Olá, sejam todos mais uma vez bem-vindos! Hoje, nós vamos falar sobre a ordem dos estudos e a Ratio Studiorum. Como disseram os Jesuítas, não foram eles que cunharam isso, né?
Inclusive, o que é conhecido por Ratio Studiorum é este currículo e o próprio método pedagógico dos Jesuítas, mas o nome completo deste livro, deste documento, é Ratio Instituti Studiorum. Então, é uma Ratio Studiorum, uma ordem dos estudos própria para ser seguida nas escolas da Companhia de Jesus. Mas nós podemos falar de uma Ratio Studiorum no geral, não é?
E a discussão do que é a ordem dos estudos. Bem, a primeira coisa talvez a ser dita é que não existe nada com relação à ordem dos estudos. Existem coisas que são mais elementares do que outras, existem coisas que são pré-requisitos para outras, mas nada impede, quando se trata de disciplinas isoladas, de nós começarmos por qualquer uma delas, desde que seja possível.
Por exemplo, é possível o sujeito estudar retórica antes de estudar gramática. Bom, em princípio, não existe nada que impeça isso, porém vai ser muito mais difícil se o sujeito, pelo menos, não souber ler e escrever; vai ser muito mais difícil estudar retórica. Mas nada impediria do sujeito estudar retórica somente de forma oral, sem nada escrito.
É muito mais difícil; a probabilidade de que isso não dê certo é muito grande, mas não é impossível. Quando nós falamos de artes liberais, nós temos uma ordem mais ou menos tradicional: as artes do trí começam com a gramática. Isso é unânime, a opinião, porque, justamente na gramática, está a alfabetização, está o contato com o nível do discurso.
Não é que é o mais básico de todos, que é a literatura, que são os poetas. E agora, depois, não é o que deve ser estudado primeiro: a retórica ou a dialética? Não há nenhum consenso e, em princípio, essas duas artes podem ser estudadas ao mesmo tempo ou de acordo com algum critério que seja pessoal.
Então, nós vamos começar estudando a gramática e depois passaremos para a retórica e para a dialética. Isso é bastante normal. Mas aí surge um outro problema: quando eu sei que já estudei o suficiente de gramática?
Se eu não fizer um curso, se eu não tiver alguém orientando os meus estudos passo a passo, pode ser que eu nunca termine de estudar a gramática. O conteúdo, eu afirmo, será existirá, na verdade, é a arte que mais tem conteúdo, já que não se esgotam, não é? Pelo menos numa vida humana, é impossível esgotar a leitura e compreensão de todos os poetas, de todos os textos literários e tudo isso.
Então, pode ser que o sujeito passe estudando gramática a vida toda. E mesmo quando se trata de regras de gramática, nós veremos isso na aula. Vamos falar sobre gramática, né?
É um mundo à parte, assim como é outra arte, não é? Mas a gramática também não tem um limite, não é? Eu posso estudar toda a gramática específica de uma língua e a partir de um autor, mas isso não faz com que seja totalmente dispensável estudar de outro autor.
É diferente, por exemplo, estudar um livro de física moderna. Por exemplo, né? Aí eu pego ali a mecânica.
Em princípio, todo o livro sobre mecânica tem toda a ciência da mecânica; uns serão mais didáticos, uns serão mais prolixos, uns conterão mais exercícios que outros e tudo isso, mas a matéria está ali. Na gramática, não há isso, não é? Pela própria natureza da disciplina.
Então, eu não tenho como isolar a gramática, o que realmente é essencial estudar aquilo e considerar que terminei os estudos. Isso não acontece com a gramática, nem com a retórica, nem com a dialética. Com a aritmética acontece.
Bom, sim, se eu tenho bem determinado o que consta a própria arte. Mas nós podemos inserir na aritmética muitos outros elementos, muitas novas descobertas que aos poucos vão sendo feitas. Muitos dos outros métodos de cálculo e tudo isso que podem estar ali contidos também no estudo da aritmética.
Se nós vamos para a astronomia, bom, já é uma outra questão muito, muito diferente, porque com o avanço tecnológico nós vamos quebrando certos paradigmas que vigiam anteriormente e isso faz com que ela também seja muito ampla. Agora, a ordem tradicional, então, dos estudos não é fixa. Tradicionalmente, nós temos uma variedade.
