[Música] eu nasci na Cidade de Saboeiro é uma pequena cidade no interior do Ceará onde todo mundo conhece todo mundo lá o tempo parece andar mais devagar mas a vida nunca dá trégua o sol queimava nossas costas enquanto trabalhávamos na roça e meso assim a comida na mesa sempre parecia pouca cresci Vendo Meus pais se matarem na enchada sonhando que um dia as coisas iam melhorar mas nunca melhoravam no interior tudo é igual as pessoas se acostumam com a mesma rotina os mesmos rostos as mesmas promessas vazias empresas tomaram conta da região compraram as terras
os políticos e prenderam povo em um sistema onde só eles ganham não importa o quanto você trabalhe Você sempre estará devendo eu passei anos acreditando que podia vencer ali que só precisava trabalhar mais mas com o tempo percebi que aquilo não era vida era sobrevivência comecei a ver os olhos cansados dos meus pais e dos vizinhos já vi gente desistindo de viver pressão Severa aceitando que nunca ia sair daquele buraco e escolhendo o caminho mais fácil desistindo da vida já lutou tanto que acabou as forças esse mundo não é para os fracos de espírito isso
é pior que qualquer filme de terror que já foi criado pela humanidade haja fé muita fé se você não tiver é fé você realmente desiste Peguei minhas coisas dei um último abraço na minha mãe e parti Me disseram que a cidade de São Paulo tem muitas oportunidades que era onde os sonhos aconteciam eu acreditei Mas o que eu não sabia é que a cidade grande tem suas próprias regras e quem não aprende rápido é engolido sem piedade no fundo eu só queria uma chance uma vida digna mas logo eu descobriria que na cidade grande a
gente não luta para vencer a gente luta para sobreviver Quando desci do ônibus fui engolido pelo barulho carros buzinando e aquelas motos que faz entrega muito barulhentas o som é tão alto que chega quase deixar a gente surdo nunca ouvi tanto barulho na minha vida é isso que a cidade grande como se acostuma com essa vida pessoas passando apressadas rostos vazios sem vida eu nunca tinha visto tanta gente juntas e ao mesmo tempo me senti completamente sozinho olhava pros lados e ninguém parecia notar minha presença ali eu não era ninguém só mais um sonhador na
selva de pedra com a mochila nas costas e o bolso Quase vazio saí andando sem saber para onde ir tentava me convencer de que aquilo era normal que era só questão de tempo até eu me acostumar mas o aperto no peito não passava eu via prédios enormes lojas caras e pessoas que nem olhavam para baixo as pessoas pareciam ter medo era tão estranho no interior não era assim porque aqui na Cid grande as pessoas são assim tem medo eu não sabia o porquê mas percebi que era muito diferente do meu interior lá a vida era
sofrida mas as pessoas eram amigáveis Mesmo não tendo nada ajudavam com o pouco que tinham no segundo dia achei que tinha dado sorte Conheci um homem que se ofereceu para me ajudar falou de vagas de emprego prometeu um lugar barato para ficar confiei Claro no interior a gente confia mas em menos de uma semana ele sumiu com pouco dinheiro que eu tinha foi ali que eu comecei a entender como as coisas funcionavam naquela cidade sem dinheiro sem lugar para ficar comecei a passar mal a fome o cansaço e o estresse começaram a pesar resolvi procurar
um hospital público entrei achando que ia encontrar ajuda mas o que vi lá dentro foi pior do que eu imaginava olhei ao redor E vi gente sendo tratada do mesmo jeito como números mas o que me chamou atenção foi um homem que chegou depois de mim e foi atendido na hora terno caro sapatos brilhando dinheiro foi ali que Percebi quem não tem nada não é ninguém sai do hospital pior do que entrei com dor com medo e pela primeira vez me sentindo realmente invisível ali ninguém te vê ninguém se importa você só existe enquanto pode
