Bom dia. Hoje nós estamos com o nosso podcast Criminalmente Falando e vamos falar um pouquinho sobre o caso Suzane Von Ristof com uma delegada e uma perita. E nós vamos analisar esse caso sobre a ótica do direito penal, direito processual penal, para vocês estudantes de direito entenderem como funciona a aplicação das leis da doutrina dentro de um caso concreto e muito famoso que foi esse.
Esse caso foi realmente um desafio para todos que participaram. E hoje com a presença dessas ilustres delegad perita, nós vamos analisar como as provas foram colhidas, analisadas, como foi a interpretação do caso, como aconteceu a confissão. Seja muito bem-vinda, delegada Maria Clara.
Eu queria entender mais ou menos como aconteceu quando a quando a polícia chegou ao local e soube que a Susane ela tentou passar a ideia de um de um assalto. Como foi que isso aconteceu? Primeiramente, bom dia, muito obrigada pelo convite.
Eh, em primeiro lugar, ela tentou passar um latrocínio, na verdade, né, que é um roubo com a sequência de morte. E isso aí caiu por terra assim que a perícia entrou no local, que foi uma das coisas mais difíceis de se fazer, que é isolar a área, porque se a área se encontra contaminada, tudo que a gente tem de perícia vai se derrubando, vai se contaminando, vai perdendo a sua, o seu teor, né, a sua valiosidade. Então a gente isolou toda a área em primeiro lugar e foi bem complicado porque em minutos a gente tinha muita gente ali na porta, a gente tinha muitas pessoas e a gente tinha uma família que tinha perdido dois entes queridos.
Então foi bem complicado no começo. Entendi. Ou seja, o local é a principal fonte para reconstituir a história do crime?
Sim, ele é a principal matériapra pra gente ter base de absolutamente tudo. Então, a gente recapitula tudo que aconteceu, a perícia ela entra no local. Então, nada que a que a perícia leve pra Júri vai ser absoluto, porém a gente analisa muito essa questão.
Então, a gente precisa que um perito legal entre no local, ele examine tudo aquilo, ele trabalhe muito bem, que foi o trabalho da perita na Clara durante esses anos. Então, a gente analisa muito isso e a gente é muito grato pela perícia. E o exame do corpo de delito, ele confirmou a materialidade.
As lesões, elas foram feitas por um objeto contundente, ou seja, um objeto que é aquele para amassar mesmo, não é aqueles que tem alguma coisa para furar, não. Ele foi feito para amassar. E hoje usaremos até uma reconstrução em 3D ou BPA, que serve para analisar manchas de sangue, para entender de como funcionou e qual foi a dinâmica do crime.
Entendi. A gente tá até vendo algumas fotos de como foi a reconstituição do crime depois que eles já haviam confessado. Exatamente.
E foi um processo bem interessante, né, pra gente entender. Como antigamente, em 2002, a gente não tinha essa tecnologia, que nem eu falei, o BPA que é usada para analisar manchas de sangue, aí foi uma reconstrução mesmo da cena. Entendi.
E falando em vestígios, como foi a preservação desses materiais? Primeiramente, a comoção pública foi um desafio, até porque, como a delegada Maria Clara falou, em pouco tempo já tinha muita gente ao redor da casa cercando ela. Mas os objetos, como o que ele usou, que ele fez em casa, inclusive, né, o Daniel, Daniel Cravinhos fez em casa, que foi com a base de ferro, o objeto, e a cena do crime, que foi o quarto, aonde aconteceu todo assassinato, onde estava o local, foram isolados e periciados.
Vale ressaltar que a cadeia de custódia ela é extremamente importante desde o início, que é desde o seu reconhecimento até o descarte. Mas se acontecer algum problema no meio do processo, a prova deverá ser invalidada. Entendi.
Para justamente a gente não julgar alguém, né, com base numa prova que foi contaminada. Exatamente. No meio do processo, porque pode acontecer querendo ou não.
Entendi. Acabar condenando alguém injustamente. Exatamente.
