Narrativas Compartilhadas tem o prazer de ouvir, neste momento, a Ganha Cristina dos Santos Boy, coordenadora dos cursos de Arte, Artes e Cênicas que dão a concessionária Visuais. Então, vou começar de novo: Visuais, Artes Visuais. .
. É que eu comecei a falar teatro. Deve lembrar que eles pediram para colocar em ordem as artes visuais.
Artes Visuais, Dança. . .
Aqui. Tranquilos, muito obrigado, Bruno. Narrativas Compartilhadas tem o prazer de ver, neste momento, a nossa querida professora Tânia Cristina dos Santos Boy, coordenadora dos cursos de Artes Visuais, Dança e Teatro da Uniso.
Seja bem-vinda, professora Tânia! Antes, vou apresentar uma rápida visão do currículo da Tânia. Ela é professora e coordenadora dos três cursos, doutora em Artes Cênicas pela ECA-USP, mestrado em Educação pela Unisul e licenciado em Letras pela Uniso.
No doutorado, a tese que ela desenvolveu era focada em leitura e escrita do teatro. No mestrado, a dissertação envolveu o teatro estudantil. Pertenceu ao grupo de Teatro Catarses da Uniso e, ainda em sua formação, trabalhou com linguagem nos meios de comunicação, teatro, dança e atividades teatrais na escola.
Isso é um relampejo apenas de tudo o que a Tânia tem desenvolvido. É um prazer enorme ter você aqui conosco hoje! Também é uma delícia você ter sido aluna e, hoje, estar numa das nossas chapinhas aqui dentro da instituição.
Sinta-se muito à vontade, porque o espaço é seu. Queremos ouvir a sua história, contar a sua trajetória dentro das ações da sua formação, desde a infância, não é? Por nascimento, os primeiros passos na sua formação, a entrada na escola e o desenvolvimento das ações até hoje.
Logicamente, todos nós já percebemos claramente o seu envolvimento muito forte em teatro, educação e arte em geral. Tendo feito o curso de Letras, você continua envolvida nesse contexto, porém você trilhou uma estrada muito mais voltada para a educação teatral. Sinta-se à vontade para compartilhar a sua história.
Primeiro, agradeço o convite. É uma honra você, sendo meu professor, estar aqui compartilhando essa história. Porque agora eu já estou aposentada, são 30 anos de trabalho na rede pública como professora de português.
Já se vão tantos anos e você foi meu professor na universidade; eu nem sabia que usava drogas no estado! Então, esse momento é muito significativo, especialmente agora que me aposento, para resgatar toda essa história. Acredito que é importante lembrar desde o início como o teatro sempre esteve presente em todos os momentos da minha vida.
Se eu quiser recordar desde o início, no período escolar, meu envolvimento na educação foi com o teatro. Também na minha igreja, que foi onde meus formadores no teatro estiveram. Eu sou da Igreja Presbiteriana do Brasil, atualmente frequento a primeira ali na Rua 15.
Meu percurso começa desde a educação infantil; eu sou de Sorocaba, a minha família é da primeira geração nascida na cidade. Minha mãe é de uma cidade do estado de São Paulo, mas nossa família vem do Rio de Janeiro. O sobrenome de meu pai, Boy, é estranho, vem da Alemanha, do Rio de Janeiro.
Depois, como meus avós queriam sair da casa dos pais e comprar terras próprias, as terras mais baratas eram em São Paulo, e aí a família veio para São Paulo. Aqui, em São Paulo, é uma família bem pequena; a maior parte está no Rio de Janeiro. Desde pequena, eu sempre tive apoio, principalmente de minha mãe, para fazer teatro.
Ela gostava muito, mas o pai dela não permitiu que ela fizesse. Ela, quando jovem, frequentou o Sesi para fazer curso de teatro, mas meu avô descobriu e proibiu, porque isso não era coisa de mulher, de moça de família. Naquela época, o teatro sofria muito preconceito, muito maior do que hoje; era coisa de prostituta!
