Ao mesmo tempo que eu descobri uma criança feliz, eu também descobri o que era transfobia e preconceito. Eu falo que encontrar as mães, os grupos de mães, é sair do lugar de "porque comigo? " para "também comigo e tudo bem".
Mas na minha experiência real eu não posso negar: Nenhum pai, nunca quis falar comigo sobre isso. Hoje, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Enquanto mãe e ativista, é lutar para isso: é lutar para melhorar essas estatísticas e para provar que não, que pode ser diferente, sim.
E eu posso dizer claramente, no escorregador, na sala de aula ou no parquinho, as crianças são iguais, não tem diferença. Nunca tinha sentido preconceito como eu senti quando eu cheguei num espaço escolar e falei, "eu tenho uma criança trans". O olhar de desaprovação, as recusas em matricular minha filha numa escola, os escândalos que queriam proibir, de ocupar espaços com ela.
Isso dói, isso causa medo. Quando a gente fala sobre, não foi fácil para os pais, para poder chegar nessa etapa de você apoiar, de você acolher, de você tá sorrindo do lado da sua criança, é porque a gente para para ver as estatísticas. Então, quando a gente para pra olhar a realidade, hoje em dia a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos.
Hoje eu tenho 36, vou fazer 37, então só de pensar que meu filho pode não chegar à idade que eu tenho hoje é desesperador. E isso, se a pessoa ainda for preta, cai para 28 anos a expectativa de vida. Então, isso tudo não é igual pras mesmas pessoas.
Então assim, adolescentes trans, mas adolescentes trans de que classe social? Qual é a raça que eles pertencem? Qual o contexto de onde eles vieram, como é que a família acolhe?
Porque essas coisas são, elas informam umas às outras, elas não são coisas que correm em paralelo, entendeu? Muitas vezes, quando o jovem, uma jovem, sofre racismo, ele é muito bem acolhido pela família. Quando o menino aponta que é um menino trans, esse acolhimento nem sempre acontece.
Desde que meu filho se entendeu, desde que o meu filho reivindicou a sua identidade de gênero, sempre que eu posso, em todos os lugares, eu falo dele. Porque a existência do meu filho não pode ser um tabu, meu filho não pode ser um meteoro, uma coisa que acontece a cada 50 anos, sabe? Depois que o meu filho transicionou, eu comecei a me perguntar: onde estavam as pessoas trans que hoje têm a minha idade?
Por que elas estavam na minha escola? Por que elas não estavam na minha faculdade? Por que elas não estavam nos meus ambientes de trabalho?
E qual que é a minha responsabilidade enquanto pessoa cis, para essas pessoas terem passado tanto tempo marginalizadas? Hoje, a nossa sociedade, ela entende um corpo trans como um corpo para consumo sexual. É um corpo que não tem direito à saúde, é um corpo que não tem direito a espaços, é um corpo que não tem direito à família.
Nós somos o país que mais mata pessoas trans no mundo, mas somos o país que mais consome pornografia trans no mundo. A gente tem visto aí a reação das pessoas e eu imagino que essas pessoas que vão para internet dizer que a gente é louco, que criança trans não existe, o que que elas fariam? Como elas reagiriam se fosse o filho delas?
Elas colocariam para fora de casa? porque no Brasil, 13 anos é a idade média que uma menina trans é colocada para fora de casa. No Brasil, 90% das mulheres trans e travestis só conseguem ter trabalho na prostituição.
Eu escolhi apostar e rezar para que todo dia alguém não mate a minha filha. E é angústiante de viver com esse medo. Porque todo dia que ela vai para a escola, eu fico pensando, será que é hoje que vão bater nela de novo?
Porque já bateram. . .
Será que é hoje que vão falar que ela é uma aberração, igual já falaram? Porque há várias formas de matar uma pessoa trans. Você pode matar ela fisicamente, mas você pode matar a autoestima dela, você pode matar os sonhos dela quando você fala que ela não tem lugar na sociedade, quando você fala que ela não pode brincar no escorregador com o seu filho.
Quando você não convida a minha filha para festa de Halloween, porque você não gosta do tipo de criança que a minha filha é. O Guilherme tava no sétimo ano quando ele se entendeu um menino trans. Ele já tava nessa escola desde o sexto.
Eu fui na escola pedir para usar o nome social, já fui munida de vários decretos, enfim, com medo de como seria a reação. No geral, quando você chega na escola para falar que você quer que o filho use o nome social, a maioria das pessoas não sabe como agir. O Guilherme estuda na rede estadual, e há mais de 10 anos a rede estadual permite o uso de nome social.
Mas, basicamente, as pessoas não sabem como agir, e aí sempre tem um professor, outro, que é o pronome, que erra o nome. . .