Por exemplo, falávamos, citávamos ali a educação dos Jesuítas. Os Jesuítas, ah, a lógica, por exemplo, aparecerá nos estudos superiores. Não é?
A lógica e a dialética aparecem nos estudos superiores como propedêuticos da filosofia, já no curso de Filosofia, e enquanto se foca basicamente na gramática, na retórica e depois naquilo que se chamam humanidades, onde entram diversas questões relacionadas às ciências naturais, à própria matemática. O que admira muitas pessoas? "Pô, mas se a humanidade, o sujeito vai estar estudando ciências naturais, matemáticas?
" Sim, né? Isso é algo que até 200 anos atrás era mais do que óbvio, né? Macaco não faz conta, macaco não estuda biologia, química, física; essas coisas são próprias do ser humano, são próprios do homem.
Não há nada mais humano do que estudar química, física, biologia e seja lá quais forem as ciências naturais. Então, não é de se admirar que os Jesuítas, por exemplo, pusessem essas disciplinas, todas que ali, a partir do Renascimento, ganham uma relevância bastante grande, pusessem tudo isso nas humanidades. Quando nós, ao longo da história, temos o estabelecimento dessas sete artes liberais, nós já estamos na Idade Média.
Ou, pelo menos, na passagem da Antiguidade para a Idade Média, as artes do quadrum já são citadas, por exemplo, por Platão, com esse número de quatro, sendo que existiria uma quinta arte dessas todas, né, dos pitagóricos, que seria somente para aquelas pessoas iniciadas. E Platão não diz exatamente do que se trata essa quinta arte; em princípio, segundo os estudiosos da história da educação e da própria ciência, seria a perspectiva dentro do currículo. Não é?
Então, teríamos matemática, música, geometria, astronomia e mais uma quinta arte que, pelo que Platão deixa entender, é a arte da perspectiva, que era acessível somente a um grupo de iniciados. Porém, as artes do trivium não aparecem dessa forma; mas nós podemos ver, mesmo em Platão, alguns indícios de que se tratava justamente de gramática, retórica e dialética. No diálogo Protágoras, por exemplo, quando Sócrates chama para discussão um mestre de literatura, outro de retórica e, outro, que é no caso o seu interlocutor principal, o Protágoras, e chama outro de dialética, e depois chama matemáticos para intervirem na discussão e darem ali as suas contribuições.
Isso acontecerá ao longo de outros escritos de outros autores também, não é, como o próprio Aristóteles. Então, o partido por algo bastante prático, não é? Se nós falarmos da ordem dos estudos, nós falamos da ordem dos estudos aqui nesse curso, nesse breve curso especificamente das Artes Liberais.
As Artes Liberais compreendem aquelas artes da linguagem e as artes da realidade. Então, as artes sermones e as artes reales ou teó. .
. Porém, existem outras, não é? Existem ainda as artes práticas na moral e existem também as artes mecânicas.
Obviamente, se nós vamos falar de Artes Liberais, nós falamos somente dessas duas primeiras, da linguagem e da realidade. Porém, é importante não esquecermos de que isso não é possível de ser feito sem uma dedicação por parte do aluno às artes, às Artes Morais práticas e também às mecânicas, né? Principalmente para nós, eu diria, nós que vivemos numa era onde a tecnologia, a técnica, faz muito daquilo que seria o mais natural.
Nós podemos viver uma vida toda praticamente sem termos de aprender quase nada sobre artes mecânicas. Nós vivemos numa época em que a moral é algo de foro íntimo e que não diz respeito aos estudos. Não é?
A pessoa tem que sentir o que ela precisa e como ela deve agir, e tal, a partir dos seus sentimentos e daquilo que para ela é importante, não é? Se te faz feliz, então está tudo bem. Não é?
Então, é bastante natural que se vire as costas para esses dois campos, né? Nós não vamos nos enganar. Se nós estudamos, por exemplo, a história, existe um objetivo principal nisso.
A história é mestra da vida, e ela vai nos ajudar, sim, a aprendermos a viver a própria vida. Existe um aspecto da literatura que não é gramatical, que é justamente prático. Os primeiros níveis, nos dois primeiros níveis, e falaremos isso na próxima aula, dizem respeito à arte gramática: saber compreender um texto no nível literal e no nível figurado.
