[Acorde de violão] [Buzina de carro] Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. [Fundo musical] Olá! Seja bem-vindo ao nosso podcast semanal Inédita Pamonha.
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Sabe, hoje eu queria continuar conversando com você sobre o pensamento antigo e confessar à você a especial fascinação que eu tenho pela forma como Platão e Aristóteles encaravam o conhecimento. De forma tão absolutamente disparar, diferente e ao mesmo tempo complementar entre si. Você se lembra então de Platão que vai nos sugerir que o mundo percebido por nós Aquilo que estamos vendo, no meu caso aqui cadeira, mesa, o microfone etc.
Tudo isso é sombra, se é sombra tem algo que projeta a sombra e a luz que permite que essa sombra exista como sombra. Então nós podemos dizer, concluir, talvez, que toda sombra corresponde a algo fora da caverna que a projete. Esse algo fora da caverna é, segundo Platão, a própria realidade.
E esta realidade é ideia. A ideia projeta a sombra. Não há portanto sombra sem ideia do lado de fora que a projete.
Até aqui tinha ficado super claro, existe uma relação entre sombra e o que projeta a sombra. É claro que essa relação existe. Se você não tem a mão, não tem a sombra da mão na parede, portanto precisa da mão para ter a sombra da mão na parede.
Precisa da ideia para ter o mundo sensível na parede. Agora, a pergunta que a gente poderia fazer é a seguinte: se toda sombra tem uma ideia do lado de fora, será mesmo que toda a ideia tem sombra do lado de dentro? Em outras palavras, toda ideia que integra o mundo das ideias, que perambula pelo mundo das ideias, que convive com almas ainda não encarnadaa, será que toda essa ideia já tem sombra projetada na parede do mundo percebido?
Na tela das nossas percepções sensoriais? E aí, é claro, eu fico me perguntando: o que seria a invenção? Porque a invenção implica o surgimento de alguma coisa no mundo material, digo material para nós aqui no mundo das coisas sensíveis, portanto para Platão, a invenção é o surgimento de uma sombra nova, o surgimento de uma sombra que até a invenção não poderia ter sido projetada no mundo das coisas sensíveis.
Agora, se toda sombra, nova ou velha, tem uma ideia do lado de fora, nós podemos então concluir que, me ajude para ver se eu não estou errado, tem ideias do lado de fora da caverna que ainda não foram projetadas do lado de dentro. Então existem ideias que não são mundo percebido, não são mundo sensível, que não correspondem a nada dentro do mundo sensível. Ideia sem percepção, ideia sem realidade percebida e sensível.
Isso deixa claro que, para Platão, o mundo das ideias tem mesmo uma realidade independente deste nosso mundo aqui de carne e osso, constituído e integrado pelas nossas percepções. Claro, porque a independência é muito clara, existem ideias que existem só por elas, que ainda não se tornaram sombra. Graças a inventores estas ideias passam a surgir como sombras e por isso, evidentemente, temos que admitir a possibilidade de ideias que não virem sombra nunca se, porventura, não houver inventores capazes de posse dessas ideias irem atrás de transforma-las em mundo percebido, sensível e projetá-las no fundo da caverna.
Portanto, há mundo ideal que não corresponde a mundo sensível, portanto o mundo ideal vai além do mundo sensível e portanto o mundo ideal tem uma existência independente do mundo sensível. [Fundo musical] Pois muito bem, essa é uma primeira proposta do nosso podcast de hoje, não é? Graças a essa independência os inventores podem inventar e a invenção para alguém como Platão seria a possibilidade de encontrar ideias ainda não convertidas em sensações visuais e, portanto, a conversão dessa ideia em alguma coisa que possa ser percebida pelos sentidos.
[Fundo musical] O que dirá Aristóteles de tudo isso? E é agora que eu queria que você viesse comigo, é agora eu queria que você me acompanhasse. Tudo isso pensando aqui entre nós, para Aristóteles a coisa começa e termina no mundo sensível.
Em outras palavras, tudo o que existe a considerar na relação da mente com o mundo, começa e termina nas coisas percebidas pelos sentido. Então você dirá: ah para Aristóteles a coisa morre na percepção, a coisa morre na tela da parede da caverna, só existe sensibilidade? Não, não, eu não falei isso.
O que acontece é que para Aristóteles tudo o que nós percebemos pelos sentidos, tudo o que aparece no mundo diante de nós é constituído por forma e matéria. E agora se você vier comigo a gente pode tentar entrar num acordo sobre o que ele queria dizer com isso. Forma é aquilo que todos os seres da mesma espécie tem que ter para pertencer à aquele grupo.
A forma, portanto, é a parte genérica dos seres, é aquilo que insere os seres individuais no coletivo do qual fazem parte. A forma é o que há de comum entre seres do mesmo tipo, digamos assim para falar simples, então existe forma de cachorro? Existe.
É o que todo cachorro tem de comum com os demais cachorros. Existe forma de cadeira? Sim, é o que toda a cadeira individual tem de comum com as outras cadeiras.
Existe forma de pudim? É o que todo pudim tem em comum para ser pudim. Então essa é a forma.
