Olá, meus amigos! Tudo bem? Professor Fábio Blanco por aqui, e nós conversamos já sobre como a inteligência é um instrumento, um instrumento que nos serve para que possamos compreender as coisas, compreender a realidade.
Então, nós olhamos a nossa inteligência não como um estado que constitui a pessoa, mas como um instrumento, uma arma que nós temos em nós naturalmente e que usamos para entender as coisas. E, se ela é um instrumento, nós podemos desenvolvê-la, podemos aprimorá-la ou podemos simplesmente deixá-la como ela está, e isso vai fazer a diferença na forma como nós entendemos as coisas. Se eu aprimoro a inteligência, eu fico mais inteligente; eu consigo entender melhor as coisas, eu consigo inteligir melhor as coisas.
Então, nós já falamos sobre isso. Bom, mas se ela é um instrumento e nós a utilizamos para algo que é entender a realidade, entender as coisas, então, antes de tudo, nós precisamos nos perguntar se essas coisas realmente são passíveis de serem compreendidas. Aí você vai me perguntar: "Poxa, F, mas é óbvio que sim, né?
Isso até parece uma reflexão meio desnecessária, porque a possibilidade do conhecimento da realidade, para as pessoas comuns, é autoevidente. " Também acho. Só que, se nós olhamos a história do pensamento ocidental, nós vamos ver que nessa história se manifestam várias vezes tipos de ceticismo em vários graus.
Então, muitas vezes, os pensadores levantaram dúvidas sobre a possibilidade de conhecer a realidade. E não foram quaisquer pensadores. Você tem desde Pirro, na Grécia, que tinha um ceticismo mais prático, né?
Ele partia do seguinte pressuposto: "Eu não posso confiar nos meus sentidos. Se eu não posso confiar nos meus sentidos, eu não posso dizer o que as coisas são. Então, as coisas não podem ser conhecidas.
" Até no século XVII, você vai ter um ceticismo mais intelectualizado, que é o ceticismo de Kant, que basicamente dizia o seguinte: "Eu só tenho acesso a representações da minha cabeça, não das cabeças dos outros. E a única coisa que eu tenho não é o fenômeno em si, a coisa em si; eu tenho apenas a representação dessa coisa em mim. Mas como é que eu posso dizer que a representação é a mesma coisa do que a coisa é?
Então, eu não posso dizer o que a coisa é, no final das contas. " Então, as coisas, no final das contas, em si mesmas, não podem ser conhecidas. Então, veja, o ceticismo, de várias maneiras e em diversos graus, foi apresentado na história do pensamento ocidental.
Então, existe esse problema. Veja, a questão de que se a realidade pode ser conhecida não é uma discussão desnecessária para quem quer se aventurar no conhecimento, quer entender, estudar, aprender mais. É preciso ter isso também no radar e ter os argumentos que possa usar para até se levantar contra esse tipo de pensamento.
Agora, pensa comigo: se alguma coisa não é cognoscível, ou seja, se ela não pode ser conhecida, como é que a gente pensa sobre ela? De onde a gente tira a ideia dela? Ah, eu não posso conhecer Deus.
Tá bom, mas de onde eu tiro a ideia de Deus? Por que eu tenho a ideia de Deus? Eu não posso conhecer a rocha, eu não posso conhecer a casa.
Tá? Por quê? Tá bom, eu não posso conhecer, mas de onde que eu tirei essa ideia da rocha?
De onde que eu tirei essa ideia da casa? Do nada? Quer dizer, alguma coisa me falou, alguma coisa me informou sobre isso.
Então, eu já parto do pressuposto de que tudo aquilo que é verdade, que a gente chama de verdade, que são as coisas que são da realidade, ou seja, tudo aquilo que pode ser pensado também pode ser conhecido. Eu já parto desse pressuposto, porque, se eu penso, é porque, pelo menos teoricamente, eu posso conhecer. Talvez eu não possa conhecer aquela casa específica porque eu não tenho acesso, mas é possível conhecer alguma casa.
É possível conhecer. Eu já parto desse pressuposto, até porque, se as coisas não pudessem ser conhecidas, meu esforço por pensar e concluir sobre elas seria vão. "Eu não posso conhecer.
" Então, que esforço é esse que eu tô fazendo em direção a essa conclusão sobre essa coisa? Seria um exercício sem fim, um exercício sem destino, o que seria a coisa mais estranha, né? Porque todo exercício tem que ter um objetivo.
Então, essa é a ideia que eu coloco como base do nosso trabalho. Todo trabalho é a seguinte: todo raciocínio, o que é um raciocínio? Raciocínio é uma linha discursiva, não é?
