Olá, tudo bem? Nós vimos até aqui que o luto é um processo dinâmico, não é estático, não é um estado e não é linear, ao contrário disso, ele é um processo complexo e bastante singular. Vimos também que o luto é dominado por múltiplos fatores, fatores que são anteriores à morte, fatores que são decorrentes, pertencem e se relacionam com o momento da morte e fatores que são posteriores ao momento da morte.
A partir desta aula, vocês terão acesso a alguns modelos teóricos explicativos para o luto. Eles vão ajudar vocês, inclusive, a responder aquela pergunta do vídeo anterior: se o luto tem um fim ou não. Eu vou deixar para vocês responderem a partir dos modelos teóricos apresentados.
Hoje vou apresentar para vocês o modelo teórico chamado Modelo do Processo Dual do luto, do Stroebe e Schut, esses dois autores propuseram um modelo teórico que explica o luto como um modelo dinâmico em que o enlutado oscila nas suas estratégias de enfrentamento, entre aquelas estratégias focadas na perda e aquelas estratégias focadas na restauração da vida. No polo orientado para perda, nós vamos identificar, por exemplo, o próprio trabalho de luto, em que o enlutado deve fazer uma elaboração psíquica dessa morte. Nesse processo, o enlutado vai elaborar psiquicamente a ausência desse ser amado e toda a energia investida nessa relação retorna o ego do enlutado.
Trata-se de um processo singular e que cabe ao enlutado fazer. Neste polo também, nós podemos identificar algumas estratégias de enfrentamento que são relacionadas à perda, estratégias como a própria negação da perda, quando o enlutado tem dificuldades de reconhecer que a perda aconteceu. A negação é algo que pode acontecer com todo e qualquer enlutado, ela pode durar segundos, minutos ou mesmo semanas e meses.
Não é incomum que alguém que recebeu, por exemplo, um telefonema informando que alguém querido, um familiar, um ente amado faleceu, tenha dúvida sobre a veracidade dessa informação. A pessoa pode duvidar, pode achar que aquilo foi um engano, ela pode, por exemplo, enquanto se dirige até o local em que um acidente aconteceu ou ao hospital em que o seu familiar está internado duvidar que essa morte efetivamente tem acontecido, isso é absolutamente normal, é um modo como uma pessoa naquele momento consegue lidar com a notícia da morte. Entretanto, algumas situações podem predispor o enlutado a ficar por muito mais tempo num processo de negação, como naquelas situações, por exemplo, em que não há um corpo a ser velado, quando a pessoa falece num acidente de aeronave, quando a pessoa falece afogada e o corpo não foi encontrado ou quando, como aconteceu no início da pandemia, mesmo na presença de um corpo não se tem acesso a ver esse corpo.
Então, muitas pessoas no início da pandemia, inclusive, se questionavam sobre isso. Será que quem foi enterrado foi realmente o meu familiar? Será que não colocaram outra pessoa por engano naquele caixão?
Isso advém dessa dificuldade inicial da pessoa em lidar com essa notícia da morte e é um modo de enfrentamento que está focado na perda, nesse esse polo da perda. Outra estratégia também focada no polo da perda é o contrário da negação, a própria aceitação da morte, lidar diretamente com a morte, com tudo aquilo que ela envolve, com as suas consequências, por exemplo, com a organização de um funeral, dos rituais de despedida, essas são estratégias voltadas para a perda, o enlutado lida com a perda desse modo. Comportamentos como ver fotos, vídeos, procurar de algum modo rememorar quem morreu são estratégias que estão nesse polo, no polo da perda.
É possível também que o enlutado apresente comportamentos ruminativos sobre aquele que se foi, com perguntas do tipo: ah e se ele não tivesse pegado aquela carona que resultou no acidente da sua morte? E se ele não tivesse feito tal coisa que levou a contaminação por essa doença? Esses padrões de pensamento ruminativos, em que o enlutado se questiona sobre desfechos diferentes daquele que levou à morte, caracterizam esse polo da perda.
O outro polo, é o polo da restauração. Então no polo da restauração a gente vai identificar aqueles comportamentos em que o enlutado retoma sua vida, voltando a desempenhar atividades que ele desempenhava anteriormente, desempenhando atividades que eram da pessoa falecida, então, uma mulher que perde o esposo pode voltar a cuidar dos filhos, a retomar o seu trabalho, assumir responsabilidades e tarefas que eram do seu esposo. O enlutado também volta a experimentar atividades que são prazerosas ou começa a descobrir outras atividades que são prazerosas, que dão e sensação de felicidade e de bem-estar.