Porém, o nível moral, obviamente, não diz respeito à gramática; ele depende da gramática, mas diz respeito à prática e ao contemplativo também, né? Mas sobre esses níveis de leitura falaremos na próxima aula. Então, nós vemos que, da gramática, nós conseguimos passar para as Artes Morais e das Artes do quadrum nós conseguimos passar para as Artes mecânicas.
É óbvio que um marceneiro pode ser um bom marceneiro, inclusive, sem saber calcular nada teoricamente; somente na prática, então, por comparação de uma coisa com a outra, a partir de modelos ou paradigmas, ele consegue construir uma mesa, uma prateleira ou até mesmo uma casa sem fazer nenhum cálculo. Porém, se ele souber, aquilo será muito mais excelente, e o seu horizonte de atuação dentro de uma arte mecânica aumenta muito. A mesma coisa para um esporte: o sujeito pode ser um grande esportista, e nós temos inúmeros exemplos disso, dominar técnicas mecânicas do próprio corpo com o uso do próprio corpo, sem saber nada sobre dieta, sobre funcionamento endócrino, nem nada disso.
Porém, se ele souber isso tudo, teoricamente, ele potencializa muito essa arte, que é uma arte mecânica, no caso, como são os esportes e as atividades físicas, no geral. Então, com isso, nós vemos que existe uma ligação e uma interdependência entre todas essas áreas. Assim como o contrário também, né?
Nós precisamos ter a vontade bem trabalhada através de artes práticas morais para que nós realmente consigamos levantar e tomar a decisão de estudar gramática, retórica, aritmética ou qualquer coisa assim. Não é? Se o sujeito não tiver a vontade exercitada pelas Artes práticas, ele não fará.
Normalmente, o que acontece é isso: ele tem um exemplo prático, um exemplo moral, dizendo que fulano de tal acordava todos os dias às 4 da manhã e ia estudar. E isso faz com que ele reflita, não é? Possa meditar sobre isso e tome como o próprio exemplo.
E aí, sim, ele terá condições de realmente estudar, não é? Mas, sem esse exemplo, né? Nós não chegamos a lugar nenhum.
Ninguém vai começar a estudar. As pessoas só começam a estudar porque elas sabem que outras pessoas também o fizeram e que aquilo traz diversos frutos e é algo bastante benéfico no futuro. Assim como, se o sujeito não tiver domínio de certas artes mecânicas, ele não consegue fazer nada disso.
Não é? Se ele não se alimentar direito, não dormir direito. .
. Ter um ambiente confortável com conforto acústico, térmico e essas coisas assim é, pelo menos, o essencial e básico. Ele não consegue estudar, não é?
E, às vezes, ele não consegue estudar por desconhecer todas essas coisas que são da esfera das Artes. Se nós olharmos uma lista, pusermos no Google "Artes liberais", nós vamos ver que normalmente está ali o trivium: gramática, retórica, dialética. Ou gramática, dialética, retórica.
Varia nas listas. Nós temos ali aritmética, normalmente essa sendo a primeira, depois música, geometria, astronomia, ou geometria, música, astronomia, ou mesmo geometria, astronomia e música. Varia.
Mas essa é a ordem que essas coisas têm que ser estudadas no quadrum. Assim como, normalmente, no trí, nós pomos a gramática inexoravelmente como a primeira. No quadrum, nós vamos para a aritmética por questões óbvias, não é?
Sem conhecer os números e a teoria do número, nós não conseguimos depois tratar sobre a teoria do espaço, não conseguimos tratar sobre a astronomia, a teoria do som, nem nada disso. Nós precisamos, sim, conhecer os números. Porém, as outras três, a ordem variará bastante.
E nós conseguimos estudar música sem termos estudado geometria. É muito difícil, mas não sem estudar aritmética. Nós conseguimos estudar astronomia sem ter estudado música, mas sem ter estudado geometria e aritmética é muito, muito difícil.
Então, tendo isso em mente, nós já conseguimos saber: "Olha, eu preciso de uma boa base de aritmética, sim, para estudar música. Eu preciso de geometria? Não.
Mas eu posso estudar geometria sem música, sim. " Então, nós vamos fazendo aí a análise combinatória e vamos chegando a um denominador comum. Eu acredito que o melhor de tudo, sempre, quando nós vamos empreender uma rotina de estudos, é levar em conta aquilo que nos é acessível em primeiro lugar.
