a longa história dos humanos foi de nomear as coisas e a experiência do antropoceno ela está mostrando que a gente só olha para nós mesmos ela ela Alé além de ser eurocêntrica ela é [Música] antropocêntrica [Música] eu queria que você começasse eh no caso continuasse a conversa falando um pouquinho eh do povo crenac quem é o povo crena onde está localizado eh como é que que vocês estão hoje né nesse século XX tão conturbado sobre o povo crenac seria importante lembrar que até o final do século XIX começo do século XX eh esse ET nôm
crenac não existia nós éramos todos chamados de botocudos eram os botocudos da floresta do Rio Doce de certa maneira essa localização na bacia do Rio Doce ela tem uma antiguidade que só os arqueólogos é que conseguem rastrear quando eles vão buscar as inscrições rupestres nas montanhas nos paredões nas grutas eles vem inscrições de 2000 anos 1700 anos atrás Então se a gente fosse olhar essa história ela é antes da colonização do Brasil antes da da a chegada dos brancos aqui no continente depois que entraram depois que adentraram pelo Espírito Santo pelo nordeste desceram os rios
subiram rios adentraram a floresta começaram a encontrar também os nossos parentes encontraram os Tupiniquim encontraram os maxakali né que são os chkm encontraram outros povos que preambulo da Floresta quer dizer ninguém era fixo era todo mundo em movimento andando se movendo no inverno tinha um acampamento num lugar no verão tinha um acampamento em outro lugar moviam-se e com esse movimento produziam Floresta tem gente que pensa que essas florestas caíram do céu Não elas foram plantadas elas foram cultivadas por humanos por pássaros por muitos outros [Música] [Música] seres [Música] C [Música] toda essa constelação que a
gente chama de fauna ela plantou essa Floresta carregando no bico carregando no pelo carregando na pata às vezes carregando no estômago porque muitas dessas árvores maravilhosas elas só nascem depois que um animal animalzinho já comeu viajou no estômago e soltou de novo o Baru por exemplo que é um coquinho muito duro ele só germina se uma anta ou sei lá uma cutia comerem ele e ficar com ele no estômago e depois jogar ele para virar a semente essa transformação da vida essa recriação da vida virou o século XIX chegou no século 20 e nós fomos
abordados pelo governo pelo serviço de proteção ao índio cerca de 1916 1915 com várias famílias indígenas andando na beira do rio doce desde o espírito santo até aqui em cima onde é o Rio Piracicaba pertinho do Rio Piras caba tem um patrimônio chamado nac o o prefixo Ken é cabeça e o sufixo nac é cabeça na terra então desde o começo do século XX nós passamos a nos nomear como crenac mas o nosso nome próprio a nossa autodenomina autonomação é burum burum eré seres humanos humanos seres humanos todo mundo é ser humano no planeta inteiro
tá cheio de ser humano a gente não se distingue dessa maneira exclusiva nós somos seres humanos igual a todo mundo Deveríamos ser né todo mundo e eu acho que eu já dei um uma ideia de como nós nos imaginamos nós nos imaginamos assim seres humanos e a gente muda de nome ao longo da história a gente já teve apelido né chamava a gente de botocudo por causa do do do toque por causa do Adorno na orelha aquele brinco e e depois quando nós ganhamos o nome cren noak esse cabeça na terra foi porque tinha uma
pessoa no meio desses botocudos um um homem que se destacou porque ele teve a coragem de pacificar os brancos de conversar com os brancos com os I Então ele se destacou do meio social dele e ele tinha esse nome ele se chamava crenac era o nome de uma pessoa que se tornou o nome de um povo então eu acho que a gente podia homenagear a ele porque ele foi a primeira pessoa que sozinho tinha esse nome e ele dividiu esse nome dele com todo mundo para existir uma constelação de pessoas que são os crenac antropoceno
que era essa o que o homem fez ou o que ele desfez o que ele construiu ou o que ele destruiu para onde foram as andorinhas a terra está doente sociedade está doente mas os homens insistem em ver a doença e não o doente viver um de cada vez de separar os que podem viver e os que não devem viver os indígenas tentam nos ensinar há séculos não existe o um sem o outro não existe o um existe o coletivo vamos chamar as andorinhas nos avisar das chuvas e preparar a roça mavar a nhanderu p
mama Mãe Terra olhai por nós eu não sei se é uma dificuldade ou se é uma má vontade que o capitalismo impôs né trouxe e dessa dessa comunhão com com o universo com tudo que compõe eh e aí a gente chega nesse antropoceno né é que o centro do universo é o homem eh eh e os seus interesses né e a e a vida material né e o consumismo e aí são coisas que você traz inclusive nesses dois livros aqui que a gente vai mostrar que é a vida não é útil que é esse e