Raciocínio é um pensamento sobre algo logicamente. Então, todo raciocínio é uma linha discursiva que busca um objetivo. Um raciocínio não é do nada, assim, ele não fica apenas se retroalimentando.
Ele busca algo, ele busca uma conclusão. Todo raciocínio busca uma conclusão, não é isso? O que é essa conclusão?
É a meta do raciocínio. Se eu estou em busca, se ao raciocinar eu quero chegar a uma conclusão, então essa conclusão é a minha meta. E toda meta precisa ser conhecida.
Porque como é que eu vou ter uma meta que eu não sei o que é? Então, eu preciso conhecer, porque se eu não puder conhecer, se eu não tiver pelo menos a convicção de que eu posso conhecer, eu não posso sequer pensar. Então, diante disso, eu preciso concluir que todo raciocínio pressupõe que, em seu fim, há algo que se pode pensar e, portanto, conhecer.
Então, o reconhecimento da cognoscibilidade das coisas acaba sendo o princípio do exercício do pensamento. Falando de uma maneira até mais simples, eu só posso começar a exercitar o meu pensamento se. .
. Eu reconheço que eu posso conhecer as coisas. Se eu achar que eu não posso conhecer as coisas, como é que eu vou pensar sobre elas?
Como é que eu vou iniciar o exercício do meu pensamento? Então, voltando à questão que nós falamos sobre o exercício e o desenvolvimento da nossa inteligência, se eu quero desenvolver a minha inteligência, antes de tudo, eu não posso ser um cético, porque o cético castra a sua inteligência. Na origem, ele já afirma que não pode conhecer, então, se ele não pode conhecer, para que ele vai desenvolver o seu instrumento que lhe serve exatamente para conhecer as coisas?
Não tem nenhum sentido. Se ele desenvolve a inteligência dele, que é um instrumento para conhecer as coisas, então ele reconhece que as coisas podem ser conhecidas. Está entendendo?
Então, quem quer ficar mais inteligente precisa reconhecer que as coisas podem, sim, ser conhecidas. Está claro que sempre vai haver algum tipo de discussão sobre o que as coisas são. Vamos usar o exemplo de Deus, que é o exemplo máximo, né?
Deus pode ser conhecido; não, não só pode, ele já é conhecido, porque nós já falamos sobre ele, nós já falamos sobre Deus, nós já temos a ideia de Deus. Ele já pode ser conhecido só por isso; ele já é conhecido só por isso. Agora, o que é Deus de fato?
Qual é a sua essência? Qual é a sua natureza? Aí a gente vai discutir, e talvez a gente não consiga nem saber essa profundidade.
Mas isso não significa que nós não conhecemos Deus, que Deus não pode ser conhecido. Ele já foi conhecido, ele já se mostrou conhecido. Está entendendo?
Isso vale para qualquer coisa. Eu posso não saber exatamente o que é um elemento qualquer, mas eu sei que, se eu falo de elemento, é porque ele está lá, é porque ele existe, é porque há possibilidade dele existir, pelo menos. E se há essa possibilidade, é porque eu já conheço o elemento, em tese.
Entendeu? Então, assim, sobre o que as coisas são profundamente, de fato, pode haver variações enormes. Só que até essa variação vai depender do pressuposto de que essas coisas são cognoscíveis.
Se nós discordamos sobre a existência das estrelas, é porque nós concordamos que existem estrelas. E se nós discordamos sobre o que as estrelas são, é porque nós aceitamos que nós podemos saber o que elas são e até que nós já sabemos que elas são. Está entendendo?
Então, gente, é o seguinte: para justificar o nosso esforço pelo desenvolvimento da inteligência, se nós queremos desenvolver a nossa inteligência, nós já, na raiz, rechaçamos o ceticismo. Nós rechaçamos o ceticismo. Claro que, veja bem, o ceticismo traz alguns exercícios muito interessantes, que eu vou trazer aqui para vocês: a dúvida instrumental, algum tipo de relativização da confiança nos sentidos.
Tudo isso é importante; são exercícios que o ceticismo traz e que eu acho que são muito úteis para o desenvolvimento da nossa inteligência. Porém, o que nós rechaçamos é a conclusão cética: a conclusão de que nós não podemos conhecer, de que nós não podemos confiar em nada, de que nós não podemos pensar sobre nada, porque nada disso é cognoscível. Isso nós rechaçamos, porque, se nós queremos desenvolver nossa inteligência, nós precisamos tirar esse asceticismo já pela raiz e afirmar que, sim, nós podemos conhecer a realidade.
Tá bom, gente? Por hoje é isso aí e até a próxima!