Polícia, vai, vai, vai. Deita deita deita. Só que tem um pequeno detalhe aqui.
Esse sequestro [música] já tinha sido resolvido antes desse vídeo ir parar na internet. No dia 3 de setembro de 2026, a história de Carlos Alberto da Cunha na polícia chegou ao fim. O governador de São Paulo assinou um documento tirando ele do cargo de delegado de uma vez só.
Pouco tempo depois, na eleição de outubro, o público deu mais um recado nas urnas. Aquela multidão que votou nele no passado tinha sumido. Das quase 200.
000 pessoas que escolheram ele anos atrás, agora restavam pouquíssimas, o que o fez perder a vaga. O homem que ficou famoso mostrando operações perigosas na internet, agora enfrentava o pior momento da sua vida. Mas o que aconteceu de verdade para que tudo desmoronasse assim tão rápido?
Antes de existir o canal no YouTube, existir câmera ou sucesso, existia apenas o garoto Carlos Alberto. Ele nasceu na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, em 1977. Sua família não tinha muito dinheiro, mas o pai dele sempre deixou claro uma coisa.
O único caminho para mudar de vida eram os estudos. Ele começou a praticar judô quando criança e o esporte ajudou a dar disciplina. O pai fez de tudo para colocar o filho em boas escolas, sabendo que isso abriria portas no futuro.
O jovem estudou na faculdade de direito e em 2003 passou em um concurso público. Com apenas 26 anos, ele se tornou delegado da Polícia Civil de São Paulo. Um começo de carreira que parecia um sonho.
No começo, o trabalho dele era exatamente o que se espera de um policial de verdade. trabalhava em delegacias de bairro, atendia ocorrências do dia a dia, investigava roubos e organizava operações na rua. Ele fazia o serviço tão bem que começou a dar aulas dentro da própria academia de polícia, ensinando os mais novos.
Nessa época, os outros policiais respeitavam o trabalho dele. Ele investigou criminosos de grandes facções que comandavam a cidade de São Paulo. Ele sabia exatamente como a polícia funcionava por dentro e, principalmente, conhecia as regras.
E aí veio a internet. Tudo mudou quando ele percebeu o poder dela. Em vez de guardar as histórias das operações apenas nos papéis do tribunal, ele decidiu colocar uma câmera no peito e gravar absolutamente tudo.
Criou um canal no YouTube e começou a mostrar a polícia trabalhando ao vivo. De início, a ideia foi um choque para o público. Os vídeos mostravam policiais armados entrando em locais perigosos.
enfrentando [música] criminosos e descobrindo onde estavam as drogas. E claro, as pessoas adoraram essa novidade. Só que a internet funciona de um jeito muito estranho.
Quando você cria um canal e faz sucesso, os computadores e programas do site te dão muito dinheiro e audiência, mas depois de um tempo, as pessoas se acostumam com aquilo e param de assistir tanto. Para continuar ganhando dinheiro e atenção, o dono do canal precisa inventar coisas cada vez mais exageradas. Pensando nisso, para manter as pessoas presas na tela, os vídeos precisavam de mais drama, mais gritos e ainda mais ação.
Ele começou a dar lições de moral ao vivo, só que essa busca por audiência começou a deixar o trabalho dele um pouco mais estranho e longe da vida real. Foi então que em julho de 2020 aconteceu um caso que deixou várias pessoas chocadas. Uma pessoa tinha sido sequestrada por criminosos e mantida presa em uma casa simples na zona leste de São Paulo.
Dois policiais acharam o local antes, prenderam o criminoso e conseguiram salvar a vítima. No entanto, assim que o delegado chegou ao local com as câmeras, ele não quis apenas registrar o final do trabalho. Segundo depoimentos da própria vítima e de outros agentes, o delegado mandou colocar a vítima de volta dentro do cativeiro, junto com o sequestrador preso, para fingir que a operação estava acontecendo naquele exato momento.
Ele gravou tudo, fingindo escutar atrás da porta e invadindo o local. E se a cena do cativeiro já era grave, o que veio depois foi ainda pior. O delegado postou um vídeo anunciando que tinha prendido um dos homens mais perigosos de São Paulo, apelidado de Jagunço do Savoi.
Segundo o vídeo, esse homem era um assassino procurado de uma facção que tinha tirado a vida de mais de 100 pessoas. Como já imaginamos, o vídeo foi um sucesso nas redes sociais, [música] alcançando mais de 30 milhões de acessos e gerando um valor enorme em dinheiro de propaganda para o canal. O problema?
A própria Polícia Civil investigou o caso e descobriu que aquele homem preso não era esse matador perigoso. O verdadeiro nunca tinha sido pego. Toda aquela história enorme sobre o Jagunço tinha sido montada para impressionar quem acompanhava as publicações.
