os textos da antiga Mesopotâmia frequentemente falam sobre o mundo dos mortos eles descrevem a aparência desse lugar a sua arquitetura as formas de chegar até lá e até como que ele é governado muito desse material é simbólico né e não pretende fazer uma descrição literal do além Mas é interessante a gente conhecer esses textos para entender como que os povos antigos dessa região imaginaram o pós-vida né ou seja como que eles pensaram sobre essa região misteriosa a partir de certas imagens e de certas Histórias Um dos principais textos que a gente pode consultar para acessar
esse Imaginário é a famosa epopeia de Guil games que a gente já abordou aqui no canal inclusive segundo esse texto de mais de 3.000 anos o protagonista que é o rei sumério Guil games viajou até o mundo dos mortos em busca do segredo da imortalidade parece uma coisa contraditória né viajar até o mundo dos mortos para descobrir o segredo da imortalidade mas é que segundo a história Guil games tinha ouvido falar de um homem Imortal que vivia nas margens do sub mundo e queria portanto viajar até essa região para perguntar como que ele poderia também
viver para sempre e uma coisa curiosa é que essa viagem do Guil games é descrita no texto em termos geográficos ele se desloca fisicamente né corporalmente mesmo até o mundo dos mortos primeiro ele parte em direção ao Oeste onde o sol morre né Por assim dizer depois ele sobe um monte associado ao sol onde há um portal guardado por homens escorpião e depois ele atravessa um rio de águas curas com a ajuda de um Barqueiro finalmente depois de fazer tudo isso ele chega à margem do mundo dos mortos e se encontra com o imortal a
partir daí o texto foca mais na conversa entre os dois e não dá muitos detalhes sobre a aparência ali do cenário onde isso acontece mas outra parte dessa epopeia Dá sim algumas pistas sobre a aparência do submundo né que é quando o fiel companheiro do gilgames que é o en kidu tem uma visão da própria morte nessa visão ele é levado até a casa das sombras que é como o texto chama essa região que é um lugar que quem entra não sai né é a casa dos moradores privados de luz Onde o alimento é pó
e Barro onde só há Escuridão e silêncio e onde todos estão mesmo os grandes sacerdotes e os grandes Reis que ali já estão sem nenhuma coroa na cabeça ou seja né Essa Terra dos Mortos é apresentada com uma imagem invertida da terra dos vivos ali realmente não há vivacidade nenhuma né não há movimento não há prazer luz barulho ordem hierarquia Honra Glória distinção social nada disso mas esse lugar também não é o nada né Ele é alguma coisa é alguma coisa apagada mas é alguma coisa porque ali os mortos continuam existindo de alguma forma e
esse é um detalhe muito importante porque apesar do submundo ser chamado de terra sem retorno ou de casa onde quem entra não sai nos textos mesopotâmicos os povos dessa região acreditavam sim sim que os mortos podiam voltar e até voltar de formas catastróficas um texto mesopotâmico por exemplo que fala sobre esse Retorno dos que já foram é a descida de estar ao mundo dos mortos essa é uma história curta que cabe numa única tabuinha de argila e fala da vez em que a deusa estar desceu para visitar o reino inferior e aqui a palavra reino
realmente faz juz ao que é apresentado né porque o submundo é descrito como uma cidade fortificada protegida por sete muralhas com concêntricas com Guardiões vigiando cada portão e uma hierarquia de deuses no centro do governo então assim é um território altamente organizado com leis severas e o que é mais importante com acesso extremamente restrito nem mesmo os deuses podem entrar ali sem autorização e aí estar diga-se de passagem é uma das deusas que não tá autorizada a entrar então é exatamente assim que a história começa né com a estar chegando na entrada do Reino dos
Mortos tendo as sua entrada negada e então ameaçando O Guardião para ela poder entrar mesmo assim né e a ameaça que ela faz é mais ou menos o seguinte se você Guardião não me deixar entrar eu vou arrebentar todas as portas desse reino e soltar os mortos para que eles subam e comam os vivos ou seja o que a star faz aí é basicamente né no a partir de comparações com a nossa cultura mais recente é ameaçar um apocalipse zumbi e aí diante dessa ameaça né O Guardião vai até a rainha do mundo dos mortos