Quando surge, dizem: "Eu quero muito começar a ler literatura clássica. Qual livro eu começo? " Eu sempre digo: "Qual livro tu tens em casa?
" Ele diz: "Ah, não tenho nenhum. " Mentira, né? Normalmente ele tem um.
"Eu tenho aqui aqueles livros que eu tinha que ler pra escola, aquelas edições que vêm no final com questões de vestibular. " Ótimo! "Leia esse livro.
" Ah, sério, né? E ele estava esperando que a resposta fosse: "Não, tu tens de comprar a Ilíada com a tradução X do ano tal que tenha não sei o que, o prefácio é assim, isso e aquilo," né? Mas não é assim.
E os estudos começam por aquilo que é acessível. Se eu não tenho nenhum livro para estudar sânscrito, nenhum método de sânscrito, eu não estudo. Eu não tenho como estudar e eu não posso dizer assim: "Eu nunca estudei nada porque me faltou o livro um.
" Então, assim, eu nunca li o gibi da Mônica porque eu queria ler na ordem cronológica que eles saíram, e como me faltou o um e eu comprei todos os outros, eu não li nenhum. Nunca, né? Seria bastante ridículo.
A pessoa pode ser internada numa casa de doentes mentais quando ela faz isso. Então, não podemos, né, dizer assim: "Eu ainda não li nada porque eu quero começar pela Ilíada. " Não há nada mais ridículo do que isso, né?
"Eu não estudei ainda geometria porque eu primeiro tenho que estudar aritmética. " Eu disse: "Mas tu não sabes as quatro operações, né, números decimais e essas coisas assim? " Ele disse: "Não, isso eu sei.
" Então, tu já sabes alguma coisa! Essa é a realidade. Muitas coisas, que no Brasil, pela nossa cultura, nós não temos, por exemplo, conhecimento de música, né?
Se o sujeito não foi atrás por meios alternativos, ele não sabe nada de música. Mas ele não sabe nada mesmo! Ele pode até ter escutado música muitos anos da sua vida, durante muitas horas, conhecer a biografia dos artistas e essas coisas assim, mas ele não sabe absolutamente nada de música.
E é nada mesmo. Tem um conhecimento negativo de música. O sujeito vai cantar "Parabéns a você" e ele não consegue, como é 80% da população dentro da nossa cultura.
Ele realmente não sabe nada de música, né? Então, é muito difícil que ele consiga estudar música se ele não souber nada. Agora, por exemplo, uma noção: se o sujeito é alfabetizado e sabe das quatro operações, ele não pode afirmar que não sabe nada.
Não. Mas tinha que ser com o método da educação clássica, das Artes liberais. Mas esse é o método certo!
Isso não! O método é aquele que faz com que tu chegues a um resultado específico, né? Tu sabes ler, reconhece as letras, as sílabas, as palavras e tal.
Pronto, já começaste! Não tem que fazer tudo de novo. Tu vais partir deste ponto, exatamente.
E assim é com tudo, né? É provável que alguma coisa de astronomia o sujeito já tenha ouvido falar, né? Por exemplo, ele sabe que o sol nasce no leste e se põe no oeste.
Bom, esse é um conhecimento astronômico. Não sabes isso? Bom, sabes!
Não sabes reconhecer a ver o sol nascendo e para onde fica o norte e o sul, por exemplo? Consegue-se! Isso é o normal.
Não é? E são conhecimentos de tipo astronômico. Quando alguém diz assim: "Não, ele é o sol da minha vida," né?
Tu não entendes o que isso significa? Bom, tu entendes o que isso significa porque tu conheces a analogia com o fenômeno de tipo astronômico e assim por diante. Então, alguma coisa, nós todos sabemos.
Além disso, quando nos deparamos com Artes Liberais, muitas vezes temos a dúvida: do que estudar? Então, de onde buscar esses materiais, né? Claro que não.
No Instituto, nós temos aí uma coleção que nada mais é do que materiais que nós usamos desde os primórdios aqui das atividades no grupo de estudos e tal. Algumas coisas foram sendo, eh, juntadas e postas ali como, ah, um guia, né, essencial. Porém, né, eh, existe muito mais do que aquilo e existem coisas que, por vezes, possam inclusive ser melhor do que aquilo.
Não podem existir materiais mais modernos, mais facilitados e tal, e que não sejam nem mesmo indicados naqueles 12 volumes. E por quê? Porque a vida de estudos não é ler um livro, né?
