“Estou preocupado com a varíola de macaco. Ela não irá emergir como uma pandemia amanhã, mas pode aumentar sua transmissão. Esse é o tipo de alerta que precisamos levar muito a sério”.
Já dizia Donald Burke, um dos maiores especialistas do mundo em prevenção de doenças, quando um surto de varíola do macaco assolava a República Central Africana em 2010. Parece que não ouvimos os cientistas. Em 21 de maio de 2022, a OMS já havia registrado 92 casos confirmados de varíola do macaco em 12 países e dezenas de casos suspeitos.
Todos eles fora dos países endêmicos onde surtos do vírus acontecem com frequência. E a própria OMS espera que os casos continuem crescendo, agora que todos os países estão em alerta de vigilância. Será que estamos de novo a alguns meses de uma nova pandemia?
Definitivamente, a varíola de macaco não vai ser uma nova COVID, quanto a isso, você pode ficar tranquilo. Mas existe algo que corre o risco de acontecer com essa doença e que poucos estão falando. Uma sequência de fatores que se acontecer, vai transformar a varíola de macaco, uma doença pouco conhecida e negligenciada, no próximo desafio de saúde pública mundial.
Eu sou Lucas Zanandrez, Biomédico e no vídeo de hoje, vamos entender o que é a varíola de macaco que está preocupando o mundo. Se ela realmente pode causar uma epidemia de grandes proporções e por que as autoridades de saúde devem olhar pra essa doença. Se inscreve no canal se você quer me acompanhar nessa missão de compartilhar informações confiáveis sobre o que acontece no mundo e se prepara porque vamos viajar para os Estados Unidos em 2003, quando alguns donos de pets começaram a ter uma doença parecida com algo que já havia sido erradicado.
Era como uma nova varíola. [A NOVA VARÍOLA… DE MACACO] A maioria dos animais vertebrados, incluindo mamíferos e aves tem algum tipo de poxvírus que os infecta e causa doença grave. O poxvírus mais famoso é o vírus da Varíola, em inglês smallpox, responsável por causar várias pandemias ao longo dos séculos como eu explico nesse vídeo aqui.
Mas mesmo carregando o título de um dos vírus mais letais da história, a varíola também foi a única doença humana totalmente erradicada por uma vacina, ainda na década de 80. Isso tornava o caso dos donos de pets nos Estados Unidos muito estranho. 47 pessoas de estados diferentes haviam se infectado com algo que estava causando os sintomas clássicos da varíola em 2003.
Começava com febre, cansaço, inchaço nos linfonodos do pescoço. Em alguns dias, apareciam as típicas bolhas com pus em todo o corpo, especialmente na palma das mãos, o que não era comum na varíola humana tradicional. O fato de todos os casos serem de pessoas que tinham visitado petshops ajudou a traçar o real culpado pelo surto.
Um carregamento vindo de Gana contendo várias espécies de roedores africanos que virariam pets trouxe junto o vírus da varíola de macaco, monkeypox, em inglês. O vírus então se espalhou dos ratos africanos para cães da pradaria, animais muito fofinhos, mas que ajudaram a espalhar o vírus por petshops em vários estados e para dezenas de pessoas. Ninguém morreu, mas foi um susto.
Foi a primeira vez que o vírus da varíola de macaco saltou de um animal para um ser humano fora da África. Mas o vírus ainda não tinha conseguido sustentar sua transmissão. Como era fácil rastrear os casos, o surto de varíola do macaco foi contido e o mundo desenvolvido só foi ver novos casos em 2018, oriundo de pessoas que haviam viajado para países africanos.
Nada fora do normal. Mas enquanto isso, na África, especialmente na República Democrática do Congo, o vírus da varíola de macaco encontrava mais oportunidades para saltar para nós. Dezenas de milhares de vezes.
[A EPIDEMIA NA ÁFRICA] O nome varíola de macaco não é o melhor nome pra essa doença. Ela só é chamada assim porque em 1958 cientistas identificaram o vírus em macacos de laboratório que ficaram doentes na Dinamarca. Mas não é dos macacos que ele veio.
Esse vírus é especial. Diferente da grande maioria dos vírus que têm um ou outro hospedeiro natural, o vírus da varíola de macaco infecta dezenas de espécies de mamíferos, especialmente roedores, como ratos e esquilos e até hoje não sabemos quem é o responsável por sustentar o vírus na natureza. E eu te falar isso agora não vai só te fazer entender as epidemias negligenciadas que acontecem na África há décadas.