E nós somos humanos e pode acontecer, né, esses durante o processo. Exatamente. Que é como diz, né, a base de custódia, a gente não, caso há contaminação ou mesmo sendo feito por um perito legal, é tudo que a peritana Clara falou ali em frente ao ao júri, que foi a júri popular, poderia cair por terra, porque a defesa ela tem esse direito de falar.
a defesa ela tem esse direito de derrubar. Então assim, eh, a questão da mídia foi muito difícil na época, porque não só a mídia, mas a comoção pública levou esse caso assim a avalanche. E querendo não pesa, né?
Por exemplo, no júrio popular, as pessoas não vão conseguir tirar, né, de um senso comum, que é o nosso senso humano, de ver que um crime bárbaro aconteceu com os pais para um lado que a gente tem que olhar pela lei. É verdade. E tudo isso foi feito por peritos oficiais, porque eu soube que pode também haver peritos não oficiais.
Como é que isso funciona? foram feitos por peritos oficiais, mas como Nut fala, se um laudo for feito por um perito não oficial, a prova deverá ser considerada ilícita, mas ela tem a possibilidade, perdão, de ser feita por dois peritos não oficiais, mas se ela for feita por um perito oficial, a prova deverá ser considerada válida. Uhum.
E vale ressaltar que a só a perícia, a prova pericial, ela não é absoluta, que nem a delegada Maria Clara falou, a defesa ainda tem um direito de participar do caso e tudo mais, ela não é absoluta. Entendi. Isso é muito interessante porque mesmo com a prova técnica, vamos dizer assim, dependendo da narrativa que o advogado da defesa construa, ele pode invalidar, participando, ele tem esse direito, é direito da defesa.
que foi o que o advogado da Suzane ele tentou fazer de que por ela não estar atuando no crime, por ela não ter cometido um crime, ela ter sido apenas a parte da cabeça, né, a cabeça ali pensante de tudo, ele tentou tirar ela do meio. Então era como se ela não fosse a culpada, como se ela não tivesse nada a ver com isso, como se ela fosse a Teresa e os irmãos Cravinhos fossem as piores pessoas do mundo. Até hoje, né?
Até hoje a gente tem três versões, que é uma da polícia, a gente acreditar, a da Suzane e a dos irmãos Gravinhos. Isso. E era justamente sobre isso que eu queria perguntar, delegada, os interrogatórios, eles foram conduzidos de forma individual ou foram os três juntos?
Como vocês fizeram? Então, eh, foi uma parte bem legal de se fazer, mas bem difícil, porque a gente não só interroga os acusados, a gente tem famílias. Então assim, eh, eu acho que não foi a mídia que postou isso.
Isso depois de um tempo, ainda podcast a gente comentou que o Cristian, ele não estava no nosso banco de suspeitos. A gente tinha o Daniel e a gente tinha Suzane porque eram as pessoas que estavam no local. E tínhamos também o irmão mais novo da Suzane, que também estava sendo uma das pessoas que ali estávamos conversando sobre se ele tinha atuado no crime ou não.
Só que aí no belo dia a gente recebe a ligação de uma confessionária de assim: "Então, uma pessoa acabou de passar aqui, ela comprou uma moto à vista em dólar e eu sei que sumiu da casa dos Van Christofens uma quantidade x de dólar. " E aí a gente pega ele ali no na porta da confessionária e a gente leva ele para depor. E na época foi bem difícil porque ele protegia muito o irmão de ele tentava ali cuidar do irmão porque ele era mais velho e ele tentava cuidar dele também.
Só que pela pressão tão grande que ele sofreu ali dentro, ele acabou confessando. Ele fala que sim, estava atuando no crime junto com o irmão, mas ele estava atuando pelo irmão, porque o irmão dele tava passando por muitas coisas com o Muffred, né? O pai da Suzane, mas que a Suzane que arquitetou tudo aquilo.
E aí a gente vai em seguida pro Daniel, que o Daniel fala a mesma coisa. É, a gente pressiona muito o Daniel porque ele não quer contar. A gente vê aí o que o amor faz com as pessoas, né?
É muito engraçado. Ele não quer contar porque ele quer proteger a Suzane. Enquanto o irmão tá protegendo ele, ele protege a namorada.