E quando o sujeito diz assim: "Ah, eu li o Trivium", né, eu digo: "Você leu um livro que tem esse título, certo? ", porque aquele livro da irmã Miram Joseph não é o Trivium; ele é um livro com esse título e não é nem mesmo um manual que sirva para um autodidata. Não, aquilo é uma apostila que ela utilizava nas suas aulas e, para cada aula, ela tinha ali um trecho que era o guia do que deveria ser estudado, né?
Então, apostilas usadas num curso de do anos, mas para além daquilo, tinha muito material, né, que deveria ser estudado. Então, se o sujeito vai ali ler e não chega a lugar nenhum, bom, esse é o normal, porque tu não tens a irmã Miram Joseph na tua frente te dando aula e dizendo o que tu tem que fazer com aquele material todo. Assim como existem aqueles livros didáticos de cursos de idiomas onde o professor precisa dizer tudo que tem para ser feito ali, né?
Tu abres assim, aí tem umas imagens com os balãozinhos, assim, com frases e aí uns pedaços soltos de texto, incompleto e tal. E se a professora não estiver ali e disser: "Olha, agora nós vamos pegar essas frases, vamos formar um diálogo, vamos exercitar com o nosso colega do lado", e não sei o que, e depois eu vou fazer umas perguntas sobre as imagens que vocês estão vendo, se não houver o professor, ele não serve para nada. Não, o livro é feito para ser usado dentro de uma sala de aula.
Isso acontece, acontece muitas vezes, né? Não é qualquer material que é feito para um autodidata. Chega o momento da história onde o material didático se aparta da produção de um livro normal.
Um livro normal é aquele que pode ser tomado e lido. Pronto, e aí é possível entender o seu conteúdo. O livro didático é aquele que, se tu o tomas, não entendes nada, porque se tu não tiveres o professor, que ele próprio tem um livro do professor que ensina ele a usar aquele livro na dinâmica da sala de aula, né?
Isso vai acontecer muitas vezes. Isso acontece com livros de ciências naturais, com livros de matemática, por exemplo. Qualquer um que pega um livro de física, nunca tendo estudado física sem ter feito aula de física, é muito raro que um livro funcione, né?
Normalmente, ele não serve para nada. Assim, se o sujeito não tiver um professor que explique o que é aquilo, o livro não serve para nada, eh, por vários motivos, né? Um professor, um físico, normalmente não sabe escrever, eh, então ali está mal escrito ou ele escreve já cheio com jargões da física que só são compreensíveis por outros físicos.
Então é aquela coisa hermética que se tu não tiveres alguém que te explique o que está ali. Não é uma espécie do apóstolo Felipe com o eunuco, eh, que lia o profeta Isaías em voz alta e tá entendendo. Não, Felipe pergunta: "Está entendendo o que tu estás lendo?
" "Não, não estou, porque não tem ninguém que me explique", né? Nessa situação, é bastante comum. Diversas vezes, né, o aluno pega ali, compra muitos livros e ele tenta ler e não entende.
Não entende porque não há ninguém que me explique. Esse pode ser um motivo. O outro motivo é que tu não tens pré-requisitos bem desenvolvidos.
Não é, eh, existem pré-requisitos, por exemplo, para se estudar números decimais. É preciso estudar números inteiros antes, né? Não há como inverter uma coisa, né, tirar uma coisa, trocar uma coisa pela outra, não.
Eu vou começar aqui direto com equações do segundo grau sem saber as quatro operações, ou pelo menos sem saber das equações do primeiro grau, né? Eh, a aritmética tem essa ordem muito bem colocada. Agora, quando nós vamos para artes do Trivium, isso não é tão simples assim.
Se nós formos olhar a maioria das gramáticas, com exceção talvez daquela metódica do Napoleão Mendes e Almeida, elas têm uma parte de morfologia e dentro da morfologia existe o capítulo dos pronomes. Então, tem os pronomes, e tem os pronomes retos e os oblíquos, e ali ele ensina o que são pronomes retos e oblíquos, quais são e tal. Porém, é impossível entender o que são pronomes oblíquos sem estudar sintaxe, porque eles só fazem sentido dentro de uma frase.