Então eu tinha esse enfoque. Para ele, era absurdo, e ela guardou esse desejo para si. Mas depois, com os filhos, ela sempre apoiou que nós fizéssemos arte, fizéssemos aquilo que desejássemos.
Eu fui a que mais fez; todos os meus irmãos fizeram cursos, mas fui eu que fiquei firme no teatro. Não consegui sair desse lugar maravilhoso e mágico que é o teatro. Lembro que minha primeira lembrança no teatro foi aos 5 anos, na educação infantil, numa peça de Natal onde as matérias eram de um colégio de Madrid.
Elas propuseram aquela encenação natalina para mostrar para as famílias. Essa é a minha primeira experiência e a lembrança do seu galo nos animais que estavam falando. .
. Foi deliciosa a apresentação. Nos anos subsequentes, todos os anos, dentro da Igreja Presbiteriana, havia a tradição de fazer teatro na igreja, principalmente na época do Natal.
Nos finais de ano, montavam-se grupos para fazer um espetáculo natalino para apresentação a toda a comunidade. Levamos meses preparando para uma apresentação e, desde os seis anos, eu nem sabia ler ainda. A minha primeira peça na igreja, eu tinha que decorar o texto e não sabia ler.
Minha irmã mais velha ficava falando o texto até eu decorar. Eu fui um jasmim, uma florzinha. Decorei o texto com ela falando e fomos para a encenação.
Desde essa época, todos os anos na igreja nós fazíamos, mas também havia outros momentos em que. . .
Nós fazemos para o Dia das Mães, para a paz. Com as datas principais, havia esses momentos de encenação, e eu sempre queria participar. Ele estava lá até que o momento já durante os 12, 13 anos.
Nós tivemos na nossa igreja um grupo importante que era do teatro de fantoche. A igreja que eu frequentava na época, na Avenida São Paulo, a Segunda Igreja, fazia fundos com o teatro de fantoche. É bem fundo mesmo!
Então, nós esperávamos por cima do muro o teatro, e aquilo, claro, a curiosidade de criança nos interessa, porque a gente estava do lado de cá do muro, fazendo teatro, e no fundo, com o muro da igreja, era o teatro de fantoche. E aí, em um determinado momento, alguns atores que participavam do teatro de fantoche, que era tradicional, importante naquela época, começaram a frequentar a nossa comunidade. E aí eles foram nos dirigir o espetáculo, exatamente de final de ano.
Foram alguns anos em que nós tivemos a oportunidade na igreja de ter o grupo de atores amadores do teatro sorocabano, nos auxiliando, aprendendo algumas técnicas, algum conhecimento que eles passavam. Nós tínhamos uma diretora que era da própria igreja, mas tinha esse auxílio de pessoas do teatro de fantoche, que na época nem sabiam da importância, né, a tradição do teatro de fantoche e sua importância para Sorocaba. Foram durante alguns períodos até que, no final, o teatro já estava fechando, né?
Ele teve esse processo de ser fechado. Nos últimos anos, a igreja apresentou o espetáculo no teatro de fantoche mesmo. Isso já nos anos 80, lá foram os espetáculos de Natal.
Aí já utilizou o espaço do teatro porque ele já estava em processo de fechamento, já não tinha mais tanta movimentação, e houve essa possibilidade do espetáculo acontecer lá mesmo. E aí, para as crianças, para os jovens, adolescentes, foi uma experiência incrível, porque na igreja não tínhamos o espaço tático da caixa preta, no palco italiano perfeito. Um camarim era construído, mas de forma provisória, todo ano se construía de forma provisória e depois desmontável.
E aí, quando teve essa oportunidade, imagina o deslumbramento de todas as crianças e jovens que ali estavam, de ter a oportunidade de pisar no palco mesmo. Então, foi uma época assim muito rica e de muita aprendizagem, né? E depois o teatro realmente fechou, né?