O que eu acho um absurdo, porque se eu gestei, escolhi o nome, pari essa criança e criei por 12 anos, e eu posso me adaptar e chamar por outro nome, ninguém pode ter mais dificuldade do que eu. Mas as pessoas têm. Do ponto de vista da relação do crescimento de um adolescente, que como no caso do Azul, que é a experiência que eu tenho, trans a nossa escolha em relação às escolas que ele está estudando foi pensada e foi determinante.
Então, a mudança do nome dele na chamada foi determinante para ele se sentir aceito. É uma coisa muito boba, mas é uma coisa muito fundamental. Você ser chamado pelo seu próprio nome.
Muitas famílias buscam o que a gente chama de Anonimato Protetivo, então muda-se de escola, muda-se de local, e vai para um ambiente em que ninguém sabe que aquela criança é trans, uma perspectiva de tentar protegê-la. A minha filha já passou por muita coisa, minha filha já escutou que a menina de pipi sempre apanha. A minha filha já passou por abuso dentro da escola, praticado por professor.
Quando a gente foi matricular ela esse ano, eu perguntei: "Filha, você quer que as pessoas saibam que você é uma menina trans, que a professora saiba, que a diretora saiba, que os amiguinhos saibam? " E ela virou para mim e falou assim: "Não. " Eu falei: "Mas por que não?
" Ela falou: "Mãe, você sabe, a menina de pipi sempre apanha. " E aí, para o oitavo ano, a gente mudou o Guilherme de escola. O Guilherme estuda numa outra escola, chega nessa escola já com o nome social.
Até que um professor, em agosto, numa outra sala, professor de ciências, começa a falar, não sei sobre que assunto, e tem uma fala mais ou menos assim, que não existe esse negócio de ser trans, a pessoa é o que ela é, e cita o meu filho de exemplo. Pouquíssimas pessoas sabiam que ele era uma pessoa trans. E aí foi horrível assim, né?
O Guilherme foi exposto para a escola inteira, o Guilherme terminou os últimos três meses do oitavo ano sem ir para escola, fazendo trabalhos de casa, afastado, com laudo psiquiátrico, porque ele começou a passar por um processo intenso de isolamento. E aí, a gente mudou o Guilherme de escola de novo, para que ele pudesse chegar numa escola já retificado, hoje o Guilherme tem a documentação retificada, por meio de uma decisão judicial. A gente mudou toda a documentação dele, que é uma segurança grande também.
Então, ele já chega nos lugares, no documento dele, só tem um nome. As pessoas trans são expulsas da escola, pessoas como meu filho são expulsas dos espaços educacionais. Se não fosse o apoio que eu dou para ele, ele já teria desistido da escola.
Eu passei por cinco escolas que negaram a matrícula da minha filha, acabavam as vagas quando eu falava que eu tinha uma criança trans. "Acabou de acabar a vaga para série. " Ou "olha, eu aceito a sua filha aqui, mas o nosso jurídico encaminhou um documento que você tem que assinar, alegando que se ela sofrer qualquer transfobia aqui dentro, vocês não vão processar a escola.
" Então, esses tipos de situações que a gente encontrou na busca por escola. Escolas que na festa junina, pais que ficavam revoltados da nossa filha dançar com os meninos. Mas ela é uma menina, ela tá lá, vestidinha de festa junina, vai dançar de mãozinha dada com um menino, Que isso ofende?
O quê? O que que isso provoca, o que, né? Era uma criança de 5 anos.
No Brasil, tem essa coisa ridícula que tem que ter banheiro de homem, banheiro de mulher nas escolas, é separado, é obrigatório ter tantos banheiros de homem, tantos banheiros de mulher, e não se autoriza as crianças trans a usar o banheiro do próprio gênero. Eu já vi criança ficar 9 horas, 11 horas direto sem ir ao banheiro, porque ela não é autorizada a ir no banheiro do próprio gênero, então simplesmente não vai ao banheiro. Faz infecção urinária, você tem cálculo renal, você tem um monte de problemas físicos decorrentes disso.
Na escola, eu achei que eu fosse ter bastante problema, porque a maioria das vezes a gente vê relatos de preconceito, de não conhecimento, mas a escola foi fantástica, e a diretora pedagógica, ela foi bem clara de falar, "mãe, a gente nunca viu uma situação de uma criança trans, a gente tem outra escola onde tem os maiores, então lá no ensino médio, nós temos dois meninos trans, então a gente conhece essa demanda para os adolescentes. Agora, para criança, a gente nunca diz escutado falar. Então, o que você puder trazer para gente de conhecimento, de livro, de estudo, para a gente aprender, a escola tá aberta a aprender, a gente precisa dessa sua ajuda.
