Eu acho que eu não mudei nada. Quando eu penso em mim com 5 anos de idade, andando com a minha avó na rua, a maneira que eu olhava as pessoas, que eu olhava o mundo, é muito semelhante, não igual o de hoje em dia. Precisamos conversar.
[Música] Aumente o volume e abra a cabeça. Você está no Trip FM. Boa noite, pessoal.
Eu sou o Paulo Lima e a gente começa agora mais uma edição do Trip FM, o talk show da Trip. Hoje, com enorme prazer, a gente recebe aqui no Trip FM uma figura de muito destaque na cena cultural e artística brasileira. A trajetória dela começa no teatro, onde ao lado do diretor Hamilton Vas Pereira, ela fundou o super icônico grupo Asdrubal trouxe o Trombone.
Logo depois, ela brilhou também no humor com a personagem inesquecível Tina Pepper de Cambalacho, da novela Cambalacho. E em seguida também num outro programa muito importante na formação do humor contemporâneo no Brasil, que foi o TV Pirata. A televisão, aliás, ela apresentou o Programa Legal, O Brasil Legal e Um Pé de quê?
Três programas marcantes também. No cinema e nas novelas, ela emocionou e conquistou novas gerações com atuações também muito marcantes. No filme Que horas ela volta de 2015, por exemplo, ela fez a dona Lourdes, uma personagem inesquecível e mais recentemente fez a vilã Zoé da série Todas as Flores.
Hoje aqui no Trip FM, com muito prazer, a gente recebe de novo, né, ela já teve aqui com a gente antes essa grande figura da cultura brasileira, Regina Casé. Eu inventei um mundo para mim, porque quando eu era novinha e fui paraa televisão, não ia ser a mocinha da novela, né? Também não sabia.
No teatro eu não achava lugar para mim. Então eu tive que inventar um lugar pro teatro que era as drubas na televisão, TV pirata, programa legal, Brasil legal. E outra coisa, ter o controle do de tudo, assim do agora me faltou a palavra, vamos dizer de tudo, cenário, figurino, eh, no Asdrubo eu fazia figurino.
Eu me lembro que uma vez eu fiquei, sei lá, umas três noites virando, fazia roupa de foca, que era de pelúcia na máquina, entupia o gabinete, costurando, distribuindo filipeta, colando cartaz. Quando eu vou, por exemplo, para uma novela que eu não posso falar, que eu não acho que aquele figurino não tem nada a ver com aquele personagem e que, poxa, essa casa tá muito chique para no meu personagem, ou eu acho que aqui no texto se eu falasse mais normalzão ia ficar mais legal. É muito difícil.
as três novelas que eu fiz assim com maior relevância, mas outras eu fiz participações muito pequenas, foram cambal que eu fiz a Tina Pepper, que até era um personagem quadvante e que hoje em dia ninguém nem lembra de outros personagens Pepper uma novela. Depois a dona Lourdes do amor de mãe, depois a Zoé de todas as flores. São três diferentes.
Uma é uma menina preta da periferia de São Paulo, a Tina Pepper. A outra, uma mulher, né, nordestina, com cinco filhos do sertão. A outra, uma truqueira da eh carioca rica, mas ilicitamente loura falsa, né?
Morava na Barra. São três eh universos, mas as três foram muito fortes e eu também tenho me orgulho muito nessas novelas. tiveram um peso muito grande.
Olha só, você falou agora a pouco uma coisa que eu não sabia, né, que você fazia figurinos lá no Asdruba. Essa parte eu não sabia. Eu vi aquele documentário que fizeram, né, recente, acho que relativamente recente, mas não vi essa parte.
E vi também você, já vi você falando que você sempre aparece na lista das mais mal vestidas do Brasil antigamente. Agora não, agora já melhorou. Então, me fala sobre isso aí de de ser julgada permanentemente, né?
Deve ser um inferno, não é? É, mas é esse é um aspecto que aparece mais porque existe uma lista, mas não existe lista para todas as outras transgressões. Se existisse eu tava em todas as listas, não só porque eu sou transgressora, mas porque as pessoa até estranha, né?
Mas a coisa da roupa, eu sempre gostei muito de moda, mais do que de moda, de me expressar através das minhas roupas. E isso como saía muito do padrão do blazer, somente na televisão do blazer salmon do nude, da unha com misturinha, tinha um jornalista que eu não tô brincando, eu acho que assim, era uma semana sim, uma não, ele me detonava, ele falava o tempo todo, eu estava não sei aonde e veio a Regina com aquela bolsa horrorosa que ela comprou no Saara. Eu usava muito torço no cabelo.