Isoladamente, eles não têm serventia nenhuma. Então, eu posso aprender a classificar morfologicamente aquela palavra como pronome oblíquo, mas eu não sei para que ele serve e também não sei usá-lo. Então, o normal seria que primeiro eu precisasse aprender sintaxe para, aí sim, poder usar os pronomes oblíquos e entender, de fato, o que eles são.
Isso é um exemplo que eu dou, mas que acontece diversas vezes com diferentes disciplinas. E eu, quando digo que acontece diversas vezes, é para não assustar ninguém. Mas a verdade é que acontece o tempo todo, eh, o normal é que quando nós estamos estudando alguma coisa, várias delas.
. . Passem por desentendida, não é?
O normal é que eu leia um livro e não entenda 100% nem do vocabulário que está ali, mas isso é o normal. Logo, se é o normal, eu não preciso me apavorar. Eu não preciso.
. . Olha, só vou passar adiante depois de ter dominado completamente o conteúdo que está aqui.
Não é dentro dessa ordem de estudos que eu pré-estabeleci. Quando nós falamos de ordem dos estudos, é aquela do alpinista, né? O sujeito que faz escalada de montanha, certo?
Então, o sujeito vai subir o Aconcágua ou o Everest e ele não sobe direto, né? Inclusive, isso normalmente se faz em equipes, e não é que tenha a escalada de parede; às vezes é só uma caminhada morro acima, né? Só que como é muito alto, ele precisa se adaptar à altitude.
Então, o grupo exped sobe até um certo ponto naquele primeiro dia e desce, não até o fim, mas desce até a metade, mais ou menos, de onde se subiu. Então, suponhamos que eles subiram 500 m no primeiro dia; eles vão baixar 250 m e acampar, passar a noite ali. No outro dia, eles sobem mais 500 m, descem 250 e acampam no ponto máximo que haviam chegado naquele dia.
Isso porque os pulmões precisam se adaptar à rarefação do ar, a essa ar rarefeito que existe ali. Eu não posso dar um estirão, então é capaz do sujeito, durante a noite, morrer, não é? Lhe faltar oxigênio porque ele não está com os pulmões acostumados.
Então, ele precisa subir, forçar um pouco os pulmões, mas logo relaxar, descer um pouco, e assim vai indo, né? Até que, um dia, chegue no topo. No dia em que ele chegar no topo, ele não pode acampar no topo.
Se ele quiser realmente passar uma noite no topo, ele precisa descer, acampar ali e, na próxima noite, ele conseguirá acampar no topo do monte. E, bom, com a vida de estudos, né, na ordem dos estudos é mais ou menos isso: eu não posso chegar a estudar a gramática aqui, parar aqui e depois pular para o outro. Eu vou ter que estudar gramática sempre indo e voltando, não é?
Ah, terminei a morfologia; agora vou para a sintaxe. Não, eu vou até a sintaxe, dou uma olhada, volto, continuo na morfologia, daí vou mais um pouco. E a mesma coisa assim: agora comecei a estudar retórica, aí eu vou, subo até a retórica, volto para questões gramaticais e tudo isso, e indo e voltando.
Isso talvez para o resto da vida. Obviamente existe um momento em que nós temos muita segurança naquilo que estudamos. Dizem os especialistas que esse momento é depois de 10.
000 horas, né? A segurança verdadeira vem depois das 10. 000 horas de estudos.
E, bom, tendo 10. 000 horas de estudo, nós realmente adquirimos essa segurança, mas não quer dizer que nós não precisaremos estudar nada, nada mais além disso; é bastante provável que sim. Para termos uma ideia, e isso é importante para montarmos o nosso currículo pessoal, para um idioma, é necessário por volta de 1.
000 horas de estudo para se alcançar um nível que poderíamos considerar como básico, não é? Seria aquele nível do B1, segundo o Quadro Europeu de Referência. Ah, mas eu conheço gente que fez um curso com 500 horas e conseguiu já esse nível.
Não, tudo bem, ele conseguiu passar numa prova que lhe dava um certificado pré-nível, mas nós não podemos considerar que isso seja realmente dominar as coisas. O Quadro Europeu de Referência do estudo de idiomas é bem feito, é muito organizado e tudo, mas para uma avaliação, ter o certificado de um nível X ou Y não significa que tu estás naquele nível, né? Quando tu lês ali e fazes a prova do nível B2, passaste, tiraste ali uma nota 85, acertaste 85%.
