Olá, meus amigos! Tudo bem? Sejam bem-vindos de volta para mais uma meditação estóica.
Hoje, dia 6 de Fevereiro, a gente continua refletindo sobre o modo como nós percebemos as coisas e sobre como nós devemos nos adestrar para percebê-las de maneira mais ajustada, por assim dizer, nessa perspectiva estóica. Nesse dia 6 de Fevereiro, a meditação é intitulada "Não procure luta, não luta. " O que é estranho, né?
A princípio, você pensa: "Puxa, mas a filosofia estóica não é uma filosofia da luta? Não é uma filosofia do embate, do enfrentamento? " Cuidado com isso para você não cair num registro patológico da busca por esse desconforto, da busca por este incômodo, tá?
Especialmente hoje em dia, nós vivemos em uma época na qual se romantiza bastante essa ideia da criação de um desconforto que, em vez de, vamos dizer, fortalecer o sujeito, cria nele uma, vamos dizer, uma inclinação patológica na busca pelo desconforto. Então, cuidado aí para não cair num extremo que, de um ponto de vista histórico, é bastante indesejável. Vamos ver com Cícero, aqui nesse trecho extraído das "Cartas Morais", um pouco mais cuidadosamente esse ponto.
Cito: "Não concordo com aqueles que mergulham de cabeça no meio da inundação e que, aceitando uma vida turbulenta, enfrentam diariamente com grande disposição de espírito circunstâncias difíceis. " Veja que aqui ele está falando de um sujeito que se joga numa inundação de cabeça. Ele está falando de alguém que aceita a ideia de uma vida turbulenta, que entende a turbulência como algo, por assim dizer, até mesmo desejável na vida.
Olha, passar por momentos turbulentos com inteligência é uma coisa; buscar a turbulência é outra muito diferente. Para quem já pegou um avião na vida, sabe do que eu estou falando. Toda vez que um avião decola de um certo lugar, e especialmente esses voos que estão atentos ao conforto dos passageiros, o comandante recebe uma carta de voo que já indica: "Olha, aqui tem uma formação de tempestade.
Aqui tem uma formação de cúmulos nimbos, que são nuvens muito perigosas que podem afetar o funcionamento do avião, podendo trazer muito desconforto aos passageiros. " Então, frequentemente, o comandante do avião e a tripulação fazem desvios para evitar a turbulência, o que não significa dizer que a tripulação não esteja preparada para enfrentar uma turbulência no momento em que ela vier a acontecer. Veja como é diferente a situação.
Não tem nenhum piloto em sã consciência que acorda de manhã e fala assim: "Hoje eu vou procurar todas as turbulências que estiverem no céu porque eu gosto é de voar no desconforto. " É disso que Cícero está falando. Isso daí é condição patológica; ninguém em sã consciência sai buscando problema para a cabeça por aí.
Então, a filosofia estóica é uma filosofia que te ensina a lidar com as questões quando elas aparecem na sua vida. Não é essa ideia de sair buscando voluntariamente esse desconforto de natureza patológica. Quase a pessoa sensata suportará isso.
O que? As circunstâncias difíceis. A pessoa sensata suporta as circunstâncias difíceis da vida.
Que que é o que nós queremos ser aqui? Pessoas sensatas. Mas não por decisão própria.
Não sai lá enfiando a mão na cumbu atrás de problema. Então, eu acho até muito engraçado porque, especialmente no mundo das redes sociais, romantizou-se a ideia de criar situações de conflito para que você não esteja na zona de conforto. Que zona de conforto é essa?
Que eu vou te falar: se ela um dia passou perto de mim. . .
Zona de conforto! A vida já traz problemas o suficiente. A vida já é uma sucessão de circunstâncias difíceis para todos nós; umas mais difíceis, outras menos difíceis.
As questões externas a todo momento estão exigindo mais e mais da nossa potência de viver, do nosso autocontrole, da nossa autossuficiência. Mas o homem sensato é aquele que escolhe estar em paz. Portanto, eu acho que essa imagem do avião em busca ou não de um voo turbulento ilustra bem.
Então, assim, beleza, nós somos esse avião, nós somos essa tripulação, e estamos preparados. Estamos preparados! Esse é o adestramento estoico.
Amanhã, na hora que aparecer uma turbulência, seja ela mais leve, seja ela mais forte, a gente não vai derrubar esse avião. Nós vamos passar por essa turbulência e nós vamos passar aqui, ó, lisos, sabendo o que fazer, comandando o avião da forma correta, não tentando controlar a turbulência lá fora. Lembra?