E a gente fala: "Seu irmão vai se ferrar sozinho, seu irmão vai ser preso sozinho e você não vai você não vai confessar o que você fez junto com o seu irmão". E aí ele confessa, mas ele fala que a sua não teve nada a ver com isso. A gente vê isso muito no filme, né?
A menina que matou os meus pais. Inclusive, que também tem várias versões diferentes, né? A menina como matou meus pais, o menino que matou os meus pais.
São várias versões que a gente tem ao longo dessa história. E a gente tem, né, a Suzane falando que sim, ela estava no crime, que ela estava dentro da casa, mas que ela não cometeu nada, porque ela não ouviu. E assim fica a pergunta, né, pro pessoal de casa, como é que você não escuta alguém marretando a cabeça dos seus pais, você estando embaixo?
Então, sim, foi separado. A gente conversou até com os pais, a gente conversou com o tio da Suzane, né, na época e com o pai dos irmãos Cravinhos, onde ele tentava proteger os filhos. É, todo instinto de pai é esse, né?
Então ele tentava proteger o filho a todo momento de que eu que dei o dinheiro para ele, porque o Daniel ele era, ele fazia aeromodelismo, então ele viajava muito para fora com os aviões que ele fazia. E ele consequentemente tinha euro, dólar, o pai dele dava essa disposição. Porém, a gente já tinha o Cristian fechado.
Cristian já era fechado por entorpescentes, né, pelos narcóticos. Então isso acabava meio que dizendo, ó, não tem como seu filho ter guardado esse dinheiro todo, esse tempo todo, que também era o que o Christoph dizia. Eu juntei esse dinheiro o tempo todo, meu pai me deu em tal época, só que não tinha como.
Pelo valor da moto na época era muito alto, então a gente sabia que ele tava ali atuando no crime. Entendi. E hoje em dia, né, os os interrogatórios eles têm que ser conduzidos com muito cuidado para também não serem invalidados e tudo mais.
Com certeza. Então ele tem que ter o advogado, tem que estar gravando para ter certeza que nada foi alguma coisa indevida dentro do processo para que, que nem eu falei, ele não seja invalidado. Exatamente.
Porque existe muito situações de que eu só confessei porque o delegado me pressionou. Eu só confesse porque você se sentiu coagido, né? Sim, isso eu só confessei porque o policial ele me bateu.
Então, eh, o corpo delito também, mediante a isso, é muito importante, acontece muito de advogados de defesa pedirem corpo delito. Eh, muitos passam por psicólogos hoje em dia, porque acontece muito da coação policial. Então, isso é um problema muito grande hoje em dia, mas que na época a gente não tinha tanta informação sobre, porém a gente media muito porque a gente conversava.
A gente precisava, obviamente, a polícia precisava naquela época ter uma confissão que não é absoluta, porque se não basear no que a gente tem de prova, a confissão não é basta, porque ele poderia confessar: "Sim, eu cometi o crime, sim, eu cometi o crime" e não ter sido nenhum dos dois. A Suzane ter contratado alguém para cometer o crime, é, e as provas mostrarem o contrário, né? Exatamente.
É todo um conjunto de prova, como a delegada Clara falou, até, por exemplo, DNA, como Auri disse, não é necessário apenas vestir de DNA, mas precisa ter um nexo causal, precisa se entender porque aquele DNA está ali. Até como no que estamos falando, a Suzane no início tentou eh colocar a culpa na mulher que trabalhava lá e consequentemente ia ter vestígios dela de DNA, mas para isso necessita de um nexo causal para entender porque ele foi para lá. E o mais engraçado é que no filme ele mostra muito isso, mas pra gente na época foi bem irônico.
Eh, eles saem da delegacia quando a gente suspeita que os dois tenham cometido o crime e é muito estranho ver que os dois eles perguntam para si o que que a gente tá fazendo aqui ou você vê você via muito a Suzane agarrada no Daniel. E aí a gente separava e ela entrava em desespero e a gente grampeou o celular dos dois e a primeira coisa que ela faz é ligar pro Daniel e fala assim: "É meio estranho, né, Dan? No filme mostra muito isso.
