Olá, tudo bem? No vídeo de hoje, nós vamos ter uma conversa com a Lília Lavor, psicóloga formada pela UFES, especialista em cuidados paliativos. Nós vamos conversar um pouquinho sobre a morte, o morrer ao longo dos séculos em diferentes culturas.
Obrigada pela sua presença. Obrigada por me chamar! Lilian a gente pode dizer que a morte nem sempre foi vista do mesmo modo em todos os tempos na história da humanidade?
É legal falar sobre isso, Luciana, até para a gente conseguir entender porque que hoje a morte a é tabu e quando a gente pensa nos tempos muito antigos, as pessoas tinham mais familiaridade com assunto. Se a gente parar para pensar nisso é bom a gente ir na história e existe um historiador chamado Philippe Ariès, ele é um francês e tem um livro chamado "A história da morte no ocidente", nesse livro ele vai fazer um resgate histórico para gente separando em eras para mostrar para gente que além de um fenômeno biológico, que é o que a morte é, ela também é um fenômeno sociocultural e vai ter uma influência muito grande do comportamento das pessoas a cada era e em diferentes culturas. Ele vai separar isso de quatro formas, e eu vou falar de cada uma.
A primeira, é a morte domada. A morte domada é na Alta Idade Média, nessa época não existia demarcação dos lugares onde as pessoas eram enterradas. Eram valas coletivas e as pessoas comuns eram colocadas lá, quem era nobre era enterrado nas igrejas, mas até quem era nobre, como não tinha espaço suficiente, de tempos em tempos eles tiravam as ossadas e jogavam no outro lugar.
Não tinha um lugar para ir reverenciar os mortos. A gente pode pensar que, sendo assim, a morte era mais comum. As pessoas morriam em casa e morriam diante dos seus familiares, as crianças participavam, era mais familiar, por isso, que chama de morte domada.
Com o passar do tempo, ele vai percebendo que na Baixa Idade Média, já tem uma influência maior da igreja, então, nos discursos, nos sermões fala-se mais de pecado, as pessoas começam a se preocupar mais com a morte pessoal. Para onde vai a alma depois da morte? Então fica mais voltado, ele chama essa era da morte de si mesmo.
Ao longo do tempo, por volta do século XVIII, ele vai perceber que há uma expressão maior e um pesar pela morte do outro, então, vai aparecer na moda, por exemplo, vai aparecer também uma coisa que é muito famosa, ele tem um livro chamado "Mortes vitorianas", que era na era da Rainha Vitória, no Reino Unido. Eles faziam fotografias pós-morte. Então, eles fazem toda uma maquiagem para conseguir tirar foto do morto junto com a família, ficava a família com o morto fazendo foto.
Essas fotografias ficaram muito famosas e era uma forma de reverenciar e também de eternizar fazendo as fotografias. A gente vai vendo que ao longo do tempo vai se criando uma cultura diferente e mais próxima da morte nesse sentido. Já no final do século XIX, começa a ter os jazigos familiares, então, tem demarcação.
Os cemitérios começaram a ir para periferia. Acontece também que, os coveiros por estarem muitas vezes ali em contato com os corpos em putrefação, eles morriam, adoeciam, então, a gente começa com ação maior do sanitaristas. e tudo isso vai fazendo com que o processo de morte, morrer fique mais distante da população.
Com isso, também no período das duas guerras, a gente tem uma melhora na tecnologia, as pessoas começam a morrer também nos hospitais, então, a gente vem de um período onde a morte era em casa, os cemitérios eram no centro das cidades e a gente passa para um período, que é o que ele vai chamar de morte interdita, que a gente já vai pensando na morte virando tabu, porque a gente se distancia do processo. E pensando nisso, nesse estudo do Philippe Ariès, a gente consegue mesmo traçar uma linha do tempo, onde a gente vai percebendo que aos poucos a gente vai se distanciando fisicamente do processo e em consequência também vai se distanciando da percepção de uma morte mais próxima. E e o que a gente faz, o nosso trabalho tem a ver com a nova perspectiva da morte, que é a morte humanizada.