Porque essa eu não controlo, mas eu controlo os comandos do avião, eu controlo as condições do avião, eu controlo o meu treino como piloto. Eu controlo meu treino como piloto. Agora, outra coisa é agir como um kamikaze, né?
Um workaholic, um cara que só quer se enfiar em tudo quanto é empresa, tudo quanto é trabalho – empresa no sentido de atividade, de empreendimento. Só arrumando problema para a cabeça. Aí realmente não dá.
Um homem sensato escolhe estar em paz, escolhe o voo não turbulento em vez do voo turbulento. Vamos ver aqui o comentário dos nossos autores. Tornou-se um clichê citar o discurso de Roosevelt: "O homem na arena", que idolatra aquele cujo rosto está sujo de poeira, suor e sangue que luta com valentia, comparado com o discurso – desculpa – comparado com o crítico que fica sentado no canto.
O homem na arena, esse cara, ele acorda sangrando, dorme cicatrizando, né? Acorda sangrando, dorme cicatrizando. Roosevelt fez esse discurso pouco depois de deixar o cargo, no auge de sua popularidade.
Em poucos anos, ele iria se opor a um antigo protegido seu numa tentativa de recuperar a Casa Branca. Claro que estou falando aqui de Theodore Roosevelt, que sofreu uma derrota fragorosa e quase foi assassinado. Ele também quase morreria durante uma exploração de um rio na Amazônia, mataria milhares de animais em safáris africanos e, tempos depois, suplicaria a Woodrow Wilson que.
. . Permitisse que se alasse na Primeira Guerra Mundial; apesar de ter 59 anos, o cara era doente.
Quer dizer, ali tem um problema. É para lá que eu vou. Não, mas eu não tenho nada a ver com aquele problema, não.
Mas é lá que eu me sinto, de alguma maneira, existente. Ele iria fazer muitas coisas que agora parecem um tanto desconcertantes. Theodore Roosevelt era, de fato, um grande homem, mas era também movido por uma compulsão.
E a gente está vendo aqui o tempo inteiro os impulsos. O problema é, em outras palavras, um vício em trabalho, workaholic, né, em termos contemporâneos, e em manter-se ativo. Sem fimos de nós, compartilhamos dessa aflição: ser movidos por algo que não podemos controlar.
Temos medo de ficar parados; por isso, procuramos luta e ação como uma distração, algo que pareça dar sentido à nossa vida. São pessoas que não conseguem ficar quietas consigo mesmas, consigo próprias. Aí, quer dizer, existe um problema.
Existem pessoas que não suportam o silêncio, que não suportam um momento de reflexão. São pessoas que não param de falar o tempo inteiro, são pessoas que não param de querer ouvir coisas o tempo inteiro, de sentir. Estão sempre atrás de uma adrenalina, de uma emoção.
Calma! A virtude está no meio termo, não é isso? Então a vida já vai te oferecer o suficiente.
Faça suas coisas, empreenda, trabalhe, mas essa loucura aqui compulsiva. . .
Não escolhemos estar em guerra, em alguns casos, literalmente, quando a paz é, na verdade, a mais honrosa e adequada escolha. A mais honrosa e adequada escolha, a que eu já comentei aqui com vocês, é a de um amigo que falou assim: "Cara, a gente está tendo tanta treta aqui na nossa faculdade e eu comecei a perceber que todos os dias eu acordo atrás da treta, atrás do problema. A solução para mim já não conta mais; eu estou atrás é do problema.
" Olha como é algo compulsivo, né? Então, em vez de eu ceder um ponto e falar assim: "Não, nós queremos ficar bem", não é o prazer da polêmica; é o prazer do conflito. Sim, o homem na arena é admirável, assim como o soldado, o político, a mulher de negócios e todas as outras ocupações.
Mas, e este é um grande mas, somente se estivermos na arena pelas razões corretas. Que isso não seja um motivo de compulsão, que não seja uma busca pela busca simples e sem maiores fundamentos racionais da adrenalina e assim por diante, como muitos têm vivido, como se isso realmente desse um sentido superior à vida. E não dá!
E não dá, porque é algo que te agita. E aí, no momento em que você termina, volta. Mas você imediatamente volta a sentir a necessidade de agitar.
Ou seja, você não consegue conviver consigo mesmo. Você não consegue passar um final de semana de descanso na sua casa, lendo um livro. Você não consegue parar e ler uma página dessa aqui com calma, porque você já está olhando para o celular, você já está olhando para a televisão, você já está pensando no que você está perdendo lá fora.
Então, cuidado aí com os excessos, especialmente desses voos turbulentos. Beijão para vocês, a gente se encontra aqui amanhã.