Irmãos, chegamos ao capítulo 15 do livro do Apocalipse. O capítulo 15 contém a introdução da quinta visão. A quinta visão é a visão das sete taças da ira de Deus, derramadas como juízo sobre toda a terra.
Então, ele começa dizendo: "Vi no céu outro sinal, grande e admirável: sete anjos com as sete últimas pragas". Ou seja, esses anjos trazem em suas mãos o castigo que deve ser dado ao mundo pela sua desobediência, e ele explica que, com as pragas, o furor de Deus irá se consumar. É uma imagem bastante dura, porque nós dificilmente conseguimos conceber como, num Deus que é amor, o furor se harmoniza.
Existem certas perfeições que parecem ser contraditórias. Por exemplo, como é possível ser justo e misericordioso? Porque quem é justo tem que punir, e quem é misericordioso não pune.
E aí, então, Deus, de um modo de ser justo e ser misericordioso, Ele se fez homem e assumiu os nossos pecados, e sem deixar de ser justo, puniu todos os pecados do mundo no seu Filho, em si mesmo. E, desse modo, usa conosco de misericórdia. Porém, aqueles que rejeitaram o Filho, rejeitaram o Salvador e rejeitaram a salvação.
São João diz no seu Evangelho: "Quem crê no Filho tem a vida; quem não crê sobre ele está a ira de Deus". Ou seja, o pecado inevitavelmente é aversivo à santidade de Deus, e ninguém pode existir ou subsistir diante dele e permanecer intacto, sendo achado em iniquidade. Ou seja, São João diz que Cristo é a vítima de propiciação pelos nossos pecados.
É como se toda a ira pelo pecado do mundo fosse derramada sobre Cristo. Porém, restam aqueles que não querem Cristo, restam aqueles que rejeitaram o Salvador. Estes vão receber as taças da ira, a condenação; estes saberão que é o furor de um Deus.
Nós, às vezes, ficamos perturbados, né? Porque, por exemplo, uma pessoa diz assim: "Olha, o bandido fulano de tal está com raiva de você", e isso deixa qualquer um ansioso. Agora, não se trata da fúria ou da ira de um homem; esta é a malícia do pecado, que obriga a um Deus infinitamente bom e misericordioso a ter que punir, porque a sua santidade não pode subsistir com o pecado.
Este é o horror do pecado, e por isso as sete últimas pragas são aquelas com as quais o furor de Deus vai se consumar. Vi também como que um mar de vidro misturado com fogo. Um mar de vidro misturado com fogo é uma imagem do batismo.
É um mar porque o mar, nas escrituras e na cultura dos povos antigos, simbolizava destruição, simbolizava a completa aniquilação. Ou seja, quando, por exemplo, o profeta diz que Deus lançará os nossos pecados no mar e não mais se lembrará deles, esta é uma imagem do batismo: ele é um mar no qual os nossos pecados são destruídos. Mas é um mar de vidro.
Por quê? Porque, pela graça do batismo, nós podemos ver claramente a Deus, aqui pela fé e lá pela visão direta, mas sempre passando pelas águas do batismo. Ou seja, nós somos chamados à contemplação pela fé, a ver Deus nitidamente como que através de um vidro.
Mas aqui diz "vidro misturado com fogo". Por quê? Porque a fé tem que ser misturada com a caridade, com amor ardente a Deus.
A fé deve estar enlaçada pelo amor do Espírito Santo que há em nossa alma. Uma fé fria, uma fé apática, não se sustenta. O vidro tem que estar misturado com fogo.
Vi também como que um mar de vidro misturado com fogo. Sobre este mar estavam de pé todos aqueles que saíram vitoriosos do confronto com a besta, com a imagem da besta e com o número do nome da besta. Ou seja, são três os combates que estes venceram: o combate com a besta, isto é, com o anticristo, e com tudo aquilo que traz consigo o ser opositor de Nosso Senhor.