No polo da restauração também, a gente vai identificar que o enlutado começa a desenvolver uma nova identidade, essa mulher casada torna-se viúva, isso implica num certo papel social a ser desempenhado, filhos tornam-se órfãos, isso também implica num certo papel a ser desempenhado, pais que perdem um filho continuam sendo pais, mas não estão mais envolvidos com os cuidados diários daquele filho. Algo que é importante nesse modelo do processo dual, como vocês podem identificar na figura apresentada, é que o enlutado oscila entre esses dois polos, ora ele está apresentando estratégias focadas na perda, como aquelas que eu citei, tentando rememorar, entrando em contato com a dor da sua perda, ruminando, "Se essa morte não tivesse acontecido, se ele ainda estivesse aqui conosco como que a nossa vida seria" e ora ele está no polo da restauração, retomando atividades do seu cotidiano, da sua vida, descobrindo novas atividades, desenvolvendo atividades que lhe são prazerosas. Esse modelo se mostra interessante, porque ele rompe com aquela ideia amplamente divulgada no senso comum de que o luto vai ser caracterizado por fases que são lineares e que o enlutado após um período de tempo é que ele retoma a sua vida.
Na verdade, o processo de luto desde o seu início vai ser sempre marcado por essa ida e vinda, por essa oscilação entre os dois polos, ora voltado para perda, ora voltado para restauração. Por isso, que não é incomum que enlutados se utilizem de algumas metáforas para explicar como se sentem, muitos enlutados falam assim: "Parece que eu estou vivendo numa montanha russa, um dia eu estou bem, no outro dia eu não estou tão bem assim" e isso é muito verdadeiro, porque o processo de luto é exatamente isso. Poderíamos também utilizar uma metáfora das ondas do mar, que vem no movimento contínuo, vem e voltam, vem e voltam.
Assim, nesse processo dinâmico entre estratégias voltadas para perda e estratégias voltadas para restauração, o enlutado vai lidando com os dois polos do processo de luto. É lógico que é esperado que logo após a perda, nas semanas e nos meses que se sucedem à essa morte, o enlutado se sinta a maior parte das vezes no polo voltado para perda porque, ele está mais em contato com a dor, ele está se reorganizando frente à sua ausência, o seu mundo presumido que se desmanchou está em construção novamente, então, é muito mais comum que ele relate que a maior parte dos seus dias são muito difíceis. Com o passar do tempo, espera-se que no curso de luto não complicado, um luto chamado normal, essa pessoa comece a visitar mais o polo da restauração, conseguindo retomar as suas atividades cotidianas, conseguindo voltar a sentir prazer na vida, felicidade.
Isso, entretanto, não significa que o enlutado nunca mais revisite o polo da perda, e é isso que esse modelo nos trás de interessante. Em muitos momentos da vida, por diferentes situações, um enlutado, uma pessoa que perdeu alguém, passados muitos anos após a perda, pode revisitar a dor da perda, pode revisitar o polo da perda. Vamos pensar num exemplo, uma mulher que ficou viúva com filhos pequenos e após algum tempo se adaptou e se ajustou à morte do marido, conseguiu criar seus filhos, retomou o seu trabalho, conseguiu assumir ou conseguiu reorganizar a vida com a ausência do marido com as tarefas e as atividades que eram de responsabilidade dele e aquela família seguiu muito bem, entretanto, pode ser que num outro momento da sua vida quando, por exemplo, o primeiro filho se casa ou ela se torna avó, que essa mulher revisite o polo da perda, porque ela entra em contato de novo com a ausência desse marido e novamente se questione: como seria ser avó, como seria sermos essa família se o fulano ainda estivesse aqui conosco?
E ela pode ficar triste por conta disso. Então o fato de após algum tempo o enlutado mostrar-se totalmente ajustado à sua perda, relatando que a vida vale a pena, que ele se sente feliz novamente, não significa que ele nunca mais vai se sentir triste em função daquele que se foi. O que é preciso estarmos atento é que esse movimento entre um polo e outro deve ser fluido que, na verdade, o enlutado não deve estar cristalizado ou paralisado em nenhum dos dois polos.
O contrário também seria preocupante, uma pessoa que diante da perda de alguém que lhe é importante, de um vínculo afetivo significativo, a pessoa esteja totalmente no polo da restauração logo, imediatamente após essa morte e não entre em contato com o seu processo de luto, com a dor que esse luto causa, com essa ausência, com tudo aquilo que essa perda envolve. Então poderíamos pensar no processo de luto como um processo marcado por um certo equilíbrio. Eu gosto dessa imagem para pensarmos como a pessoa enlutada se sente nesse processo.
E alguns falam exatamente disso, eles se sentem andando numa corda bamba, tentando se equilibrar na vida, então, eles se equilibram entre a dor da perda, a ausência e tudo que ela acarreta e a vontade de continuar a viver, de retomar a vida, de dar prosseguimento à sua vida. Nesse sentido, eu vou tomar emprestado uma frase do Mário Quintana, que nos diz: "Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar!
" Então a gente espera que no curso de luto saudável o sujeito consiga, após algum tempo vivenciando o seu luto, recomeçar a sua vida. O que não significa esquecer-se de quem morreu. Sobre isso nós vamos falar um pouco mais nas próximas aulas.
Até lá!