que é chamada de heres kigal e é uma irmã de star inclusive e explica para ela a situação e aí essa rainha decide então permitir a entrada da irmã mas desde que ela cumpra uma condição que é se submeter aos ritos e aos costumes do submundo que incluem por exemplo Deixar todos os símbolos e instrumentos de poder do lado de fora das muralhas E aí estar Então aceita essa condição e passa pelos portões de cada uma das muralhas deixando em cada um deles uma né uma peça de roupa que simboliza os seus poderes e a
sua divindade E aí quando finalmente ela chega ao interior do reino Ela tá completamente nua fraca e indefesa é praticamente uma deusa morta e como ela é uma deusa relacionada ao amor ao sexo e a reprodução a sua morte né entre aspas faz com que todas essas coisas também morram no mundo dos vivos como diz o texto o boi não cobre mais a vaca o asno não emprenha mais a asna e o moço não emprenha mais a moça e diante dessa perturbação então da ordem cósmica né os outros Deuses se reúnem e decidem intervir para
trazer de volta a estar do submundo E no fim eles conseguem fazer isso né E as coisas voltam ao normal bom então tanto na história da visita de gilgames ao mundo dos mortos quanto na de star a gente vê que as fronteiras dessa terra sem retorno mesopotâmica são bem protegidas né mas não são totalmente intransponíveis Afinal esses personagens Desc e subiram né entraram e saíram então a regra realmente é não retornar mas nem sempre isso se aplica e essa é uma questão crucial pra gente entender a relação dos mesopotâmicos com o pós-vida porque para eles
era fundamental garantir ativamente né por meio de ritos por exemplo que os que foram pra terra sem retorno de fato não retornassem ou então retornassem só de forma controlada e por tempo limitado mas antes de dar uma olhada nesses ritos né vale a pena considerar algumas sequências que os mesopotâmicos acreditavam que poderiam vir do retorno indevido de um morto aí só para deixar claro né quando eu falar a partir daqui de retorno de um morto eu não tô falando de ressurreição ou de reanimação física corporal de um morto né não tô falando mais aqui de
zumbi a ideia na verdade é o retorno espectral né um retorno de um fantasma por assim dizer que volta a agir no mundo dos vivos mesmo não pertencendo a ele e o tipo de ação né que esse fantasma costuma fazer e que era muito temido na Mesopotâmia é que por exemplo eles poderiam causar delírios sonambulismo tremedeiras medo angústia zumbido no ouvido perda de memória indecisão instabilidade de humor propensão a causar briga dentro e fora de casa e até febre tose e um mal-estar generalizado hoje a gente buscaria na maioria das vezes aí diante desses sintomas
um médico né e é o que os mesopotâmicos faziam também só que os médicos Nesse contexto eram treinados para para fazer coisas que a gente chamaria também de exorcismo mais do que de Medicina né inclusive também tem um vídeo aqui específico sobre isso no canal Mas beleza né E como prevenir esses retornos espectrais então para isso existia uma série de cuidados prescritos ali tradicionais nessas culturas o primeiro deles Talvez o mais básico era garantir que o morto tivesse um sepultamento adequado né que o seu corpo não ficasse exposto mas que ele fosse colocado numa tumba
ou enterrado E caso o corpo da pessoa tivesse sido perdido por algum motivo era possível buscar ali um especialista né uma espécie de exorcista para fazer um rito de substituição e enterrar por exemplo um boneco no lugar da pessoa ou então fazer os ritos e em cima de um amuleto que representasse a pessoa ou coisa do tipo E além disso né além dessa questão do sepultamento era importante também que a família continuasse cuidando do morto mesmo com ele debaixo da terra né levando por exemplo oferendas periodicamente até o local do sepultamento principalmente comida e bebida
