Converso agora ao vivo com o economista Benfard. Ele é iraniano, mora no Brasil desde os 17 anos. Beni, muito obrigado pela disponibilidade nessa cobertura especial.
Gostaria que o senhor visse o cenário agora da morte de Alicaminei e de que maneira isso impacta na sucessão do novo Aatolá. >> Obrigado, Gustavo, pela oportunidade e a todos que nos acompanham. é um cenário bastante desafiador.
Eh, o regime dos AATL é um regime eh bastante centralizador, é uma das poucas situações no mundo em que religião e poderio político militar se misturam. Então o estado quando deixa de ser laico, ele permite esse tipo de idiossincrasia. E esse poder todo concentrado na mão do líder supremo, o então morto Aolá Hamenei, eh faz com que haja um processo de sucessão que não é cartesiano.
Eh, ele depende de uma série de variáveis. Eh, e é importante eh, relembrar a todos que eh eh a força política desse líder religioso se mistura a força espiritual, ao mesmo tempo que lidera a República Islâmica do Irã, eh, esse Aatolá, esse líder supremo, também é o líder máximo dos muçulmanos xiitas, que são uma minoria no mundo islâmico e estão predominantemente concentrados ali na região do Irã, uma fatia do Iraque, um pouco do Afeganistão. Então, a separação do mundo islâmico é entre sunitas e shiitas.
Os shiitas estão predominantemente concentrados no Irã e o líder supremo da da nação iraniana é também o líder espiritual. Na linha sucessória, Gustavo, existem alguns potenciais personagens com grandes chances de ascenderem a líder supremo, notadamente eh o Mosdaba Homenei, que é filho do Ali Homenei, ele é um seed, é assim, são denominados eh os clérigos que são descendentes diretos do profeta Maomé. Eh, então ele é um personagem, filho do falecido Hamenei, personagem mais linha dura, com forte ligação com a Guarda Revolucionária Iraniana, que é uma força paramilitar que nasceu em 1979 na Revolução Islâmica e que eh leva, conduz o Irã com mãos de ferro, inclusive oprimindo a sua própria população, eh massacrando em diversas situações e de e perpetrando cenas deploráveis, como nós temos acompanhado nas últimas semanas, de eh características desumanas.
Então, Mojaba Homene é um dos potenciais sucessores. Hassan Romini, é neto do Ayatol Ruol Homeini, também é um potencial sucessor. Ele é filho do filho mais velho do Ayatol Homeini.
também um seed, também linha durura, eh, ou seja, também tem essa característica de ser o descendente do profeta, eh, Maomé. E a gente distingue quem é o descendente do profeta e quem não é, eh, pela cor, eh, do turbante que esse clérigo usa, né, do da vestimenta, da característica vestimental. Ah, a gente tem outros nomes, o Alir Arafi, que foi nominado para ser o interventor dessa sucessão temporariamente, que é muito eh reconhecido no seminário de Gom, que é uma cidade sagrada e de estudiosos xiitas, mas também para sunitas, que fica localizado no Irã.
Eh, a Li tem um perfil mais institucional de consenso, mais de intermediação a verificar se ele terá chances de ser o Aatolá e líder supremo. Outros dois nomes, Armadami, que é um eh seier também muito conservador, muito ideológico, com uma linha dura e pouco carismático. Por fim, Sadik e Larin Johnny, que é um ex-chefe do judiciário iraniano mais pragmático, que tem chances e correndo por fora desses clérigos todos, com menos chance de eh se tornar o líder iraniano, mas é a esperança de 90%, Gustavo, algo como 90% dos iranianos rezam para que esse regime totalitário, eh, sanguinário, cai Aá.
E é assim que precisa ser denominado o regime dos aatolá e da guarda revolucionária, porque ele não respeita direitos humanos, historicamente oprime o seu povo e está completamente na contramão da civilidade da humanidade. Então, quem corre fora nessa transição de sucessão política com menos chances, mas com apoio do ocidente. O filho do Mohammad Resó Parlavi, o rei deposto, o monarca deposto da Pérsia em 1978, que se chama Porlevi.