" E a primeira coisa que o Lauro tinha me pedido assim que ele fez a transição era que ele queria utilizar o banheiro masculino, porque era um banheiro com a portinha rosa e o banheiro com a portinha azul, e o sonho dele, sempre, mesmo antes da transição, era entrar no banheiro com a portinha azul. E aí, eu fui fazer uma viagem para São Paulo, fui de carro, e na volta, teria que voltar de ônibus, e eu vou na rodoviária, eu tinha um RG de um menino, e eu tinha uma menina. E aí, o motorista falou: "não, mas eu quero documento da criança, eu falei: "é a mesma criança.
" e o motorista falou, "você tá sequestrando essa criança! " eu falei, "não é a mesma criança. " - "Então, prova para mim que ela tem um pênis.
" enfim, o motorista chamou a polícia, me acusando de sequestro. Foi uma hora e meia de gritaria, e quando eu consegui convencer eles a entenderem que eu tinha uma criança trans, eu entro no ônibus com ela, ele chega na minha poltrona e fala assim: "Se tiver blitz da Polícia Rodoviária Federal na estrada, eu deixo você e essa aberração lá, porque eu não vou ser preso por sua culpa. " Aquele dia, eu entendi que alguém precisava fazer alguma coisa.
Que esses direitos das pessoas trans tinham que chegar até minha filha. E eu comecei a procurar redes TRANS e perceber que elas não tinham um trabalho tão específico para essa pauta. Também não sabiam me indicar quem poderia fazer.
E eu começo então, em 2020, um movimento com 10 mães. Hoje, somos 580. Eu sou presidente e fundadora da ONG Minha Criança Trans, que é a única do Brasil e da América Latina a lidar exclusivamente com pautas de crianças e adolescentes trans.
E a gente, com as nossas experiências, a gente vai tentando se ajudar. Mas o coletivo, o objetivo é buscar políticas sociais para essas crianças e adolescentes. Porque hoje, a gente não tem.
Muita gente fala assim: "ai que bonito, que legal". "Poxa, que bacana que você fez. " É injusto você me elogiar dessa forma.
Eu não fiz porque eu quis, eu fiz porque eu não tive escolha. A gente não pode romantizar um pai e uma mãe que luta por um filho e acha que é legal ele lutar. Ele não deveria ter que lutar por esse filho, porque esse filho já devia ter esses direitos adquiridos ao nascer, ao existir, ao se entender.
Recentemente, nós tivemos na Parada de São Paulo, a Parada do Orgulho LGBTIQA+ de São Paulo. É a maior parada do mundo. E a gente tem que pensar a Parada não como um movimento festivo apenas, mas como um movimento político de trazer visibilidade.
É nessas grandes marchas que a gente traz olhos do mundo inteiro para pautas que talvez as pessoas não quisessem faltar. E a gente foi muito criticado porque estavam lá. Porque levamos nossas famílias lá, que estavam nos expondo, que estávamos sendo desnecessários, que crianças não tinham que estar lá.
Mas se eu não tiver lá, eu vou estar onde? Se não é um orgulho LGBTIQA+ eu tenho orgulho da minha filha trans. Ela faz parte dessa comunidade.
E mesmo em toda a segurança, a gente garantiu toda a segurança. Não tivemos nenhum infortúnio com nenhuma família, com nenhuma criança. As crianças que estavam lá estavam brincando de bolha de sabão.
Tivemos uma parte conservadora da nossa sociedade que está utilizando isso para nos agredir. Mas também tivemos uma mídia que, pautou-nos, que saiu. .
. Saímos em capa de jornal, em outras tantas matérias que falam, 'crianças trans existem'. Vamos tirar ela do tapete, botar lá no sofá da sala?
Vamos conversar sobre isso? Então, para você ver, é um reflexo positivo. Ainda entre os saldos positivos e negativos do que o conservadorismo tá nos atacando, mas também do que conseguimos promover de pessoas falar: "Opa, nunca tinha visto isso, nunca tinha pensado nisso, comecei a pensar a partir de então.
Porque a gente tá fazendo as pessoas verem que as nossas famílias existem. É isso que a gente precisa. A gente precisa parar de ocupar o subúrbio, o escuro, o escondido, excluído.
Ah, não, não posso falar que eu tenho uma criança trans. Não, eu vou falar que eu tenho uma criança trans. Porque minha filha tem direitos.
Ela ocupa essa sociedade e vocês vão ter que nos respeitar. " "Nossos filhos só precisam de respeito! " [aplausos e coro] "Ser trans é um direito!
Nossos filhos só precisam de respeito! " A série Criança Trans tem quatro episódios. Fique por dentro de todos se inscrevendo no canal e ativando o sininho!