Ele falava: "Lá vem a lavadeira do abaeté". mais uma vez, não só sendo preconceituoso, mas achando que ele tá me xingando de alguma coisa que eu acho, eu acharia ruim. E ele dizia uma lavadeira do Abeté, eu falava: "Nossa, que maravilha, eu estou parecendo uma lavadeira do abaeté e não alguém com um blazer salmão e uma blusa, sei lá, bege que eu deveria estar corretamente com uma bolsa, né?
Eu vou voltar um pouco no tempo aí falamos aqui um pouco das do seu ecletismo, né, profissional e tal. A gente entrevistou faz umas duas ou três semanas o Bone aqui. Você fez uma pergunta ótima para ele que rendeu muito, mas ele fala no livro mais recente dele, né, aquele lado B do Bone sobre o seu pai, né?
Conta um pouco quem foi o seu pai, Regina. Então, ele fala muito do meu pai e fala muito do meu avô. E eu morro de pena porque eu acho que não há Wikipedia que possa eh buscar e resgatar o tamanho do meu pai, o tamanho do meu avô, porque eu acho que justamente quem transitou no universo pop como vanguarda antes e em lugares que não eram lugares acadêmicos e clássicos, como meu e principalmente lugares novos que as pessoas não conheciam a linguagem, o meu pai foi isso pra TV e o meu avô foi isso pro rádio.
Meu avô é pioneiríssimo do rádio. Ele tem um dos primeiros, senão primeiro programa de rádio. Aí viveu aquela era de ouro do rádio.
Quando ele sentiu que o negócio tava ficando estranho, ele também, um cara com pouquíssimos recursos de educação formal, falou, pegou meu pai e falou: "Vai paraos Estados Unidos que o negócio agora vai ser televisão". E a primeira, o primeiro programa de televisão feito aqui no Rio, Noite de Gala, que foi que abriu pela primeira vez, era meu avô e meu pai, patrocinado pelo Medina e aquilo tudo e várias outras pessoas, mas enfim, eles estavam nesse primeiro programa, então tem uma coisa de pioneirismo tanto no rádio quanto na televisão. E meu pai depois ele sempre teve um interesse gigante na educação, como eu também.
A gente fez um pé de q anos no futuro, o Brasil legal, programa legal, tinham também um cunho que eu sou uma professora, fico tentando viver as duas coisas assim junto como esterro também. Gina, o vou mudar um pouco de assunto porque não dá para deixar de falar sobre isso. Uma das melhores entrevistas que acho que eu fiz aqui o ano passado foi com o Estevão, né?
Para quem não sabe, o Estevão que é o marido da Regina, que é cineasta e trabalha também com cultura. Ele teve um acidente andando a cavalo, né, e ficou paralisado assim, um tombo feio e, enfim, uma longa história, mas ele ficou paralisado. E hoje, pelo menos na quando a gente se falou, tava num grau assim muito próximo do normal, digamos, né?
Eu queria que você contasse um pouco da tua perspectiva, né? O que que aconteceu e como é que isso passou na tua vida, como é que isso mexeu com a tua vida. O Estevan também foi muito corajoso de casar com uma mulher que era muito mais velha que ele, 14, quase 15 anos mais velha, uma mulher que já tava totalmente estabelecida profissionalmente, era uma celebridade, quer dizer, uma mulher conhecida em qualquer lugar, que tinha uma filha, tinha uma roda de amigos muito grande, um circo muito sólido, tudo isso, a coragem que ele teve e ele me me propôs casar comigo com 45 anos e casar na igreja, não sei.
Eu levei um susto, nunca pensei que eu ia casar eu, RIP, duas Drbel e tudo. O que que aconteceu? Eu levei esse compromisso primeiro muito a sério.
Então, quando aconteceu aquilo, não é que veio na minha cabeça na saúde, na doença, na saúde, eu falo: "Ué, a gente resolveu ficar junto para viver junto e viver o que a vida trouxesse pra gente". Então, vamos embora. Sabe uma coisa que me ajudou aqui em casa?
É tipo, você não quis usar a palavra milagre, mas eu digo é pátio dos milagres. Porque eu acho que isso que aconteceu com o Estevan, eh, a gente ter encontrado o Rock no momento que a gente encontrou e a vida que a gente tem hoje, ele é inacreditável como ele é absolutamente filho da gente. E a Benedita quando nasceu, ela quase morreu e eu também.
Ela nasceu super forte, mas ela teve um descolamento de placenta. Quer dizer, eu tive, ela descolou até por ser muito forte, ela tava implantada muito alta. Com isso, ela aspirou líquida, ela nasceu ouvinte, gorda, forte, cabeluda, e ela ficou surda porque entupiram ela de garamicina, de um antibiótico atotóxico.