Ele está exilado nos Estados Unidos há muitos anos e conta com apoio de todo o Ocidente, de toda a civilização democrática. ocidental, porque os seus valores, Gustavo, são compatíveis com os valores do mundo que nós estamos vivendo. Um mundo globalizado, um mundo onde a informação chega aos quatro cantos e a gente consegue distinguir quem pratica barbaridades, quem pratica crimes contra a humanidade, quem denigre a imagem das religiões e quem tenta o caminho do bem ou o caminho da diplomacia ou o caminho da benfeitura.
Nesse aspecto todo, nós temos um contexto geopolítico, macroeconômico, extremamente complexo, Gustavo, para fechar minha linha de raciocínio, que é a intervenção chinesa russa nesse centro, nesse epicentro e do Oriente Médio, notadamente Irã. China e Rússia não querem perder o Irã como proxy histórico, uma vez que China se beneficiou ao longo de décadas de petróleo subsidiado, uma vez que o Irã está sancionado internacionalmente por seu comportamento belicoso e infração de direitos humanos históricos, inclusive com ameaças de potencial, inclusive nuclear contra Israel e outras nações democráticas. Então você tem China não satisfeita com esse movimento que tá acontecendo.
Rússia à sua maneira mantém relação muito próxima desde a queda da União Soviética, quando então apoiava a queda do Sha Mohammadrez Sha Parlevi. Você tem esse caráter geopolítico muito aprofundado. O que acontece é Rússia está bastante machucada, prejudicada com 4 anos de guerra com a Ucrânia.
que fez com que o Ocidente pressionasse Vladimir Putin a recuar ou a chegar a um cessar fogo. E é importante lembrar que o Irã como proxyé da do hemisfério oriental municiou Vladimir Putin com muito armamento, especialmente drones que mataram centenas de milhares de ucranianos inocentes. Então o Irã tem o regime dos aatolás tem as mãos sujas de sangue na guerra entre eh Rússia e Ucrânia.
E paraa China, o contexto é um pouco diferente. O tabuleiro geopolítico, ele se move muito rapidamente. China não costuma se envolver em embates militares.
Ela costuma vencer batalha sem disparar uma única flecha, como é a filosofia confusionista. Então você tem a China menos prepoderante a entrar num conflito. Ambas as nações, ambas potências, China e Rússia, condenaram a ação norte-americana israelense, mas inevitavelmente esse evento estava por acontecer, uma vez que eh os iranianos, os o regime dos aatolás não está colaborando com um uma redução da pretensão nuclear, é, que é histórica e ela é extremamente perigosa porque o Irã, infelizmente, tem, além de agredir o seu próprio povo, eh, o regime dosatolá tem financiado o terrorismo em várias localidades, especialmente através do resbolá no sul do Líbano, no Ramá, na Palestina e na faixa de Gaza, nos Rutis, no Yemen e também se articulado globalmente com outras proxis, como era o caso da Venezuela.
A relação Irã e Venezuela era muito próxima, porque as duas nações sancionadas trocavam muito informação, eh, tecnologia, compartilhavam de ideologias inclusive. E era o proxy que servia a Rússia e a China na América Latina, que foi cortado com a intervenção de Donald Trump há um mês, quando Nicolás Maduro foi eh capturado, está em trial, está em julgamento nos Estados Unidos. Ben, o senhor falou principalmente da questão do regime sanguinário e de uma de um cansaço ideológico da população do Irã por uma tentativa de mudança.
Como você tem visto esse horizonte? Acredita que com o novo líder os protestos continuarão no Irã? E se há um horizonte que você observa conversando com parentes, amigos que ainda moram no Irã de uma mudança do regime?
Bom, as comunicações com o Irã estão cortadas, Gustavo. A gente não tem contato com ninguém, eh, principalmente tios, primos que moram lá. É muito comum de ditaduras eh de cercear o acesso à informação.
Costuma-se dizer que em toda guerra a primeira vítima é a verdade. E, e a gente está impedido, nós todos, né, um mundo impedido de conhecer a verdade do que de fato está acontecendo no Irã. Eh, a gente tem informações que a quantidade de assassinatos pela Guarda Revolucionária na última semana em protestos passa de 50, 60, 70.
