Então, minha pergunta, Trump é o declínio do império americano? O império americano está em declínio? Responda, Matias.
O Trump não é a causa do declínio americano, mas ele é um sintoma de um tipo de declínio. Eu nem te diria que é uma questão de valores ou de cultura. Tem algo muito mais específico, né?
Em 1945, quando acaba a Segunda Guerra, os Estados Unidos são a maior potência do mundo e são a maior potência que o mundo já conheceu. Nem Roma no mundo antigo tinha uma preminência e uma dominância como os Estados Unidos tinham no mundo em 45. Sim.
De lá para cá, ao longo da Guerra Fria, o poder americano vai crescendo, não diminuindo. E a Guerra Fria, a gente sabe, acaba sendo fria. Uhum.
Porque o outro lado simplesmente implode a União Soviética. E a partir daí os Estados Unidos vivem 30 anos em que eles são uma potência inconteste no sistema internacional, hegemônica mesmo. Hegemônica mesmo, a ponto de poder se dar ao luxo, a pachorra de ter uma política externa estúpida.
Por exemplo, ir à guerra contra quem não representa ameaça e chafurdar na lama. Você tá falando da guerra do Iraque. Uhum.
Há um custo gigantesco pro Iraque, um custo gigantesco pro mundo, talvez antes mesmo no Vietnã. É uma guerra que é absolutamente desnecessária, que não tem lógica alguma. Uhum.
Mas pode se dar ao luxo de ter esse capricho. De lá para cá, a coisa mudou porque agora tem duas outras grandes potências no mundo. Uma é a Rússia e a outra é a China.
Os Estados Unidos ainda são muito mais poderosos do que Rússia e China. No entanto, Rússia e China conseguem fazer algo que ninguém conseguia fazer desde a Guerra Fria, que é negar aos Estados Unidos hegemonia na Europa do Leste. Uhum.
E na Ásia. E este é o mundo novo. Então, em termos de poder, o Trump é o primeiro sintoma do declínio do poder americano.
Quer dizer, durante algum tempo parecia que o Francisco Fukuyama tava certo. É o é o fim da história, são os Estados Unidos, a potência hegemônica. E nós vemos hoje que não em parte pelo êxito do que foi a hegemonia americana, porque no auge da hegemonia americana, o presidente Clinton no início da década de 2000 lança como grande projeto trazer a China para dentro deste mundo hegemônico, abrindo a China pro capitalismo, trazendo a China pra Organização Mundial do Comércio.
E o efeito disso é o enriquecimento da China. A China começa a tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza, transformando a China numa grande potência que no ano 2000 ninguém imaginava que fosse acontecer. Professor, me permita, desculpa interromper.
Se eu interrompi, continue. Mas talvez nós pudéssemos dizer, e aí essa é a minha pergunta, que o primeiro sintoma do declínio do império americano é um encolhimento da sua classe média, porque eh me parece e a cultura americana ela é muito ela muito penetrante, né? nós todos não podemos dizer que estamos indo e e e de certa forma eh imunes à cultura americana, né?
E tudo que que me remete à cultura americana, a cultura cinematográfica americana, a cultura literária americana, remete a uma classe média muito poderosa, não é? Um lugar onde há a possibilidade de ter coisas, né? coisas que todo mundo gostaria de ter, uma casa, carro, viagem, eh, fartura, né?
Essa ideia churrasco de hambúrguer, churrasco de hambúrguer e aí por diante. Essa ideia de classe média, né? Eh, quando a gente fala de China, né, de de muita gente saindo ali de pobreza e tendo acesso a coisas, nós estamos falando da formação de uma classe média, de uma classe média que se forma na China, mas que mingua nos Estados Unidos e que se convola eh naquilo que nós falamos no programa anterior ou numa fala, numa conversa antecedente a sua, que era uma população de nômades, uma população de pessoas semira nem beira, que não tão completamente desprovidas de cois coisas e de meios, mas que estão longe de ter a organização de uma classe média, de ter de ter renda, de ter trabalho, filme Nomad que a gente citou que é maravilhoso.
O Trump, talvez muito mais do que um sintoma desse declínio, é uma resposta a esse declínio, é uma tentativa de resposta a esse declínio. E aqui eu quero fazer um paralelo com a Argentina, que é algo que ele é caro e que, né? Ah, o o Trump é uma figura da direita alternativa que promete uma resposta ao debacle da classe média, assim como Milei na Argentina, uma figura da direita alternativa, promete uma resposta rápida ao debacle, eu não diria da classe média, mas e talvez da classe média argentina, né?
A pobreza na Argentina ganha contornos impensáveis. E o Trump hoje, eu digo hoje, não no dia em que esse programa será exibido, mas hoje ele diz no seu num post que fez, tenham paciência. Ele é a primeira vez em que ele pede paciência.