Infelizmente, é uma tristeza. O teatro fantoche virou todo o palco, foi desmontado, e a gente viu aquele palco ser desmontado, as cadeiras sendo retiradas, e virou uma oficina mecânica, assim como o Teatro São Luiz, que foi no passado muito antes do fantoche. Sorocaba também teve um cineteatro que também virou oficina depois de fechado.
Eu fico com esse sentimento, né? Aquele espaço depois virou uma oficina mecânica. Mas então, meu início foi sempre aí, dentro da igreja.
Sempre estive ligado ao fazer teatral na igreja, principalmente às peças de encenação natalinas e de Páscoa, que são datas importantes para a igreja. Mas, depois de adolescente, eu senti a necessidade. O teatro de fantoches fechou, aquele grupo se dispersou, e eu senti necessidade de buscar mais conhecimento, informação.
Aí eu fui buscar encontrar um apoio de formação na oficina Grande Otelo, que é uma entidade mantida pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. E lá nós tínhamos professores como Evaldo Carvalho e outros professores que vinham de São Paulo fazer oficinas. Então, tinha aquela oficina.
Às vezes era um professor de São Paulo e, depois, nós tivemos a oportunidade de algumas pessoas de Sorocaba, mas era em ciclos, né? As oficinas tinham determinado tempo de duração. E aí eu fiz alguns cursos e algumas oficinas lá.
Mas na escola eu sempre me ressenti do teatro não quase não existir na minha vida acadêmica. Dentro dos muros da escola e fora, eu tinha essa vivência do teatro, respirava e fazia teatro, gostava, mas sabia que essa era uma arte importante. No cotidiano escolar, desde o primeiro ano, as experiências no ensino fundamental foram poucas, raras, para dizer a verdade.
Uma ou duas, ou pequenas oportunidades. E eu me ressenti exatamente disso, de saber que a arte estava no teatro também. Mas no ambiente escolar, o professor, na época, de educação artística, a professora dava sempre artes visuais, que na verdade também se resumiam a desenho e pintura.
As outras expressões dessa arte dificilmente apareciam, e teatro também não fazia parte do cotidiano, sendo que o ensino da arte deve ter as quatro linguagens das artes visuais em todas as suas expressões: dança, música e teatro. Mas ao longo do ensino fundamental, eu não tive oportunidade. Essa reflexão que eu fazia como aluna: eu faço teatro fora da escola, gosto, acho que faço bem, e na escola não tinha oportunidade de mostrar esse lado, não tinha exploração desse lado, dessa veia da arte, né?
Então, eu achava bem triste, ficava preocupada com isso, achava injusto a escola não trabalhar com essa questão. Depois, no ensino médio, eu estudei no SESI, hoje no SESI na Vale. Em frente era a época do SESI número 23, que ficava em frente ao ginásio de esportes, hoje já não funciona mais ali.
Fiz todo o primeiro até o final da oitava série da época, final do ensino fundamental. Depois, no ensino médio, estudei na Nosi. E aí eu tive uma professora de português que, em literatura, criou algumas pequenas e poucas oportunidades de apresentar algum trabalho.
A professora dormia, e ela criou algumas pequenas oportunidades onde nós podíamos encenar em literatura alguma coisa. Eu já fiquei um pouco mais feliz. Pelo menos na aula de arte não tinha teatro; novamente a arte estava restrita às artes visuais.
É isso, nos anos 80. E depois, eu continuei, então, em paralelo a isso, buscando formação na. .
. Oficina cultural em cursos que eram oferecidos. E aí eu chego à universidade, então é a hora de escolher o que fazer.
Eu prestei vestibular para Direito e passei direto na faculdade, na FADI. Mas eu sabia que não era muito o meu desejo; isso não era mais puro por empolgação dos amigos. Todo mundo achava bonito fazer Direito, e eu fui lá prestar também.