000 pessoas. É um número que é incalculável em termos de humanidade. Então, eh, é um péssimo exemplo para o mundo o que tá acontecendo no Irã.
E indo direto ao teu ponto, eh, o Irã possui uma característica política, uma vez que o Estado não é laico, que faz com que seja extremamente desafiador haver uma transição pacífica, porque cada mesquita em cada cidade, em cada vilarejo, é um núcleo de poder. Cada mulá, cada she corresponde a um intercessor, interlocutor, ouvidos e olhos do sistema, do regime, assim como era na Alemanha de Adolf Hitler, que existiam eh vários canais de obtenção de informação, especialmente para dissuadir eh opiniões adversas e especialmente incriminar eh pessoas que se opõem ao regime. E isso, eh, Gustavo, acontece de desde 1979.
É importante reforçar quem nos acompanha. Existe um lado da sociedade ocidental que romantiza osatolás, eh, a visão deles, mas o que eles têm feito desde 1979 é repetir o modus operando, das perplexidades que se observou no mundo com Stalin, com Adolf Hitler, com Mussolini e tantos outros ditadores que oprimiram seu próprio povo em benefício de uma ideia. Então, cada mesquita, cada núcleo religioso espalhado nos quatro cantos dessa grande nação de 90 milhões de habitantes, é um núcleo de poder.
Então você tem a religião e a política se misturando. Infelizmente isso é péssimo para qualquer nação. O Estado deveria ser laico nos quatro cantos do mundo.
Primeiro ponto. Segundo ponto, a força paramilitar da Guarda Revolucionária, que é considerada pelos Estados Unidos, por diversos países da Europa, como uma organização terrorista, e assim ela deveria ser denominada, ela é extremamente truculenta, ela é extremamente articulada e ela é composta por diversas pessoas que não necessariamente atuam eh trajadas, vestidas como e responsáveis pelo comando ou pela estrutura da guarda. Então você tem pessoas a paisana que servem a guarda revolucionária.
Então os iranianos nunca estão eh salvos ou protegidos ou eles estão em paz. E isso causa no povo iraniano um efeito psicológico que é incalculável em termos de sofrimento e traumas, de não liberdade, de não poder se expressar, porque o seu vizinho, seu amigo pode te delatar pro regime e você ou seu filho, seu irmão podem ser mortos ou enforcados em praça pública, como acontece semana assim, semana também. Infelizmente essas verdades elas não são trazidas ao ocidente, Gustavo.
Infelizmente pouca gente tem ideia do que acontece dentro das fronteiras dessa desse regime ditatorial dos aatolas. O que acontece lá dentro? E a informação não sai porque telecomunicações são obstruídas, o regime mente, ele só mostra o lado que ele quer.
Você tem corrupção de forma muito estruturada há décadas, fazendo com que aatolás e líderes religiosos sejam os homens mais ricos do Irã, inconcebível com o voto eh de pobreza que eles deveriam fazer. Então, você tem líderes religiosos multibilionários. cujos filhos, sobrinhos, netos passeiam na Europa livremente, em outros países.
Então, essa dicotomia, essa irregularidade, esse malfeito histórico não era observado pelo mundo. Agora, o que tá acontecendo é o mundo observar o que tá acontecendo com o Irã. De fato, Donald Trump foi o primeiro presidente desde Jimmy Carter, desde Jimmy Carter a tentar uma intervenção no Irã.
Jimmy Carter foi mal sucedido quando tentou resgatar os funcionários da embaixada norte-americana que estavam sobestro dos protestantes ou então revolucionários de 1979. Aqueles funcionários da embaixada ficaram 444 dias sob custódia. E Jimmy Carter tentou, mas não conseguiu resgatá-los.
Isso inclusive abriu espaço para que Ronald Reagan se ascendesse ao poder, tornasse presidente reeleito e fizesse com que houvesse algum distanciamento do regime iraniano, inclusive apoiando interlocuções bilaterais ou multilaterais. Então, desde Carter, desde Jimmy Carter, no início da década de 80, lá se vão 45 anos ou mais que um presidente não tenta colocar as mãos de forma bélica nesse espaço, nesse lodo, nesse terreno lodoso que é a República Islâmica. E está acontecendo.