O Milei tem pedido paciência e contado com paciência eh do povo argentino. Até quando vai a paciência? Excelente.
Olha, em primeiro lugar, eu concordo absolutamente com você que o que sustenta a hegemonia americana na origem é o surgimento da classe média. Essa é a revolução que o Roosell cria na década de 30, quando ele monta uma coalizão política que consegue criar as bases mínimas para você ter uma sociedade que é essencialmente de ascensão social, centrada numa classe média sólida. E isso vinga da década de 30 até a década de 90.
Um dos efeitos da do momento unipolar da década de 90, do momento do Fukuyama, Uhum. é que o crescimento dos outros passa a ser mais acelerado que o crescimento dos Estados Unidos e que boa parte dos empregos industriais que haviam forjado essa classe média e dado a essa coalizão política centrista, a cola básica com democratas ou republicanos, começa a se rachar. E o Trump, concordo com você, é uma resposta, um sintoma nesse sentido.
Ele é o efeito da erosão dessa coalizão social. Uhum. Ao passo que isso acontece nos Estados Unidos, no resto do mundo em desenvolvimento, tem o processo contrário.
Não é só a China que tira a gente da pobreza, o Brasil tira a gente da pobreza. A operação, a Índia tira a gente da pobreza, a Ásia toda, né? A ideia, o sentido do lulismo Uhum.
Uhum. como o Cer propõe, é a criação de uma coalizão política nova centrada no surgimento de uma nova classe média. Uhum.
que no nosso caso é muito mais frágil do que a chinesa, porque no nosso caso está centrada num boom de commodities, não em ganhos de produtividade, ao passo que na China está centrada em ganhos de produtividade, não no bound de commodities. Isso revoluciona as relações internacionais e faz com que o chamado sul global, o mundo emergente, comece de fato a parecer, está muito mais forte. A Argentina, no entanto, vai no contrário dessa tendência.
A Argentina era uma sociedade que nunca chegou a ser uma sociedade de classe média, mas era uma sociedade onde a classe média era relevante e a maior parte da população não estava debaixo da linha da pobreza. E durante 50 anos de má gestão econômica da ditadura militar, da última ditadura militar até a Cristina Kishner, vive um processo contínuo de declínio e não é de um declínio inicial parcial, é de um declínio estrepitoso. Então, a diferença central entre o Trump e o Miley, ambos reagindo, como você bem coloca, a erosão da classe média, é que o Trump tem muita bala na agulha, ele tem muita capacidade de prometer a essa população que ele vai reverter a situação.
E ele tem uma teoria econômica na cabeça da qual a gente pode discordar, mas ele acredita no mercantilismo, que é uma teoria que tem muitos adeptos, inclusive no Brasil, que não é um país protecionista, que usa muita tarifa à toa. Uhum. Na Argentina, o público tem muito menos paciência.
Argentina é um país intolerante, onde até a polícia tem medo de sair à rua para reprimir protesta social, porque o país tem o pavio curto. E o gênio do Milei foi ter conseguido em poucos meses pegar uma inflação que era persistentemente gigantesca, derrubado ela com muito êxito até agora. Pode ser um desastre.
Pode ser um desastre. Eu pessoalmente acho que essa não é uma história que termina bem, mas que ele conseguiu entregar a promessa inicial que o elegeu, que foi derrubar a inflação. Sem dúvida ele teve sorte porque mas uma brutal estagnação econômica com uma economia que é permanentemente ruim, que depende exclusivamente de ciclo de commodity há muito tempo.
Então a população não culpa o Milei por isto, porque é um dado estrutural praticamente. Mas o M tem duas sortes que o Trump também tem. Primeiro, não tem oposição articulada na Argentina.
O peronismo que é a oposição ao Milei, está rachado, está indo para uma eleição no coração do peronismo que é a província de Buenos Aires, partido ao meio. Cristina Kishner com um pedaço e o atual governador de Buenos Aires com outro pedaço. O Trump também não tem oposição.
O partido democrata está estupefato, ainda está no estupor com o frescor do mandato do Trump e com a celeridade com que o Trump tem passado o trator em cima deles. Ainda não deu tempo dos democratas se levantarem e sacudirem a poeira. Isso eles têm em comum.
O Trump tem outra coisa a seu favor, que é que o poder dos Estados Unidos é tão gigantesco que, embora tenha países que vão resistir e a China está batendo de volta com muita força, tem países que estão entregando o joelho muito rapidamente. Os japoneses estão correndo atrás, a União Europeia está correndo atrás. Os canadenses agora elegeram um sujeito que tem uma retórica e se elegeu num ticket, né, numa proposta programática de resistir, mas a ver a capacidade que o Canadá tem de resistir.
Sim.