Quando a gente fala sobre cuidados paliativos, essa coisa de fazer psicoeducação, é pensar em morte humanizada. Uma figurinha que é muito contemplada nesse assunto, a Elisabeth Kübler-Ross e a Cicely Saunders, que elas vão trazer o paciente, o moribundo no caso, o doente para o centro da ação novamente. Então, a gente faz uma força como se fosse uma força contrária para voltar a trazer a morte como algo que pode ser falado, que pode ser dito e se é conhecido é melhor cuidado.
É interessante isso que você fala da morte interdita, porque hoje a gente vê muitas vezes familiares que estão acompanhando um ente querido num processo de agravamento da doença e da iminência da morte, uma angústia. "Ele tem que ir para o hospital para morrer, ele não pode morrer aqui". Eu acho que isso tem a ver, esse movimento das famílias, tem a ver com isso, esse distanciamento de que a morte tem que acontecer no hospital, ela não é mais no ambiente doméstico.
Exatamente, e o próprio medo, porque quanto mais eu distancio mais eu tenho medo. Escuto muito no consultório isso. Às vezes o cuidador da vida inteira, quando está chegando no final fala: "Não sei se eu quero estar na hora da morte", porque o evento é um evento que dá medo.
Quanto mais a gente se afasta mais a gente tem medo. E no hospital tem alguém que vai olhar, que vai fazer. Enfim, realmente ao contrário do que acontecia nas eras antigas.
Além dessa diferença que você aponta ao longo da história, é possível a gente afirmar que no mesmo momento histórico existem diferenças nas concepções, nas percepções sobre a morte em diferentes culturas? Sim, se a gente parar para pensar, até nisso que eu falei até agora, da perspectiva histórica, a igreja, por exemplo, a religião é uma coisa que que impacta demais na forma que a gente enxerga a morte. Então, em diferentes culturas a gente vai ter a alguma religião específica mais forte e isso vai influenciar muito, por exemplo, em como que as pessoas vão lidar com a morte.
A posição geográfica, a nossa forma de relação, se a gente parar para pensar que nós latinos somos muito mais calorosos, os europeus são mais evitativos, são mais distantes. É claro, que a forma expressar o pesar, a forma de falar sobre a morte vai ser diferente. Com certeza, para além dessa questão histórica, a forma como as pessoas se relacionam, a forma como as pessoas entendem o vínculo, isso vai influenciar também na no comportamento diante da morte.
A gente vê essas situações de diferenças até no modo como os rituais pós-morte são organizados, eu observo, por exemplo, entre os norte-americanos é mais comum que o velório, o memorial que eles fazem, seja feita uma semana após a morte, o nosso é bem imediato. Os rituais, por exemplo, acho que é interessante os mexicanos. Os mexicanos têm o Dia dos Mortos que é quase um carnaval, eles vão para o cemitério, comem, bebem.
Imagina a gente aqui no Brasil indo para o cemitério comer e beber, é completamente inadmissível. Então até a forma como a gente entende a leveza ou pesar do momento tem a ver com a história, a dos mexicanos é influenciada pelos ciganos, que tem essa coisa da alegria, tem uma coisa mais mística também. E esse sincretismo também vai construindo a forma de lidar.
Você falando assim me fez lembrar, eu tenho alguns alunos aqui na universidade que são do interior e eles falam que ainda é comum uma prática quando alguém morre de passar um carro de som anunciando que a pessoa faleceu, chamando a comunidade daquela cidade pequena para estar naquele momento de despedida, isso aqui para a gente numa cidade grande seria estranho. A badalada do Sino que muda, fica mais lenta no interior, aqui não tem disso. Tem um estudo que foi feito em 2018, que chama cartografia da morte, a ideia do estudo é para conseguir entender a perspectiva do brasileiro, como que ele entende a morte para justamente, uma coisa que a gente estava conversando antes de começar aqui, tentar pensar como humanizar esses espaços, os espaços dos cemitérios, esses momentos que são mais mais complexos, mais difíceis.
Eu achei interessante que nesse estudo mostra que um pouco mais de 30% da população que tem o desejo de saber se vai morrer. Se tivesse a possibilidade de ter a notícia: você vai morrer em tanto tempo, 30%, 32% da população, algo assim, que tem desejo de saber. O brasileiro não quer saber.