É muito engraçado que ela fala: "Será que grampearam os nossos celulares? " Pera aí, seu pai, seu pai e sua mãe morreu no tempo 24 horas e sua preocupação é se a polícia grampeou seu celular. Inclusive, ela nunca mostrou ter essa preocupação em si, né?
Uma semana depois teve festa para ela com tudo que tinha direito lá na casa dela. Inclusive foi quando a delegada chegou lá junto com os policiais e acharam estranho, né? Ela sempre mostrou uma frieza muito grande em relação a se podia vender os carros, né, de marca, se ela poderia ter acesso à J.
meio que instruída pelo advogado a chorar mais, a demonstrar mais para demonstrar uma coisa mais, por exemplo, no enterro, ela, essa blusinha que ela tá usando, é uma blusa da Prada caríssima que ela colocou para poder ir no enterro dos pais e o coitado do irmão dela, né, que realmente estava sentindo porque ali o mundo dele desabou. Essa blusa, na verdade era da mãe dela. Ela entra dentro do quarto que aconteceu isso tudo para ter acesso à blusa, que ainda, né?
Exatamente. É o que ela tá pensando, né? Não vou para um funeral, mas eu tenho que estar ainda no estilo.
Dos meus pais, eu cometi o crime, mas eu quero estar no estilo ainda. Isso, isso é, é bem complicado. Foi algo que pesou muito, né?
Que que a gente fala, a mídia e a comoção pública foi algo muito forte que fez, né? A comção pública, ela pediu e exigiu, o povo exigiu que eles fossem a julgamento popular, que foi bem complicado e bem difícil na época. É.
E a Suzane, ela chegou a confessar o crime? Como foi que isso aconteceu? Ela não confessa.
Até hoje ela não confessa que cometeu crime, né? Ela saiu em 2023, voltou à vida normal, ela casou com médico, ela teve filhos, tá cursando faculdade de inclusive o nome da filha dela é Isabela em homenagem a Isabela Nardone, porque ela ficou na mesma cela que a madrasta da Isabela. Então ela disse que ia homenagear e ela saiu, ela cursa direito hoje em dia na PUC, ela retomou a vida dela ao normal, ela cumpriu a pena dela, então tá tudo certo.
Só que até hoje ela não confessa, até hoje os irmãos cravinhos estão, vamos dizer assim, apodrecendo na cadeia por algo que ela arquitetou. Então assim, na época o advogado dela tentou colocar ela como que ela não tinha uma sanidade mental boa. Então assim, ela não taca muito bem.
E ela diz tipo pro Daniel, você acusou o meu pai de estupro, sendo que ela diz que o pai dela estuprou ela. Então assim, até hoje ela não confessa o crime. Ela disse que estava presente na área do local, mas que não ouviu.
Então novamente o questionamento, como é que você tá dentro de uma casa? Não bate, né? Querendo ou não, tipo, você tá literalmente embaixo e não escuta umas pancadas, porque como eu falei, o objeto usado era metal, era para esmagar, para bater mesmo.
Não era uma coisa que foi rápido, foi uma coisa que teve que fazer contínuo às vezes. E na perícia foi assim, eh, quando a gente chegou, os policiais, né, que chegaram, que ela liga pra polícia dizendo que acha que alguém tá dentro da casa dela. E aí, como é que uma casa de um pessoal de classe média alta que tinha essa disponibilidade de ter segurança e tudo não aciona um alarme?
Ela desativou o alarme, ela sabia disso. E ela culpa a empregada na época ela disse que não, foi o pai dela que desativou porque a empregada chegava no outro dia e fazia muito barulho de manhã. E ele era uma pessoa muito renomada.
Na época, a baronesa da da Alemanha foi procurar todo mundo que trabalhou na parte pericial, porque os os vonivens se pesquisarem realmente a fundo, a família dele vem de barões baronesas, pessoas extremamente ricas. E eles são alemães, eles mor vieram morar no Brasil. Então assim, eh, o tudo aconteceu muito grande, muito rápido, muito minucioso.