pagar a cidade começou a pesar nos meus ombros andar pelas ruas era sufocante todo mundo correndo cada um cuidando de si não tinha ninguém para perguntar se eu tava bem não tinha ninguém para se importar nos dias seguintes a cidade começou a me engolir de vez o dinheiro acabou mais rápido do que eu esperava não tinha trabalho não tinha apoio e as promessas de emprego viraram piadas de mau gosto eu andava de um lado pro outro batendo de porta em porta ouvindo as mesmas respostas Volte depois não estamos contratando ou pior só olhares de desprezo
a fome começou a apertar meu corpo já sentiu o peso do cansaço e da desnutrição dormir em qualquer canto virou rotina pior que a dor física era o desespero psicológico passei a evitar as pessoas todo mundo parecia carregar o mesmo olhar vazio como se já tivessem desistido eu não queria acabar igual mas foi quando comecei a sentir dores fortes no estômago que percebi o quanto estava indefeso voltei ao hospital mesmo cheiro de mofo mesmo calor sufocante mas dessa vez eu prestei mais atenção ao que acontecia ao meu redor vi um homem desmaiar na recepção e
ser ignorado uma mulher chorava por um filho que gritava de dor mas não havia ninguém para ajudar gritos ecoavam pelos corredores o som de pessoas pedindo socorro e não recebendo nada esperei mais de 6 horas quando finalmente fui atendido o médico nem olhou na minha cara perguntou o que eu sentia e me entregou outro Papel Rabiscado Com remédios tentei explicar melhor o que eu estava sentindo mas ele já tinha chamado o próximo paciente quando saí do hospital senti um peso nas costas que não conseguia explicar comecei a notar rostos familiares como se as mesmas pessoas
passassem por mim várias vezes Será que estavam me seguindo ou será que eu estava paranoico eu já não confiava em ninguém conhecidos viraram estranho até os poucos amigos que fiz na cidade estavam na mesma situação Lutando para Sobreviver sem tempo para ajudar ou ouvir os problemas de outra pessoa era cada um por si passei por uma escola na periferia as janelas estavam quebradas os muros pichados crianças brincavam no pátio mas pareciam cansadas entrei para olhar mais de perto e vi as salas cheias de carteiras quebradas os professores falavam sem ser ouvidos o quadro tinha mais
sujeira do que giz foi ali que eu entendi não é só a saúde é educação também tudo quebrado de propósito o sistema não quer ensinar ninguém quer manter o povo ignorante doente e desesperado quer que a gente aceite qualquer migalha eu senti raiva muita raiva mas junto com a raiva veio o medo porque quanto mais eu entendia mais eu percebia Ninguém vence o sistema sozinho a dor não passou pelo contrário piorou passei noite sem dormir com febre e calafrios a comida escassa e o cansaço começaram a cobrar seu preço voltei ao hospital pela terceira vez
Dessa vez eu já sabia o que esperar mas nada me preparou para o que eu logo na entrada Um homem caiu no chão ele tremia se debatia e ninguém se mecheu para ajudar as enfermeiras olharam e continuaram preenchendo papéis Eu gritei por socorro mas fui ignorado os minutos pareceram horas quando finalmente chegaram com uma maca ele já não se mexia mais vi os olhos dele se apagarem enquanto as pessoas ao redor desviavam o olhar para elas aquilo já era normal ali as pessoas morriam como números e eram esquecidas antes mesmo de serem levadas embora sentei
em um canto tremendo a febre aumentava e o desespero também mas foi quando escutei duas enfermeiras cochichando que minha visão sobre tudo mudou elas Falavam sobre remédios vencidos laudos falsificados e medicamentos desviados Riam como se fosse uma piada eu queria levantar e gritar mas não tinha forças horas depois enquanto esperava por atendimento ouvi mais sussurros desta vez de um funcionário que carregava caixas de medicamentos ele deixou cair uma pasta de documentos no chão ninguém reparou quando eu peguei e escondi dentro da minha mochila quando abri a pasta entendi o que eles estavam escondendo era um