Perceba, meu querido, que muitas vezes usamos essa palavra "forma" num outro sentido. Você vira na padaria e diz: o tio vê aí um brownie Aí o outro fala: que brownie você quer? E você diz: aquele ali de forma retangular.
Perceba que neste caso a forma está sendo usada para particularizar, para individualizar o brownie que você quer, quando na nomenclatura de Aristóteles a forma é o que insere no coletivo, é o que há de comum. Aquele grupo pertencente à aquela espécie e assim por diante. [Fundo musical] Muito bem, e a matéria?
A matéria é o que particulariza. A matéria é o que discrimina, a matéria é o que diferencia, a matéria, portanto, é aquilo que indica o que só aquela individualidade tem, e tem de diferente em relação aos demais da mesma forma. A matéria é, portanto, o particular.
A forma é o genérico, a matéria é o que há de específico. A forma é o que integra no coletivo, a matéria é o que discrimina do coletivo. A matéria, portanto, é o que só aquele ser tem, é o que ele tem de diferente do resto.
Muito bem, poderíamos então dizer que toda singularidade é uma reunião muito mágica de forma e matéria, um agenciamento de forma e matéria. A forma que é comum aos demais da mesma espécie e a matéria que é o particular em relação aos demais da mesma espécie, o singular. Portanto, é esta composição de forma e matéria.
Você poderia me perguntar: mas escuta, essa forma aí do Aristóteles não lembra a ideia do Platão? Uai, lembra. Se você pensar nessa perspectiva de essencialidade daquilo que é comum a todos e lembra, porém, que fique claro, esta forma não tem nenhuma existência independente da matéria.
Não há forma desgarrada da matéria, por isso eu disse lá no começo, tudo começa e termina naquela coisa, naquele corpo, naquilo que você tá vendo, porque é aquilo que tem a forma e a matéria. Claro que você pode fazer um exercício de abstração e você dizer "olha, forma de gato", então você começa a elencar por conta própria aquilo que todo o gato tem. Você pode fazer isso, mas isto é resultado de um exercício de abstração isso não se confunde com a ideia de Platão que é: têm uma existência que independe dessa tua iniciativa, que independe dessa tua abstração e desse teu exercício.
Então perceba, eu espero que graças a este podcast, desta quinta-feira, nesta que é a nossa Inédito Pamonha, nós tenhamos podido colocar lado a lado esse idealismo de Platão, que nos aponta para um mundo ideal muito desgarrado das coisas que vemos com os nossos olhos. E o Aristotelismo da forma e da matéria aonde forma e matéria integram uma singularidade que é essa mesma que está diante de nós, aí você olha e você diz: escuta, mas o que Aristóteles diria dessa ideia de Platão? E aí vem a pá de cal, vem o ponto alto da história.
Para Aristóteles, quando você vai imaginar uma ideia que é absoluta. Isto é, quando você pega um milhão de triângulos concretos de carne e osso no fundo da caverna e você vai pela mente buscar a ideia perfeita de triângulo, aquilo que todo triângulo tem que ter, Aristóteles denuncia uma impossibilidade. Sabe por que?
Porque quando você vai representar um triângulo é um triângulo particular que te vem a cabeça e não um triângulo absoluto, um triângulo genérico um triângulo desgarrado da sua particularidade. Se você for imagina um triângulo, representar um triângulo, você não conseguirá representa ao mesmo tempo, em um único triângulo um isósceles, um equilátero, um escaleno, um de ângulo reto um papa nanam. .
. Você terá que representar um particular em detrimento de outros preteridos naquela representação, então para alguém como Aristóteles, a tal da ideia de Platão pode continuar existindo como um nome, apenas como uma nomenclatura, apenas como uma palavra. E é isso, nos acusaremos de nominalismo e quando eu digo nós é só para dar uma graça aqui no final da minha fala.
Nominalismo, por que? Porque esta ideia genérica impossível de ser representada não passa de um nome, na hora de traduzir na mente, o Platão não disse que você ia buscar pela mente as formas perfeitas? As ideias perfeitas?
A verdade? Pois é, na hora de representar, é o particular que você consegue representar, um particular tão particular quanto qualquer particular que você encontre pelos sentidos na parede do fundo da caverna. [Fundo musical] Esta foi a Inédita Pamonha desta quinta-feira, um oferecimento de Eastman Chemical do Brasil.
BNP Paribas Asset Management. E Profuse Aché. Eu espero que você não fique bravo comigo, porque no final das contas tudo isso é bem complicado e, acredite, tudo isso dá pano para manga e pode ir muito mais longe do que eu fui, mas pelo menos a diferença do mundo das ideias de Platão para concepção de matéria e forma em Aristóteles eu penso que ficou mais ou menos clara, e aí já teremos ganho um ponto na nossa lucidez.
Fica bem, boa semana. Se gostou volta a quinta que vem, não nos abandone, precisamos de interlocutor para continuar fazendo sentido falar com tanto entusiasmo pelo buraquinho deste artefato. Era isso, valeu!
Até a próxima. Você ouviu o Inédita Pamonha, por Clóvis de Barros Filho, trazido até você pela revista INSPIRE-C. Acesse: www.
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Este podcast foi editado por Rádiofobia - Podcast e Multimídia.