o ideias para diar o fim do mundo que é esse muito do que você disse eh tá aqui atravessando esses dois livros mas eh eu uma uma das primeiras coisas que me chamou atenção é quando você diz aqui no ideias para diar o fim do mundo de uma anciã do Povo RP que estava conversando com uma pedra né então isso para para qualquer cultura originária qualquer indígena é muito natural para homem branco capitalista é um absurdo mas eu queria ler o que você escreve porque eh não tem como as pessoas de casa eh assimilarem se
eu não L você diz assim olha li uma história de um pesquisador europeu do começo do século XX que estava nos Estados Unidos e chegou ao território dos R ele tinha pedido que alguém daquela alteia facilitasse o encontro dele com a anciã que ele queria entrevistar quando foi encontrá-la ela estava parada perto de uma rocha o pesquisador ficou esperando até que falou ela não vai conversar comigo não a o que seu facilitador respondeu ela está conversando com a irmã dela mas é uma pedra e o camarada disse qual é o problema Então agora eu devolvo
a palavra para você depois dessa sua de ler o trechinho dessa história que tá aqui talvez a gente devesse Cláudio lembrar eh uma situação mais próxima da gente do cotidiano imagina que alguém saiu para caminhar de manhã cedo em Belo Horizonte e volta para casa e disse ai encontrei o Cláudio Henrique mas eu não pude conversar com ele porque ele estava abraçado com uma árvore aí alguém vai dizer mas abraçado com uma árvore é ele estava abraçado com uma árvore afinal de contas aquele sujeito saiu para caminhar de manhã cedo e não tem coisa mais
natural de que caminhando de manhã cedo você pare para abraçar com uma árvore ou que você pare para conversar com uma montanha com uma rocha com um lago isso deveria ser uma experiência cotidiana Nossa não deveria ser uma coisa excêntrica [Música] inclusive você cita no livro né no ideias para dear o fim do mundo né que os homens são inclusive especialistas em criar ausências você fala disso eh Então esse homem civilizado que tá em constante conflito com o meio ambiente criando ausências E aí não seria eh exagero lembrar que desaparecer com uma bacia hidrográfica é
uma ausência grave o nosso poeta Carlos drumon de Andrade ele lamentava que Itabira tinha virado um retrato na parede é uma ausência são tantas as ausências que a gente poderia seguir eh lant nós estamos falando daqui do âmbito local Regional imagina se a gente tivesse falando do Brasil inteiro tem uma ausência Histórica no nosso país o Brasil tem o nome de uma árvore que é o pau brasil que é ausente da nossa paisagem o pau pau brasil foi praticamente erradicado das florestas brasileiras então nós somos mesmo eh capazes de criar ausências de uma maneira tão
subre que ninguém observa é um truque que aquilo desapareceu parece um uma daquelas coisas dos mágicos que dizem olha aqui não tem nada no bolso nada na mão e desaparece com você que tá na frente dele então assim é muita esperteza é uma racionalidade aparente né é uma sugestão daquilo que a gente chamou de civilidade ou civilização né a ideia de progresso civilização se você chegar para alguém fala ah lá tinha uma floresta aí nós fomos lá e criamos um parque aí alguém vai falar nossa que bacana o que não está entendido é que eles
estão dizendo a gente se apropriou daquele território e nós vamos decidir o destino dele por isso que eu digo que começa com parque em português parque e termina com Parking em inglês que é estacionamento né estacionamento se escreve Parking e em português se escreve parque para um lugar que vai ficar eh reservado para o público mas que na verdade nunca é público então é um engano né Eh na verdade não prevalece nenhuma nem outra das ideias ele nem vai ser um lugar para o uso comum onde você vai passear porque ele vai ter controle nem
vai ser um lugar que vai eh preservar as condições ambientais que foi a motivação de ter criado o parque então assim a gente tem que botar em questão toda essa lógica mentirosa É Tempo de Cura cura dos nossos pens e ações é tempo de cura da Terra para a cura é preciso semear o amor semear o respeito e o cumprimento dos deveres do nossos direitos compreender a importância da vida no planeta Terra precisamos reverenciar e resguardar a vida dos povos originários dos povos que ajudam a preservar o que temos de precioso a mãe natureza salvem
as florestas salvem os povos indígenas salve o planeta terra o mundo passa por um momento de expurgação do veneno cultivado fruto da ignorância da ganância da violência da corrupção e da negação o Brasil era Floresta nos primórdios aliás aqui nem era chamado Brasil Casa dos povos indígenas casa da mãe d'água dos seres da floresta do primeiro povo brasileiro Não podemos mais permitir a destruição das matas É Tempo de Cura é tempo de criar o novo mundo de reconhecer que essa luta é minha é sua é de todos pela vida dos primeiros habitantes do Brasil e