É aqui é importante dizer, ressaltar, não porque Donald Trump quer que o Irã seja uma democracia como George Bush trazia numa visão de Iraque livre, etc. Nada disso. Donald Trump tem uma visão bastante pragmática, é um homem de negócios e tem características muito peculiares.
A despeito de tudo isso, se nós observarmos o que ele tem de visão estratégica de hegemonia do hemisfério ocidental e de cortar laços ou proxis ou tentáculos, como você queira chamar, capilaridades de Rússia e China em localidades estratégicas para os norte-americanos e seus países aliados de interesse, você vê que o movimento é bastante cirúrgico, bastante objetivo, causa tensão, causa ruído, causa, infelizmente morte. mortes, vidas se perdem, mas guerras elas se sucedem ou elas são suplantadas ou elas vêm à tona quando a diplomacia falha. E a história tem mostrado que, infelizmente, com o regime dos aatolás, a ditadura religiosa dos aatolas e da Guarda Revolucionária do Irã, não há conversa, não há diálogo.
A situação que está posta é uma sucessão de um novo aatolá que venha com mais força ou mais vontade de combater o grande Satã, como eles chamam, que é os Estados Unidos, ou a proxy, que é Israel, que são duas nações que eram amigas. Israel e Estados Unidos eram amigos da Pérsia, do Irã, do Chá até 1978 com relações francas e isso se desfez por questões ideológicas. A então União Soviética fomentou de forma super estruturada que o chá fosse derrubado e o Ayatolá comeini voltasse do seu exílio na França.
É importante dizer que a França deu espaço para que o Ayatoláini tivesse voz e vez em veículos de imprensa criticando o chá reza Parlev, o pai do Reza Parleve, então príncipe herdeiro. e de certa forma fez com que uma parcela da população iraniana caísse nesse conto populista que esse líder religioso que habilidoso tão era, aatolá Ruhol Homeini falecido, fizesse com que uma parte da população caísse nessa história populista de que o Irã precisava ser salvo das garras do monarca. E os iranianos, parte deles que estavam insatisfeitos, saíram da frigideira e caíram no fogo.
Ou seja, acabou acontecendo o pior com o Irã, não só com aqueles que quiseram a revolução, mas também com aqueles que não queriam a revolução e que pagam o preço até hoje de uma ditadura disfarçada de República Islâmica que é extremamente populista, muito articulada com hemisfério oriental, uma das maiores produtoras de petróleo, de fertilizante, de gás, muito rica, que faz, infelizmente, Gustavo, para concluir, eh, apagar de certa forma a história tão linda de um dos povos milenares de maior cultura do berço da humanidade, que são os persas, de onde emergiu, de onde surgiu a primeira menção aos direitos universais do ser humano, do homem, com Ciro Grande da Pérsia há mais de 2500 anos, de onde surgiu as maiores eh lideranças de conhecimentos filosóficos, históricos, poéticos, matemáticos, astronômicos. Tudo que do muito que nós conhecemos por conhecimentos das grandes artes científicas emanam da Pérsia, da Mesopotâmia, daquela região que serviu como berço da humanidade. E há 47 anos, a visão estreita de líderes religiosos que pode se comparar a época da Inquisição em que a Igreja Católica sob a força política perseguiu o seu próprio povo.
A gente tem esse momento também no Irã, >> uma das civilizações mais avançadas, inclusive na história do mundo. Eu acho que todo mundo queria conhecer Terã e não pode desde 1979 por esse cenário terrível de um regime sanguinário. É muito bom conversar com iraniano, isso é pluralidade em cobertura.
A gente conversou com israelenses e agora com iraniano, que é o economista Benny Fard. Beni, muito obrigado pela participação. Espero que tempos melhores cheguem ao Irã.
Obrigado. Espaço sempre aberto. >> Obrigado.
Obrigado a você e a todos que nos acompanharam. Yeah.