E aí pensei: "Não é muito a minha praia, não. " Prestei vestibular, fiquei esperando o resultado. Enquanto isso, resolvi me inscrever na FADI, não na FAD, na FAL.
Já tinha feito na SAF e fazer Letras. Eu queria mais, me aproximava História ou Letras. Eu decidi Letras.
Na fila de inscrição, na verdade, eu fui pra lá pensando: "Posso fazer Filosofia, História, Letras, os três. Eu gosto, vou bem, me interessa. " E na fila, decidi que Letras eu acho que tem mais a minha cara.
Então eu fiz a inscrição, e quando saiu o resultado, passei em Direito. Mas não era isso. Até hoje eu sou grato a Deus.
É, foi difícil, e todo mundo veio me dar parabéns porque eu tinha passado. E eu falei: "Não, né? Não é isso.
" Eles devem ter me achado louca. E aí eu fui pra FAL. Fiz a matrícula, e, na verdade, naquele momento eu não tinha clareza de que eu poderia ser professora.
Eu sabia que o curso de Licenciatura me formaria, mas achava que poderia ser uma secretária, algo da área de Administração, né? Eu gostava de escrever, tinha a intenção de fazer Jornalismo, mas na época não tinha essa opção. Então, achei que o que mais se aproximava era Letras.
Optei por ficar ali e fazer o curso de Letras, decidido na fila, já na reta final mesmo. Fui, mas sem a intenção de ser professora, não tinha essa convicção de que eu seria professor. Mas comecei o curso, né?
Aí logo apareceu um professor na sala chamado Roberto Samuel, que fez o convite para um grupo de teatro que ia começar na universidade. Um grupo que contaria com alunos, também professores e funcionários. Eu logo levantei e falei que gostaria de participar.
Os encontros eram aos sábados à tarde, então eu logo fui. Eu que comecei a participar desde o primeiro encontro, e permaneci no Catarses por três anos, né, com o professor Roberto Samuel. E aí nós começamos nesse grupo a aprender a linguagem teatral dentro de um contexto acadêmico, né, educacional.
Porque, na verdade, o que eu havia vivenciado no teatro não era na educação. Na educação, eu tinha vivenciado pouquíssimas chances, pouquíssima experiência; era sempre fora. E aí foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de começar a viver o que é o teatro dentro do ambiente escolar, com todo o cotidiano escolar e com as preocupações também acadêmicas, né?
E aí, naquela década, no final dos anos 80, nós começamos esse caminho, a trajetória do fazer teatral. E aí eu descobri a importância de buscar uma formação mais específica. Durante os três anos que eu pude acompanhá-lo no Catarses, foi um tempo de aprendizagem, passando por todas as instâncias.
Primeiro na atuação, mesmo depois na parte técnica, com a sonoplastia, iluminação, esse cuidado com a parte técnica. E depois, no último ano, eu tive a chance de ser convidada pra fazer a assistência de direção em “Os Saltimbancos,” né, e nós pudemos vivenciar ali mais esse processo, que eu acho que foi aí que eu me apaixonei pelo que o teatro pode fazer dentro do ambiente escolar. “Os Saltimbancos.
” Quais foram as outras duas? “O Anjinho,” “A Irmã,” “O Anjo,” “Caminho,” “Os Saltimbancos” e “O Elogio do Amor. ” “Elogio do Amor,” sim.
Como o Tetris mexe? Seu Anjinho, Calminho, na parte técnica, e “Os Saltimbancos” na assistência da direção. “O Elogio do Amor” foi uma montagem antes da sua “Loteria,” com você como ator, participando e aprendendo o fazer teatral, com técnicas e um acabamento.
Foi um período de extrema aprendizagem que eu trago até hoje. É muito bom. Então, vamos fazer uma pequena pausa.
Ele foi superconta. É um pouco mais dessa experiência no grupo à tarde. Está bom, né?
Até já.