Se a gente também for pensar na Europa, nos Estados Unidos vai ser completamente diferente, então, tem a ver mesmo com cada cultura tem essa especificidade. Lida de um modo. E é curioso isso, porque algumas pessoas acham até assim que conversar sobre a própria morte traz mal agouro.
Muito comum e até é interessante isso, porque às vezes alguém que tá num processo de adoecimento grave gostaria de conversar sobre isso, como eu quero ser sepultado como eu quero ser velado e a família "vira boca para lá, bate na madeira, não vamos pensar sobre isso". Então essas questões culturais vão atravessando as relações também em torno da morte, do luto. Exato, e cada um vai sofrer separado, porque todo mundo sabe, o pacto do silêncio, ninguém conversa sobre isso, é uma coisa interessante para a gente pensar que realmente vai influenciar na forma que essa família vai viver esse luto também.
Então, a gente pode dizer que esses aspectos culturais, sociais se relacionam com a experiência de luto de uma pessoa? Sim, tem um autor chamado Doka, que ele vai falar sobre o luto não reconhecido e ele diz uma coisa que é muito interessante. Ele fala que cada sociedade tem regras para luto, a gente impõe e isso é tão estrutural, é tão internalizado de alguma forma que o próprio enlutado internaliza isso também, então, ele nem valida a possibilidade de se enlutar.
Essa coisa as regras do luto é interessante, porque dependendo da sociedade a criança, por exemplo, nem tem direito se enlutar, ela nem sabe o que tá acontecendo, ela nem pode participar do processo. Então é interessante a gente pensar como que isso às vezes faz com que o processo aconteça intrapsiquicamente. Eu estou vivendo, de uma forma inibida estou vivendo, mas eu não estou tendo espaço social para poder expressar esse luto.
E é claro, que isso vai ter uma repercussão na vivência do processo. E que pode, inclusive, aumentar a possibilidade de um luto complicado, um luto mais difícil. Sem dúvida, acho que uma das coisas mais importantes é a gente perceber, quando a gente pensa no processo como um processo sociocultural, é isso, o quanto que a sociedade tem capacidade de validar ou não o sofrimento de alguém.
Eu acho que isso que a gente está fazendo aqui, essa iniciativa, por exemplo, é uma forma de fazer psicoeducação. É um jeitinho, de repente, a gente conseguir aos poucos e construindo uma cultura diferente em relação à morte e ao luto. É tão importante isso que você traz de uma validação de abertura social para se falar sobre isso, porque o que você falou que vezes a família ali todo mundo sabe que alguém está gravemente enferma, essa pessoa vai falecer, mas não se conversa sobre isso, às vezes a gente vê isso acontecer também outros espaços, por exemplo, uma criança que perde um dos pais e volta para escola e na escola mantenha-se um silêncio sobre isso, alguém que se torna viúva e volta para o trabalho e ninguém pergunta para aquela pessoa, porque as pessoas se sentem desconfortáveis de perguntar.
E o mais próximo da gente, o profissional de saúde, às vezes uma equipe inteira perde um paciente e no outro dia você volta e ninguém fala sobre isso, porque a gente não pode, teoricamente, se a gente entrar nisso em todo mundo que vai morrendo, a gente vai perder a força que a gente tem que passar. Então também tem um sofrimento muito profissional de saúde por conta disso. Realmente, os espaços não estão preparados, infelizmente, para acolher esse momento, que é o momento muito importante.
E não é à toa que a professora Júlia Kovács faz essa defesa de uma psicoeducação para a morte, que profissionais de saúde, eu entendo que até de outras áreas, da educação, da assistência social, a gente tem que ser preparado para lidar com isso, para conversar sobre isso, para minimamente ser capaz de prestar algum tipo de apoio a pessoas em luto. Exato, prestar apoio e também validar no momento, porque é isso, tem um estudo que fala que nós vamos nos enlutar pelo menos 20 vezes na vida. Nós vamos nos enlutar, não tem para onde correr, então, entrar em contato com isso é uma forma da gente se ir percebendo, validando, abrir espaço pessoal para viver isso.
Foi muito bom conversar com você, eu acho que vai ser muito importante. Adorei Também. Obrigada!
Até o próximo pessoal!