São João diz na sua primeira epístola que o anticristo já está aí, que há muitos anticristos. Ou seja, tudo aquilo que é oposto ao Logos, oposto a Cristo, oposto a Deus; tudo aquilo que vem na contramão daquilo que o Senhor nos ensina em sua palavra representa o anticristo. É um espírito de rebelião contra Deus.
Então, eu preciso vencer a besta, mas eu tenho que vencer também a imagem da besta. Quem é a imagem da besta? Ora, se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e o cristão é uma imagem de Cristo, os adeptos do anticristo são a imagem do anticristo, reproduzem um modo de viver ímpio, embriagado do pecado, unicamente voltado para o prazer, para a posse, para a vaidade.
Seja, nós precisamos vencer a multidão daqueles que constituem aquilo que Santo Inácio chama de a "bandeira do diabo" e aquilo que Santo Inácio de Antioquia chamava de "a anti-igreja", uma espécie de corpo místico de satanás na terra, que é o prolongamento da própria ação do diabo no mundo. Ora, se eu preciso vencer a anti-igreja, que sentido tem eu querer ser admirado por ela, validado por ela? Ou seja, o cristão precisa aprender a enfrentar o respeito humano; ele precisa aprender a ter aquela coragem, aquela valentia de quem não se verga ao respeito humano, porque se eu me vergar ao respeito humano todas as vezes que a bandeira do diabo, que os adeptos do demônio vierem me confrontar, eu irei recuar; eu não vou vencer.
E tem pessoas que não aguentam nada. Se entram numa sala de aula e começam a ridicularizá-las, já recuam. Se vem perseguição, crítica, mentira, difamação, se intimidam.
Nunca aceite ser amordaçado por Satanás, nunca aceite a intimidação do diabo. Como diz Tiago na sua carta: "Resistir ao diabo e ele fugirá de vós". É necessário resistir, porque é.
. . Necessário vencer a imagem da besta e, por último, é necessário vencer o número do nome da besta.
O número do nome da besta fala de um sistema econômico que mantém o império do Cristo em pé. Vencer um sistema significa aprender a viver de modo independente desse sistema. O cristão não pode reproduzir o espírito do tempo, ou seja, gostar do que todo mundo gosta, fazer o que todo mundo faz, seguir o que todo mundo segue, vestir o que todo mundo veste, escutar o que todo mundo escuta.
Há um algoritmo a ser vencido; há um sistema de coisas que precisa ser desprezado com altivez pelo cristão. Sem isso, você não vence o número; você carrega a marca, a marca da besta, que aparece no capítulo 13 do Evangelho de São João e no Apocalipse. Não é outra coisa senão a introjeção da mentalidade: ele na testa e do modo de agir: ele na mão, correspondente ao pensamento anticrístico.
Portanto, eu preciso aprender a ter um espírito altamente crítico a tudo aquilo que esse mundo nos apresenta. Eu não posso estar passivamente diante de nenhuma oferta do inferno; eu preciso exercer um juízo crítico para vencer o número da besta. Estes que venceram seguravam arpas de Deus, ou seja, são eles que louvam a Deus.
O louvor de Deus, a glorificação de Deus, se exprime nas suas vidas, nas suas ações. Entoavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do cordeiro. É muito bonita essa imagem: o cântico de Moisés.
Portanto, esse mar de vidro misturado com fogo, sobre o qual tão vitoriosos que venceram a besta, a imagem da besta e o número da besta, tem relação com o mar Vermelho. O texto está falando de um Êxodo, está falando de uma travessia que estes valentes cristãos da última geração irão passar pela graça sobrenatural que lhes será dada a estes apóstolos dos tempos finais. Estes entoavam o cântico de Moisés, o cântico que Moisés entoou depois da passagem pelo mar Vermelho, e o cântico do cordeiro.
Nós não conhecemos um cântico do cordeiro. A única vez em que os Evangelhos narram Jesus cantando é no final da Santa Ceia, em que São João mesmo diz que ele cantou o cântico do Halel, ou seja, os últimos hinos que se cantam na Ceia Judaica antes de ir para o Horto das Oliveiras. Este é o cântico do cordeiro.