Não passou, né? Está ótimo, mas aí quando tu vais ler quais são a descrição do que é estar naquele nível de proficiência linguística, tu vais ver que tu não estás, né? Então, é aquilo ali justamente que tem que ser o teu guia, e não passar ou não passar numa prova.
E isso nós precisamos nos acostumar a fazer: precisamos saber que somente nós mesmos somos capazes de nos autoavaliar. Para isso, é necessária uma sinceridade violenta com relação ao nosso próprio conhecimento, ao mesmo tempo que nós precisamos tomar extremos cuidados com escrúpulos, o que também atrapalha muito, com essa falsa humildade, né? Eu vejo muita gente que veio fazer aulas aqui no instituto, por exemplo, em cursos intensivos, e depois do terceiro dia de aula, eu vou ver onde o sujeito está, como está ali o andamento dos seus estudos, e ele está repetindo as coisas da primeira aula.
"Não, eu estou passando tudo a limpo porque eu quero fixar bem e tal. " E aí, na quarta aula, ele já não consegue mais acompanhar, né? Porque ele ficou com.
. . "Não, eu tenho que ir mais devagar, eu não posso seguir nesse ritmo.
" Quando chega no final da primeira semana de um curso de duas semanas, por exemplo, ele já não acompanha mais nada; saiu de tudo. Por quê? Porque ficou com escrúpulos.
"Ah, eu não entendi perfeitamente ali, e aquela declinaçãozinha do latim, aquilo não sei o que," e fiquei repetindo aquilo um milhão de vezes até que eu soubesse bem, tivesse bastante segurança, né? Bom, o que é o correto para fazer isso, cada um precisa saber. Só que eu preciso de um exame de consciência: estou sendo escrupuloso ou realmente eu preciso de muito mais tempo do que os outros meus colegas?
Já passaram adiante, né? Quando a indicação para um curso intensivo é que tu faças tudo no tempo que for proposto e depois, sozinho, aí tu pegas voltas e faz as coisas no teu tempo, né? Mas, para o aproveitamento máximo, é importante que tu acompanhes o ritmo proposto pelo curso, ou então não fazes o curso, né?
Então, estuda sozinho o tempo todo e aí faz nessa tua velocidade, eh? Que tu dizes, né? Existe uma diferença de velocidade no aprendizado.
Claro, aquilo que, para uns, é necessário uma hora para compreensão, para outros pode ser 10 ou 20 horas, e não tem problema nenhum, né? Então, um curso bom e bem montado é aquele que o professor consegue tirar uma média e fazer com que quem tenha mais facilidade não se aborreça e quem tenha mais dificuldade tenha um tempo mínimo para adquirir o básico, o básico de tudo aquilo, né? São coisas práticas, são coisas morais que vão fazer com que nós consigamos manter os estudos numa ordem correta, sempre levando em consideração essas questões todas objetivas, como aquilo que é pré-requisito para outras coisas, né?
Mas nunca entrando em escrúpulos, né? Eu vou lá, estudo a história da educação e começo a propagar absurdos do tipo: “Se conseguir, em 50 anos, estudar pelo menos a gramática que os medievais estudavam, eu já estarei feliz. ” Isso ou é escrúpulo ou é arrogância.
Mas, assim, verdade não é. Não é porque não é tanto assim; os medievais… pode ser que o resultado dos estudos e de uma vida dedicada aos estudos de um São Boaventura, de um São Tomás de Aquino e coisas assim, sejam admiráveis e os nossos olhos digam: “Pô, eu nunca vou chegar nesse nível. ” Mas, não quer dizer que tu não possas chegar no nível de um conhecimento gramatical de um Santo Tomás de Aquino, né?
Ou então a pessoa se apavora e diz assim: “Não, eu nunca… pô, São Tomás aqui não escreveu em latim. Eu tô apanhando aqui na terceira aula de latim. Eu nunca vou ser capaz de nem de escrever na língua que Santo Tomás escrevia, quanto mais escrever sobre os assuntos mais intrincados da teologia e coisa naquela língua.
” Né? É mentira. Claro que é possível, né?
É possível aprender a escrever em latim com a mesma fluência que Santo Tomás de Aquino escrevia e com a mesma influência de um Cícero, por exemplo. Por que não, né? Não são coisas humanamente impossíveis.
Tendo isso em mente, acredito que o caminho está aí aberto e eu só tenho a desejar a vocês: bons estudos! Obrigado, até a próxima!