esquema de desvio de verba medicamentos comprados pelo governo nunca chegavam aos pacientes eram vendidos no mercado negro os exames que as pessoas esperavam por meses nunca seriam feitos porque o dinheiro tinha outro destino a raiva tomou conta de mim mas junto dela veio o medo eu tinha visto demais segurava provas de algo grande e sabia que ninguém deixaria barato Se descobrisse naquela noite enquanto tentava dormir em um canto do hospital houvi Passos senti que estava sendo observado o som de um telefone vibrando me fez congelar uma enfermeira olhava na minha direção e sussurrava algo para
alguém do outro lado da linha no dia seguinte Conheci um homem que parecia diferente Bem vestido sorridente demais ele disse que trabalhava para uma organização que ajudava pessoas em situação difícil prometeu emprego moradia e até assistência médica mas algo nele me deixou inquieto ele sabia demais sobre mim sabia meu nome antes de eu contar recusei a ajuda mas ao sair do hospital vi um carro preto estacionado do outro lado da rua eles estavam me vigiando andei pela cidade lembrando do interior da minha mãe do cheiro da terra molhada depois da lá a vida era dura
mas era honesta aqui tudo tinha um preço tudo era podre eu queria lutar contra aquilo queria expor tudo mas no fundo eu sabia sozinho eu já tinha perdido a cidade parecia maior naquela noite as luzes brilhavam como se quisessem esconder as sombras eu andava pelas ruas tentando ignorar a sensação de está sendo observado depois de tudo que vi comecei a entender não era só o hospital não era só o sistema de saúde ou a escola abandonada era tudo cada esquina cada prédio cada olhar vazio fazia parte de algo maior algo que eu nunca conseguiria enfrentar
sozinho eu sentei em um banco e observei as pessoas passando vi um homem com uma pasta cheia de currículos uma mãe carregando um bebê enrolado em um pano um jovem de terno barato olhando para o celular como se a vida dele dependesse disso todos apressados todos com medo de parar Foi aí que percebi eles não precisavam de grades para nos prender eles só precisavam nos manter ocupados demais desesperados demais para perceber que estávamos Acorrentados pensei no hospital nos papéis que encontrei nos corpos ignorados pensei nos prédios brilhantes Escondendo a sujeira tudo aquilo fazia sentido agora
o sistema não queria nos matar queria nos manter vivos o suficiente para continuar servindo como engrenagens gastas que nunca param de girar Mas o pior não era isso o pior era saber que a gente aceitava de repente ouvi Passos atrás de mim Me virei mas não vi ninguém continuei andando mas sensação de estar sendo seguido não passou passei por um espelho de loja e vi meu próprio reflexo os olhos fundos o rosto cansado eu já estava me tornando parte disso entrei em um beco tentando fugir do peso que sentia mas o peso estava em mim
nas minhas escolhas no silêncio que eu mantinha para não ser o próximo a desaparecer o telefone tocou um número desconhecido atendi você viu demais a voz era fria Eu soube naquele momento que eles sabiam de tudo eu podia correr podia tentar fugir Mas para onde a cidade não tinha saída o sistema não tinha saída pensei em voltar pro interior Mas eu sabia que mesmo longe o sistema chegava em todo lugar ele não precisava estar perto para controlar Ele só precisava estar presente na nossa cabeça Passei em frente à rodoviária e vi novas pessoas chegando olhares
esperançosos mochilas pesadas contudo o que eles tinham sonhos embalados Em promessas vazias eu quis avisar para eles tomarem cuidado quis gritar para eles voltarem mas não gritei Eu sabia que eles não iam ouvir sabia que até caírem iam continuar acreditando porque é assim que o sistema funciona ele não precisa te segurar ele só precisa te fazer pensar que você está livre e foi ali naquele momento que entendi na cidade grande a gente não precisa morrer para ser enterrado