Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio do Gestão Sentido, o podcast sobre comportamento, liderança e gestão pública. Hoje o tema é inteligência emocional no setor público, um aspecto muito importante, principalmente ambiente de alta pressão, como os órgãos públicos. Para essa conversa, temos a honra de receber a Ana Cordeiro, psicólogo organizacional e consultora em qualidade de vida no trabalho no Tribunal Penal de Justiça.
Seja muito bem-vinda, Ana. Obrigada, João. É um prazer estar aqui com vocês.
De fato, olha só, os ambientes públicos lidam com situações limite todos os dias, não é? Então, o desafio de conciliar serviços que atendam as demandas da população com bem-estar organizacional, ele exige muita maturidade emocional, tanto da gestão quanto dos servidores. E pra gente discutir isso, eu trouxe um caso para analisarmos, que foi um caso atendido no programa de qualidade de vida no trabalho com viés preventivo lá no Tribunal Penal de Justiça.
Só fazendo um parêntese, esse viés que eu falei, o viés preventivo, ao contrário das ações superficiais, como massagens, brindes, aquele famoso furor corporativo, que a gente já falou aqui algumas vezes, lembra? Então esse viés preventivo, ele busca atender o que realmente gera o sofrimento no trabalho. A ideia é ouvir os servidores, identificar sobrecargas, relações de poder abusivas, tóxicas, falhas de gestão e agir antes que o adoecimento se instale.
É cuidar de verdade, sabe? é não apenas maquiar o problema, mas ir na fonte do mal-estar organizacional. E como esse viés aplical o caso que você trouxe?
Bem, nós começamos com um diagnóstico, uma análise do cenário ali no tribunal e nós encontramos situações que foram assim bem ilustrativas, né? eh, de como o estress era uma constante no ambiente organizacional e como a qualidade de vida no trabalho tava sendo afetada por fatores internos e externos, micro e macroorganizacionais. Eu vou trazer aqui a situação do Peter, que é uma situação bem interessante pra gente analisar.
O Peter era um servidor altamente capacitado tecnicamente, especialmente em finanças públicas, mas o ele se viu no centro de uma crise de relacionamentos e liderança. Você poderia contar mais sobre esse servidor? Maior prazer.
Eh, bem, o Peter, ele dominava como poucos processos de execução orçamentária, financeira. Ele tem uma memória extraordinária e o currículo dele é invejável, sabe? Mas emocionalmente ele apresentava vários pontos cegos.
Ele sente uma necessidade constante de provar que é o mais preparado, o que o torna arrogante, controlador e pouco empático. Por duas vezes, ele presidiu grupos de trabalho, mas ele não conseguiu conduzir as equipes de forma colaborativa. Ele impôs sua vontade na escolha de um projeto, ignorando sugestões e desconsiderando os perfis dos demais colegas.
Foi assim um desastre. na prática, acabou fazendo tudo sozinho, mas não por eficiência, mas porque afastou os outros com a sua postura inflexível. E com o tempo os membros do grupo foram deixando ou os que permaneciam apresentavam um comportamento de presenteísmo.
Eles estavam lá fisicamente presentes, mas se mostravam acuados, calados, desmotivados, apenas cumprindo as tarefas mínimas. sem se envolver de fato. Durante uma reunião sobre revisão orçamentária emergencial em meio a uma crise de abastecimento de medicamentos, ele chegou a interromper, veja bem, interromper a fala de uma gestora da saúde com risos, deboches, sabe?
algo totalmente desrespeitoso. Ele tentava mostrar superioridade, interrompia as pessoas, não escutava ninguém, o com aquele tom de voz assim autoameaçador. E olha só, ao ser confrontado, ele respondeu com raiva: "Eu sou PhD, vocês deveriam estar em um estender um tapete vermelho para mim.
não reconhece meu preparo porque são inseguros e não querem sair da sua zona de conforto. Para mim, missão dada é missão cumprida. Vou fazer isso daqui dar certo, apesar de vocês.
Eu não estou aqui para fazer amigos. Aliás, nem na vida privada eu ligo para essas baboseiras de amizade. Nossa, um Q altíssimo, mas um Q é quase nulo.
Exatamente. E eu vou te falar mais, viu, João? Eh, quando ele via os colegas sendo reconhecidos, elogiados ou promovidos pela chefia, ele reagia muito mal.
Ele dizia assim que aqueles colegas só estavam sendo promovidos porque eram bajuladores do chefe. Veja bem, né? com com um ar assim de ressentimento, de inveja, de sarcasmo mesmo.