E ela não confessar que é atuante, tudo bem. Mas ela não confessar que ela não cometeu um crime, ela participou daquilo, aquele famoso cabeça pensante, né, do do ato do crime. Entendi.
Isso é interessante a gente mostrar como a prova pericial pode eh guiar o processo, porque diante das provas foi que vocês foram derrubando as versões que eles apresentaram, né? Primeiro disseram que foi uma invasão, que eles que alguém de fora invadiu a casa. E vocês foram mostrando, mostrar que eles tentaram forjar um arrombamento.
Isso é interessante porque através disso, através desse dessas provas de um trabalho muito montando, a gente vai montando a qual foi a finalidade do crime, a gente vai entendendo de como funcionou, de como tudo foi arquitetado. Entendeu? Isso é muito interessante.
Hoje em dia a gente tem a internet, né? Hoje em dia a gente tem meios extremamente maiores do que a gente tinha na época, mas é bem difícil porque qualquer coisa que você errar, você destrói tudo que você construiu. Então é por isso que a gente comenta muito que a perícia é muito importante em casos grandes, em casos enormes que acontecem como o vão dos jovens, mas que a gente exigia muito essa questão tipo do que tá acontecendo, do que a gente vai fazer agora, como é que a gente vai seguir, tá?
Mas eles disseram que chegaram em casa por voltar de tal horário, mas a gente tinha uma testemunha que era o porteiro de um prédio do lado que disse: "Não, a gente, eu vi o carro da Suzane passando aqui, tal horário, não demorou meia hora, que foi mais ou menos o momento do crime, ele já saiu. Tem também a fichinha do motel, então acaba meio que dá uma contradição no depoimento dos três. " Isso.
Isso é interessante porque em casos que a vítima sobrevive também depois o depoimento do ofendido, né? é também muito importante para esse processo criminal. Como a vítima não sobreviveu, as duas vítimas não sobreviveram, infelizmente, mas eles usaram muitas fotos, eh, ligações, vídeos e foram reconstruindo essa relação disfuncional que existia ali dentro, né?
Isso é muito interessante que v até no filme coisas. Sim, exatamente. De pouquinho em pouquinho, a gente vê que começa tipo, nossa, como será?
Quem será que deve ter feito isso? E aos poucos vai ligando pra própria fía, querendo não, é uma coisa muito grande, né? Quem iria imaginar?
Exatamente. É uma coisa que não dá para você imaginar. Uhum.
Bom, e hoje em dia a perícia também analisa celulares, computadores. Isso teria sido feito diferente na época? Com certeza.
Como a delegada Maria Clara falou, hoje em dia a tecnologia ajuda muito a perícia pra gente conseguir montar um perfil do acusado para conseguir entender, porque hoje em dia todo mundo se utiliza da internet, das redes sociais e às vezes tem pessoas que é de um jeito na internet, posta as coisas, mas a vida real é outra. Mas isso faz com que a gente crie um perfil, coisa que em 2002 era muito limitado. Bom, e durante o interrogatório, como foi lidar com os três acusados?
Foi bem difícil e ao mesmo tempo muito interessante, porque cada um tem uma forma de reagir, né? Se você é colocado numa sala e você está sendo dado como culpado de um crime de homicídio brutalmente qualificado, você fica como? você entra em desespero.
Então, foi extremamente assim, é prazeroso para quem trabalha com isso, para quem gosta da parte criminal, mas é muito triste porque a gente tinha família, a gente tinha um pai, a gente tinha uma mãe, a gente tinha um filho que tava que tinha perdido seus pais, então a gente tinha muita cautela em tudo isso. Hoje em dia a gente vê muito abuso policial mediante a isso. Então a gente zela muito pela pela família.
No filme foi mostrado o que que a gente fez. A gente colocou o pai dentro de uma sala, o tio da Susana em outra e eles ouviram a gente conversar com os réus. Então é muito complicado, mas é muito prazeroso para quem trabalha na área, porque a gente tá ali, a gente tem toda a prova, a gente tem o quebra-cabeça montado e a gente só tá mostrando de, ó, a gente sabe que foi vocês, a gente só precisa que vocês confessem.
