e mais complexas que eh são fora da minha bolha, mas que acontecem, infelizmente.