E esse comportamento do Peter, ele gerava um clima de tensão, de medo. As pessoas, inclusive, evitavam colaborar com ele e a equipe acabou se fragmentando. Infelizmente, em vez de buscar melhorar suas relações, o Peter passou a perseguir alguns colegas, mesmo que fosse perseguir implicitamente, de forma mais discreta.
E aí começou a acontecer uma perseguição até com aqueles que pensavam diferentes dele ou que tinham um espectro político diferente do dele. Ele chegou a dizer num grupo de colegas que era a favor de que os aquelas pessoas que pensavam diferente dele que eles morressem ou que apodrecessem numa prisão. Olha só.
E os impactos disso não paravam aí não. Na vida privada do Peter, ele ainda sofre consequências da sua falta de inteligência emocional. Ele vivia comendo no delivery, estava constantemente exausto porque ele não praticava exercícios físicos, estava acima do peso e andava sempre irritado e cansado.
Ele dizia que dormia muito mal. Descobrimos até, João, que ele estava fortemente endividado, com diversos empréstimos consignados em razão de compras compulsivas que ele fazia. E assim, em outro momento marcante no tribunal, durante um atendimento, ele foi procurado por uma mãe aflita, buscando entender porque o benefício do filho com deficiência estava atrasado.
A mãe, claro, né, completamente compreensível, estava abalada e ela só queria uma explicação e a resolução do problema dela. Eh, eh, tudo bem. Olha só, João, ela tava ansiosa de fato, nervosa, porque o filho tava no seu colo com microcefalia e já havia dois meses que ela não recebia o benefício.
O problema foi a reação do Peter. Ele ficou bastante impaciente, respondeu aos gritos essa mãe. A senhora precisa ler a legislação antes de vir aqui perguntar isso.
Meu Deus, a equipe ficou toda abalada. Andreia, que é uma colega, é deles lá na repartição, começou a chorar. Teve uma crise nervosa na frente da senhora, do filho dela, disse que não aguentava mais assistir aquilo e que sentia que não havia uma percepção de justiça ali, porque aquelas grosserias do Peter eram recorrentes e ninguém fazia nada.
Eles então começaram a bater boca, o Peter e a Andreia começaram a gritar um com o outro, a fazer acusações e tudo na frente daquela pessoa que eles estavam atendendo. Eh, todo mundo presenciou isso, foi uma gritaria. Eh, aí teve a turma do deixa disso, pessoas tentando acalmar os ânimos e a mulher que carregava o seu filho com microcefalia no colo saiu do órgão chorando.
Tiveram outras situações assim? Tivemos sim. nós tivemos uma situação em que ele explodiu, eh, brigou com os colegas e o problema é que alguns colegas também eles eles lidavam com essa situação de uma maneira passiva ou passiva agressiva, eh ficando calados, eh se anulando em relação a isso, chorando escondido, que também não é uma demonstração de inteligência emocional, né?
Eh, de fato, eh, eles deveriam resolver esses conflitos de forma assertiva, mas não era o que tava acontecendo ali. Você pode perguntar, Ana, mas o que que foi feito ali diante de tantas questões a serem resolvidas, né? Bom, primeira coisa, nós fizemos um diagnóstico envolvendo toda a equipe com escutativa, entrevistas, questionários, mapeamento das tensões, das fontes de mal-estar, porque mais uma vez nós adotamos o viés preventivo de qualidade de vida no trabalho e não o viés hegemônico, o viés que só maqueia os problemas.
Então nós identificamos as causas micro e macroorganizacionais, micro do indivíduo e macroorganizacionais. E e é nessa nessa situação que eu gostaria então agora de fazer um bate-bola com os alunos do curso superior em gestão pública do campus Brasília, Instituto Federal de Brasília, que está aqui na plateia, eh, para eles nos ajudarem a analisar e a resolver essas questões. Vamos lá.
Obrigado, Dr. Ana. E agora pode fazer suas perguntas.
OK? Então, agora, alunos de gestão pública que estão na plateia desse podcast, eu vou pedir para vocês analisarem esse caso do Peter, eh, respondendo a, elaborando, na verdade, um texto dissertativo, eh, cujo modelo está no NEAD, desenvolvendo argumentações sobre as emoções vivenciadas pelo Peter, eh, e também pelos seus colegas, os conflitos daí decorrentes e como o Peter poderia ter agido com mais inteligência emocional. Para isso, eh, vocês vão responder, fazer esse texto a partir de uma grade que eu vou colocar lá no NEAD para vocês, OK?
M.