O cântico do cordeiro é o sacrifício do cordeiro; é o sacrifício de Cristo. É o louvor mais perfeito que existe em toda a Terra. Não há louvor maior do que o próprio louvor que o Filho dá ao Pai com a oferta do sacrifício de louvor de sua vida.
Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das Nações. Ele começa engrandecendo a Deus e chamando-o de Rei das Nações.
Ele reina sobre todas as nações; ele conduz a história inteira com a sua mão; ele a está puxando para o Seu clímax. Quem não temeria, Senhor, e não glorificaria o teu nome? Hoje, os homens podem não temer a Deus e nem glorificar o nome de Deus, mas na hora em que este céu rasgar e aparecer o trono de Yahvé, eles vão saber o que é temer.
Naquele dia, quando chegar o juízo, os ímpios, diz a Escritura, procurarão a morte e não a encontrarão; dirão às montanhas: "Caiam sobre nós" e não poderão ser sepultados por elas, porque é fácil não temer a Deus por enquanto. Mas na hora derradeira, todo o joelho se dobrará: "Só tu és Santo! Só tu és Santo!
Só tu és transcendente! Só tu estás no mais alto do Altíssimo lugar! Só tu és Santo!
" Todas as nações virão a prostrar-se diante de ti, porque tuas justas decisões se tornaram manifestas. As nações todas. .
. Veja, a Escritura diz: as nações virão a prostrar-se diante de ti. As nações, não apenas os indivíduos, mas os povos conjuntamente se dobrarão diante de Deus e se prostrarão diante de Jesus Cristo.
A soberania de Jesus Cristo, a sua regalidade, o seu império, como dizemos no hino litúrgico: "Cristo vence! Cristo reina! Cristo impera!
" Há de se manifestar na hora final, na última conflagração. Mas o texto diz que todas as nações prostrar-se-ão diante de ti, porque tuas justas decisões se tornaram manifestas. Isso é absolutamente grandioso!
Por enquanto, a história se desenrola. Não é fácil perceber quem é justo e quem é ímpio, quem é trigo e quem é joio. Às vezes, nós vemos repetir-se o padrão do Salmo 72: o ímpio tem tudo, prospera, tem glória, tem sucesso, enquanto o justo padece perseguição, tribulação, é pobre, doente.
Então, no desenrolar da história, é muito complexo nós entendermos onde está a verdade, de que lado está a santidade, aonde se encontra a justiça. Só que chegará o dia em que o juiz vai bater o martelo. E quando o juiz bater o martelo, quando Deus emitir a sua sentença, vai doer, porque não existe possibilidade alguma de manipulação com o Deus onipotente.
Quem não temeria, Senhor, o teu nome? Quem não glorificaria o teu nome? Ou seja, não dá para se esconder diante do olhar de Deus.
A nossa situação será flagrante; o ímpio será pego com as armas na mão, será flagrado em seu pecado. E naquele dia, as justas decisões de Deus se tornarão manifestas. Será o juízo, o Juízo Final, a declaração, a publicação de tudo aquilo que o Senhor quer realmente fazer, de todas as suas decisões inapeláveis.
Não haverá a quem gritar. É por isso que as Escrituras chamam esse dia de "dies irae", dia de Ira. Aquele dia.
. . E num outro trecho desse mesmo hino diz: "Confutatis maledictis, Flammis acribus ades, Voca me benedictis" - uma confusão dos malditos no meio do fogo, no meio do juízo.
E nós, enquanto ainda podemos, dizemos: "Senhor, chama-nos com os. . .
" Bem-aventurados com os abençoados, com aqueles que têm a dita de servir-te, queridos irmãos. O único julgamento que importa é o de Deus, esse infalível, no qual a verdadeira justiça se mostra. E nós precisamos viver e morrer pedindo ao Senhor que nos conceda andar sempre debaixo da Sua graça, que não sejamos achados em pecado, que o Senhor nos lave em Sua misericórdia, que Ele nos santifique, que nós vençamos a besta, a imagem da besta, o número da besta, que estejamos em pé sobre a graça do nosso batismo, para que assim não sejamos vasos de ira, mas vasos de misericórdia.