Vai te fazer entender o problema que é esse surto que está acontecendo em 2022. Ser capaz de se sustentar transmissão em animais na natureza é o primeiro critério para um vírus ter potencial pandêmico, como eu expliquei nesse vídeo. A varíola de macaco provavelmente já causava epidemias na África há séculos mas era confundida com a varíola humana comum.
Antes de existir sequenciamento genético, Quem é que pensaria que os sintomas de algo que se parece com varíola, se espalha como varíola e afeta humanos como a varíola não seria varíola tradicional? Por isso, ninguém deu bola pra ele até a década de 70, quando isso começou a mudar. Países que já haviam eliminado a varíola humana pela vacinação há pelo menos um ano, como Libéria, Serra Leoa e Nigéria apresentaram novos casos de algo muito semelhante à varíola.
Estranho. Não tardou muito para o causador daquela varíola diferente ser finalmente detectado em humanos. Uma criança de 9 meses no Zaire, atual República Democrática do Congo, estabeleceu um marco.
Não era só varíola humana circulando na África esse tempo todo. Era o mesmo vírus detectado em macacos de pesquisa em 1958. Era varíola de macaco.
Desde então, a República Democrática do Congo tem sido o epicentro dos surtos de varíola de macaco no mundo. Começou com 38 casos, nos dez anos seguintes 343, depois 511, nos anos 2000 mais de 10. 000 casos e na última década mais de 18 mil.
O aumento dessa transmissão parece ter sido causado por uma soma de fatores. A queda da imunidade pela vacina da varíola, que tem uma efetividade cruzada contra a varíola de macaco, a ascensão da AIDS na África, o que diminuiu a imunidade geral da população dando espaço pro vírus mutar e infectar mais pessoas por mais tempo e, claro, o aumento da interação entre ser humano e os hospedeiros do vírus na natureza. Com tantos casos assim, era impossível que os países vizinhos não registrassem seus próprios surtos locais.
E isso colaborou com a diversidade do vírus, afinal, vocês já sabem que quanto mais oportunidades um vírus tem de se multiplicar, mais mutações e variações do vírus original podemos encontrar. O vírus teria se tornado mais eficaz em infectar o ser humano? Provavelmente.
E esse é o segundo critério para um vírus ter potencial pandêmico. Mas a preocupação de Donald Burke, o especialista que eu citei no início do vídeo e de outros pelo mundo vem do terceiro critério para um vírus pandêmico, a capacidade de transmissão humano-humano. Hoje já não há mais dúvidas de que o vírus da varíola do macaco pode ser transmitido entre seres humanos.
É isso que explica os surtos nos países africanos. Em algum momento, o vírus adquiriu essa habilidade pela grande quantidade de vezes que ele entrou e interagiu com o organismo da nossa espécie. A transmissão ocorre pelo contato próximo com pessoas infectadas, seja por usar os mesmos lençóis, por conversar com alguém infectado, por tocar em feridas na pele ou pelo contato sexual.
Nós não temos evidências suficientes para afirmar que o vírus é transmitido pelo ar, através de aerossóis, mas sabemos que ele é transmitido por gotículas. Com todo esse contexto em mente, você está preparado para entender o real problema da varíola de macaco e porque as autoridades de saúde do mundo todo estão tão preocupadas com ela. Essa preocupação ainda nem chegou no público geral e talvez aqui no Olá Ciência seja o primeiro lugar que você vai ouvir falar disso, então deixa o seu gostei aí embaixo se você já aprendeu alguma coisa com esse vídeo, porque agora eu vou te explicar o que pode acontecer se a varíola de macaco continuar por tempo demais fora da África.
[A NOVA VARÍOLA] Eu disse que a varíola de macaco tem potencial pandêmico e tem mesmo. E repito, ela nunca será uma pandemia de COVID porque o vírus não tem capacidade de ser transmitido com tanta velocidade e nem de forma silenciosa como é com o coronavírus. Mas tem um detalhe que não pode passar despercebido.
O vírus da varíola de macaco pode ocupar o espaço que a varíola humana deixou e se tornar endêmico no mundo. Isso se alguns fatores se alinharem. Anotem o que eu estou falando.
Estamos vendo a evolução viral acontecer em tempo real. E isso não é alarmismo, vocês sabem que eu sempre repito isso em todas as lives aqui do canal. A vida sempre encontra um jeito e foi só recentemente que esse tema teve a atenção de pesquisas científicas.