Bom, e como foi lidar com os possíveis abusos, como a coação moral? Então, eh, hoje em dia, e na época é proibido você dar provas contra você mesmo, então você não vai se intitular autor do crime. Então, assim, quando o réu ele está preso, né, a gente tem uma cautela muito maior, porque a gente sabe como funciona as penitenciárias hoje em dia, é muito complicado, só que na época a gente tentou de toda forma guardar tudo aquilo.
Então, se a gente não tem uma ordem judicial, a gente não pode pedir DNA, sangue, a gente não pode pedir saliva, a gente não pode pedir nada. A gente não pode nem conversar, não pode impor sua força, né? Isso a gente não pode nem conversar com os acusados se o advogado não tiver presente, porque a confissão ele cai por terra, o advogado de defesa pode pedir anulação e o juiz obviamente vai decretar como dado, porque hoje em dia a gente precisa ter o advogado presente, a gente precisa gravar absolutamente tudo, porque guarda de prova tanto para o pessoal da polícia, pro processo criminal seguir, quanto para os advogados de defesa.
Bom, e a repercussão na mídia foi enorme. Nós sabemos, tipo, que as pessoas estavam muito em cima. Isso atrapalhou de alguma forma o andamento do caso, o processo?
Como como a gente tava conversando aqui, é muito difícil você ter a comoção da população e a mídia em cima de você, porque a gente se cobra muito em concluir um caso, em entregar a júri. Eh, o juízo ele cobra a gente também porque a gente precisa, a gente tá tomando demanda do estado e a mídia cobrava uma posição. Então a gente tinha que dar entrevista, a gente tinha que conversar, a gente tinha que a população queria um resultado, queria entender porque foi um crime que chocou bastante.
Então a população clamava por alguma coisa, tipo, queremos resposta. Exatamente. Resposta, tipo, quem foram os culpados?
E aí é o que vai machucando muito mais a parte do do processo penal de que assim, ok, aconteceu um crime uma na zona sul de São Paulo, uma família de classe média alta foi assassinada, o que é que a gente faz? A gente perecia, tá? Mas aí em menos de 5 minutos a gente tinha mais de 15 canais dentro da porta querendo entrar, querendo saber o que aconteceu.
E aí a gente tinha que tomar cuidado para não vazar informação. E aí vim a população de assim: "Eu quero uma resposta, eu quero saber o que tá acontecendo, a gente quer justiça. " E a gente tinha, não só isso, mas a gente tinha duas famílias de um que a gente sabia que aquilo ali ia pesar.
Então assim, quando foi dado, né, no júrio popular a condenação dos três, a Suzane ficou muito chocada que ela foi presa. Ela achou que não seria presa na época. E uma das coisas mais legais é que o STF ele exige que a gente coloque os três para depor antes.
Então assim, a gente escuta Daniel, a gente escuta Cristian, a gente escuta Susane, eles saem, são colocados novamente nos carros da polícia e aí vem as testemunhas. A gente escuta absolutamente todo mundo separadamente porque pode acontecer de chocar. Então assim, eh, o advogado de defesa, ele está presente, a gente está presente, a polícia ela fala, o perito ele fala, a gente mostra provas que hoje em dia, como a peritana Clara falou, teria questão de imagem 3D, a gente conseguiria retransmitir tudo que aconteceu naquela época, que na época a gente não tinha essa tecnologia, era bem complicado, mas hoje em dia a gente teria como.
Bom, e sobre a evolução da criminalística, como isso impacta hoje a visão dos do judiciário? Hoje em dia impacta muito com métodos precisos, o judiciário passou a valorizar muito mais a perícia, mas obviamente respeitando os ritos legais, mas como diz Auri, né, nenhuma prova é infalível. Isso.
E como resumiu Nut, nenhuma verdade é absoluta no processo penal. A verdade no processo penal, ela é construída através de provas lícitas, contraditório, ampla defesa e o respeito da dignidade da pessoa humana. E bom, o caso Ristofin nos mostra como o crime mais brutal pode ser também o maior teste para as instituições e como direito, quando bem aplicado, revela que não só os culpados, mas também os limites da verdade.
É isso. Muito obrigada a todos que assistiram e é isso.