você diz lá o seguinte eh tanto no Memórias de fogo do memória do fogo quanto em As veias abertas da da América Latina o Galeano mostra como os povos do Caribe da América Central da Guatemala dos Andes e do resto da América do Sul tinham convicção do equívoco o que era civilização eles não se renderam porque o programa proposto era um erro a gente não quer essa roubada e os caras diziam né não toma essa roubada toma a Bíblia toma a cruz toma o colégio toma Universidade toma Estrada toma ferrovia toma mineradora toma porrada ao
que os povos responderam O que é isso que esquisito não tem outro não aí devolv a você essa provocação que você nos traz via guano é e lembrar também né Cláudio que o Eduardo Galeano ele nos últimos anos principalmente depois que teve essa produção maravilhosa da literatura quando ele passou a ser mais um conferencista e produzindo alguns artigos ele disse que era importante manter viva a Utopia como você falou dessa literatura distópica que denuncia o presente e mostra que o futuro pode ser muito pior que não fica vendendo sonhos né ilusão para ninguém ele por
outro lado o Galeano insistia em que a gente não pode perder a capacidade de sonhar e e a Utopia ele ele reclamava sempre de que era a Utopia que nos mantinha também vivos essa eh essa capacidade crítica de ver o mundo e ao mesmo tempo reclamar uma Utopia ele é muito interessante eh ele alimenta também E amplia a nossa subjetividade isso que é um reclamo que constante que eu faço né da gente não perder a capacidade de eh expandir Nossa subjetividade essas poéticas que criam mundos que inventam mundos e sobre essa pergunta eh mas não
tem outra não Só tem isso a quando o ciclo de de colonização do planeta se deu ali por volta do século 1617 A Fúria de consumir mundo ela só tinha uma receita era civilizar civilização não tinha outro lema rapaz há 500 anos atrás a única coisa que as pessoas que pensavam naquele tempo que digamos influenciava o pensamento europeu Naquele tempo era escravizar os outros povos dominar os outros territórios ampliar O Domínio das coroas europeias e de certa maneira até hoje aquelas antigas famílias que dominavam a Europa estão no topo da da pirâmide dominando o mundo
não teve muita mudança de verdade né A gente podia botar mesmo pergunta né mas não tem outra coisa não é isso mesmo é um mundo só uma narrativa só eu acredito que o que a gente reclama é que o mundo tenha muitas histórias muitas narrativas e que quantas narrativas se a gente puder eh produzir mais plurais vão ser os mundos Eu Não Tô interessado no mundo só né ideias para dear ao fim do mundo não é sobre um mundo é sobre [Música] [Aplausos] Mundos eu vou terminar pegando emprestado uma pergunta que o Antônio abujanra sempre
fazia o final das entrevistas com os convidados dele mas eu acho muito pertinente fazer essa pergunta para você O que é a vida eu não conseguiria eh descrever a experiência eh maravilhosa arrebatadora eh cósmica que me toca diante dessa questão de que é a vida a vida é indescritível a vida é um maravilhamento a vida não tem tamanho não tem cor não tem sabor Eu costumo dizer que a vida é uma dança cósmica alguém pode dizer ah mas é muito vago a vida é uma dança cósmica é o sentido da vida eh que me ocorre
principalmente entendendo que a vida atravessa tudo a vida não é alguma coisa que fica contida no casulo né do humano a vida tá na árvore no peixe na água na pedra no vento a vida tá em tudo a vida está em tudo mas tem gente que acha que a vida é uma coisa privada que a vida é alguma coisa que pode ficar contida nele no seu corpo no meu corpo bobagem isso não é a vida a vida atravessa tudo esse instante que nós estamos falando daqui a um minuto a gente pode não estar mais vocalizando
nada mas a vida segue a vi vida a vida é sempre fica decretado que agora vale a verdade que agora vale a vida e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira fica decretado que a partir desse instante á Girassóis em todas as janelas que os girassóis terão direito a abrir-se dentro das sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança fica decretado que todos os dias da semana inclusive as terças-feiras mais cinzentas tin direito a transformar-se em manhas de domingo como traduz o Pablo Neruda
fica decretado que o homem nunca mais precisará duvidar do homem o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento como o vento confia no ar e como o ar confia no campo azul do céu parágrafo único o homem confiará no homem como o menino confia em outro menino fica decretado que o homem a partir desse instante está livre do julo da mentira nunca mais será preciso usar a caça das palavras nem a armadura do silêncio o homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da
sobremesa fica estabelecido durante muitos milênios a prática sonhada pelo profeta Isaías e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de [Música] ambos será a mesma E terá o gosto da Aurora