Quando a pessoa olha o exame da B e olha ela falando, a pessoa fala: "Esse exame não é dessa pessoa", que é o caso do Estevan. Quando a pessoa olha a lesão dele medular e vê ele andando de bicicleta com o rock, fala: "Não é possível que seja esse exame dessa pessoa". Eu queria saber o seguinte, nesses momentos mais difíceis que você falou, né, de lidar com a os problemas de saúde da Benedita ou com esse acidente punk do Estevo, que que você acha que te ajudou mais?
Se é que dá para fazer ranking dessas coisas, né? Os anos de terapia ou gantoar? as duas coisas, porque a minha terapia também foi muito aberta, não só ao Gantuá, como ao saquer de Mari.
Eu tenho uma formação católica, então outro dia eu ri muito que eh a a mãe menininha se declarava católica da biografia, falava e o candomblé. Ela falava: "Mas candomblé é outra coisa. O candomblé só me trouxe não só coisas boas e acolhida, que é uma palavra que se usa muito, no episódio da Benedita, no dia seguinte eu já recebi de várias pessoas orientações do que que eu devia fazer no episódio do Estevão.
No dia seguinte, não só do Gantuá, mas da Betânia, outras pessoas que são de lá falavam: "Olha, você tem que fazer isso, você tem que cuidar disso, você". Então eu, como é que eu vou? eh, negar isso porque eu sou católica e vice-versa.
Então, eu acho que você tem que ir pegando da vida que minha dona Darlene do Erto que ficou com os três maridos, você vai pegando. Eu não vou ficar macrobiótica para sempre, mas eu como arroz integral, eu vou, não vou. Você vai, a vida vai passando por você quando você vai ganhando mais idade e você vai guardando as coisas que foram boas para você e tentando se livrar das ruins, né?
queria te ouvir um pouquinho. Nós estamos gravando, esse programa vai pro ar depois do Ócar, mas nós estamos gravando antes, né? E tem essa coisa aí do Ainda estou aqui que tá sendo um alento pro Brasil, né?
Uma coisa bem gostosa de ver, né? Uma obra iluminada, né? me conta um pouquinho da tua do teu sentimento com relação a esse filme.
Ah, eu eu vivi aquela época toda e principalmente a parte do filme, onde as coisas não tão explicitadas, você só percebe uma coisa eh que tá acontecendo e a angústia que vem dali ou mesmo depois que já alguma coisa concreta aconteceu, mas que você não sabe exatamente do que que você tá com medo, do que que pode acontecer a qualquer momento, né? porque tudo era tão aleatório e sem justificativa, né? Ninguém era processado, julgado e preso.
Então, eh, essa sensação eu acho que o filme reproduz muito assim, e ele é ele caiu. Não vou dizer que ele tá fazendo isso tudo por sorte, nada disso, ele tem todos os méritos, mas ele também caiu num momento que a gente tava muito machucado culturalmente, né? muito sofrido culturalmente.
Nós artistas tínhamos virado eh só bandido, pessoas se aproveitam. Eu nunca na minha vida nem usei a lei, eh, nenhuma lei, apesar de achar que ela é muito boa, que devia haver até outras leis de incentivo à cultura, mas eh se passou se usar isso tudo como quase um xingamento. Enfim, o filme veio não como uma revanche, uma vingança, ele veio docemente, suavemente e brilhantemente reparar ou sanar ou, né, cuidar dessa ferida.
Regina, eu eu queria brincar daquela história de te deixar sozinha, sabe? Vai vamos te colocar numa ilha com todos os confortos, tal, mas não tem internet, não tem nada disso. Você tem livros e coisas para ouvir música, só tem uma pessoa de fora do seu ciclo, círculo de de família que você pode ligar duas vezes por semana, quem seria o escolhido ou a escolhida para você manter contato com a civilização?
Acho que é o Caetano, porque ele é a pessoa que eh numa ilha você precisa de um farol, né? E o Caetano foi durante toda a minha vida meu farol mais alto. Tenho outros faróis.
Adapte-me a uma cama boa uma mensagem à toa. Eu acho que eu não suportaria ficar sem falar com ele nunca mais. Fechado.
Regina, obrigadíssimo. Muito bom. Obrigada a você, Paulinho.
Vou táar conversa em dia com você. Manda um beijão pro Estevão, pra sua família toda. Beijo enorme.
Obrigadão. Beijo. Tchau, querido.
Até próxima. Tchau. Tchau.
A insegurança do meu sorriso, ela trazia um bloqueio pros meus sonhos, né? Ela tinha vergonha porque a Reis sempre, ela teve dois dentes encabavalados assim, sendo motivo de chacota, de piada. A saúde bucal, ela te dá uma ferramenta muito poderosa, que é você começar a se amar.
E eu quero ser exemplo para outras meninas. Com gat me devolveu minha autoestima me ajudou a chegar sorrindo nos meus sonhos. A trip existe porque nunca parou de mudar e porque também nunca abriu mão da coerência.
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