ou então água diretamente ao morto mesmo por meio de alguns tubos de argila que eram colocados nos túmulos né que principalmente os túmulos que a gente vê na cidade de ur que fazem ali esse canal né de acesso até o corpo do morto para que a água fosse derramada sobre ele e outra coisa também que poderia ajudar era colocar pedras especiais e alguns amuletos junto do corpo né Na hora do enterro e claro né fazer orações e pedir o favor dos Deuses também era algo fortemente recomendado né para manter esse morto em paz no seu
deu lugar ali no mundo dos mortos para que ele não voltasse e causasse efeitos nocivos agora em alguns casos algumas pessoas podiam Sim querer que o morto retornasse da terra sem retorno né Tem esse detalhe também da mesma forma que você acreditava que os mortos tinham poder para atrapalhar os vivos acreditava-se também que eles tinham poder para ajudar então uma ocasião importante para garantir a paz e essa comunidade entre vivos e mortos e até conseguir o favor dos mortos em benefício dos vivos era um ritual né um festival chamado kispo que acontecia mensalmente né e
os vivos então e os Mortos se juntavam ritualmente durante essas ocasiões para fazer as suas refeições em comunhão nessas festas era como se os mortos realmente retornassem né espectralmente Né Não fisicamente mas espectralmente da terra sem retorno mas isso como eu disse de forma controlada né apaziguada e temporária depois que a festa acabava cada um voltava pro seu lugar Ah e outro exemplo também de invocação da presença de um morto que acontecia ali Nesse contexto era a prática da necromancia né ou seja consulta aos mortos é que havia a crença ali de que os mortos
tinham informações e conhecimentos privilegiados então poderia ser muito útil consultar um espectro para saber sobre certas coisas né como por exemplo como curar uma doença que ninguém tava conseguindo curar Ou se era uma boa ideia um bom momento para ir para uma batalha ou então questões mais cotidianas mesmo como por exemplo onde encontrar um animal que se perdeu do rebanho né e tudo isso poderia ser ser feito invocando a presença de alguém da Terra dos Mortos né para prestar essa consultoria por assim dizer na terra dos vivos então assim como eu disse né a ideia
do pós-vida mesopotâmico como uma terra sem retorno ou uma casa onde quem entra não sai não é tão sem retorno assim realmente não é uma um lugar de esperança né os ninguém quer ir pro mundo dos mortos no na Mesopotâmia né ninguém pensa que a vida vai ser melhor depois da morte né como acontece em algumas culturas né a vida depois da primeira morte pelo menos né como vão dizer os egípcios mas ainda assim há essa conceção aí né de que os mortos podem continuar vivendo de alguma forma mesmo essa forma apagada em resumo então
né uma visão da Morte bem menos otimista que a dos egípcios ou então a do céu Cristão por exemplo mas também não é uma visão da morte tão terrível quanto a do castigo eterno no inferno é simplesmente mesmo uma versão meio apagada meio anestesiada do mundo dos vivos é uma continuidade da existência sem muita aventura né como momentos pontuais apenas de interação com os que ainda vivem e lembranças periódicas e controladas ritualizadas de certos prazeres da vida né como comer e beber com os familiares durante a festa do kpu por exemplo mas tirando essas ocasiões
especiais a gente poderia dizer que pros mesopotâmicos em geral morto bom era morto morto né cada um no seu lugar sem essa de mortos voltando para devorar os vivos e nem espectros rondando por aí claro que havia outras visões diferentes também sobre esse tema nesse mesmo contexto né mas a imagem básica mais recorrente que a gente encontra nas fontes é essa o mundo dos mortos ou o inferno se quiser usar essa palavra né que significa literalmente o submundo o mundo inferior como um lugar realmente morto né uma escuridão onde o posse acumula e o silêncio
se derrama como sempre né para quem quiser se aprofundar nesse assunto eu vou deixar algumas referências bibliográficas aí na descrição do vídeo e recomendo também que vocês assistam o vídeo sobre a epop G games e também o vídeo sobre medicina e magia na Mesopotâmia antiga mas por enquanto é isso né para esse vídeo é isso muito obrigado por assistir e até o próximo falou