Já dentro da Polícia Civil, o clima piorou de vez, já que os superiores e outros delegados mais antigos achavam que aquilo não passava de um show. sem a menor necessidade. Daí, pronto, o delegado começou a usar a internet para atacar os próprios colegas e os chefes da corporação.
Ele dava entrevistas dizendo que sofria inveja e que os outros policiais não faziam o trabalho direito. Uma atitude séria que quebrou a regra mais importante da polícia, o respeito à hierarquia. A partir daquele momento, a corregedoria abriu vários processos internos para tirar o distintivo e expulsá-lo da instituição.
Mesmo no meio de tantas investigações e processos, a fama dele na internet continuava gigante. Muitas pessoas que assistiam aos vídeos acreditavam que ele era um herói perseguido pelo sistema. Logo ele encontrou uma chance ali em meio à atenção, se candidatando a deputado federal nas eleições de 2022.
A estratégia funcionou bem até demais. Ele recebeu mais de 180. 000 votos e conquistou uma cadeira no parlamento em Brasília.
Parecia que mesmo se perdesse o cargo de delegado, ele teria uma carreira longa e garantida como político. Quando parecia que ele tinha se estabilizado no setor, veio um novo golpe e dessa vez na sua vida particular. Em outubro de 2023, Betina Raía Marques, nutricionista, que era sua companheira na época, foi até uma delegacia e contou que sofreu agressões físicas e verbais durante uma briga do casal na cidade de Santos.
Segundo o relato registrado no boletim de ocorrência, as agressões teriam sido tão graves que ela chegou a perder a consciência. A justiça aceitou a denúncia e da Cunha se tornou réu no caso. Também foram concedidas medidas protetivas para afastá-lo dela.
O deputado negou ter cometido as agressões físicas e afirmou que até houve uma discussão, mas sem violência. Enquanto o ex-delegado enfrentava tribunais e problemas na polícia, a internet não parou de girar. O sucesso que ele fez no passado serviu de exemplo para que outros policiais também tentassem ficar famosos.
De repente, as redes ficaram lotadas de novos canais, podcasts e vídeos de outros agentes, contando várias e várias experiências nas operações. Então, pense comigo, [música] as pessoas que gostavam desse tipo de conteúdo arrumaram novos canais para assistir. Como o delegado já não podia mais ir às ruas gravar os vídeos e estava preso nas questões da justiça, o público foi esquecendo aos poucos e migrando para os novos nomes que surgiam.
A conta chegou em setembro de 2026. Depois de anos e anos com papéis parados em gavetas e recursos na justiça, o governador de São Paulo tomou a decisão de assinar a demissão oficial, expulsando o delegado da Polícia Civil de uma vez. A defesa do ex-delegado tentou conversar com juízes e disse que os processos tinham erros, mas a decisão do governo foi uma só.
Um policial não poderia continuar no cargo depois de tantas faltas contra a própria instituição. Foi o golpe final na carreira que ele levou mais de 20 anos para construir. A demissão parecia o ponto final.
No entanto, em uma reviravolta jurídica apenas dois dias depois, o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, suspendendo a decisão do governador. O desembargador entendeu que a defesa do ex-delegado não teve a oportunidade de se manifestar sobre os novos documentos juntados de última hora ao processo. Com isso, a punição foi suspensa provisoriamente, enquanto o caso ainda é julgado na justiça.
Apenas um mês depois de tudo isso, veio a prova de que o público já estava esgotado dessa história. Nessa última eleição, agora em 2026, ele tentou se reeleger para continuar como deputado, mas o resultado foi negativo. Os seus quase 200.
000 votos do passado viraram apenas 26. 000. o deixando fora da política.
Com o tempo e com a queda do delegado, acabou acontecendo o chamado efeito da Cunha, onde a própria polícia passou a coibir e proibir que agentes gravassem operações nas ruas com câmeras no peito. Em sua defesa, Da Cunha sustentou a tese de que era vítima de perseguição política por parte da antiga cúpula da polícia e de governadores. Ele costumava alegar que já havia arquivado cerca de 17 processos administrativos e que a verdade prevaleceria na justiça, com o discurso religioso de que Deus era o seu advogado.
O impacto de perder o cargo na polícia e a vaga na política ao mesmo tempo foi complicado. Poucos dias depois de ver os números da apuração, o ex-delegado teve um colapso emocional e precisou ser levado ao hospital. A equipe informou que ele teve problemas sérios de saúde por causa do estresse acumulado de tantas derrotas seguidas.
A história de Da Cunha reúne diferentes fases da vida pública. A atuação como policial, a fama nas redes sociais, a carreira política e as controvérsias que vieram depois. Uma trajetória que começou com vídeos que chamavam a atenção do público e acabou tomando um rumo bem diferente daquele que muitos conheciam pela internet.
M.