Os vírus interagem com o seu hospedeiro e, por mais que não sejam seres vivos, eles competem com outros vírus que infectam as mesmas células nesse hospedeiro. Existem pesquisas que mostram que quando tem muita competição entre vários tipos de vírus que infectam, por exemplo, a mesma bactéria, há uma tendência desses vírus mutarem ao ponto de encontrar um novo hospedeiro. Olha só.
É como se estivesse muito difícil infectar aquele organismo já infectado e o vírus procurasse um novo alvo. No caso de Zika, Chikungunya e Dengue, que infectam o mosquito Aedes aegypti a história já é outra. Esses vírus conseguem infectar o mesmo mosquito ao mesmo tempo sem se atrapalhar muito, mostrando que essa relação de competição entre vírus nos hospedeiros é mais complexa do que a gente pode imaginar.
Mas fato é que o vírus da varíola de macaco tem alvos muito semelhantes no corpo que o antigo vírus da varíola humana tinha. E apesar da própria vacina da varíola ter alguma efetividade contra ele, desde o início dos anos 80 que ninguém é vacinado contra varíola no mundo. Será que com o vírus da varíola erradicado e com a queda da imunidade geral da população, o vírus da varíola de macaco teria a sua chance de vingar como soberano?
Essa é uma possibilidade que não pode ser descartada hoje. Pra um vírus se tornar uma pandemia, ele precisa primeiro se estabelecer na população humana fora dos países endêmicos e o vírus da varíola de macaco ainda não fez isso fora da África. Isso porque ele não é perfeito pra infectar o ser humano.
Mesmo em países africanos endêmicos, em que os testes de anticorpos mostram que até 3% das crianças já tiveram algum contato com o vírus da varíola de macaco, ele não conseguiu estabelecer nem mesmo uma epidemia sustentada como vimos acontecer com o coronavírus de forma muito rápida no mundo todo. Na verdade, o que os modelos matemáticos de epidemias mostram que diferente do seu primo, o vírus da varíola de macaco não é capaz de sustentar sozinho, porque ele não se transmite tão fácil. Mas existe um último fator que teria que se alinhar pra que ele conseguisse e essa é a chave pra entender porque as autoridades de saúde ainda estão preocupadas com esse surto de 2022.
Existe um pequeno risco do vírus da varíola de macaco se tornar endêmico em um hospedeiro na natureza fora da África. Isto é, saltar de um ser humano para um animal e se estabelecer em um outro continente. Se isso acontecer, aí ele pode circular em uma população totalmente suscetível de alguma espécie de roedor na Europa, por exemplo, que nunca teve contato com ele.
Nesse cenário que é pessimista, ele teria tantas oportunidades de mutar que encontraria um hospedeiro capaz de amplificá-lo, ou seja, que otimizaria a sua infecção tornando os saltos para seres humanos cada vez mais frequentes e eficazes. Nesse cenário, o vírus da varíola de macaco seria um novo vírus da varíola humana, um desafio para a saúde pública mundial. As autoridades de saúde teriam de acelerar a produção da vacina e do remédio específicos pra ele, que já existem.
Mas que a própria OMS afirma que não estão amplamente disponíveis hoje. Mas é claro, pessoal isso é apenas hipotético. O pior dos casos.
A mensagem que eu quero deixar pra você no vídeo de hoje é que não há razão para pânico. As autoridades europeias já emitiram um alerta e já estão montando equipes para rastrear os possíveis saltos do vírus do ser humano para animais na natureza e, de novo, mesmo que isso aconteça, o risco de uma pandemia de varíola de macaco é muito remoto. Mesmo assim, eu quero te pedir pra deixar um comentário com uma pergunta, contando o que você achou do vídeo.
Manda um comentário personalizado com o valeu demais se achou útil. Esse provavelmente é só o primeiro vídeo sobre esse tema, não deu pra cobrir tudo, eu não falei dos grupos de vírus de varíola de macaco, da letalidade… porque eu realmente acho que agora não é relevante passar essa informação pra vocês. O meu objetivo é deixar mais consciente do que realmente é uma preocupação e o que é fantasia.
Se você quiser continuar acompanhando essa história assista as minhas lives, como essa última aqui que eu falei muito sobre esse assunto da varíola do macaco ou se preferir assiste o vídeo completo em que eu explico detalhadamente os critérios pra um vírus se tornar pandêmico. Espero que tenha sido útil, ouça os cientistas, um grande abraço e eu te vejo no próximo vídeo. Tchau.